quinta-feira, 31 de março de 2011

TPM



Março se foi. Na verdade, veio e foi como um cometa. Melhor: uma estrela cadente, que não se espera - e nem deu tempo de fazer grandes pedidos, a não ser o de sobreviver. Um dia chove e faz frio, outro chove e encalora, 'menopausico' mês, e eu tentando me equilibrar entre um pingo e outro.
Minha TPM, "tensão pró Março"...
É num mês assim que passa rápido, mas tão rápido, que nem me dei conta do quanto fiz, meus milagres de 'super me ser'. A 'super tudo', querendo agradar a gregos, troianos e outras tantas espécies. Aulas retomando ( meu oásis , acreditem!), aniversário de filho ( 16 primaveras - ou verões?), viagens a trabalho, festa em família. Muito de tudo, como já falei aqui. Como se Março fosse um grande pássaro de muitas asas e eu estivesse nele, pendurada na cauda. Voou longe, alto, imponente, e eu tentando me segurar para não cair - nem em tentação, nem em covardia, nem do céu de anil , ou de chuvas. Chuvas, sim, muitas chuvas. De molhar bobas como eu ou de encharcar até as mais espertas.
Ai que está a diferença: em Março a gente mofa. Cria limo no corpo e n'alma. E paralisa, já que não caminha. Chove muito. São as águas de Março mais cantadas de todos os tempos. E mais teimosas. Fechando um verão que já vai tarde - pelo calor da temperatura e da confusão em mim. Abrindo um Outono que promete - e já cumpriu,  mesmo bem antes de nada prometer. Sem nada me fazer esperar- e que bela surpresa me deu, embrulho de me amar. Um Outono sem expectativas a não ser de me dar um dia após o outro - e que eu faça deles melhor proveito.  E fiz, como deu. E dei como quis. Muito de mim. E valeu. Vale. Sempre.
Quando menina, gostava do Verão, tempo de praia, amigas, brincadeiras e namoricos. Hoje, mais madura - mas bem antes de cair do pé e longe de virar geléia ou estar imprópria ao consumo - prefiro o Outono. Mais ameno, mais constante, mais silencioso até, poderia eu dizer. Mais acolhedor. Mais pleno de mim e de amor. Mais chá morno e coberta macia. Mais vento matinal e sol que aquece, mas não judia. Mais vontade e  menos preguiça - a não ser a de sair correndo por ai.  Mais café com leite pela manhã e sopa na noite.  Enrosco no sofá até dizer chega. E esses intermináveis tapetes de folhas por onde adoro passar, feito atriz em noite de gala.
Março se foi e levou a correria. Estou mais calma, quem diria. Como se o vôo do grande pássaro tivesse , enfim, terminado, belo pouso. Eu, agora, de pés bem firmes no chão outra vez. Mais segura de mim e do amor em mim. São as águas de março fechando o verão, é  a promessa de vida no 'meu' coração...
Nada melhor a declarar...

"São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
pau, pedra, fim, caminho
resto, toco, pouco, sozinho
caco, vidro, vida, sol, noite, morte, laço, anzol

São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração".
Águas de Março, música de Tom Jobim, eternizada pela pimentinha - Elis Regina



quarta-feira, 30 de março de 2011

Frágil?



Pleno meio de manhã, agenda aberta com uma listinha infernalmente interminável, mas não tem jeito. As 'lombrigas criativas' - como acabei de  apelidar minha vontade irresistível de escrever- , vieram à tona. O texto está na boca - ponta da língua e estômago- pronto para ser degustado, mastigado, digerido e, perdão, vomitado a contento. Que se dane o mundo e que se autodelete a  listagem infinita! Etrego-me, 'facinha, acinha'  a ele. Vai que, feito macho, some e me deixa na vontade???
Mulheres, esse é o tema. Batidinho. Mas necessário. Digamos, batidinha de limão, que sempre cai bem. E mais ainda o termo que detesto (Será? Tento provar...) , mas ainda ouço - e leio - em pleno século XXI: sexo frágil.
Dou a cara a tapa. Sou, sim, mas só quando quero. Tem coisa melhor em poder ser? Mulher pode chorar sem perder nada, ou até bem o contrário:  ganhar. Pode pedir colo, fazer dengo, se isso estiver na sua lista de necessidades da hora. No desejo da vez. Como uma parada  - por vezes estratégica - na correria, frente a uma ameaça, um tropeço qualquer, seu ou da vida. No choro - ou no ato, muito. Nada de fraqueza. . Astúcia, pode ser por vez. Vontade. E pode. Podemos. Bom isso. Leve maneira de poder ser.
E nisso muita desvantagem de ser homem. Homem não pode, ensinaram um dia. Homem, não chora, dizem, mas se soubessem como está justamente ai sua força. O macho vira homem, quem sabe menino. E como encanta. Como está nesse lado 'feminino' de ser toda  a graça da coisa, no revezamento de imagens. Hoje ele é forte e me acalma. Amanhã pode ser minha vez. E nessa troca, nessa cumplicidade, muito de nós. Muito de colo, de amizade, de carinho, respeito. De AMOR, assim, escrito em letra maiúscula e garrafal para que se destaque, para que se mostre sua força, sua coragem. Sua importância. Seu valor. Único.
Sexo frágil? Sou, quando, onde, como e 'se' quero. Não tem porque lutar contra isso, achar feio,  bobo, coisa de mulherzinha, se isso não é fraqueza e sim força. Sexo forte já somos e toda pessoal inteligente que se preze, sabe. Pode até não dizer, mas sabe. Seguramos os machos - e fêmeas - por nove meses no ventre, ligados à nós por um cordão - que nunca de desfaz, bem sei. Alimentamos a prole. Educamos. Fazemos o homem e a mulher de amanhã. E sem ele, o companheiro, e sem por vezes nos sentirmos frágeis,  de nada adiantaria. Seríamos macho e fêmea ao mesmo tempo. Seríamos tudo, dois em um, mas sem graça. Deve ser por isso que  parecemos fracas, volta e meia. Para dar espaço a quem ao nosso lado quer ficar...
Sexo frágil? Assumo: gosto. Amo. Sou. Acreditem: nem sempre  - nunca?- a verdadeira força está no murro, e sim no ato, até o mais delicado e sutil. Fraco é quem não sabe, não descobriu ainda, não é...

“Eu não escrevo o que quero, escrevo o que sou.”
Clarice Lispector








terça-feira, 29 de março de 2011

Vida de cão?

Eu e minhas ideias. Aos outros podem parecer no mínimo estranhas, mas a mim, normais.
A máxima de hoje: a gente devia ser que nem cachorro. Comer quando dá fome, dormir quando dá sono. Receber as pessoas sempre de bom humor - pelo menos os que cheiram bem que nos querem bem. Saltitante, vibrantes. E mais:  beber quando se tem sede. Brincar quando dá vontade. Latir para quem se mete na nossa vida ou tempo roubar o nossos 'ossos'. Pedir colo a quem nos ama, pedir cafuné a quem nos quer bem. Aquecer quem está com frio. Ficar rondando a cozinheira  a espera de um presente. Nisso estou parecida hoje: rondando a vida, esperando que me agrade...  
Mas não sei ser como os cães. Tarde chuvosa e fria, eu desanimada, cansaço que não me larga. Das pernas à alma. Tentei ser como um cachorro, deixar para lá. Mas não deu, não dá. E eu teimando em trabalhar. Em ser alguém. Em ser especial. Em ser. Mas tem dia que nada agrada - ou quase nada. Fareja-se a ração e não entra. Se ficasse no meu canto estava sossegada. Como o cão que espera o melhor momento para agradar - e se agradar. E dá nisso: quanto mais se quer, mais se tem que correr atrás. Que o diga o cão que corre atrás do carro que passa, sem eira nem beira, e mesmo assim se diverte: porque nada espera. Não aprendi com os cães. Admito. Por isso estou assim, lerda. Comi demais, dormi de menos, agradei quem não devia agradar - ou pelo menos no momento errado. Sorri bem menos que do que devia, não porque as pessoas não  mereçam, mas porque não estou lá essas coisas. Deve ser a falta do amor. Sinto-me um cão sem dono, à procura de algo. Momentâneamente e por livre e espontânea burrice. Não dá para fazer como eles e esquecer as mágoas. Fazer de conta que não se falou o que não se devia ter falado. Que não se ouviu o que não se queria ter ouvido. Abanar para a vida  mesmo que tenha nos magoado. Seria bom. Mas nós humanos não somos espertos como os animais. E ainda os chamamos de irracionais...
Cachorro sempre está bem - a não ser o meu que é depressivo ( juro, a veterinária que disse!). Ou o passarinho de minha irmã que se depenou todo por falta dela. Fora esses rompantes, estão sempre bem.  Sempre levam a melhor - a não ser que sejam abandonados, de rua - mesmo assim, sempre acham quem os chame de companheiro, quem lhes dê um bom prato , um café quente, um canto para dormir (coisas que não faríamos com um desconhecido...). Alguém que os leve ao lado na caminhada. Que os adote sem mais nada. Por quem sejam fiéis. De quem esperem pouco, muito pouco ( e aqui está o segredo). Sempre são amados, acariciados, mesmo que imundos e babados. Deve ser os olhinhos pidões. O jeito sincero. Deve ser o rabo a contentar. Sabem agradar. Deve ser esse amor incondicional e infantil que têm para nos dar. E como nos fazem bem! Por mais que não retribuamos a contento. Por mais que os desdenhemos. Parecem sorrir ao deus dará.
Hoje, pelo menos hoje, eu juro que queria ser um cão...Não esperar muito. Deitar ouvindo a chuva, pensando em nada. Pedir colo - e ganhar. Deixar a noite vir e esse dia passar. Deixar meu dono me amar.
Quem sabe amanhã me sinto mais gente - ou cão?
É..tem dia que está mais para osso que para carne...

