quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Entregue



Tive uma noite tórrida de amor. Poucas horas que valeram um mundo. Coisa esperada, desejada a muito tempo por mim. Amor maduro. Sincero. Destes que a gente se entrega sem nem pensar. Destes de se abandonar a própria sorte e nem parar para pensar nas consequências. Demorei para aceitar, e só o fiz quando, enfim, entreguei as armas e me rendi. Fiz as pazes com o sono - que até ontem parecia estar de caso com a dona insônia, como já contei aqui para vocês. Minha entrega foi longe: perdi a hora. Não sei como isso aconteceu, foi tão rápido! Nem adiantou o despertador, nem o celular com hora marcada.
Nada me fez separar dele.
Logo vi que ele estava ontem me rondando desde cedo. Sedutor incorrigível quando quer. Paciente e persistente. Massageia o nosso ego, fala baixinho no ouvido, faz o tempo ficar frio. Enlaça com sua manha já bem conhecida. Arrepia a pele. Tenta nos beijar.
E eu, disfarçando, fugindo. Estava tentando fazer as pazes comigo mesma. Tinha perdido a confiança  em mim e  nos outros pouco antes, ducha de água fria que me manteve alerta. Relutei até onde pude, cansada de  relações onde perco o raciocínio. Onde fico com medo de me entregar. Fiz de conta que não notava o assédio desde cedo. Chegou de mansinho, sorrateiro, romântico que só. E eu tentando ler, tentando ser, tentando estudar,  mesmo com ele ali, na minha frente, me convencendo a largar tudo e compartilhar com ele belos momentos de prazer. Sei bem como é. Sabemos.
Tive uma noite tórrida de amor  e acordei num susto só. Nem sabia onde estava. Nem o despertador conseguiu me centrar. Água na cara, pasta na boca, filho a chamar. Correria. Mas acho que ele também gostou. Seria normal ele me abandonar logo cedo, sem eu nem vê-lo sair, pé ante pé, como fazem os machos. Mas não. Continua em mim. Entrou em mim para ficar. Quem sabe eu marco um encontro casual logo depois do almoço...Quem sabe convenço ele a ficar. Nem que seja por uns minutinhos.

"O que nos tranqüiliza no sono é a certeza de que dele retornamos.
E ele nos cura temporariamente da fadiga pelo mais radical dos processos, isto é, arranjando para que cessemos de existir durante algumas horas."

 Marguerite Yourcenar

Descubro que, na verdade, ele é um grande amigo. O que já está de bom tamanho.





4 comentários:

  1. Que delicia de texto! Surpreendente!
    Parabens!Tens o dom!
    Sueli

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  2. Desde as terras 'portenãs', beijos merecedores por tão bom texto. Fazia tempo que não passava por aqui e me surpreendi, aliás, como sempre o faço contigo. Tens o dom, já te disse isso. Mas,estás melhor, muito melhor, a cada dia. feito um bom vinho daqui...
    DdeS

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  3. UHÚÚÚ!!!!!
    MARAVILHOSO!!!!
    ADOREI O TEXTO!!!!!
    NADA MELHOR QUE UMA ÓTIMA NOITE DE SONO PARA RECARREGAR AS ENERGIAS, SOSSEGAR NOSSO CORAÇÃO E NOS ACALENTAR.
    BJS,
    MEG

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  4. MARAVILHOSO! deu até pra viajar nos braços dele...

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