domingo, 6 de março de 2011

Espelho



Assisti ontem, enfim , o filme Cisne Negro - em meio ao dia que jurei dar para mim. Pacote de pipoca como prometido, metade doce, metade salgada, como gosto. E uma daquelas águas com sabor de algo, para pesar menos na culpa.

Primeiro quero falar que têm filmes que é melhor ver sozinha. Desses, que a gente sabe que vai entrar em órbita, nem ver o tempo passar. Que nem vai lembrar - e nem quer - que tem alguém do lado. Onde se viaja dentro de si mesma ( ou mesmo?), sem pressa , entregue. E leva um susto, como levei, quando as luzes acendem e a realidade nos puxa de volta., assim, num ato só, dramático, sem tempo nem para enxugar as lágrimas.

Voltando ao tema do filme, e ao filme em si, uma palavra: superação. Da atriz , Natalie Portman, reconhecida como a melhor. Merecido prêmio, dado aos tantos personagens em um só, em sequencias de tirar o fôlego. E da personagem em si, na briga constante entre ser menina e ser mulher, Cisne Branco e Cisne Negro. Ninguém melhor que uma bailarina clássica para falar em superação. A dor constante, a devoção quase (quase?) doentia, a superação do que para nós, leigos admiradores, já está superado. O deixar de lado a vida real para viver a vida de um sonho, de um outro. A procura incansável da perfeição, como um fim e não como um meio, um caminho. Do custe o que custar, por vezes caindo numa dívida impagável. O incorporar de personagens, como no teatro. O fazer, e fazer, e fazer para se mudar algo por vezes imperceptível, um detalhe de mão, uma entoação. O repetir, e repetir, e repetir até se achar que é o ideal, nesse ledo engano de que o ideal existe, ou persiste. Ou é alcançável. Se não há uma verdade igual para todos, não há um ideal igualmente unânime. Vejo muito disso em tantos amores, os ditos incondicionais: se esquece de si mesmo e se vive o outro.

Mas, enfim, lindo - não no sentido doce de acalmar a alma, mas no sentido amargo de amadurecê-la.  Intenso. Forte. Cheio de contradições. Cheio de sonhos. Cheio de buscas. Cheio de conhecimento e reconhecimento sobre si mesmo. Maldito. Triste, e ao mesmo tempo glorioso. E por isso mesmo humano. Extremamente humano.Fui ao auge de meu encantamento quando senti na personagem que ela atingira seu objetivo. Nem me importei com o final, para mim nada trágico. Meu lado romântico aplaudiu de pé. Vencer aos nosso inimigos, seja qual for a batalha, seja qual for o prêmio. Seja lá o que se espera. O que se sonha. E o que me pegou de vez, o tapa do dia: nosso maior inimigo somos nós mesmos.

Reconheço. Fazemos de nossa vida campo de batalha constante. Lutamos sem dó contra nós mesmos todos os dias, em todas as horas dele. Nas escolhas que sabemos erradas. Sabemos qual o caminho a ser seguido, mas levamos junto nossas dúvidas , incertezas, medos, preguiças até. O livro está lá à nossa espera e nem abrimos. Não aceitamos bem os elogios com medo de pedâncias e falsidades - quem sabe pudores ensinados. Desdenhamos quem nos quer bem. Desconfiamos de quem nos admira. O trabalho vem em nosso caminho e desviamos. As oportunidades aparecem e jogamos na gaveta. Achamos defeito nas coisas. Boicotamos nossos talentos. Somos aquém do que podemos ser - ou nos acreditamos assim. Lerdos em matéria de realização como profissional, como pessoa. Cautelosos demais com os passos com receio de sermos taxados de ridículos, de sermos diferentes, inadaptados. Nos achamos péssimos pais, enchendo-nos de culpas. Até o amor que tanto queremos, negligenciamos. Congelamos diante dele quando nos chega. Colocamos na balança mais o que nos desagrada do que o que agrada. Deixamos no porão dos medos todas as coisas boas vividas. E elevamos ao trono as coisas mal entendidas. Desdenhamos no outro qualidades que queríamos ter. E penduramos num quadro as marcas não tão boas da vida.