segunda-feira, 28 de março de 2011

Costurando



Acho que nunca passei tantos dias sem escrever. Assunto não faltava, nem falta, mas deve ser esse cansaço na'lma. veio junto com o cansaço físico, acompanhado do mental. Veio tudo junto e numa vez só, como sempre a vida faz com a gente. Feito uma refeição de vários pratos, uns bons, outros nem tanto, alguns até indigestos, que a gente vai engolindo , querendo ou não - nosso sapos - e só depois vê o estrago. Uma indigestão de viver. Não por ser tão ruim, já que tiro de letra, eu, a "super mulher", mas pelo fato do exagero. Do muito de tudo. Do engolir sem nem sentir o sabor. Nem ao menos mastigar. Trabalho, estudo,  familia. Muito de tudo. E amor. Muito. Sem ele não ia dar. Sim, amor em tudo e sobretudo. Sem ele, já dizia Renato Russo, eu nada seria.
Coloquei amor no trabalho. Um amor incondicional, eu diria. Dou, e nem sempre recebo a contento. Um amor por vezes traiçoeiro, que me fez - e faz - esquecer de mim. Horas de pé, sem me cuidar, sem me alimentar,  a não ser de novidades e sorrisos, sinceros ou nem tanto.
Coloquei amor nos estudos, pois sem ele nem teria coragem de sequer ir à aula. Muito menos participar, me interessar, querer ficar. E foi dureza, eu juro...Não por desinteresse, e sim pelo cansaço.
Coloquei amor na familia, ao viajar mesmo cansada para vê-la em grande estilo, momento único, todos juntos - ou quase. E ver como é tênue esse amor, essa ligação. E que convêm vê-los em paz, sem grandes arroubos, sem grandes agitações. Visitas do nada, sem datas especiais. Como se o cansaço tirasse metade do sossego de se amar, de se interessar. De sentar e escutar. Acarinhar. Bem receber e ser recebido. Como se ele - o amor -  fugisse do foco. Mas fui, fiz, vi e fui vista, amei e fui amada na medida do possível para o momento, nem sempre a contento, para mim e para os outros. A não ser com meu filho, sempre meu  e cada vez mais essa ligação que me nutre e me dá  a certeza de que , sim, acertei, acerto. Pela educação, pelo interesse pela vida dele e dos outros, pela astúcia, pelo carisma, pelo humor bem controlado. Jeito da mãe, sonho em dizer.  Ah, e pé de valsa. Meus pés cansaram bem antes que os dele. Meu ânimo também. Deve ser a diferença de idade e de tamanho. Ou porque para ele tudo ainda é novidade...
Recebi amor também, muito, não posso negar. Recarga de mim. Da melhor. Amei tanto quanto fui, ou mais,  dado que o amor , desconfiado, não se entrega assim fácil. Um amor que me emociona sempre que me olha nos olhos - sem precisão de palavra. Quando me dá seu calor sentindo meu frio, sempre interno. Quando me incentiva a seguir, me acompanha na minha passagem por ele. Quando aceita meu jeito de  amar. Respeita meu jeito de ser , mas me segue de longe para ver se pode ajudar. Nem que seja ficando quieto a meu lado, esperando eu me acalmar. Ou em fazendo dormir. Ou pelo menos relaxar.
Passei muitos dias sem escrever. Sem me curar. E hoje sinto falta.Tristeza acumulada ( ou somente cansaço, diria Clarice). Ando necessitada de um SPA. Não um Sanna per Acqua, bem sei. O amor também sabe disso e me disse que é só eu chegar que ele me recebe de braços abertos. Só falta agendar...
A vida tem disso, muito de nada e muito de tudo, e tudo muito junto, mistura enrolada, nem sei bem amarrada. Nem sempre bem costurada, nem bem arrematada. Mas mesmo assim discordo de Quintana , o Mário, quando diz que "minha vida é uma colcha de retalhos. Todos da mesma cor". Meus retalhos são outros, e bem coloridos, furta cor. Só falta juntar. Costurar as peças com as linhas rosas de me amar.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Salto



Dia complicado. Não bastasse cansaço extremo já ao levantar ( tentem visitar uma  - uma não duas! - feiras de acabamentos entrando de stand em stand, vendo novidades e 'vendendo' seu trabalho, por horas seguidas. E tudo isso equilibrando corpo e mente em cima de um belo salto), meu não não funcionou, deu tilt. Aguentei tudo isso mantendo um belo sorriso na cara que quase imendou com minhas rugas, fazendo quadro trágico com as olheiras. Esperei respostas que não vieram a contento, não consegui cumprir minhas metas. Mas guardei tudo na máscara da personagem de me ser. Só sendo 'muito' mulher.
E aqui estou eu. Devia dizer não a  mim mesma, e tentar resistir ao ímpeto de me escrever. Mas não. Meu dia sufocou a Joyce que gosto de ser. Só a profissional esteve  a bordo, CDF que só. Se não parasse para me escrever - ou me escutar? - teria mil conversas comigo mesma antes de dormir. E talvez o sono me deixasse para trás, tamanha neurose.
Hoje, mais uma vez, cresci. Cresci quando vi que não sou a toda poderosa. Cresci quando vi que o corpo não segue minhas regras mentais, padece bem antes. Quando me dei conta que me dou menos valor do que devia. Cresci quando fui atrás do que queria, do que acredito, céu e inferno. Quando não aceitei as recusas - inclusive do amor - e me expus, me fiz entender, quando teimei até entender o que se passava em mim. Quando relevei minhas fraquezas e vi quanta força existe nelas. Quanto de mulher há na menina que chora, nem que seja de cansaço. O quanto quero para mim esse amor sem fim.
Quase outro dia e coloquei aqui mais um pouco de mim. Gravei minha passagem pela história. Agora estou mais leve, sorriso voltou. E não dá em outra, me vem Clarice. Mas do meu jeito.
Eu não estou tão triste assim, é que hoje eu estou cansada....
( porque o sou, original, não me cabe, nem por um simples texto) ...



terça-feira, 22 de março de 2011

Sim!



Escrevia esse texto enquanto minha vista era só de nuvens, tapete feito de algodão doce. Em pleno vôo para São Paulo, numa semana que promete muito, de tudo: muito trabalho, muita paciência, muita cabeça no lugar. E muita resistência física, diria. Muita correria e  pouco repouso, pouca comida, pouco descanso. Muita aposta em mim mesma e na minha capacidade de me desligar de uma coisa e fincar o pé noutra. A Joyce que chega na capital paulista ´é outra, não exatamente eu que aqui escrevo. Quase um personagem. Ela tem que ter punho forte, garra sobrando, muita energia de fala e de pernas. E mesmo assim ser delicada, gentil, com ela e com os outros.Serão três dias de andança, olhos abertos para o novo, sem esquecer que ela, a Joyce que trabalha, já tem la sua credibilidade por aqui. O que tem um lado bom, o do me reconehcer como guerreira. E  o lado não tão bom, o de pedir mais de mim mesma. Ela, a comercial, é outra. Sua sensibilidade fica só na área de trabalho para ver oue se tem de belo para mostrar . A menina Joyce fica em casa e chega a mulher batalhadora. Talvez a menina apareça na noite deitada na cama, pernas para o ar, a relaxar, querendo um colo e louca por um chocolate.
Viajei. mas não sem antes deixar a casa em dia, o filho bem orientado, a secretária bem instruída  e com m o cardápio da semana pronto, almoço e jantar. E mesmo assim,achar que esta faltando algo. Que esqueceu alguma coisa. Mulher tem essa mania de achar os outros inválidos. Das duas, uma: ou nos achamos insubstituíveis e extremamente necessárias, ou achamos o mundo fora de nós fraco.
E dai vem as lições do dia:
1) Não sou insubstituível; o mundinho 'casa' não pára porque eu estou longe,muito mesmo o mundo;
2) Temos que aprender a dizer não, inclusive para nós;

Minha lição do dia foi aprender a dizer não. Centrar o pensamento, não desviar do meu objetivo maior dos proóximos dias: trabalho. São três dias que valem por um ano, devo pensar. E que promete ser muito melhor do que imaginei. Resultado de trabalho - desdes que ninguém percebe até que, enfim, aparece -  e sim, muito trabalho. E dessa simplicidade, ela sim, minha eterna companheira.
Dizer não me fez - e faz crescer. E deixa que os outros cresçam. Beijar o filho na porta da escola é bom, de forma normal, como quem volta ao meio dia, mesmo sabendo que só voltarei a vê-lo daqui uns dias. E sentir na firmeza dele o quanto cresceu, já é outro. E ter a certeza de que ele vai se dar bem, isso é dizer sim. Sim, eu confio. Eu confio na educação que dei, e sigo feliz.
As nuvens que vejo são só a fora. Meus pezinhos estão bem fincados no chão. Até a volta, mulher guerreira . Mas logo, logo eu volto e as nuvens terão outra conotação. Quem sabe vou sonhando andar por entre elas. Quem o amor me pega no portão. E me lembra de quem sou. Mulher , só uma mulher.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Contrária


"Tuas tristezas... o que é feito delas?
Tombaram, como as folhas amarelas..."
(parte do poema Outono, Mário Quintana)

Ah, Outono. Certo estava Quintana, doçura em pessoa, que sempre me emociona. Se já gostava desde pequena, agora amo, estação e poeta. Não que não amasse o verão, tempo de sol , brincadeira e mar, mas para a menina, que já nasceu pensante e escrevinhadora, Outono era - é -  tudo. Inspiração, papel e lápis, por vezes de cor. Nuances de amarelo a marrom, pinceladas de vermelho, verdes secos para dar um tom. Esse refrescar manso, sorrateiro, que a gente só nota quando arrepia a pele. O cair de folhas, uma a uma, dando à arvore a possibilidade de renovação - e ao chão de virar belo tapete. Piso, dançarina, e me sinto rainha de meu reino. O Outono me faz assim, eu mesma. Mulher- menina.

