sábado, 12 de fevereiro de 2011

Vôo



Parece ser a minha lição do dia. Melhor dizer da semana, já que ontem mesmo escrevi sobre isso. Do quanto achamos que o outro nos entende. O quanto supomos que nossa falta rasa ou total de palavras certas, nosso silêncio genérico, será subentendido. Compreendido. Explicado em detalhes até. Então, lá estava ela para, a grande Clarice, como sempre, para salvar-me da fogueira de ser única, e, portanto,
louca ou bruxa:

"Sou um monte intransponível no meu próprio caminho. Mas às vezes por uma palavra tua ou por uma palavra lida, de repente tudo se esclarece".

Peguei carona no pensamento dela como quem vê um raio cair. Cometa passando no céu. Estrela cadente. É isso! Faço das pedras do caminho da vida muralha de proteção ou entulho incomodante. Intransponível, como ela diz. O que me dizes , entendo. Ou procuro. O que me mostras, demonstras, entendo mais ainda, ainda que do meu jeito torto de ser. Mas teu silêncio me dá asas, grandes asas que por vezes nem sei controlar. Aparecem feito mágica, difícil explicar. Asas brancas e lindas, nem que seja por um momento, que trazem sonhos, esperança. Ou negras e pesadas, das coisas que tento negar. Clareiam minha alma e meu dia,  fazem meu sol brilhar mesmo na chuva. Ou trazem cinzas e  um certo ar abafado de quem anuncia um terrível temporal. Teu silêncio, embora já conhecido,  beija ou bate.Não deixa por menos.
E, se eu fosse Clarice , a Lispector, e tivesse o dom das palavras poucas e certeiras, diria: o que não é dito às claras, faço dele castelo ou abismo. Depende do dia, dependa na hora, depende de como te vejo passar.



2 comentários:

  1. " O que não é dito às claras, faço dele castelo ou abismo".
    Tem dúvida ainda de que é uma Clarice???? E sem aquela amargura, marca registrada. Você tem seus momentos, como todos, mas é, sim, em essencia, luminosa!
    Belíssimo texto! Bravo!

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  2. Que texto lindo!Iluminastes meu dia!

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