Meu horóscopo do ano falava em autossabotagem. Faço. Fazemos. Não nos damos o devido valor. Nem empunhamos as verdadeiras armas em nosso favor. Nem nos defendemos à altura de acusações. Não nos amamos como merecemos ser amados. Comemos migalhas do banquete generoso do vida. Como se ao nos olharmos no espelho, víssemos só o nariz torto, as sobras da pele, a marca do tempo, o defeito de fábrica. Não há admiração. E acho que para isso criaram o amor, a paixão. Nada melhor que ouvir do amado - amante ou filho - como somos lindas. Como somos capazes. Como temos valores a serem ressaltados. Como se fossem eles nosso reflexo do bem. Nosso lado legal. Deve ser por isso que dizem que o amor é cego: tateia até achar em nós alguma coisa de bom. E nos entrega na bandeja dos olhos.

Ah, quem me dera ser heroína de mim mesma. Admirar-me como admiro tantas mulheres por ai. Mulheres iguais a mim. Os tantos cisnes lindos dos dias. Vemos neles o brilho do sol, enquanto nos taxamos de patinhos feios. Quando iremos acordar?


"Há uma inocência na admiração: é a daquele a quem ainda não passou pela cabeça que também ele poderia um dia ser admirado".
Friedrich Nietzsche tinha razão...



6 comentários:

  1. Você é assim, não percebe? Nós aqui admirando quem voce é, babando pelos seus textos, e voce acha o patinho feio....
    És um Cisne,e dos mais belos!
    Su

    ResponderExcluir
  2. Entre tantas coisas esse filme nos ensina que precisamos nos "suicidar" para que possamos "renascer" inteiros. Deixar "morrer" ou "ir embora" o que não nos serve mais. Dar aquela virada de 180 graus tão necessária, tantas vezes, ao longo de nossa vida.
    Aprendi que quando nos aceitamos por inteiro, a vida fica muito mais leve. Temos momentos de patinho feio mas na verdade somos todos lindos cines.

    ResponderExcluir
  3. Joyce, lendo e absorvendo o seu texto, não tem como não entrar no contexto, e se reconhecer em diversas linhas,quem ja não se sentiu um cisne branco?quem já não teve atitudes de um cisne negro ?(hipotéticamente falando é claro!). A vida feminina é complexa,exigente,nos ausentamos de nós, desde a infância, quando queriamos agradar a mãe e não sujar o vestido, enquanto o queriamos era pular o muro e brincar de saltar poças de agúa.
    Depois a adolescente se mostra mais complexa ainda,como ser linda e meiga enquanto estamos crescendo e sendo desajeitadas?humanamente imposivel. Mas isso foi feito pra nós mulheres por que suportamos a exigência e nos fortalecemos com os obstátuculos do nosso próprio percuso..e quando a maturidade e os questionamentos veem, estamos tal qual um diamante embaçado, é só lustrar que a beleza e o conhecimento estão ali,a espera de usarmos tudo o que absorvemos, com a luta diária entre ser perfeita, quando nos achavamos falhas e sermos nossa mãe enquanto fomos sempre madrastas.
    beijo com carinho e orgulho de vc!!!
    Geane B.

    ResponderExcluir
  4. Eu só agora li o seu texto, você disse tudo o que eu queria dizer pra mim...o quanto você foi lá no fundo da alma, fico emocionada e digo mais, porque você a partir desse texto escreve um livro? Pense nisso você vai longe.
    Mônina (via Facebook)

    ResponderExcluir
  5. ....estou entorpecida com suas palavras,
    pontuais ao extremo, penso que somos todas
    parecidas em uma busca infindável de acharmos
    qual é o nosso papel no espelho da vida....
    .....e me sentindo muito grata com a sua cura, pois a partir dela me sinto a cada leitura um pouco mais curada....me entendendo, me achando...me amando....
    .....parabéns.....
    Roseli Gomes Moraes (Face)

    ResponderExcluir