Outono. Não é a toa que as árvores deixam-se perder as folhas. Reserva de seiva para aguentar o rigoroso inverno. E nisso, sábia lição. Ao contrário do Verão, que bate à porta e nos convida a sair e festejar, Outono é transição. Tempo de aquietar. Refletir. Repensar. Rever. Não exatamente para um rigoroso Inverno, mas um aconchegar de pensamentos.Outono pede abraço e colo, coberta nas pernas para espantar o deixar passar o tempo. Chá morno para relaxar a mente e aquecer a alma. Comer raíz, como dizem por ai, para dar base para o resto do ano. Outono é preparação. Da natureza, de mim e de você.

Hoje - e nesse hoje, não um dia mas muitos- Março me diz muito. Diz de mim mais, muito mais. Renasci num Outono, saída de um estado de hibernação de mim mesma, do Inverno gelado de me ser. Minha seiva veio à tona, correu outra vez em mim. Regou minhas rosas. Em pleno Outono, Primavera em flor. Sou contrária. Minha natureza, pelo que vejo, é outra. Acordei meu coração num Verão. E meu corpo num Outono. Meu calendário não é do Sol, é do Amor. Plantei-o sob o sol e colhi belos frutos ainda enquanto minhas folhas caiam. Assim, meio que com pressa. Fome de viver. É meu Sol internoque me faz assim. Meu céu aberto. O  Amor em mim. Sou todas as estações em uma só.
Meu Outono está mais para Quintana. Minhas tristeza tombaram  - e tombam - como as folhas amarelas. Ou para Camus...

"Outono é outra primavera, cada folha uma flor'.
Albert Camus









domingo, 20 de março de 2011

Tão eu



Minha intuição estava certa e me fez disparar de alegria ontem quando o filme 'pousou' na minha mão: Julie& Julia, com Meryl Streep ( impagável!) e Amy Adams que, coincidentemente - ou não? - tem passado muito pela minha vida ultimamente (um inclusive comentei aqui, com as duas juntas, onde era um freirinha...), minha nova 'paixão" das telinhas. Não sabia bem do teor - a não ser que era sobre comida, o que adoro. Nem imaginava o resto, as lutas, o blog, nada. Nem me imaginava tão 'dentro'.
Filme tão meu.Tão eu.
O filme trabalha de um jeito dinâmico, que gosto, meio passado, meio hoje, coisa que me prende. Do como as coisas de ontem são iguais hoje, como se repetem , apesar - e graças - á tecnologia, essa diferente, facilitadora. Mas nossa cabeça, por vezes - e dependendo do assunto, quanto mais básico for -  familia, amor , relacionamento, lutas - não muda. Nem nosso jeito. Quantas vezes já me vi gesticulando como a minha mãe? Ou fazendo coisas que ela fazia? Vivendo o que viveu. Ou falando o que ela falava - ou fala, melhor presentificar as frases, já que está viva  - e  bem viva. 
E fui assistindo, e me achando, assistindo e me achando. Nos trejeitos de uma e de outra, no modo de pensar de uma e de outra, no modo de agir. Na delícia de viver cada momento, deixando transparecer nos "hummmm", nos suspiros ao longo do dia, nas risadas largadas livres sem nem pensar, no ver a vida de forma inteira, no dedicar-me a momentos tão simples como o provar uma boa comida, sentir novos gostos, conversar com alguém na rua, declarar meu amor pela vida e por ele mesmo, o amor. No que sempre falo, minha tecla frouxa de tanto bater: ser feliz com todo e qualquer presente que a vida me dá.
Presentes. Tenho recebido muitos, discretos, talvez até porque a vida sabe que ando precisada. Meus bolos do dia, que caio de boca, matando minha fome de viver.  Meu agradecimento por mais esse - um belíssimo filme, leve e delicado, ao lado do filho ( e comendo sorvete , é claro...). Fiquei grata de ver que existem, gracias, mulheres como eu. Que não sou 'louca' sozinha, e que a sala de  'ser quem você quer ser ' se enche. Que se emocionam com pouco que é muito.
Com o incentivo do outro - no filme, incansável  e dedicado marido;  na vida , amor em bouquets de pequeninos gestos e muitas palavras, papel de cor. Com o  incentivo de amigos - e entre eles muitos simples conhecidos que viram amigos para sempre, quando me mandam seguir. Com o filho que se emociona com a sua emoção vertida dos olhos. Mulheres que não desistem de nada, que sempre vão à luta - seja ela sã ou nem tanto - o que pede um pouco - ou muito!- de loucura. Que se rendem a propósitos que poucos acreditam e muitos criticam, mas não sai da linha. Que não fecham o livro dos sonhos. Não fecham o coração. Não deixam passar. Não levam a vida por levar. Vivem, como dá, mas vivem. E nesse 'simples' viver, muito.
Hoje o dia ainda vai pedir mais - como me pedem todos os dias, e dou. Hoje sou mais. Melhor que ontem. Tomara menos que amanhã. O amor há de gostar.

"A vida é maravilhosa se não se tem medo dela".
Charles Chaplin

sábado, 19 de março de 2011

Merda!


Hoje meu dia está corrido - sim, está, porque ainda está na metade, que já me parece um todo. Não foi - não está sendo - um dia fácil. É um daqueles tantos típícos onde me divido entre o que tenho que fazer, o que quero fazer e o que não quero, mas tenho. Ou melhor dizer que tenho , mas não quero. E tenho realmente? Coisas de mulher que acha que pode tudo. Coisa de mulherzinha que acha que deve fazer tudo para agradar, nem que a ela mesma desagrade. Segurar as pontas. Talvez em nome da paz mundial - ou apenas para que se faça uma refeição sossegada. Como se tivéssemos todo esse poder,
esquecendo que o outro também tem que querer.  
Então, termino meu trabalho. Pelo menos por hoje. Não, não, para mim não é pecado. Trabalho de sol a sol -  ou melhor dizer de domingo a domingo, se for necessário. Trabalho por que gosto, também. E, ás vezes até por fuga. Mas esse não foi um trabalho qualquer. É como se fosse uma estréia. "O" trabalho, praticamente como se fosse a inauguração de uma grandiosa obra. Quem sabe o ponto de largada do ano. E me vem à cabeça o termo "merda" usado no teatro.
Merda para nós, digo eu!
Pois é. Merda. Conforme  li por ai - acompanhada de minha curiosidade por vezes juvenil - a expressão “merda” usada no teatro surgiu na França. Estava lá, no Recanto das Letras. Um ator iria apresentar a peça mais importante de sua vida, estava nervosíssimo, pois na platéia estariam os mais importantes críticos da cidade. No percurso de sua casa ao teatro encontrou muitos obstáculos. Primeiro, deparou-se com um incêndio, teve que desviar e acabou se perdendo. Como quem tem “boca vai a Roma”, conseguiu chegar ao teatro. Na porta do teatro para completar suas asneiras, pisou em um cocô. Entrou, atuou e saiu muito feliz com a melhor 'aparição' de sua vida. Assim, a expressão “merda” tem o mesmo significado de boa sorte e é sempre usada antes das apresentações.

Pois é, pela primeira vez em minha vida me desejo merda. Não a fétida, lixo de todos nós ( da Rainha Elizabeth à Gisele Bündchen, passando pelo garotão bonitão do outdoor...), extremamente necessária,  e que fazemos de conta que não existe ( isso dava um belo texto...), questão de esquecer. Mas essa, grito de garra, de boa sorte, de sucesso, que deveríamos brandar todo dia  ao ir deitar. Que 'merda de dia' teria outra conotação...E estaríamos sendo bons, agradecendo aos céus - e a nós - por cada batalha vencida ( cacofonia feia, mas veio e  fica). Cada passo dado. Cada ação tomada. Cada pensamento positivo. Cada 'merda' alcançada.
E tive que ler mais de uma vez e depois rir da frase 'inigmática' que encontrei sobre sucesso, grande verdade:

"Se A é o sucesso, então A é igual a X mais Y mais Z.
O trabalho é X; Y é o lazer; e Z é manter a boca fechada".
Albert Einstein
Falta o Z. Calei!
Agora , dá licença. A Joyce mãe está devendo um monte...

