quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Revisão



Acho que não tem situação mais dificil de se levar do que uma separação. As nãos consensuais, claro. Como a própria palavra mostra, com senso, bom senso. Alguns poderiam dizer que a morte de alguém próximo, sim, ou doença. A diferença, penso, está em que nessa situação não há compaixão. Não há delicadeza como se tem em outras. Meio morte, meio doença. Cada um pensa por si e acha que tem toda a razão. Que só o outro erra. Cada um pensa separado uma coisa que até pouco tempo era  junto - ou pelo menos devia ser. O outro vira vilão. Eu sou vítima. Simples, ou nem tanto, assim.
Relacionamento de dois é tarefa difícil. Não diria soma, mas junção de dois, de duas formas de ser, de duas formas de pensar. E tendo com cola o amor - ou pelo menos o respeito, conforme for. E com o passar do tempo, o que é bom se perde pelo caminho, feito as migalhas de pão de João e Maria. O próprio tempo  - e os bichos da floresta  - se faz voraz. Olha-se para trás e nada se vê. Olha-se para frente e se vê a bruxa. Não se acha mais a volta ao que se teve de bom. Nem ao recanto seguro dos dias. Não se lembra nem os porquês. A convivência , parece, nos dá pilulas diárias de amnésia emocional. O que ajuda no início, conviver para conhecer, pode se transformar em uma massa pegajosa difícil de se limpar.
E ai é que mora o perigo. Do amor  - e/ou amizade - e respeito ao nada. Ou melhor dizer, ao tudo que há de pior. Na faxina final das coisas, no final da mudança, ficam só os restos, coisas que ninguém quer carregar. Sentimentos que ninguém quer revisar. Faz-me pensar nas enchentes. Como se o relacionamento fosse um córrego. E nele jogássemos apenas o que não queremos mais, dia após dia. Sem nos dar conta que , cedo ou tarde, o rio cobra seu espaço.Cobra respeito. Cobra cuidados, respostas bem dadas. Promessas esquecidas. Pede limpeza. Clareza. Não as mágoas que deixamos para trás e  que jogamos, enfim, todas juntas na mesa. Ele devolve as acusações, as palavras mal ditas. Tudo vêm à tona e transborda. E que belo estrago faz. 
O que pensar de tudo isso? Esperar que o riacho seja complacente. Que entenda que somos humanos. Que entenda que mágoas se formam ao longo do tempo e tem que ser despejadas em algum lugar, se não conseguirmos reciclar. E que nós não aprendemos com  a vida a limpar as coisas de forma mais assídua, cuidadosa, interessada, comprometida, não deixando tanto lixo acumular. 
Mas, se não há outra saída, que pelo menos tenhamos cuidado para não lacrar as portas. Às vezes pode-se precisar delas para entrar. Bom seria se todas as separações fossem bem recebidas. Bem resolvidas. Ainda mais quando se tem frutos. Entender que uma coisa nada tem a ver com a outra. Que posso não servir como companheiro, mas posso ser ainda um amigo. Um par em prol de algo. Um bom pai. Uma boa mãe. E desse título ninguém se 'livra'. Nisso, ninguém é 'ex'.

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