sexta-feira, 29 de abril de 2011

Atenta



Não. Longe de mim reclamar de mesmice. E mais longe de mim querer sempre a mesma coisa, veneno ou remédio na mesma dose, todo dia no mesmo horário - já que uma amiga me lembrou que até remédio, quando demais, vira veneno - e  mata. Nem entre os meus dias - ontem um fogaréu, hoje abandono.  Nem ao menos dentro deles, que começam de um jeito e terminam de outro. Como o tempo - sol, chuva, frio ou quente, não horas - pode amanhecer chuvoso, como hoje, e rachar o sol bem na hora do almoço, assim, sem nem avisar . Ou, bem ao contrário: sol a pino e sem avisar, cai o céu, temporal.

Não, não estou sendo sincera. Muitas vezes pode vir, sim, um abalo sísmico sem avisar - por mais que sejamos espertos ou estejamos atentos. Quem sabe seguido de tsunami arrasador, como vimos. Mas, na maioria dos dias, tanto o sol quanto a chuva vem avisando, basta saber olhar, e bem para cima. Ou sentir o vento - ou o reumatismo, dizem. Por vezes até o cheiro a chuva. Lembrei de minha infância quando a gente dizia saber as horas  devido ao " vento do meio dia e trinta", ensinado por meu pai, acho. E  sim, lá vinha ele, sempre pontual. E sem porquês. Ou o sillêncio que se faz antes do temporal, quando até os pássaros mais falantes se calam. Como se a própria natureza temesse seus rompantes.E saber diferenciar uma chuva passageira,dessas que refrescam a alma e trazem o perfume da terra em flor, daquela que vem e vai rápido, tão rápido quanto os estragos que faz.


Assim deveríamos ser. Aprender  a se calar à menor ameaça de virada de tempo. Uma conversa que desvia seu percurso, uma outra que se sabe onde vai dar. Como se saíssemos de casa sem guarda-chuva mesmo prevendo o temporal. E esse, digamos, desvio de 'conduta' - aqui não no sentido usado normalmente, mas de certa forma também delicado, em que sabemos pegar o caminho das ondas altas,o famoso 'nadar contra a maré'  fazemos tão somente quando amamos. Com quem amamos. Como se fizéssemos de propósito. Ou como se a tal da 'intimidade' nos permitisse deslizes, descuidos de toda ordem, como se a desculpa fosse algo sempre fácil -  o que nem sempre ou nunca deveria ser ou é. A mágoa, penso, é a pior das inimigas, a mais traiçoeiramente escondida, pronta para vir a tona ao menos desgaste - como se morasse na ponta da língua. Na tal 'intimidade', onde eu e o outro somos ou queremos ser um 'nós', ele lá com as coisas dele e eu com as minhas, mas juntos, damos-nos ao 'luxo ao avesso' de ultrapassarmos os limites de educação, do carinho, do cuidado. Da brincadeira mal entendida. Da palavra mal usada. O que era para ser um sol, lindo dia acompanhado de aragem fresca,  traz nuvens, quem sabe nada passageiras, quem sabe tempestade de arrasar quarteirões - ou corações. Afogar.

E ai não tem como não lembrar da letra da música - ' porque o mal é o que sai da boca do homem'. Ou da boca, do coração, dos olhos, da ação, tanto faz. Mal ou bem, sai de nós. Uma brincadeira vira maldade. Uma palavra errada, descontentamento. Uma frase errada - ou mal entendida, ou mal falada, ou mal interpretada - pode ser o veneno, remédio que se deu demais. Ao invés das cura, ferida.
Mas há de se seguir, se há o amor, nem que seja um avançar cauteloso, quase freio - tanto melhor. Se a gente sabe o que quer. Se se importa com o outro que ali está - e com a gente. Retroceder, sim, antes que tudo se arrase. Antes que a grande onda venha e tudo leve. Que a bolinha de neve vire avalanche e abafe. Fazer silêncio antes que a palavra torta seja cuspida - porque não volta para a boca. Retroceder sem medo de parecer covarde. Se a gente sabe onde quer chegar, o caminho pode ser longo, mas é um caminho. Pode ser torto, mas é um caminho. Pode ser dificil, mas é um caminho. 
E ai vem a frase inspiradora de tudo isso:  "não importa como você vá, desde que você não pare!".

