quarta-feira, 9 de março de 2011

Bárbara




Dia estranho, muito estranho. Atípico, melhor dizer. Bem se vê que é  a famigerada Quarta-feira de Cinzas. Chuva de verão na janela, feriado na cidade, eu cansada, um trio imbatível para perder a hora. Acordei 'tarde', com o interfone chamando. Era o meu 'quebra galho', para arrumar um problema na minha cozinha ( 'coisa pouca', minhas cubas simplesmente 'despencaram'...). Eu com sono, meio perdida, cabeça pesada, corre corre logo cedo, entra e sai  ...e sem café! Incrível como as vontades crescem , viram gigantes ameaçadores e chatos, quando a gente não pode alcançar o objeto desejado. Comecei a fazer uma coisa e outra, distrair minha mente aqui e ali, tentando não dar ouvidos aos palpiteiros da vez - aqueles, que nada fazem, nada entendem e nada resolvem mas, aos ouvidos ingênuos, até parecem especialistas. Conhece alguém assim?

Enfim, fora a vontade louca de um bom café - assim, simples, quente e forte, com um pouco do meu querido leite de soja ( nada de cara feia...adaptações que a vida pede...). Resolvi relaxar. Se 'tem que', para que sofrer? Como diz o ditado pop, relaxa e... O que poderia ser uma 'tragédia' matinal , fez lembrar que temos escolha. Poderia eu agora tirar mal proveito disso e ficar mal humorada o dia todo. Reclamando de tudo. Lembrando a cada momentos os 'preciosos minutos perdidos da manhã' - ou até generalizar do tipo 'tive um dia horrível'! Quem ia perder? Eu. A dor de cabeça fatalmente ia aumentar e eu iria colecionar mais problemas. E deles, gaveta cheia. E meu foco hoje é o meu amanhã...

Sobre isso falava ontem com minha fiel escudeira Mon. Uma conversa ótima, sincera, de amigas que parecem que se conhecem há anos, vidas talvez. Só não melhor por não haver o olho no olho, coisas que a gente tem se acostumado nessa era chamada digital. Diálogo de palavras escritas e lidas, não faladas e escutadas. Um diálogo honesto e enriquecedor entre a calma dela e a minha ansiedade. Oriente e ocidente?

Falávamos sobre a vida, sobre as nossas escolhas. Amor  - aqui pela vida, por nós mesmas, o que somos e o que merecemos ser. A forma como nos entregamos às coisas, por menor que sejam, de troca de energias nas redes sociais ao amor desprendido que nada espera em troca. Coisa de mulher. E Sabedoria, que é, resumindo bem, a forma legal que encontramos de resolver bem as coisas. Outra coisa típica de mulher quando está centrada. Coisa típica de quem não se deixa afetar pelo correr estúpido das horas. De quem pensa antes de responder, de agir, não como se estivesse num torneio de tênis. Que sabe tirar o melhor proveito de cada situação. O famoso contornar as coisas - sabemos bem como é. As batalhas que são ganhas, como lembrou uma vez outra bela amiga, Mary, usando-se de belas estratégias. Não por impulso, nem pelo berro. Espernear e berrar só resolve com os bebês e seus pais ansiosos.

Falo de carteirinha. Minha mãe usava de estratégia, sempre - a melhor hora para contar isso, a melhor forma de dizer aquilo, o que passei - e passo - para o meu filho. E meu pai era pura guerra. Uma raiva infinita por qualquer coisa. Um uso de bomba atômica com algo que bem poderia ser resolvido com um estalinho, destes de festa junina. O tal 'tolerância zero'. Vivi muitos anos no meio desse contraste e sei bem como as coisas acontecem. Claro que pede uma certa paciência, um calar de boca que, para quem vê de fora, pode parecer fraqueza. Mas é a mais pura força.

Eu sou impulsiva, não nego. Tagarela das palavras ditas e escritas. Cabeça abarrotada de pensamentos. Mas acho que está ai a força do meu trabalho, do meu texto. Do me ser. Me jogo. Deliro. Dou a cara a tapa. Às vezes dói, muito. Noutras, me sinto bem depois do vendaval. Mas tenho apendido com a amiga Sabedoria - que leva anos para chegar  ( deve vir com as rugas...) - como lidar bem com as coisas, com as pessoas. Principalmente com o Amor que , mesmo tardio, me ensinou que nunca é tarde. Nunca é demais. Chico tinha - e tem - razão. Coisas de chicos.

E treinando com minha nova amiga, a Sabedoria, prima irmã do me Saber, releio o texto e vejo que nem nele os caminhos são fixos, traçados. Até a mente e os dedos seguem caminhos nunca antes pensados. Começamos procurando uma coisa e se acabamos por achar outra. Cabe a nós juntar os dois.
E , com licença, vou tomar meu café. Lembrei que a minha cozinha está pronta para outra...
Servidos?


Bárbara, Bárbara
Nunca é tarde, nunca é demais
Onde estou, onde estás
Meu amor vem me buscar

O meu destino é caminhar assim
Desesperada e nua
Sabendo que no fim da noite serei tua
Deixa eu te proteger do mal, dos medos e da chuva

Pedacinho da letra da música Bárbara, do belísismo Chico Buarque, um daqueles homens que, cedo ou tarde, povoam nossas mentes...Quem sabe é porque juntam o Amor e  a Sabedoria como ninguém?




3 comentários:

  1. Você é incrivel! Essa sua capacidade de virar as coisas do avesso me deu inveja - da boa rsrsrsrs.
    Está ai uma bela lição - mais uma - que você me passa...Amor e sabedoria..
    O que sobra em você, falta em mim!
    Bjs
    Su

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  2. Ah....Su...isso só vem com o tempo e é a tipica coisa que nunca se sabe a contento, todo dia tem que treinar... e quanto mais a vida empurra, mais a gente pega no tranco!
    Beijão!

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  3. Nossa, essa música é tudo! E teu texto ta demais da conta!!!!
    "Me jogo. Deliro. Dou a cara a tapa. Às vezes dói, muito. Noutras, me sinto bem depois do vendaval."
    Viciei uhuuuuuuu
    Bjsssssssssss
    Mia

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