sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Fato



Está provado cientificamente: paixão dura dois anos. Como fizeram, não sei. Medir algo, a meu ver, ininteligível, imensúravel , inesquecível e outros tantos' ins'? Como se mede um sentimento? Talvez pela temperatura corporal, suor nas mãos, olhos brilhantes, emoção à flor da pele ou batimentos cardíacos acelerados dos participantes de uma pesquisa, quem sabe.Ou fizeram com os encarcerados ratos?

Bom frisar que falo de paixão por outra pessoa, outro sexo ou não. Não das tantas outras por sorvete, pote de açai, livros, cinema, filmes na madrugada. Liste ainda brincar com cães e crianças, dar colo ao filho adolescente, deixar o chocolate derreter na boca. Água gelada quando se está com sede. Fazer e sentir cócegas. Sair para colocar o papo em dia com amigas. Rir muito, e bem alto. Provar uma comida nova. Testar uma receita nova.Ver uma charge inteligente, ler um texto idem. Molhar os olhos por causa de uma foto bem tirada, um subtítulo fatal. Aliás, tirar fotos em geral. Uma boa aula, um ótimo palestrante. Uma conversa com alguém interessante. Um café quente quando se está com frio, pele ou coração. Cheiro de café passado, de pipoca de pipoqueiro. Gentileza gratuita. Recadinho bem dado. Beijo roubado que pode ser até do filho. Ah, são tantas, nem dá para listar. Ia faltar espaço...

E, bem ao contrário, tenho as aversões, para não usar palavra pior. Da falta de verdade. Da querência de controle. Da relação atravancada pela mágoa. Da trapaça bem pensada. Do ato mesquinho. Da falta de ética seja onde for. Da fofoca, mal do mundo. Da grosseria das palavras mal usadas, feito cuspe na cara. Da cara virada. Da posse egoísta do ter por ter. Do esperar que o outro, enfim, caia. Tudo isso me abala. Traz, também, os mesmos sintomas da paixão - calor, suor, batimento, arrepio. Só que numa versão contrária, nada indicada. Veneno, não sopro ou remédio. Mata, não traz a vida. Deve ser por isso que não vejo novela, caldeirão de tudo isso. Sinto-me mal. Enojada. Suja. Como se tivessem me contaminado.

A paixão, dizem, dura dois anos. Depois não se sabe seu rumo. Ou vira amor - que nada mais é que a paixão sem os rompantes de fôlego, a paixão sossegada, deitada na rede de amar - e nem sempre leva esse tempo todo. Ou vira amizade, que me parece um tipo de amor, desde que seja verdadeira, sem interesses escusos, nem vestígios de esperança.

Dizem, também, que devemos ficar com quem se gosta de conversar. Com quem se tem afinidades. Com quem nos faz rir - ou até chorar, mas de tanto rir , ou de emoção. Com quem gosta de nos cuidar, não pelo que estamos, mas pelo que somos. Com quem precisa de nós e nós dele. Com quem nos trata com gentileza. Com admiração. Porque um dia o fogo da paixão apaga, o corpo não ajuda, o amante vira amigo, e a gente quer mais é alguém que nos respeite como a gente é, que nos cubra no inverno, que nos compre um bom livro e que saiba fazer uma massagem nos pés . Ou uma boa sopa.

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...

Cecília Meireles





2 comentários:

  1. Gostei do texto.
    Definições, muitas vezes difíceis de entender , mais ainda de viver, ficam fáceis saindo de sua boca.
    Sorte de quem merecer o seu amor...

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  2. Seus textos mais parecem de auto ajuda! Sem ofender, mas é isso que sinto cada vez que leio. Uma palavra, uma ideia e uma coisa me vem na cabeça. E me ajudas, muito.
    Grata por não ser egoista e passar isso para mim!
    Su

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