sexta-feira, 18 de março de 2011

Leve

Dia perfeito - ou quase, porque bem sei de minhas vontades maiores. Fui a São Paulo, quase um bate volta, e não sei se o dia ou eu estávamos perfeitos -   dentro do que  se possa assim achar. O sono não foi comigo, nem ia gostar de dividir a cama em três, eu, ele e meu filho, ainda mais em cama desconhecida. Sei como ele é cheio de manias, como o amor (mas esse, quando pode, dorme abraçadinho, grudadinho em mim - e eu nele). E como eu o acostumei assim, mea culpa. Tomara hoje ele volte, que façamos as pazes, que ele chegue de mansinho, e me dê bela noite de sonhar..Ando precisada.  
Mas, voltando - antes que adiante a conversa com o amante sono. Meu filho começou o dia brasileiro e terminou espanhol. Mudou até o nome - o que gostei, pois o nome da mãe, no caso eu, agora - ou pelo menos no novo documento - vem depois. Nada mais justo, pensei. E não sei se por isso, ou pela possibilidade de ininterruptas 24 horas sendo o centro de minhas atenções, foi de extrema delicadeza e carinho. Não faltaram beijos e abraços, assim, em público. Não que ele não seja, posto que é grude, mas faltava de mim perceber mais de perto. Estar mais perto. Entregar-me ao amor que me é sincero e puro. Único, em se tratando de amor materno. Dividimos almoço e lanches, cafés gelados e quentes, gostos parecidos. Dividimos vitrines, um apoiando o outro nas escolhas. Dividimos segredos e sonhos. Eu me sentindo uma adolescente; ele, um adulto. Troca boa.
Bom, a noite anterior não foi das mais sossegadas. Barulho, ansiedade, não estar onde eu queria estar, sei lá. Mas o dia me despertou com cheiro bom de café - não sei se pela qualidade ou pelo carinho não esperado. Um cheiro -  e um gosto - que me acompanharam o dia todo. Ainda estão. Primeiro presente do dia. Some-se a isso um momento sempre inusitado para mim - já que não é a minha 'primeira vez': dar comida a macaquinhos. Não, você não leu errado. Macaquinhos. São uns cindo a saltitar seguros no pé de ameixa em frente à janela do apartamento - em pleno agito paulista, em meio a buzinas e sirenes. Lindos, delicados, cara de espertos, esperam a comida. O agrado. Dei frutas, as mesmas que comia. Vieram bem perto pegar. Desconfiados, como sempre, mas não ariscos. Encararam-me com atenção, como que para prever o meu próximo passo - nenhum, além de me emocionar de tal surpresa cena.  Viro criança. Minha menina interior agradece e  se ilumina. Meu olho brilha, não sei se pela visão mágica ou lágrima fugida.
Depois, ainda ao consulado - como pensei, uma pequena Espanha em meio ao Brasil  - espera estranha, mas já esperada. E minha mania - que gosto, podem reclamar - de puxar conversa com o mundo.Uns desconfiam, feito os macacos. Outros se entregam, satisfeitos, como eu. Como da história de vida do taxista - seu Antônio, sempre o mesmo - que conseguiu seu primeiro emprego  ao chegar na capital porque sabia consertar bicicletas. Não, não trabalhava em oficina, mas sim, entregando pão - e outras delicias - montado em uma delas, que não podia quebrar. História divina, de tantos antonios, em uma cidade que já foi mínima. Que já foi humana. Tinha a chave das casas, fazia a entrega do dia em plena cozinha, enquanto os clientes ainda dormiam . Tempo bom. Natais fartos, lembra ele. Baseado em confiança. Uma confiança que se vê nos olhos dele ainda hoje, iluminados pelo passado rico - pelo menos de coisas para contar.
Ou do taxista da volta, escutando clássicos, de bem com a vida. Nem o trânsito lento me entediou. Nem as situações da cidade grande me assustaram. Sentia-me protegida. Some-se a isso uma tarde no shopping, vivendo a vida; uma boa conversa no avião com a até então desconhecida, uma chuva boa de deitar e dormir. Fecho o dia. Não com chave de ouro, por timidez do amor, mas faltou pouco.Quem sabe esse texto é um jeito, meu, torto, de agradecer a vida.
Está chovendo. A voz de Elis me vem  a cabeça. Serão as águas de Março fechando o verão?

E me veio Cazuza:
"Todo amor que houver nessa vida
E algum remédio que me dê alegria"

Mesmo que o próprio remédio não saiba que é!

quinta-feira, 17 de março de 2011

Lidando


Pois é...Ontem mesmo 'reclamava' da vida, dessa forma 'meiga' que reclamo, esquecendo do problema minutos depois. Uns acham isso marca de futilidade, de quem não leva a vida à sério, nem se leva. Mas, pensa bem? Se rindo de si mesma já  é dificil, que dirá chorando...E bem longe de ser boba!

Bom para começar, minha noite de hoje foi 'aquilo'. O sono não voltou, como já havia prometido. Deve ter voltado a ter um caso com minha insônia, coisa muita. Nem adiantaram as baguinhas homeopáticas. Ou sim, pois tive uma insônia leve, descontraída, sem temores, nem raivinhas. E eis que começa o dia e metade - pelo menos metade - dos problemas se mandaram. Deve ser chato, mesmo, ser problema numa cabeça como a minha, sempre pronta a varreduras diárias, várias. Verdadeiras faxinas do que não me serve. Poderia ter ficado irritada com minha saúde que anda debilitada por conta de tanto murro. Com o trânsito lerdo  - dos carros, não da vida - que  fez isso só para me provocar. Com o trânsito louco das coisas acontecendo e acontecidas, sem tempo nem para respirar. Com meu filho que se acostumou a ver a mãe sempre 'de boa', e não vê os perigos na testa franzida. Ou com o amor que estava de mal humor - coisa que me afeta, mas entendo e acaricio - melhor forma de derreter o gelo e fazer a taça transbordar. Cá estou eu ainda com uma dor de cabeça de matar e...rindo...Pode? Em se tratando de mim, sim!

Pois é... Ninguém disse que era fácil ser mulher. Muito menos uma mulher como eu, que traz no peito  - e no sorriso farto - a menina. A gente se magoa  fácil, e mais fácil ainda esquece. Devo ter em mim essa coisa  de ontem, da briga rápida  - muito mais comigo que com o mundo - e solução mais ainda, como se fosse 'fast food'. Mata a fome do nada, em duas bocadas, e volta a sorrir. O meu  famoso 'me morde e me assopra".

Sou boa de lembrar o que é bom e melhor ainda de esquecer o ruim. E sempre fui meio assim. E, sinto informar, não é DNA. Não rumino o que não me alimenta. Nem o que não me esquenta o pé no inverno. A vida até tenta, mas se é para ruminar - e engordar - que seja de boa comida...
E pensar que, quando pequena, queria ser um menino...

"E como nasci? Por um quase. Podia ser outra. Podia ser um homem. Felizmente nasci mulher".
Clarice Lispector

quarta-feira, 16 de março de 2011

Outra


Hoje acordei antes do galo cantar, com aquela sensação incômoda de 'muita coisa para fazer". O sono, deitado irritado ao meu lado, levantou apressado, nem tive chance de me explicar. E disse que nem sabe se vai voltar ( nosso romance vai mal faz tempo...). Olhei para o lado, acendi a luz fraca da cabeceira e lá estava ele, meu caderninho laranja, presente amado. E sua inseparável caneta. Meu conforto: recebe sem reclamar tudo que me vem à cabeça, listas intermináveis de tarefas e desejos, sonhos, textos começados, ideias a desenvolver, outras a esquecer, riscar, rasgar. Meu criado mudo. E lá começo eu, no silêncio provável da madrugada,  lista de muitas. Misturo casa, trabalho, viagem, familia, presentes, ações  a tomar. Coisas a resolver dentro e fora de mim. Coisas, muitas, tantas, lista de páginas, em letras de ter que adivinhar quando o sol chegar.
Levanto, minha paciência também me deixou, seguindo o sono.O espelho me assusta, declara guerra à minha pele boa, ao olho aberto e bem colocado, parece inchado. Visto o que tem na cadeira, desço, café na cafeteira, cheiro bom. Tudo na ponta do pé, silêncio calculado, cafeteria em ação, computador ligado, eu ligada, organizo o que tenho que fazer.
Assim começou minha manhã. Prenúncio de um dia atravessado. Nem o amor me ligou. Era pouco mais que meio dia e  já estava cansada. Exausta. Saino sol para relaxar -  ou para me achar. Caminhei. Não sei se por saúde fisica ou mental. Ou as duas.
Manhã tensa, entre o gostinho sublime de riscar a lista e o medo de listar mais, A tarde começou morna e logo voltou a esquentar. A noite veio louca, doida para me atormentar.  Mas a vida é assim mesmo, o famoso "um dia se perde, outro se ganha". O de hoje terminou e ainda estou ruminando coisas que nem deveria. Amanhã  vai ser outro dia, já dizia  a música. Diferente. Novo. Nunca vivido, nem por mim nem por ninguém. Nem eu sou a mesma. Eu, que acordei uma, dormirei outra. E depois, só Deus sabe... mas não conta...

"Vagamente pensava de muito longe e sem palavras o seguinte: já que sou, o jeito é ser".
Clarice Lispector

terça-feira, 15 de março de 2011

Confusa


Eu, no meu dia corrido, vi que faltava algo: minha cura. Não parei desde cedo, dividida nem sempre igualitariamente entre ser mãe e ser empresária - e arquiteta, e jornalista e muit amais que sou ou tento ser - se é que posso me chamar assim. Mas meu tema veio cedo, bem antes desse cansaço que agora que toma conta: meninez. Postei no Facebook. As 'meninas' gostaram. Que poderíamos, nós, mulheres, sermos poderosas, e fortes, enfrentadoras desse mundo cão, mas sem perder a ternura, a la Che. Sem esquecer a doçura que nos alimenta. Mas o dia passou  - escorreu - e eu nem deixei a menina aflorar...

Tentei, juro que tentei. Mas com tantas oportunidades batendo à porta, tantos probelams pedindo soluções,  tanto da vida adulta chamando a minha atenção, que ficou difícil. Minha menina ficou brincando sozinha em algum canto de mim. Louca por um sorvete. Doida por correr ao sol, banho de mar. Talvez apareça agora em meio ao bocejo. Quem sabe no banho morno antes de deitar. Mas hoje não foi dia dela. Foi meu. Mulher.

Isso é bom, por um lado. Dá a nós, mulheres, uma confiança maior em nosso valor. Enfrentamos melhor o dia. Sentimo-nos mais capazes. Mas fica esse gosto de esquecimento de nós mesmas no final do dia. Um saldo azedo, ruim de amargar. E as culpas, velhas companheiras de sempre, a atucanar. Um deitar cheio de 'deverias'. Deveria ter rido mais. Deveria ter feito mais cafuné no filho, caminhado com o cachorro, sentado ao lado do amor para namorar. Ligado para a mãe para pedir colo ao invés de dar. Chupado um picolé, destes que mancham a língua. Tomado coca-cola fervilhando a boca. Comido o sonho tão sonhado, recheio de doce. Mas não, não, a mulher está sempre de dieta...Mulher é cheia de nãos.

A menina, hoje, ficou muito fora de meu ser. E eu fora da casinha de brincar. E o amanhã promete mais. Melhor me organizar, pelo menos para rir. Pelo menos para sonhar. Quem sabe me cuidar, dar mais carinho a mim. Ao que ao meu lado está. Quem sabe o sorriso vem e não me larga mais? Quem sabe a menina pega a mão da mulher e a chama para passear...


