quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Muralha


Faz tempo que penso nisso e hoje lembrei de repensar. Rever meu conceito antes que vire preconceito
 ( ou seria bem o contrário?).
Temos, imagino que todos, a mania de achar que as pessoas lêem nosso pensamentos. A ideia está toda  em detalhes na nossa cabeça - instruções para a secretária, pedidos para a empregada, as vezes até para a manicure , uma atendente de loja, a costureira, ou seja lá quem for, em qualquer diálogo. No fundo achamos que a outra pessoa pensa como nós, vê as coisas como nós vemos. E se ela não atinge a este 'nivel' de compreensão, menosprezamos. Fazemos pouco. Fazemos do outro, pouco. Puro preconceito. Vejo isso todo dia, faço isso , sinto, e me policio, ou tento. Dou a mão - e a língua - à palmatória.
Discutimos tão somente com nossa prodigiosa mente e , feito o rescaldo - ou não - colocamos o suposto resolvido para fora. Fazemos isso com o companheiro, colega, sócio ou até professor e projetamos isso em nós. Tudo resolvido, alinhavado, entendido. Claro para nós, nem tanto para eles.  E ao tentarmos passar isso ao outro, voulá,  já vai a coisa pronta, estabelecida , decidida. Resumo de nosso pensar. O prato pronto, quando o outro, por vezes, nem sabe da refeição. Queremos que engula tudo sem nem saber o que come, ou porque come . E que goste, enfim, aceite de bom grado! E sem reclamar.
Dai vem muita desavença. Porque, como já alertou sabiamente Victor Hugo, " a palavra, como se sabe, é um ser vivo". Transforma-se  já ao vir do pensamento ao ato de falar. E transforma-se ao se dirigir ao outro. Que, por fim, recebe do seu jeito, entende do seu jeito, e aceita ou não. Entende ou não. Damos a sigla e ele que descubra todo o resto. Damos a  charada e o outro que descubra a saida, se tiver. Labirinto montado. Muralha que nos impede de chegar ao outro. E eu, particularmente, tenho ai dois problemas: sou péssima em charadas. Mas muito boa em fazer meu pensamento voar, fazer a viagem que eu quiser com a passagem recém entregue das palavras. Um único e simples tiquet e dou a volta ao mundo, sabe-se lá em quantos segundos.  
Prepotência nossa? Minha? Pode ser. Falta de humildade e de caridade, melhor dizer. Vemos o outro como igual e não é. Nem se fosse clone. Porque nem eu mesma sou a mesma de ontem. Ou de uns minutos atrás, antes de começar a me deixar aos poucos nesse texto. Nem você que me lê.

( Grande Muralha da China. Foto de Daniel Vergara, Santos, SP)

Um comentário:

  1. Admiro teus textos por isso. Tapas na cara, mas com toda delicadeza que lhe é pertinente. Você bate e depois assopra. Beija até. Coisa de uma mulher completa. Coisa rara.
    Beijos já bem resolvidos em mim!

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