 Ou lembrar da fala simples e sempre sábia de Cora Coralina:

"Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces.
Recomeça".

Amanhã é outro dia, dizia minha mãe, quando achávamos que tudo era o fim do mundo.
Dia de recomeçar, e recomeçar, e recomeçar. E sem parar. Mas, atenta.










quinta-feira, 28 de abril de 2011

Fake



Estava eu tentando sair de fininho para não escrever, dada a hora e o cansaço do dia corrido, mas por ironia do perfeccionismo, vício ou simples necessidade, cá estou. Um olho no texto, outro no relógio. Mas , já me conheço. Subir e deitar, assim, sem limpar  a alma, sem me entregar às palavras, por mais toscas que venham, sem chance de ter uma noite proveitosa com meu amante, o sono. Eu já disse mil vezes que o amo, que preciso dele para ser feliz, mas ele, desconfiado e já acostumado a ser deixado de lado, tem ficado arredio - e com razão. Então, deixa eu me apressar para agradar gregos e troianos, sono e alma.

Dia corrido. Bem fora do meu padrão de conforto. Dia bonito feito sapato de bico fino, daqueles que nos dão duas alegrias: uma quando se calça e acha lindo no pé, e outra quando se tira e deixa os pés livres de suas amarras nada gentis. Pois bem , assim foi. Um entra e sai, vai e volta, um sobe e desce de matar. E em um  cenário nada convidativo: chuvinha daquela fina e chata, gelando até os ossos, como se diz por ai. Mas, só para variar, fiz meu melhor. Deixei todo mundo contente. Cobri bem a agenda...dos outros! A minha, sei lá, quem sabe o dia de amanhã me presenteia com umas 12 horas extras...

Mas , não adianta, o dia traz suas lições, quem sabe a semana: não há como ser ermitão ( a curiosidade mata, mas ensina: ermitã ou ermitoa, tanto faz, no meu caso, mulher...). A famosa máxima " quem não é visto, não é lembrado" existe e funciona. Essa semana dei a cara  a tapa, ou seria melhor dizer, dei a cara ao público ou, melhor ainda, 'dei as caras'. E foi bom.  Tudo tem um lado bom, dizem e acredito. Criei coragem, vesti a roupa de minha personagem e sai da toca. Desentoquei. Saídas rápidas como quem amacia a coisa. Aquece  a máquina, antes de acelerar - se é que vou. Vi poucos e bons, conversei com menos ainda. Mas valeu. Pelo menos para eu saber que não gosto mais muito disso. E ver como vai  o mundo lá fora. Sei bem a toca onde gostaria de me meter e não sair mais...ah, se sei...
Sendo bem sincera comigo mesma, nunca gostei de muita badalação. Sempre cheguei tímida, forcei a barra para me enturmar, fiz, aconteci e sai sem que nem percebessem, coisa minha, bem francesa. A personagem ri e faz rir, mas a menina  fica assustada, e louca para voltar para casa, seja lá onde isso for. Bipolar? Não, não tenho a onda da vez. Meu negócio sempre foi me forçar para ver até onde vou. E quando chegava 'lá', já estava louca para voltar...
Na real? Gosto mesmo é de vidinha caseira, intima, carinhosa. Da conversa em voz baixa e centrada. Da risada espontânea, longe de ser forçada. Da boa companhia de um livro que me faça desligar. De um bom filme que me faça viajar. Da conversa de pé na cozinha, ou na luz intimista da sala de jantar. Da comidinha a dois, feitio e refeição. Do caminhar sem pressa e de mãos dadas. Do enamorar-se da vida no lugar onde se está. De se estar onde se quer estar...
Como disse certa vez o poeta Drummond , o Carlos

 "ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade"...

Melhor eu deitar. Vai que o sono se cansa e me larga de vez?

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Smart?