"Estou na caridade da evolução do meu ser.
Quero ser menina, encontro-me mulher...
Quero ser mulher, vejo-me menina...
Ferreira Gullar

segunda-feira, 14 de março de 2011

Fichinha


Dia cheio, agenda 'lotada', mas frase estava lá a me puxar, feito imã:

"Se você não gosta de alguma coisa, mude-a. Se você não pode mudá-la, mude sua atitude. Não reclame!"

Li essa frase, aparentemente sem dono, e fui atrás do autor/a : Maya Angelou
Nascida Marguerite Ann Johnson, em St. Louis, Missouri, 1928. Maya tinha tudo para dar 'errado": criada pela avó, estuprada aos 8 anos pelo namorado da mãe. Trauma e anos de mudez, finalmente superados com a ajuda de uma vizinha atenciosa, e um grande amor pela literatura. Amor. Reli. Sempre ele a achar, acordar, apoiar, fazer seguir.

Vida cheia de 'primeiras": aos 17, primeira motorista negra de ônibus em São Francisco, e mãe solteira logo depois. Segue sendo a primeira mulher negra a ser roteirista e diretora em Hollywood. Na década de 50 - já como "Maya Angelou", se afirmou como atriz, cantora e dançarina em várias montagens teatrais . Nos anos 60s, amiga de Martin Luther King Jr. e Malcolm X,  trabalhou anos para o movimento de direitos civis. Fez a África como jornalista e professora, ajudando vários movimentos de independência africanos. Em 1970, primeiro livro, I Know Why the Caged Bird Sings, nomeado para o Pulitzer Prize em poesia no ano seguinte. Enfim: poeta, escritora, ativista de direitos civis, e historiadora, entre outras coisas - leia-se atriz, dançarina, e cantora, trabalhos autobiográficos. Em 1993, leu um de seus poemas na posse de Bill Clinton como presidente; este foi um dos pontos altos de sua carreira: recebeu o Grammy de melhor texto recitado pela leitura do mesmo, e novamente a trouxe para a vista do público.

E eu, que tinha começado o dia - ou já desde ontem, porque adoramos nos pré-ocupar das coisas -  me achando um poço de coisas a resolver. A frase me veio como um freio, não dos que endurecem, mas do que incentivam a seguir. Revi minha vida em um minuto. Infância boa de menina loira de olhos azuis, pele branca. Pai e mãe. Colo, carinho, comida. Colégio. O máximo de problemas:  quatro irmãos para lidar, uma educação por vezes cobradora demais, um pouco de bulling ( na época nem tinha sido batizado como tal) , o se achar feia como toda adolescente. O teimar em fazer o que queria. Fui. Fiz. Acertei e errei. Uma vida moldada como deveria ser: fogo e água, como se faz com o ferro para se dar a ele a maleabilidade necessária para a serventia final. Muito riso, pouco siso, muitas surpresas, boas e ruins. Enfim, a vida como ela é. Longe, muito longe de vidas - e mulheres - como Maya. Tantas por ai, umas raras reconhecidas, outras tantas não. Tantas Mayas que dormem com fome e medo, que levantam cedo para batalhar pela sobrevivência delas e dos filhos. Tantas Mayas de punho fechado lutando pela vida de tantas outras. E eu aqui, sentadinha e plugada, reclamando do nada...  

Não posso me punir, nem me vangloriar. Sou normal. Sou mulher. Nem Maya, nem Polliana. Nem luxo, nem lixo.  Nem só erro, nem só acerto. Perda e ganho. Eu apenas, como vim ao mundo e dando a ele o meu melhor. Moldando meus dias. Crescendo e maturando. Mas, baixando minha bolinha e fazendo do meu dia nem paraiso, nem inferno, como o ontem quis pintar. Apenas, presente. Belo presente.

domingo, 13 de março de 2011

Asas




Hoje meu filho faz 16 anos. Como brinco sempre, meu melhor projeto. Um projeto para a vida toda, mesmo que não planejado. Venho quase como uma auto construção, essas que dão belo resultado. Um projeto - ou melhor dizer obra ?- a ser sempre mantida, arrumada, ajeitada.
Cortadas as arestas, arredondados os cantos, um solta e segura sem parar.
Descubro que o tempo voa nas coisas que gostamos. Tenho sentido isso na pele. Parecem intermináveis os momentos ruins - talvez para marcarem presença -  mas passam num segundo os que amamos. Para mim, sempre ligados exatamente a isso: amor. Momentos que escapam entre os dedos porque os recebemos de mãos bem abertas, de peito e coração igualmente e tal, eu diria.
Olho para trás e me lembro uma segunda-feira fria, chuva fina. A mãe de primeira viagem gelada pela ânsia de finalizar  - ou melhor dizer iniciar - uma etapa da vida. Pensando bem, finaliza o 'projeto barriga' carregando-o nove meses com carinho, primeira casa, mobília de medo e sonho. Deste, só sinto falta de não ter tido tempo e paz para curtí-lo a contento, ou merecido. E, então, inicia o 'projeto filho', delicada sutileza, sempre em construção. São 16 anos de base solidamente construída, raízes bem plantadas, aparo de arestas, podas constantes, arredondamentos de  toda ordem , como muita conversa e olho no olho, muito cafune e 'puxão de orelha' também  - para que um dia também ele faça o seu projeto e eu me veja nele. Que se orgulhe do que se fez, semente bem plantada e bem regada. Belo fruto. Deve ser por isso que ganhamos filhos, lindos presentes da vida: deixar pelo caminho um pouco de nós.
Boa semente, só com o que temos de melhor.
Confesso que queria ter tido mais. Uma menina talvez - que minha irmã um dia me disse que seria demais para o mundo, " duas joyces". Mas não me veio e a minha, digamos, documentação,  já me disse que é hora de parar de pensar em besteira. Que minha obra já está bem encaminhada, mas ainda não acabada ( se é que algum dia acaba...) . Que eu capriche, então, já que única. Mas nem por isso cheia de frufrus, de dengos, de manias por desejos sempre atendidos. Ver a emoção de amigos - jovens e nem tanto, seus tantos e queridos 'pais de mentirinha ou de quer'  - quando falam dele, me emociona também. E suspiro: acertei na mão. Acertei no caminho. Acertei.
Hoje meu filho faz 16 e não me sinto velha. Pelo contrário. Sinto-me mais perto da liberdade de quem sabe que deu o seu melhor. E de lhe dar , enfim, asas...

“Dê a seu filho raízes. Mais tarde, asas.”
Provérbio judaico






sexta-feira, 11 de março de 2011

Leve

 

Ontem meu dia me deu muitos presentes, mais parecia meu aniversário! Meu porto me recebeu com belo sol e sorriso na cara. Depois trouxe uma chuva providencial,acalmando e refrescando a tarde.Presentes que esse porto, dito alegre, me traz sempre que aqui aporto. Sempre me surpreende com algo.Sinto-me em casa!
E entre tantos presentes, um filme: Dúvida, com Meryl Streep e Phillip Hoffman, o que já era garantia de um bom espetáculo. Mas foi mais. Emoção pura. Provou mais uma vez  que uma lição pode ser única para cada um de nós. Os filmes tem essa capadidade em mim - e quiçá em muitos, de nos caber onde sentem bem vindos. Para o autor, o tema do filme é o poder do medo - de nosso erros e de nossos tantos segredos -  e da disciplina - aquela que faz com a respeitemos exatamente pelo medo. Isso aprendi logo cedo.
Para mim foi além. Fiquei extasiada em uma cena em que o pastor (Hoffman)  faz um belo sermão. Conta a história de uma mulher que vai até seu confessor segredando que fez fofoca e se ele pode perdoá-la.  O pastor a manda levar seu travesseiro até o telhado da casa, abrí-lo com uma faca e notar  o que acontece.
Ela faz, vê as penas , libertas, espalharem-se pelo mundo, muitas, todas elas. Ao que o pastor dá a ordem: "agora junte-as, uma a uma". A cena é linda, mil penas a pegar rumo na vida, cada um o seu. Cada uma a seu modo. E o desepero de se saber que nunca todas serão recolhidas. "Isso é a fofoca", completa ele.
Não pensei só na fofoca, na notícia fadada a machucar e magoar. Nas palavras torpes que magoam e nos fazem chorar. Fui muito longe,  talvez carregada pela pena mais leve, ou mais emplogada com seu deixar levar. Pensei no quanto devemos cuidar com nossas palavras, nossas ações, nosso sentimentos. Como nos expomos no mundo. Como ele nos vem. No quanto o que se faz ou deixa-se de fazer influenciará, cedo  ou tarde, a vida de alguém, muitas vezes com uma força de alcance  nunca pensada. A palavra que fere ou mata, corrói por dentro. Ou afaga, traz serenidade de pensamento. O gesto impulsivo que maltrata. Ou o carinho feito com  o a intenção de cuidar. No texto que faço para me entender  - e me curar- e como vejo que ele vai longe, bela pena. No olhar que passo confiança do que sinto e do como ele pode fortalecer uma auto - estima atingida pelo vento frio da maldade - ou do falso amor - inclusive a minha, também necessitada de se fortalecer. E do como a coisa volta, como me curo ao saber curando, como me amo ao saber amando. Talvez seja isso, enfim, o tal amor incondicional, aquele que se dá, que se entrega em bandeja querida , sem nem esperar resposta, boa ou má. E que pouca gente acredita, aceita  e se deixa ser amado. Um amor doado, sem intenção além do próprio amar. Um pena que se solta sem nem se preocupar onde vai parar.
Se solto penas, que sejam penas brancas. Se possível, perfumadas. Delicadas, carinhosas.  Que levem leveza e alegria, que circulem na vida na sua melhor forma. Que façam belo espetáculo e , quem sabe, emocionem com sua imagem. E belo texto incluso. Feito pombas da paz.

