segunda-feira, 21 de março de 2011

Contrária


"Tuas tristezas... o que é feito delas?
Tombaram, como as folhas amarelas..."
(parte do poema Outono, Mário Quintana)

Ah, Outono. Certo estava Quintana, doçura em pessoa, que sempre me emociona. Se já gostava desde pequena, agora amo, estação e poeta. Não que não amasse o verão, tempo de sol , brincadeira e mar, mas para a menina, que já nasceu pensante e escrevinhadora, Outono era - é -  tudo. Inspiração, papel e lápis, por vezes de cor. Nuances de amarelo a marrom, pinceladas de vermelho, verdes secos para dar um tom. Esse refrescar manso, sorrateiro, que a gente só nota quando arrepia a pele. O cair de folhas, uma a uma, dando à arvore a possibilidade de renovação - e ao chão de virar belo tapete. Piso, dançarina, e me sinto rainha de meu reino. O Outono me faz assim, eu mesma. Mulher- menina.

Outono. Não é a toa que as árvores deixam-se perder as folhas. Reserva de seiva para aguentar o rigoroso inverno. E nisso, sábia lição. Ao contrário do Verão, que bate à porta e nos convida a sair e festejar, Outono é transição. Tempo de aquietar. Refletir. Repensar. Rever. Não exatamente para um rigoroso Inverno, mas um aconchegar de pensamentos.Outono pede abraço e colo, coberta nas pernas para espantar o deixar passar o tempo. Chá morno para relaxar a mente e aquecer a alma. Comer raíz, como dizem por ai, para dar base para o resto do ano. Outono é preparação. Da natureza, de mim e de você.

Hoje - e nesse hoje, não um dia mas muitos- Março me diz muito. Diz de mim mais, muito mais. Renasci num Outono, saída de um estado de hibernação de mim mesma, do Inverno gelado de me ser. Minha seiva veio à tona, correu outra vez em mim. Regou minhas rosas. Em pleno Outono, Primavera em flor. Sou contrária. Minha natureza, pelo que vejo, é outra. Acordei meu coração num Verão. E meu corpo num Outono. Meu calendário não é do Sol, é do Amor. Plantei-o sob o sol e colhi belos frutos ainda enquanto minhas folhas caiam. Assim, meio que com pressa. Fome de viver. É meu Sol internoque me faz assim. Meu céu aberto. O  Amor em mim. Sou todas as estações em uma só.
Meu Outono está mais para Quintana. Minhas tristeza tombaram  - e tombam - como as folhas amarelas. Ou para Camus...

"Outono é outra primavera, cada folha uma flor'.
Albert Camus









5 comentários:

  1. Bom dia, Joy!!!
    Lindo texto, como sempre! Dourado!
    Se vê que tem você tem vida própria, luz própria, e o mundo que se vire para te saudar, feito um girassol!Invejaaaaaaaa!
    Deve ser uma experiência e tanto conviver ao seu lado. Ver essa luz que passa em seus olhos!
    Se eu fosse homem, e estou beeem longe disso, desbancava qualquer um, virava seu "Paco"! Ingênua pretensão minha, já que ele deve ser o seguinte rsssssssss
    beijos da Mia!

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  2. Nem sol, nem nada além de uma mulher que se expõe à vida, Mia.
    Beijos,
    Joyce

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  3. A "Mia" tem razão: tem uma luz diferente ai, não sei se nos olhos ou no sorriso. Deve ser pela simplicidade com que se expõe. Não regas mitos, e isso faz de você , um.
    Ou da destreza com que passeia por imagens e palavras...Sou fã do seu trabalho e agora de seus dizeres. Completa!

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  4. LINDÍSSIMO E PROFUNDO, PAREI PARA PENAR E REPENSAR... ADOREI! BEIJOS

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  5. ilustrei com suas palavras o meu blog... e nem pedi licença hehehe... mas seu nome está lá.... beijo

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