Maio está ai e , passados o Carnaval e Páscoa, - e em não tendo mais nada para inventar -  o ês ganhou a faixa duplamente feminina:  mês das noivas e 'mês' das mães. Nada contra, afinal o comércio precisa de âncoras de vendas, de fazer as pessoas lembrarem que as noivas ainda existem - e na verdade estão em alta! - e que as mães precisam ser lembradas - o que é uma vergonha.
No caso das noivas, a tradição é importada - como importamos quase tudo, de tendências à coisas, de  palavras a ideias. Até nesse quesito 'mês das noivas' somos dependentes, digamos, do hemisfério Norte, para não entrar em maiores detalhes. Lá, e não aqui, é a temporada de flores, de temperaturas mais amenas, o que faz um período mais propício a enlaces. 
Também as mães são importadas, digo, o dia delas, digo, meu.  Vem das festividades primaveris da antiga Grécia,  'dedicadas a Cybele, a Mãe dos Deuses romanos, e as cerimônias em sua homenagem começaram por volta de 250 anos antes do nascimento de Cristo', achei numa certa busca do mundo nada real. Pelo sim, pelo não, melhor copiar, dados e datas. como um ponto de partida curioso.
Mas não foram tais fatos que me trouxeram até aqui nesta quarta-feira qualquer. E sim, um protesto. Aliás, muitos. Do desrespeito que a mulheres ainda se sujeitam, e  me incluo nessa. Não não falo de grandes problemas como violências de toda ordem, não, posto que esse fato merecia não uma crônica '' engraçadinha ' e sim um texto de  'responsa' como falam os jovens.
O fato é simples: pleno século XXI, ano 2011, e as propagandas e campanhas publicitárias - algumas, claro, desantenadas -  continuam propagando a ideia jurássica de nos dar eletrodomésticos! Se as imagens não fossem atuais e bem trabalhadas, eu até poderia pensar que nada mudou desde uns bons anos para cá - quando era normal- e até chique- ganhar fogões, ferros de passar e batedeiras. As mulheres sairam para trabalhar e os maridos e filhos nem se deram conta...O mundo, como um todo, nem viu.
Isso me faz lembrar uma crônica que li muito tempo atrás, nem lembro mais de quem, nem onde. Mas lembro muito bem do teor e da ideia central, que ainda me faz parar para pensar  -  e rir, se der : 'maldita revolução sexual!' , dizia a autora - mulher, claro.Tentava provar, e com bons argumentos, que a mulher quando quis se  ' equiparar' ao homem, não pensou antes de agir. Que estava comodamente na posição de mãe, de ' dona da casa', de ' do lar' , sossegada em seu canto. Fazia as coisas da casa, cuidava dos filhos, e tinha tempo para ela. Não se via mulher correndo de um lado para outro, o dia todo, tentando suprir as necessidades da casa, dos filhos, do marido e dela, como mulher e profissional. Nem dividindo a conta. Mulher não fazia compras no mercado, não dirigia o dia todo por ai. Não ficava dividida, nem culpada - a não ser se o bolo tivesse 'solado', ou a comida salgada. Ou a camisa do marido não bem passada. Não ficava tentando ser super mulher em casa e no trabalho. Não se 'fatiava' tanto. Tinha tempo para ler, escrever, se cuidar, conversar - nem que fosse com a  vizinha por cima do muro. Tentar receitas. Ver televisão, ser dona do canal. A criançada se virava brincando na rua e nem tinha o leva e traz de aula disso e aula daquilo.  Era a escola  e tchau!
Certa ou não, acho graça. A mulher, na grande maioria dos casos, só acrescenta tarefas. Por mais que tenha quem ajude, por mais que  tente delegar. Ela continua sendo o centro. Central de informações e de serviçoes, como digo. Disk tudo, tele entrega ( junto ou separada?). Parece dessas impressoras que escaneia, digitalizam, copiam, imprimem e coisa e tal. Multifuncional, diz na embalagem. Ou destes celulares de última geração, feito uma 'smart fêmea". Não nos usam mais porque não sabem todas as funções, tal modelo adiantado que somos. A 'nova' mulher se subdivide de tal forma que sobra pouco para ela. Em plena nova era, dar fogão é um ultraje. Chinelinho de ficar em casa, então, é de matar. Fora as piadinhas e ditados que temos que aguentar: TPM , para mim 'Tensão Pré Machismo'  - e muito mais.
E a polêmica segue: o que você, mãe, gostaria de ganhar? Eu? Respeito. Já estava bom demais...
Melhor dar a nós, mulheres, uma boa fábula moderna para relaxar...


