terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Piano, piano


Correria. Ninguém gosta, mas parece ser a palavra da vez. Correria. Faz de nós todos participantes de uma maratona. Corredores que nem sentem o frescor do vento no rosto. Aparece em cada frase. Em toda conversa, interessada ou nem tanto. Basta falar com alguém, perguntar como vão as coisas e lá vem ela frear a conversa. Metida, freia a vida, ao invés de ajudar. faaz da vida passagem vão. Do momento apenas mais um. faz de nossos dias algo enfadonho, repetitivo e mal vivido.
Vivemos nos tempos de tudo ao mesmo tempo. De tudo junto. De andar sem ner ver onde pisa, sem ver nem a vida e nem os buracos. De nadar contra a maré tentando não se afogar, numa vã tentativa. De falar sem nem escutar o que sai realmente da boca. Sem os atos gratuitos de Clarice(*). Automizados. Inúteis. Passantes. Anestesiados. Então, é hora de falar: pára mundo que eu quero descer!
Tudo começou quando postei a frase " Cheguei. Tentando voltar.Mas não tenho pressa. O mundo pode esperar...". Veio - me um comentário - ou muitos. Dentre eles, caiu em meu colo - ou nos olhos  e no coração -  um provérbio que tanto cabia que mais parecia calça jeans ao se lavar: "quando se corre muito, há que parar e esperar pela alma” . Dizem ser dos índios Guarany, antigos habitantes do Brasil meridional. Acredito. Tal sabedoria só poderia vir de quem é dono de seu tempo. E de seu nariz ( e boca e pés e coração...). Que faz o seu tempo. Conheço poucos, raros, que tem domínio sobre o tempo, que conseguem encaixar o seu próprio tempo no tempo do mundo. Um em especial - porque me é muito inspirador e grande mestre e amigo em muito  - parece que comemora isso - ou se aperfeiçoa - colecionando relógios. Sobem pelas paredes, enfeitam mesas, asseguram seu passeio diário  nos pulsos - e , quem sabe nos bolsos. Paradoxalmente, ajusta-os para que seja precisos. Uma diversão, hobby. Mania? Mais para fetiche. Faz dos relógios, enfeite, não mestres a serem seguidos. Peças a serem admiradas, como o tempo. Quem admira quem eu não sei. Quem segue quem também não, mas o mundo precisa disso. Precisa desse dominio sobre o passar das coisas. Quem tem, admiro. Faz o mundo esperar. Entendo e tento seguir. E me encaixar, feito ninho. Seria muito bom esse libertar...
Apesar de detestar as horas - passam rápido quando eu as amo e se arrastam quando as quero ver longe -  tenho lá minha admiração pelos relógios. Os de corda - quando precisam de nós para correr no vento. Gosto em especial do tiquetaquear. Entram em mim feito mantra. Sonífero tempo a passar ( parece tanto...). Adoro os cucos e seus sustos em nós. Os blém-blém-blém das horas a marcar. Amo os das estações, icones da história. Os das torres, os das praças - mesmo sabendo de sua real imposição ali. Só dispenso na hora de dormir. Parecem me lembrar que daqui a pouco outro dia vem e trazendo sempre a mesma coisa, mesmo se fazendo de outro. Assim como dispenso qualquer luz. Não quero que me apressem quando quero me desligar. Nem que me tirem do mundo dos sonhos com seu estardalhaço. Não gosto dos de pulso, não uso. Aliás, minto: gosto, muito, como adorno ( e quanto mais adorno e menos relógio, melhor!), mas não quero me viciar a ver os ponteiro correndo - ou pontinhos pulsando - dominarem  o meu mundo, já tão dominado pelos deveres e teres que.
Bom se pudéssemos ser como sonhava Clarice, a Lispector: "Não tenho tempo para mais nada, ser feliz me consome muito". A tal correria perderia as forças. Ou raciocinar como os 'velhos' italianos : "piano, piano, se arriva lontano" (lentamente, lentamente, se chega longe).

PS.: a imagem é do relógio da Estação Ferroviária de Atocha, Madrid. Lembrou-me que um pedaço de meu coração está lá...



2 comentários:

  1. Sua percepção do mundo é outra, sua participação nele vai muito além das horas. Seu tempo também deve ser.

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  2. Passei de novo para ver se o relógio andava...

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