quarta-feira, 16 de março de 2011

Outra


Hoje acordei antes do galo cantar, com aquela sensação incômoda de 'muita coisa para fazer". O sono, deitado irritado ao meu lado, levantou apressado, nem tive chance de me explicar. E disse que nem sabe se vai voltar ( nosso romance vai mal faz tempo...). Olhei para o lado, acendi a luz fraca da cabeceira e lá estava ele, meu caderninho laranja, presente amado. E sua inseparável caneta. Meu conforto: recebe sem reclamar tudo que me vem à cabeça, listas intermináveis de tarefas e desejos, sonhos, textos começados, ideias a desenvolver, outras a esquecer, riscar, rasgar. Meu criado mudo. E lá começo eu, no silêncio provável da madrugada,  lista de muitas. Misturo casa, trabalho, viagem, familia, presentes, ações  a tomar. Coisas a resolver dentro e fora de mim. Coisas, muitas, tantas, lista de páginas, em letras de ter que adivinhar quando o sol chegar.
Levanto, minha paciência também me deixou, seguindo o sono.O espelho me assusta, declara guerra à minha pele boa, ao olho aberto e bem colocado, parece inchado. Visto o que tem na cadeira, desço, café na cafeteira, cheiro bom. Tudo na ponta do pé, silêncio calculado, cafeteria em ação, computador ligado, eu ligada, organizo o que tenho que fazer.
Assim começou minha manhã. Prenúncio de um dia atravessado. Nem o amor me ligou. Era pouco mais que meio dia e  já estava cansada. Exausta. Saino sol para relaxar -  ou para me achar. Caminhei. Não sei se por saúde fisica ou mental. Ou as duas.
Manhã tensa, entre o gostinho sublime de riscar a lista e o medo de listar mais, A tarde começou morna e logo voltou a esquentar. A noite veio louca, doida para me atormentar.  Mas a vida é assim mesmo, o famoso "um dia se perde, outro se ganha". O de hoje terminou e ainda estou ruminando coisas que nem deveria. Amanhã  vai ser outro dia, já dizia  a música. Diferente. Novo. Nunca vivido, nem por mim nem por ninguém. Nem eu sou a mesma. Eu, que acordei uma, dormirei outra. E depois, só Deus sabe... mas não conta...

"Vagamente pensava de muito longe e sem palavras o seguinte: já que sou, o jeito é ser".
Clarice Lispector

2 comentários:

  1. Eu, que acordei uma, dormirei outra. E depois, só Deus sabe... mas não conta...
    Admiro sua capacidade de virar a mesa a seu favor... que força tem!
    Segui seu diálogo no facebook e vim parar aqui. O texto é sua cura - mesmo! Que benção!Amém!

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  2. "Palavras são meu tudo, meu início, meio e fim. Escrever é a minha cura."
    eis a resposta!

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