'Era uma vez... numa terra muito distante...uma princesa linda, independente e cheia de auto-estima.
Ela se deparou com uma rã enquanto contemplava a natureza e pensava em como o maravilhoso lago do seu castelo era relaxante e ecológico...
Então, a rã pulou para o seu colo e disse: linda princesa, eu já fui um príncipe muito bonito.
Uma bruxa má lançou-me um encanto e transformei-me nesta rã asquerosa.
Um beijo teu, no entanto, há de me transformar de novo num belo príncipe e poderemos casar e constituir lar feliz no teu lindo castelo.
A tua mãe poderia vir morar conosco e tu poderias preparar o meu jantar, lavar as minhas roupas, criar os nossos filhos e seríamos felizes para sempre...
Naquela noite, enquanto saboreava pernas de rã sautée, acompanhadas de um cremoso molho acebolado e de um finíssimo vinho branco, a princesa sorria, pensando consigo mesma:
- Eu, hein?... nem morta!'
The end...

Luís Fernando Veríssimo, claro...

terça-feira, 26 de abril de 2011

Existindo


São sete horas da manhã e eu já vejo minha lista de tarefas pela frente. O sol nem bem deu as caras ainda, e eu já tenho um dia fatiado feito carpácio - e sem tempero algum.
Mulher já levanta pensando o que vai ter no almoço mesmo antes de tomar café. Eu bem tentei tomar o meu bem sossegada, mas que nada. As tarefas da casa já foram fazendo fila em minha mente, como se eu estivesse dando algo valioso a elas. E estou. Eu mesma.
Tarefas. Coisas da qual achei que me livraria tão logo deixasse a escola primária. Ou o tal ginasial. Veio a faculdade e lá estavam elas, grandes e gordas desta vez. Formei-me e elas não pararam de me perseguir. Sou a rainha delas. Ou súdita, seria melhor dizer? Mal abro os olhos e vejo-as se estapeando em minha frente. Viro para o lado para deixar que elas se entendam sozinhas, antes de criar coragem para me levantar. Espreguiço-me ao som tagarelante delas. Enfim, levanto e corro para fazer café, primeira tarefa. Depois chamo o filho , beijo na testa, eu já de dente escovado, outra. Café tomado com ele, que engole e ai a tarefa chata e repetitiva de dizer que "o café é a refeição mais importante do dia" em vão. Mas, mãe é mãe. De quebra - ou de troco - me pedem uma ou outra coisa. Escolho o que vai se comer. as coisas que tenho que fazer, comrpar, arrumar, planejar. Olho o dia para ver se a tarefa de caminhar já está lá fora se alongando à minha espera, minha velha e insistente companheira. Grito que já vou, meio mal humorada tamanha a pressa dela. " Vai dar sol", ela avisa, como que me obrigando a acelerar o andar das coisas. Subo, troco de roupa e calço o tênis. Mas não saio antes de alimentar o cão, já nervoso com meu 'atraso'. Trocar a água dele, tirar a carne do freezer, repensar o almoço, refazer os próprios passos na cabeça para ver se me livro da companhia chata do pensar que "acho que estou esquecendo alguma coisa". Já na porta, lembro de uma , que me chama logo cedo, pontual e diária, eu querendo ou não. E quero. 'A caminhada pode esperar', tento me convencer. Feito 'a coisa', fecho a casa, e ali mesmo,  tentando me encorajar, aviso ao caminhar que as tarefas seguem junto: não consegui convencê-las a ficar. Ela não gosta, era  minha hora de relaxar e eu titubeio: ' eu não relaxo contigo', digo eu, sendo um pouco direta demais, 'só depois quando te largo', completo, mesmo sabendo que vou magoar a grande amiga de meu corpo e de minha mente.Ela resmunga que o dia vai ser longo. Eu acato. E dou de ombros, 'fazer o que'. Fecho a boca , respiro fundo como quem procura a vontade e dou o primeiro passo. O mais dificil. O resto só vai.
