sexta-feira, 18 de março de 2011

Leve

Dia perfeito - ou quase, porque bem sei de minhas vontades maiores. Fui a São Paulo, quase um bate volta, e não sei se o dia ou eu estávamos perfeitos -   dentro do que  se possa assim achar. O sono não foi comigo, nem ia gostar de dividir a cama em três, eu, ele e meu filho, ainda mais em cama desconhecida. Sei como ele é cheio de manias, como o amor (mas esse, quando pode, dorme abraçadinho, grudadinho em mim - e eu nele). E como eu o acostumei assim, mea culpa. Tomara hoje ele volte, que façamos as pazes, que ele chegue de mansinho, e me dê bela noite de sonhar..Ando precisada.  
Mas, voltando - antes que adiante a conversa com o amante sono. Meu filho começou o dia brasileiro e terminou espanhol. Mudou até o nome - o que gostei, pois o nome da mãe, no caso eu, agora - ou pelo menos no novo documento - vem depois. Nada mais justo, pensei. E não sei se por isso, ou pela possibilidade de ininterruptas 24 horas sendo o centro de minhas atenções, foi de extrema delicadeza e carinho. Não faltaram beijos e abraços, assim, em público. Não que ele não seja, posto que é grude, mas faltava de mim perceber mais de perto. Estar mais perto. Entregar-me ao amor que me é sincero e puro. Único, em se tratando de amor materno. Dividimos almoço e lanches, cafés gelados e quentes, gostos parecidos. Dividimos vitrines, um apoiando o outro nas escolhas. Dividimos segredos e sonhos. Eu me sentindo uma adolescente; ele, um adulto. Troca boa.
Bom, a noite anterior não foi das mais sossegadas. Barulho, ansiedade, não estar onde eu queria estar, sei lá. Mas o dia me despertou com cheiro bom de café - não sei se pela qualidade ou pelo carinho não esperado. Um cheiro -  e um gosto - que me acompanharam o dia todo. Ainda estão. Primeiro presente do dia. Some-se a isso um momento sempre inusitado para mim - já que não é a minha 'primeira vez': dar comida a macaquinhos. Não, você não leu errado. Macaquinhos. São uns cindo a saltitar seguros no pé de ameixa em frente à janela do apartamento - em pleno agito paulista, em meio a buzinas e sirenes. Lindos, delicados, cara de espertos, esperam a comida. O agrado. Dei frutas, as mesmas que comia. Vieram bem perto pegar. Desconfiados, como sempre, mas não ariscos. Encararam-me com atenção, como que para prever o meu próximo passo - nenhum, além de me emocionar de tal surpresa cena.  Viro criança. Minha menina interior agradece e  se ilumina. Meu olho brilha, não sei se pela visão mágica ou lágrima fugida.
Depois, ainda ao consulado - como pensei, uma pequena Espanha em meio ao Brasil  - espera estranha, mas já esperada. E minha mania - que gosto, podem reclamar - de puxar conversa com o mundo.Uns desconfiam, feito os macacos. Outros se entregam, satisfeitos, como eu. Como da história de vida do taxista - seu Antônio, sempre o mesmo - que conseguiu seu primeiro emprego  ao chegar na capital porque sabia consertar bicicletas. Não, não trabalhava em oficina, mas sim, entregando pão - e outras delicias - montado em uma delas, que não podia quebrar. História divina, de tantos antonios, em uma cidade que já foi mínima. Que já foi humana. Tinha a chave das casas, fazia a entrega do dia em plena cozinha, enquanto os clientes ainda dormiam . Tempo bom. Natais fartos, lembra ele. Baseado em confiança. Uma confiança que se vê nos olhos dele ainda hoje, iluminados pelo passado rico - pelo menos de coisas para contar.
Ou do taxista da volta, escutando clássicos, de bem com a vida. Nem o trânsito lento me entediou. Nem as situações da cidade grande me assustaram. Sentia-me protegida. Some-se a isso uma tarde no shopping, vivendo a vida; uma boa conversa no avião com a até então desconhecida, uma chuva boa de deitar e dormir. Fecho o dia. Não com chave de ouro, por timidez do amor, mas faltou pouco.Quem sabe esse texto é um jeito, meu, torto, de agradecer a vida.
Está chovendo. A voz de Elis me vem  a cabeça. Serão as águas de Março fechando o verão?

E me veio Cazuza:
"Todo amor que houver nessa vida
E algum remédio que me dê alegria"

Mesmo que o próprio remédio não saiba que é!

2 comentários:

  1. Sempre leio teu blog, mas nunca comentei, nem sabia como fazer.Mas hoje criei coragem e cá estou!
    Deves ser uma boa mãe - não das tradicionais,mas das que sonhamos, amiga, companheira, partilhadora. Sorte desse menino!
    E tenho muito o que aprender contigo. Do ver lado bom das coisas. Sou muito negativa. Reviro as coisas. Volto a ponto de partida. Cobro muito da vida. E pouco dou em troca.
    Bom te ler. Bom aprender contigo. Bom passar aqui e procurar minha cura.
    Beijos,
    Ana

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  2. Ana, todos nós temos um dia ruim, um momento ruim, e isso porque parece mais forte viver a coisa má. Fica mais dramático. Novela mexicana rsssss e nossa sociedade parece que só da valor a que sofre...quem se mata de trabalhar, se mata de estudar , quem sofre por amor, e por ai a fora...Ja fui, e sou, assim em muitos momentos e vi que de nada me ajudou, muito ao contrario. Atrasa a minha vida. Para isso serve a idade avançando: apertar o botão certo rssssssssss...F....!:)
    Beijo e grata pelo carinho!

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