sábado, 5 de março de 2011

Rendo-me



Hoje deve ser casamento de um espanhol com uma viúva. lembram? Já dizíamos quando crianças: "Sol e chuva, casamento de viúva, chuva e sol, casamento de espanhol". Brincadeiras e reminiscências à parte, o dia está assim, confuso. Inseguro. Chove, pára. Volta a chover. Inquieto, bem ao contrário das ruas. E parece que conseguiu me contaminar. Ou seria o contrário?
Acordei cedo para caminhar. Caminhar ansioso, não pelas horas, hoje soltas, mas pelo que vou ou não fazer nestes cinco dias em que as pessoas se dividem entre as que se divertem e as que descansam. Não sou nem uma nem outra, tamanhas metas tracei. Ler - estudar, melhor dizer? Quem sabe uma passada de olhos em alguma clarice. Um filme, dos tantos que deixei de ir para não decepcionar meu fiel companheiro de 15 anos, hoje longe de mim, vivendo sua garotice. Quem sabe com pipoca. Não, pipoca não. Minhas metas incluem um certo pudor com comidas. Um cuidado necessário para que não troque as faltas por calorias. Uma salada aqui, uma sopa acolá. Quem sabe um sushi. Um yogurte para acompanhar. Ah, e água, muita, um bom jeito de me tratar. Ver vitrines como quem quer se antenar. Como quem passeia na vida. E só.
Inclui nisso tudo um cuidar de mim.Um banho de sábado, como se diz por ai. Quem sabe dessa vez tenho paciência e hidrato meu corpo. Creme não falta. Creme e bijouteria são duas coisas que sempre tenho, mas nem sempre - ou nunca - uso. Preguiça. Ou quem sabe até um certo pudor. Vou incluir em meus sonhos  - não os de hoje, mas de um futuro sonhado - um amor que me faça a gentileza de me passar o creme onde devo passar. E de quebra onde ele queira passar. E uma massagem nos pés, claro. Eu ia amar.
Mas se eu fosse quem quero ser e estivesse onde quero estar, ficava o dia a todo a vadiar. Intercalando bons filmes e sonecas melhores ainda, um namoro para relaxar. Hora delicado, hora impulsivo. Abraços relaxados ou me pegar pelo braço. Beijo na testa, carinho na face. Ou um grande beijo roubado, prensa de parede. Olhar no olhar. Comeria sorvete. Ouviria a chuva e a música que ele tivesse para me apresentar. Deitaria no sofá ouvindo histórias. Levantaria só para fazer um café. Quem sabe um cigarro para pitar. E ficar assim, ao seu lado, ou em seu colo, olhando o teto, pensando em nada. Esse nada que tem tudo, esse nada em que nada falta e nada sobra, a não ser desejos irresistíveis.  
A chuva vem e vai,  o sol desconfiado, guerra total. Lá fora e em mim. Deve ser pressa que o tempo passe. Deve ser medo que o tempo voe. Dia estranho. A semana promete. A volta temerosa. Mas vou mergulhar, confiar nas palavras de Clarice. Me render. Me entregar. Seja lá no que isso vai dar.

"Renda-se, como eu me rendi.
Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei.
Não se preocupe em entender,
viver ultrapassa qualquer entendimento".
Clarice Lispector

2 comentários:

  1. "Mas se eu fosse quem quero ser e estivesse onde quero estar"...falas coisas que me assustam de tão minhas, como se tivesses lido meu diário ou coisa assim...Por outro lado, me dou conta que não sou louca sozinha, hehe.
    Sinto em ti um medo enorme de rejeição...Cadê o "Paco" que não corre e te dá um abraço??
    Mia, sempre eu a infernizar a sua vida!

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  2. Oi, Mia, bom ver que não somos sozinhas, não é? Pois é, ando numa maré de medo, a vida cobrando , eu me cobrando e não sei o que é pior... Mas coimo acabo de dizer para mim mesma, mais uma vez, isso passa. Tudo passa. Essa é uma semana importante para mim, decisões, conversas até de mim comigo mesma. Mas, tudo passa se tiver quem nos abrace, certo?
    Beijos, és um anjo, volta semrpe!

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