Dou bom dia para a porteira, aceno para a vizinha, e sigo, firme em meu propósito. Tento não puxar conversa com as tarefas, mas elas falam alto demais. Tento entender cada uma, enfileirá-las por importância, dividí-las entre as  minhas horas, separá-las por afinidades ou assuntos, e nada. Elas se embolam à minha frente, quase me fazem tropeçar. Tento conversar com o sol, que veio com boa vontade , tentando me distrair, mas elas falam demais! Lembro das minhas aulas de meditação e as dicas de Yoga e  presto atenção na minha respiração, depois no meu pisar. Firmo o abdômen, e com ele a vontade. E assim passa uma hora, eu entre respirar e pisar, elas me cutucando para me chamar. E assim passo o tempo todo entre uma discussão enorme entre o que repiro, o que piso, o que penso, e mais meu relógio de pulso que manda em mim, esse controlador. A caminahda segue feliz, vencedora da hora,que passa e me traz de volta.
Alongamento de despedida de mais uma missão cumprida - e comprida. Repasso as tarefas à minha fiel escudeira - que já é meio dona da casa, dado o tempo que me atura. Banho. Só depois, relaxada e cheirosa, chamo o amor. Como se ele me preenchesse o dia, desse coragem e alegria, coisas que, volta e meia, deixo por ai.  Sento, trabalho - coisa que gosto - e as horas passam. Busco o filho, para almoço e conversa, quem sabe sobremesa. Curto o cão, vejo na televisão o que se passa longe, desligo do mundo e volto ao meu lugar. A tarde passa tranquila , com breve parada quando o filho quer conversar - ou comer. E se não for terça e quinta, um entra e sai, leva e busca. Logo chega a hora da janta, sentar com o filho para conversar , com palavras ditas com a boca, ou com os olhos e o coração, talvez a mão que faz carinho. Nesse momento paro e sou só dele. É pouco, mas é bom. Às vezes, chamo minha menina interior para  brincar. Dali é um pulo para a noite me chamar e o sono dizer que está com saudades. Como se estivéssemos, nós todos, de prosa , ali na sala. Eles me querendo e eu tendo tanta coisa para fazer...
E é nesses dias que não me acho, como hoje. Não deixo espaço para mim a não ser me escrever. Não falo de trabalho, nem de estudo, mas aquele tempo de me olhar no espelho e me ver. De falar e ver como estou, se bem ou mal. Se preciso de algo. Se tem algo que possa fazer para me sentir mais feliz. Essa conversa interessada que se tem com quem se ama. Não esse passar o dia sem nem se enxergar. Olho no espelho mas não me vejo. Mais o dia passa , me arrasta, e me deixo levar. Se tivesse acordado morena , nem tinha notado. E olha que me gosto como sou.
Será que amanhã tudo vai recomeçar? Parece que sim. Já estou pensando em  o que vai ter para o almoço.O dia passou e eu nem vivi...

"Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe".