"O amor é a força mais sutil do mundo".  
Mahatma Gandhi, um homem que entendeu o amor como niguém. Bela pena.


quarta-feira, 9 de março de 2011

Bárbara




Dia estranho, muito estranho. Atípico, melhor dizer. Bem se vê que é  a famigerada Quarta-feira de Cinzas. Chuva de verão na janela, feriado na cidade, eu cansada, um trio imbatível para perder a hora. Acordei 'tarde', com o interfone chamando. Era o meu 'quebra galho', para arrumar um problema na minha cozinha ( 'coisa pouca', minhas cubas simplesmente 'despencaram'...). Eu com sono, meio perdida, cabeça pesada, corre corre logo cedo, entra e sai  ...e sem café! Incrível como as vontades crescem , viram gigantes ameaçadores e chatos, quando a gente não pode alcançar o objeto desejado. Comecei a fazer uma coisa e outra, distrair minha mente aqui e ali, tentando não dar ouvidos aos palpiteiros da vez - aqueles, que nada fazem, nada entendem e nada resolvem mas, aos ouvidos ingênuos, até parecem especialistas. Conhece alguém assim?

Enfim, fora a vontade louca de um bom café - assim, simples, quente e forte, com um pouco do meu querido leite de soja ( nada de cara feia...adaptações que a vida pede...). Resolvi relaxar. Se 'tem que', para que sofrer? Como diz o ditado pop, relaxa e... O que poderia ser uma 'tragédia' matinal , fez lembrar que temos escolha. Poderia eu agora tirar mal proveito disso e ficar mal humorada o dia todo. Reclamando de tudo. Lembrando a cada momentos os 'preciosos minutos perdidos da manhã' - ou até generalizar do tipo 'tive um dia horrível'! Quem ia perder? Eu. A dor de cabeça fatalmente ia aumentar e eu iria colecionar mais problemas. E deles, gaveta cheia. E meu foco hoje é o meu amanhã...

Sobre isso falava ontem com minha fiel escudeira Mon. Uma conversa ótima, sincera, de amigas que parecem que se conhecem há anos, vidas talvez. Só não melhor por não haver o olho no olho, coisas que a gente tem se acostumado nessa era chamada digital. Diálogo de palavras escritas e lidas, não faladas e escutadas. Um diálogo honesto e enriquecedor entre a calma dela e a minha ansiedade. Oriente e ocidente?

Falávamos sobre a vida, sobre as nossas escolhas. Amor  - aqui pela vida, por nós mesmas, o que somos e o que merecemos ser. A forma como nos entregamos às coisas, por menor que sejam, de troca de energias nas redes sociais ao amor desprendido que nada espera em troca. Coisa de mulher. E Sabedoria, que é, resumindo bem, a forma legal que encontramos de resolver bem as coisas. Outra coisa típica de mulher quando está centrada. Coisa típica de quem não se deixa afetar pelo correr estúpido das horas. De quem pensa antes de responder, de agir, não como se estivesse num torneio de tênis. Que sabe tirar o melhor proveito de cada situação. O famoso contornar as coisas - sabemos bem como é. As batalhas que são ganhas, como lembrou uma vez outra bela amiga, Mary, usando-se de belas estratégias. Não por impulso, nem pelo berro. Espernear e berrar só resolve com os bebês e seus pais ansiosos.

Falo de carteirinha. Minha mãe usava de estratégia, sempre - a melhor hora para contar isso, a melhor forma de dizer aquilo, o que passei - e passo - para o meu filho. E meu pai era pura guerra. Uma raiva infinita por qualquer coisa. Um uso de bomba atômica com algo que bem poderia ser resolvido com um estalinho, destes de festa junina. O tal 'tolerância zero'. Vivi muitos anos no meio desse contraste e sei bem como as coisas acontecem. Claro que pede uma certa paciência, um calar de boca que, para quem vê de fora, pode parecer fraqueza. Mas é a mais pura força.

Eu sou impulsiva, não nego. Tagarela das palavras ditas e escritas. Cabeça abarrotada de pensamentos. Mas acho que está ai a força do meu trabalho, do meu texto. Do me ser. Me jogo. Deliro. Dou a cara a tapa. Às vezes dói, muito. Noutras, me sinto bem depois do vendaval. Mas tenho apendido com a amiga Sabedoria - que leva anos para chegar  ( deve vir com as rugas...) - como lidar bem com as coisas, com as pessoas. Principalmente com o Amor que , mesmo tardio, me ensinou que nunca é tarde. Nunca é demais. Chico tinha - e tem - razão. Coisas de chicos.

E treinando com minha nova amiga, a Sabedoria, prima irmã do me Saber, releio o texto e vejo que nem nele os caminhos são fixos, traçados. Até a mente e os dedos seguem caminhos nunca antes pensados. Começamos procurando uma coisa e se acabamos por achar outra. Cabe a nós juntar os dois.
E , com licença, vou tomar meu café. Lembrei que a minha cozinha está pronta para outra...
Servidos?


Bárbara, Bárbara
Nunca é tarde, nunca é demais
Onde estou, onde estás
Meu amor vem me buscar

O meu destino é caminhar assim
Desesperada e nua
Sabendo que no fim da noite serei tua
Deixa eu te proteger do mal, dos medos e da chuva

Pedacinho da letra da música Bárbara, do belísismo Chico Buarque, um daqueles homens que, cedo ou tarde, povoam nossas mentes...Quem sabe é porque juntam o Amor e  a Sabedoria como ninguém?




terça-feira, 8 de março de 2011

Rara



Hoje, como todas sabem - os homens, talvez, nem tanto, só os que ainda, por ventura, estão na fase da conquista - é o Dia Internacional da Mulher,. Assim, em letras pomposas, para ver se dá mais sentido.
Oito de Março. Oito, número de realização. Conforme pesquisa rasa, mas não menos curiosa, nasceu das  manifestações das mulheres russas por "Pão e Paz" , melhores condições de vida e trabalho e contra a entrada do seu país na Primeira Guerra Mundial. A ideia de celebrar um dia da mulher já vinha desde os primeiros anos do século XX, nos Estados Unidos e na Europa, sempre no contexto das lutas de mulheres por melhores condições de vida e trabalho, bem como pelo direito de voto. Na antiga União Soviética, durante o stalinismo, virou elemento de propaganda partidária. Nos países ocidentais, a data foi esquecida por longo tempo - dos 1920's aos 1960's, e somente recuperada pelo movimento feminista. Nessa data, os empregadores, 'sem certamente pretender evocar o espírito das operárias grevistas do 8 de março de 1917', costumam distribuir rosas vermelhas ou pequenos mimos entre suas empregadas'.
Patrões adoçando 'criadas'.
Já o ano de 1975 foi designado pela ONU como o Ano Internacional da Mulher e dois anos depois, eis que surge , enfim, o merecido Dia Internacional da Mulher, para lembrar as conquistas sociais, políticas e econômicas das mulheres, mas também a discriminação e a violência a que muitas delas ainda são submetidas em todo o mundo.
Somos lembradas como batalhadoras, ou fomos, até virar mera 'festa comercial', disputando ser a maior data em que se vendem flores, tendo como rivais o dia das mães e o dia dos namorados. Ou era para ser. Hoje, quando muito, somos lembradas com uma flor na rua, dada nas calçadas. Quem sabe na porta de uma loja, como quem entrega um folheto qualquer de propaganda, cara amarrada. Recebemos e-mails de empresas que querem nos impressionar. Ou, quem dera, de apaixonados mais atentos, flores reais ou virtuais. Mas ninguém lembra de tantas batalhas que começaram por nós - melhor dizer por elas, pois minhas batalhas são parcas e egoístas. Ninguém lembra de tantas anitas que empunharam armas em prol de algo maior, de tantas joanas queimadas, de tantas mulheres desaparecidas exatamente e tão somente por lutar. Tantas rosas que esperaram dias ou anos para viver seus amores separados. Tantas antes mães hoje avós rodando na caminhada corajosa e nunca cansada à espera de saber de seus amores levados em prol de 'nada'. Nem de leilas que mostraram que a gravidez é linda. Nem de tantas outras que perdem a vida 'por amor'. Mulheres que, por um motivo ou por outro, foram  - são! - nossas heroínas. Nem nós mesmas. Estamos muito ocupadas em fazer o nosso mundinho girar...
Hoje, no Brasil, todo mundo sabe que é feriado. Mas de carnaval. A bloco das Mulheres vem bem lá atrás. Mas, enfim, dia lindo. Dia de lembrar desse seres maravilhosos que trazem ao mundo um todo, o novo, depois de meses a encubar. Lembrar como flores, que enfeitam, alegram, e perfumam por onde passam. Mas também como joias, raras, pedras trabalhadas pelo tempo e  pela vida, eternas força e beleza lapidadas. E sonhar que encontremos, sempre, cedo ou tarde, um amado-amigo-amante que  mereça de nós o nosso melhor...
Ah, mas a gente tem , ainda, tanta coisa para falar...

