domingo, 13 de março de 2011

Asas




Hoje meu filho faz 16 anos. Como brinco sempre, meu melhor projeto. Um projeto para a vida toda, mesmo que não planejado. Venho quase como uma auto construção, essas que dão belo resultado. Um projeto - ou melhor dizer obra ?- a ser sempre mantida, arrumada, ajeitada.
Cortadas as arestas, arredondados os cantos, um solta e segura sem parar.
Descubro que o tempo voa nas coisas que gostamos. Tenho sentido isso na pele. Parecem intermináveis os momentos ruins - talvez para marcarem presença -  mas passam num segundo os que amamos. Para mim, sempre ligados exatamente a isso: amor. Momentos que escapam entre os dedos porque os recebemos de mãos bem abertas, de peito e coração igualmente e tal, eu diria.
Olho para trás e me lembro uma segunda-feira fria, chuva fina. A mãe de primeira viagem gelada pela ânsia de finalizar  - ou melhor dizer iniciar - uma etapa da vida. Pensando bem, finaliza o 'projeto barriga' carregando-o nove meses com carinho, primeira casa, mobília de medo e sonho. Deste, só sinto falta de não ter tido tempo e paz para curtí-lo a contento, ou merecido. E, então, inicia o 'projeto filho', delicada sutileza, sempre em construção. São 16 anos de base solidamente construída, raízes bem plantadas, aparo de arestas, podas constantes, arredondamentos de  toda ordem , como muita conversa e olho no olho, muito cafune e 'puxão de orelha' também  - para que um dia também ele faça o seu projeto e eu me veja nele. Que se orgulhe do que se fez, semente bem plantada e bem regada. Belo fruto. Deve ser por isso que ganhamos filhos, lindos presentes da vida: deixar pelo caminho um pouco de nós.
Boa semente, só com o que temos de melhor.
Confesso que queria ter tido mais. Uma menina talvez - que minha irmã um dia me disse que seria demais para o mundo, " duas joyces". Mas não me veio e a minha, digamos, documentação,  já me disse que é hora de parar de pensar em besteira. Que minha obra já está bem encaminhada, mas ainda não acabada ( se é que algum dia acaba...) . Que eu capriche, então, já que única. Mas nem por isso cheia de frufrus, de dengos, de manias por desejos sempre atendidos. Ver a emoção de amigos - jovens e nem tanto, seus tantos e queridos 'pais de mentirinha ou de quer'  - quando falam dele, me emociona também. E suspiro: acertei na mão. Acertei no caminho. Acertei.
Hoje meu filho faz 16 e não me sinto velha. Pelo contrário. Sinto-me mais perto da liberdade de quem sabe que deu o seu melhor. E de lhe dar , enfim, asas...

“Dê a seu filho raízes. Mais tarde, asas.”
Provérbio judaico






6 comentários:

  1. Fico imaginando como é esse menino... fruto de bela fruta. Invejo o tempo que ele passa contigo. Invejo o par na composição, duplamente. Por fim, invejo esse amor que você não sente por qualquer um, homens vitoriosos.
    Dizem que tem inveja boa é inveja ruim...Inveja é inveja. Sou sincero. É o que sinto.
    Belo texto. Intenso e leve ao mesmo tempo, como a linda escritora parece ser!

    ResponderExcluir
  2. Ah, me emocionei e esqueci: parabéns ao fruto. Abençoado seja. Que lhe dê, ainda, muitas alegrias!

    ResponderExcluir
  3. Não há mais nada a acrescentar...
    Apenas me lembrar de fazer o mesmo com o meu "projeto"

    ResponderExcluir
  4. caramba.... quando eu me 'apaixono' pela mulher, aparece o filho, e esse texto e coisa e tal....E começo o dia, a semana, talvez o mês emocionada, coisa normal ppara quem passa por aqui...
    "Sinto-me mais perto da liberdade de quem sabe que deu o seu melhor. E de lhe dar , enfim, asas"...
    Espero, sinceramente, ser mãe e ser tudo isso que vc é...bom, exagero meu, uns 10% já tava de bom tamanho hehehe Mia, perfeita, nem o mundo merece uauauauauaua
    Paco, vai se sortudo assim no....
    Mia, sempre eu!

    ResponderExcluir
  5. Belo texto, sim. Corajoso, entre tantos outros adjetivos. E eu, Mia, fico aqui, observando de cantinho, com uma pontinha de orgulho, rsrss

    Paco

    ResponderExcluir
  6. "minha irmã um dia me disse que seria demais para o mundo, " duas joyces". "
    Peço desculpa pelo deslize sincero - amor declaradamente perdido, dor de cotovelo mineira - e discordo da mana: o mundo deveria ter te clonado...

    ResponderExcluir