terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Pólen



Por vezes, muitas, basta uma imagem e vem um texto completo. Viajo nela e em toda a sua dimensão, a imensidão que ela me traz. Vejo longe. Vejo a flor, pétala rosa, minha cor do ano, e o suor do orvalho. Lembro do pólen. Levado pelos insetos, faz outra flor. E essa, expõe o seu, e esse é levado e fecunda outra, que vira flor,  e assim se faz um jardim. Muitos. Uma primavera em furta cor. E eles, os bichinhos, tão pequeninos e tão poderosos (pergunte isso a um produtor de maçãs...), nem se dão conta de sua grandeza, nem sabem seu importante papel.
Assim deveríamos ser diante da vida. Das coisas que nela se apresentam. Deixar que levem da gente só nosso pólen criador. Mais dele virá, e mais, e mais, numa entrega incondicional - palavra que tem em acompanhado muito. Dia após dia. Flor após flor. Levar conosco só o que dá vida. Frescor.
E veja que estranho: ela, a flor, vive pouco. E é pura doação. Quando bela, encanta e perfuma. Usa disso para atrair os polinizadores. E quando morre e vai ao solo, aduba. Se você parar para observar, um ciclo perfeito, que emociona. Eu, manteiga cheia de sal e bem derretida que sou, por vezes choro. Quem sabe está ai meu pólen, a emoção.
 A vida tem sido dura e me faz, por vezes,  perder o encanto - por mim e  por ela. Minhas pétalas nem sempre estão firmes, meu perfume nem sempre pronto. Meu pólen, às vezes, parece não bastar. Mas sei que é passageiro, como é a estação, como é a flor. Mesmo que não  fecunde outra , meu pólen está lá. Está na alegria que passo aos outros,  mesmo quando ela não está em mim.  Está no carinho que faço, mesmo sem nem tocar. Na preocupação de longe, no amar de perto, na risada forçada para que não desconfiem onde minha cabeça está. Minha cabeça anda em mim. No que fui e no que sou. No que quero ser. Refazendo meus passos, reconhecendo meus erros, tentando acertar. Desviando do que não é meu. E agarrando o que a vida me dá. Minha cabeça, linda e loira, está onde tem que estar. No que espero  para mim. Meu pólen criador. Meu jeito de amar o mundo. De me encorajar.

"A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem".
Alguém conhece o autor?
Já descobri: João Guimarães Rosa

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