Eu apenas queria que você soubesse
Que aquela alegria ainda está comigo
E que a minha ternura não ficou na estrada
Não ficou no tempo presa na poeira

Eu apenas queria que você soubesse
Que esta menina hoje é uma mulher
E que esta mulher é uma menina
Que colheu seu fruto flor do seu carinho

Eu apenas queria dizer a todo mundo que me gosta
Que hoje eu me gosto muito mais
Porque me entendo muito mais também

E que a atitude de recomeçar é todo dia toda hora
É se respeitar na sua força e fé
E se olhar bem fundo até o dedão do pé

Eu apenas queira que você soubesse
Que essa criança brinca nesta roda
E não teme o corte de novas feridas
Pois tem a saúde que aprendeu com a vida

Eu apenas queria que você soubesse
Que aquela alegria ainda está comigo
E que a minha ternura não ficou na estrada
Não ficou no tempo presa na poeira

Eu apenas queria que você soubesse
Que esta menina hoje é uma mulher
E que esta mulher é uma menina
Que colheu seu fruto flor do seu carinho

Eu apenas queria dizer a todo mundo que me gosta
Que hoje eu me gosto muito mais
Porque me entendo muito mais também

Letra da música "Eu apenas queria que você soubesse" , do imortal Gonzaguinha












segunda-feira, 7 de março de 2011

Feminino




Nesta semana dedicada à mulher, vou falar de homens. Dá forma como - alguns, não vamos generalizar -  vêem a vida, tão diferente da nossa.
Escutei mais de uma vez na minha vida a frase " eu sou assim" por vezes com certa ênfase do tipo "e não vou mudar!". Coisa de homem. Não imagino ouvir uma mulher a falar isso, a não ser que não seja mãe. Ou companheira de alguém. Uma sozinha no mundo, o que mesmo assim pouco acredito. Sempre mudamos...
Mulheres estão em constante mudança. Estamos, sempre, nos moldando às situações. Acho que aprendemos isso com a nossa mãe, que aprendeu com a mãe dela e assim foi sempre, como no encontro de um espelho com outro espelho. De meninas passamos a mulher, de mulher a amante, de amante à mãe - de nosso filhos e , muitas vezes, do próprio companheiro. De mãe a avó, coisa que pretendo ser o mais tarde possível ( não por mim, mas por ele). Quando não somos, por vezes, todas ao mesmo tempo. Estamos sempre acertando as coisas, ajeitando, aparando arestas, mesmo que não seja o que queremos para nós. Mesmo que nos desvie do caminho traçado. Deixando para trás - ou pelo menos de lado - outras tantas até que as coisas se acertem. E somos assim em casa, no amor, no trabalho, na política: basta deixar nosso lado feminino falar. É como se fizéssemos malas de grandes viagens todo dia: sempre cabe mais uma coisinha. Para eles, pura besteira. Para nós, indispensável.
E vou além: já vi muita mãe largando o emprego por conta do filho. Ou por uma tarde em que a febre fez visita à porta sem nem avisar, ou por uns dias se a coisa ficou feia. Quem sabe anos, como sei de muitas. Ou uma vida toda, na falta de outro remédio. Sei de mulheres que mudam totalmente seu estilo de vida para companhar seu companheiro ( cedo ou tarde a vida cobra, mas...). De seus filhos. Da família. Dos pais. Ou que esqueceram seus sonhos - e se esquecem - em prol de alguém - filhos, homens, mãe, pai, sogra....Somos assim, versáteis. Moldáveis. Feitas de argila. Basta água e somos outra. Nova coisa. Nova obra. Outra pessoa.
Os homens não tem isso dentro deles ( desculpem mais uma vez os ofendidos, mas é necessário generalizar para o pensamento não sucumbir às excessões). São, desde pequenos, cuidados. Pela mãe, pelas avós, pelas irmãs, tanto faz. Quem sabe filhas, mais tarde. Não tem o instinto materno, como dizem por ai, coisa de fêmea, que cria até os filhotes de outros, mesmo não sendo da mesma espécie. Um tendo patas, o outro asas. E esquecem o principal: dependemos da felicidade deles. Dependemos que estejam bem. Que sejam felizes. Que se cuidem. Que melhorem sempre. Que cresçam. Que nos acompanhem, principalmente. Se não mudam - e sempre falamos isso mais por eles do que por nós - nos machucam. Nos preocupam. Nos deixam com o coração na mão. Perdemos o sono. Perdemos a razão. Perdemos a paixão. E não adianta o tempo passar: serão sempre nosso meninos.
Ah, homens... Nós sempre nos descabelando por eles - pelo bem ou pelo mal. Bom se acreditassem em Pepeu Gomes e fossem "homens femininos". Na verdade, o ideal seria como pensava Virgina Woolf:

" É fatal ser um homem ou mulher pura e simplesmente: deve-se ser uma mulher masculinamente, ou um homem femininamente".


"Olhei tudo que aprendi
E um belo dia eu vi
Que ser um homem feminino
Não fere o meu lado masculino

Se Deus é menina e menino
Sou Masculino e Feminino...

Vou assim todo o tempo
Vivendo e aprendendo"
 Trecho da letra da música Masculino e Feminino, de Pepeu Gomes, Baby Consuelo e Didi Gomes






























domingo, 6 de março de 2011

Espelho



Assisti ontem, enfim , o filme Cisne Negro - em meio ao dia que jurei dar para mim. Pacote de pipoca como prometido, metade doce, metade salgada, como gosto. E uma daquelas águas com sabor de algo, para pesar menos na culpa.

Primeiro quero falar que têm filmes que é melhor ver sozinha. Desses, que a gente sabe que vai entrar em órbita, nem ver o tempo passar. Que nem vai lembrar - e nem quer - que tem alguém do lado. Onde se viaja dentro de si mesma ( ou mesmo?), sem pressa , entregue. E leva um susto, como levei, quando as luzes acendem e a realidade nos puxa de volta., assim, num ato só, dramático, sem tempo nem para enxugar as lágrimas.

Voltando ao tema do filme, e ao filme em si, uma palavra: superação. Da atriz , Natalie Portman, reconhecida como a melhor. Merecido prêmio, dado aos tantos personagens em um só, em sequencias de tirar o fôlego. E da personagem em si, na briga constante entre ser menina e ser mulher, Cisne Branco e Cisne Negro. Ninguém melhor que uma bailarina clássica para falar em superação. A dor constante, a devoção quase (quase?) doentia, a superação do que para nós, leigos admiradores, já está superado. O deixar de lado a vida real para viver a vida de um sonho, de um outro. A procura incansável da perfeição, como um fim e não como um meio, um caminho. Do custe o que custar, por vezes caindo numa dívida impagável. O incorporar de personagens, como no teatro. O fazer, e fazer, e fazer para se mudar algo por vezes imperceptível, um detalhe de mão, uma entoação. O repetir, e repetir, e repetir até se achar que é o ideal, nesse ledo engano de que o ideal existe, ou persiste. Ou é alcançável. Se não há uma verdade igual para todos, não há um ideal igualmente unânime. Vejo muito disso em tantos amores, os ditos incondicionais: se esquece de si mesmo e se vive o outro.

Mas, enfim, lindo - não no sentido doce de acalmar a alma, mas no sentido amargo de amadurecê-la.  Intenso. Forte. Cheio de contradições. Cheio de sonhos. Cheio de buscas. Cheio de conhecimento e reconhecimento sobre si mesmo. Maldito. Triste, e ao mesmo tempo glorioso. E por isso mesmo humano. Extremamente humano.Fui ao auge de meu encantamento quando senti na personagem que ela atingira seu objetivo. Nem me importei com o final, para mim nada trágico. Meu lado romântico aplaudiu de pé. Vencer aos nosso inimigos, seja qual for a batalha, seja qual for o prêmio. Seja lá o que se espera. O que se sonha. E o que me pegou de vez, o tapa do dia: nosso maior inimigo somos nós mesmos.

Reconheço. Fazemos de nossa vida campo de batalha constante. Lutamos sem dó contra nós mesmos todos os dias, em todas as horas dele. Nas escolhas que sabemos erradas. Sabemos qual o caminho a ser seguido, mas levamos junto nossas dúvidas , incertezas, medos, preguiças até. O livro está lá à nossa espera e nem abrimos. Não aceitamos bem os elogios com medo de pedâncias e falsidades - quem sabe pudores ensinados. Desdenhamos quem nos quer bem. Desconfiamos de quem nos admira. O trabalho vem em nosso caminho e desviamos. As oportunidades aparecem e jogamos na gaveta. Achamos defeito nas coisas. Boicotamos nossos talentos. Somos aquém do que podemos ser - ou nos acreditamos assim. Lerdos em matéria de realização como profissional, como pessoa. Cautelosos demais com os passos com receio de sermos taxados de ridículos, de sermos diferentes, inadaptados. Nos achamos péssimos pais, enchendo-nos de culpas. Até o amor que tanto queremos, negligenciamos. Congelamos diante dele quando nos chega. Colocamos na balança mais o que nos desagrada do que o que agrada. Deixamos no porão dos medos todas as coisas boas vividas. E elevamos ao trono as coisas mal entendidas. Desdenhamos no outro qualidades que queríamos ter. E penduramos num quadro as marcas não tão boas da vida.

Meu horóscopo do ano falava em autossabotagem. Faço. Fazemos. Não nos damos o devido valor. Nem empunhamos as verdadeiras armas em nosso favor. Nem nos defendemos à altura de acusações. Não nos amamos como merecemos ser amados. Comemos migalhas do banquete generoso do vida. Como se ao nos olharmos no espelho, víssemos só o nariz torto, as sobras da pele, a marca do tempo, o defeito de fábrica. Não há admiração. E acho que para isso criaram o amor, a paixão. Nada melhor que ouvir do amado - amante ou filho - como somos lindas. Como somos capazes. Como temos valores a serem ressaltados. Como se fossem eles nosso reflexo do bem. Nosso lado legal. Deve ser por isso que dizem que o amor é cego: tateia até achar em nós alguma coisa de bom. E nos entrega na bandeja dos olhos.

Ah, quem me dera ser heroína de mim mesma. Admirar-me como admiro tantas mulheres por ai. Mulheres iguais a mim. Os tantos cisnes lindos dos dias. Vemos neles o brilho do sol, enquanto nos taxamos de patinhos feios. Quando iremos acordar?


"Há uma inocência na admiração: é a daquele a quem ainda não passou pela cabeça que também ele poderia um dia ser admirado".
Friedrich Nietzsche tinha razão...



sábado, 5 de março de 2011

Rendo-me



Hoje deve ser casamento de um espanhol com uma viúva. lembram? Já dizíamos quando crianças: "Sol e chuva, casamento de viúva, chuva e sol, casamento de espanhol". Brincadeiras e reminiscências à parte, o dia está assim, confuso. Inseguro. Chove, pára. Volta a chover. Inquieto, bem ao contrário das ruas. E parece que conseguiu me contaminar. Ou seria o contrário?
Acordei cedo para caminhar. Caminhar ansioso, não pelas horas, hoje soltas, mas pelo que vou ou não fazer nestes cinco dias em que as pessoas se dividem entre as que se divertem e as que descansam. Não sou nem uma nem outra, tamanhas metas tracei. Ler - estudar, melhor dizer? Quem sabe uma passada de olhos em alguma clarice. Um filme, dos tantos que deixei de ir para não decepcionar meu fiel companheiro de 15 anos, hoje longe de mim, vivendo sua garotice. Quem sabe com pipoca. Não, pipoca não. Minhas metas incluem um certo pudor com comidas. Um cuidado necessário para que não troque as faltas por calorias. Uma salada aqui, uma sopa acolá. Quem sabe um sushi. Um yogurte para acompanhar. Ah, e água, muita, um bom jeito de me tratar. Ver vitrines como quem quer se antenar. Como quem passeia na vida. E só.
Inclui nisso tudo um cuidar de mim.Um banho de sábado, como se diz por ai. Quem sabe dessa vez tenho paciência e hidrato meu corpo. Creme não falta. Creme e bijouteria são duas coisas que sempre tenho, mas nem sempre - ou nunca - uso. Preguiça. Ou quem sabe até um certo pudor. Vou incluir em meus sonhos  - não os de hoje, mas de um futuro sonhado - um amor que me faça a gentileza de me passar o creme onde devo passar. E de quebra onde ele queira passar. E uma massagem nos pés, claro. Eu ia amar.
Mas se eu fosse quem quero ser e estivesse onde quero estar, ficava o dia a todo a vadiar. Intercalando bons filmes e sonecas melhores ainda, um namoro para relaxar. Hora delicado, hora impulsivo. Abraços relaxados ou me pegar pelo braço. Beijo na testa, carinho na face. Ou um grande beijo roubado, prensa de parede. Olhar no olhar. Comeria sorvete. Ouviria a chuva e a música que ele tivesse para me apresentar. Deitaria no sofá ouvindo histórias. Levantaria só para fazer um café. Quem sabe um cigarro para pitar. E ficar assim, ao seu lado, ou em seu colo, olhando o teto, pensando em nada. Esse nada que tem tudo, esse nada em que nada falta e nada sobra, a não ser desejos irresistíveis.  
A chuva vem e vai,  o sol desconfiado, guerra total. Lá fora e em mim. Deve ser pressa que o tempo passe. Deve ser medo que o tempo voe. Dia estranho. A semana promete. A volta temerosa. Mas vou mergulhar, confiar nas palavras de Clarice. Me render. Me entregar. Seja lá no que isso vai dar.

"Renda-se, como eu me rendi.
Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei.
Não se preocupe em entender,
viver ultrapassa qualquer entendimento".
Clarice Lispector

sexta-feira, 4 de março de 2011

Marchando




Nada como ter amiga que sabe das coisas. Ou pelo menos é curiosa, como eu. Ela diz que Carnaval é um período de festas regidas pelo cristianismo. O período é marcado  - ou deveria ser - pelo "adeus à carne" ou "carne vale" dando origem ao termo "carnaval". Rituais - ou tradições - da Quaresma. Dos tempos em que eram respeitados, seguidos. Assustaram? Eu também...
E fui além. O famoso Carnaval de Veneza surgiu a partir da tradição do século XVII, onde a nobreza se disfarçava para sair e misturar-se com o povo. Por isso, as máscaras.  Há, no entanto, registros de folguedos carnavalescos de 1268! Já esse "carnaval moderno", feito de desfiles e fantasias, é produto da sociedade vitoriana do século XIX. E não é 'produto nacional', não se enganem. A cidade de Paris foi o principal modelo exportador da festa carnavalesca para o mundo. Cidades como Nice, Nova Orleans, Toronto e Rio de Janeiro se inspirariam no carnaval parisiense para implantar suas novas festas carnavalescas. Já o Rio de Janeiro criou e exportou o estilo de fazer carnaval com desfiles de escolas de samba para outras cidades do mundo, como São Paulo, Tóquio e Helsinque.
E está no Guinness Book como o maior carnaval do mundo. Em 1995, o Guinness Book declarou o Galo da Madrugada , de Recife, como o maior bloco de carnaval do mundo. Enfim, os maiores estão por aqui.
Ok, chega de dados. É que estou eu aqui em plena sexta - feira de Carnaval com cara de quarta - feira de cinzas, curtindo uma fossa do nada, escrevendo  e ouvindo músicas. E o mais longe possivel das marchinhas que tanto já pulei.
Ah, os bailes de clube. Não me engano sobre a coisa. A gente ia para ser vista e os meninos para nos ver. Sempre gostei e me esforço para saber porque parei. Nem me lembro quando foi. Talvez o clube não me caia bem. Isso já foi, ninguém mais me vê ou me segue. Não me procuram no salão.  Se fosse a um baile destes, estava fadada a ser uma daquelas titias a dançar sem sair do lugar, se abanando com um leque, doida para entrar na roda. Mas ainda não desisti de todo. Quem sabe um bloco de rua, seguir um trio elétrico. Isso se eu tiver fôlego, claro. Ânimo , mesmo - e até porquê. Subo ladeiras íngremes, mas não dou uma volta no salão. Acho mesmo que só se aguenta isso movido a muito 'algo', muito álcool - e  não estou falando o do carro. Ou quem gosta mesmo. Eu não minto, sinto falta. Talvez  tenha me acostumado sem isso e sem tantas coisas que já gostei, como dançar. Ou talvez deteste ficar de fora. Gosto, não nego. Mas não dessa loucura desmedida, mar de gente. Talvez de um carnaval às antigas que nem vivi. Um carnaval romântico, romancizado em mim. Poético, mágico, o sambista de terno branco, lapela com flor. Eu, de saia rodada, minha flor no cabelo, talvez.  Talvez de máscaras, sempre tão misteriosamente interessantes. A banda tocando marchinhas ingênuas. Talvez só me falte a máscara.  Assim eu me divertiria, anônima, e ninguém iria saber. Talvez esteja ai a graça da coisa: ser outra. Ou outro. Personagem da vez.
É...acho que meu carnaval ideal só existe em filme de época... E dentro de mim.

Tristeza
Por favor vai embora
A minha alma que chora
Está vendo o meu fim

Fez do meu coração
A sua moradia
Já é demais o meu penar

Quero voltar aquela
Vida de alegria
Quero de novo cantar
Quero de novo cantar

Tristeza, marchinha de Carnaval de Haroldo Lobo e Niltinho




quinta-feira, 3 de março de 2011

Rosa choque



Louca, eu. Doida de pedra. Rio de minhas ideias estapafurdias, ainda bem. Senão, estaria fadada, eu mesma, a me internar em uma clínica, ontem chamados hospícios.
Diz a lenda - ou conto, ou estorinha para fazer boi dormir ( de onde saiu isso?), que devemos beijar o sapo para fazê-lo príncipe. O que é, no mínimo, nojento. Eu diria que hoje queremos ir além, muito além. E cada dia mais longe dos sapos - que têm lá seu valor, mas não nos servem.
Deixando os bichinhos simpáticos de lado - ou no brejo , de onde nunca deveriam sair para não virar couro seco no asfalto - preferimos beijar o príncipe para ver se vira homem. São todos príncipes enquanto idealizados pela atração. Cada mulher faz em sua mente sua imagem ideal. Mas, cá entre nós,e salvo alguns raros casos em filmes de época, os príncipes passam uma ideia de coisa afetada, certinha, distante e, digamos, não muito masculina. Educados demais, delicados demais, compreensivos demais, perfeitos demais! Tudo demais! Eu - e acho que todas as mulheres com uma pontinha que seja do pezinho bem fincadinho no chão - prefiro homem. E nem precisa ser com 'H" maiúsculo, o que lhe daria uma imponência, superioridade desnecessária, o que a maioria já tem - ou acha que tem - de sobra.
Quero um homem comum , mas não igual, nem mais um. Um que me faça ser como sou e me faça ver isso em mim. Que tire de mim meu melhor - ou pegue emprestado, e devolva, melhor dizer. Herói tão somente da vida dele, o que já um crédito e tanto. Que tenha medos e receios, mas também se entregue. Que veja os meus medos e receios e me ajude a tirá-los de mim - ou quem sabe entendê-los. Que faça o que gosta, que se dedique a algo contrutivo, mas que nisso inclua viver - melhor ainda se comigo. Que mate baratas, sim, mas também nos ouça. Que pague suas contas, sim, mas não fique de 'pãodurice'. Que nos abrace na rua muito mais que por mera possessão. Que nos dê a mão também na vida , mas de forma querida. Que nos abra portas, muito mais que do carro. Que nos exiba, mas muito mais que como um troféu. Que sinta ciúme feito tempero, pimenta, e na medida certa que dê para saborear. Que nos cuide como mulher e às vezes, só às vezes, como criança. Que aceite nosso amar sem se sentir nem poderoso e nem desconfiado. E que veja em nosso olhos o quanto são amados.
Como vocês vêem, mulher não quer um príncipe montado em um cavalo branco. Nem um sapo. Nem um ogro. Quer alguém que ande ao seu lado, nem na frente e nem atrás. Nem acima, nem abaixo. Homens de carne e osso, coração batendo no peito. E atentos. Menos que isso nem vale a pena puxar papo...

Rita Lee já dizia: "Mulher é um bicho esquisito...todo mês sangra"

Nas duas faces de Eva
A bela e a fera
Um certo sorriso
De quem nada quer...

Sexo frágil
Não foge à luta
E nem só de cama
Vive a mulher...

Por isso não provoque
É Cor de Rosa Choque
Não provoque!
É Cor de Rosa Choque
Por isso não provoque
É Cor de Rosa Choque...
Mulher é bicho esquisito
Todo o mês sangra
Um sexto sentido
Maior que a razão

Gata borralheira
Você é princesa
Dondoca é uma espécie
Em extinção...
Por isso não provoque
É Cor de Rosa Choque

Cor de Rosa Choque, de  Rita Lee  e Roberto de Carvalho