Oscar Wilde

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Estatuto meu




Passado mais um feriadão, sobrevivi. Sobrevivi ao convívio de quem me queria por perto e de quem não. Fiz um pouco do que queria e  um pouco do que devia - se é que devo algo a alguém. E me expus - e me entendi, talvez me curei - como pude em meus textos, todos recheados de lembranças. Talvez para me tirar do presente. Talvez para me dar base para o futuro, quem sabe. Se Páscoa é renovação, como dizem, tive. Muitos dias tentando me ser e consegui, pelo menos, saber o que não quero ser. E que se danem as tradições!
E descobri em mim coisas novas, como tem me vindo muitas, desde que resolvi me viver mesmo à revelia dos fatos. E o constatado é simples, inteligível para quem tiver boa vontade. Não preciso que me digam o dia - ou os dias, melhor me fartar de vez -  que devo comemorar a vida. Que devo fazer uma boa comida. Que devo me fartar de algo. Que devo fazer surpresas a quem amo, inclusive a mim. Que posso me empanturrar de chocolate, nem que não seja a época. Ou comer bacalhau. Não serão campanhas, nem calendários, nem opositores ou impositores que me farão feliz ou infeliz em um só dia da minha vida. E, revoltada que sempre fui e voltei a ser, serei feliz até em segundas cinzentas e atarefadas. Fareis delas lindos domingos de sol, desses de show em plena praça, vento na cara. Farei dos domingos dia de ficar em casa, preguiça declarada, e bem acompanhada, claro. Um livro, talvez para acompanhar - e uma soneca se ela me chamar. E das sextas, por hora atarefadas, dia de bem viver. Nunca mais terei pressa aos sábados, farei deles feriado. Não para sair e me esbaldar,
porque me esbaldo dentro, sempre. E isso aprendi.
Se me mandarem dormir, acordo. Se me mandarem acordar, durmo. Dou-me, ou melhor , retomo a vontade de me ver feliz o dia que for, faça chuva ou faça sol. De fazer bolinho de chuva em dia luzente. E tomar sorvete debaixo do edredom. Arrumar-me para deitar e desarrumar-me para sair.Ficar sem roupa, se bem me fizer. Banho gelado se for o caso. E banho pelando se me der na telha. Caminhar sem rumo e sem hora para voltar, que é disso que gosto. Tomar coca-cola no café da manhã. Comer carne na sexta santa ou peixe,  mas só se for de minha livre a espontânea vontade. Assim como só de livre e espontânea vontade levantarei da cama para fazer um belo almoço...mas só se for com amor. E para o amor. Farei compra só se faltar algo que me agrade, e pedirei comida se o filme que estiver passando for imperdível. E voltar para cama se estiver chovendo. E lá ficar toda  a tarde. Se assim me der vontade.
Só uma coisa estará garantida: um belo sorriso nos lábios. E umas boas gargalhadas. Regalo da vida, de lamber os dedos. Coisas que minha  menina interior ama fazer...
Cabe aqui a frase de Clarice, uma mulher que parecia sonhar alto como eu:

"Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome".
Clarice Lispector



domingo, 24 de abril de 2011

Doce


Domingo de Páscoa. Poderia estar triste - mais do que já ando - mas não. Já vi que tristeza não resolve nada, só atrapalha. É que deu saudade da infância. Da minha infância e a do meu filho,
hoje um quase homem.
Da minha infância , boas lembranças deste dia. Acordar cedo e procurar as cestas de ovos que minha mãe fazia questão de esconder, sabe-se lá até que idade. Imagino-me, pequena ainda, cabelos loiros e cacheados, pele branca e bochecha rosada, olhos vivos em azul, e ainda de pijamas, talvez de flanela em flor. Como se a lembrança virasse, assim, um filme, película antiga, meio descompassada. Levanto, descalça - até minha mãe ver e reclamar - e corro até a sala, procurando vestígios. Rio, alegre, ao ver as patinhas de coelho esbranquiçadas pela sala (farinha?). Sigo-as como quem segue um arco-iris e , sim, lá está meu pote de ouro - ou de doces , melhor dizer? E ao meu redor, mais quatro criaturinhas, uma bela escadinha, a procurar os seus. Era uma alegria só, e minha mãe - como toda mãe - já logo avisando para não comermos tudo de uma vez só. "Olha o almoço!".
Engraçado que eu nem gostava muito de doces - como ainda não sou muito fã - a não ser sorvete, claro. O bom, que me lembre, era mesmo a caça ao tesouro, a aventura de procurar e achar - se possivel antes de todo mundo! E notar as delicadezas da zelosa e criativa mãe: onde escondia, como escondia, como era o ninho. As cores, os formatos. As cestas feitas de orelhas de papel trançadas - como se no colo do coelho ficassem os ovos; ovos de  galinha tão antecipadamente selecionados, guardados, limpos e pintados - dava até pena estragar. E que delícia o recheio, amendoim açucarado e balinhas coloridas, algumas de anis, coisas que amo até hoje, podem me dar ( não sei se mais pelo gosto ou pela viagem no tempo...) . O que era antes um não gostar virou luxo: gosto, sim, mas só de algumas coisas e, por incrivel que pareça, as mais simples - e nem por isso menos ótimas. Acho mesmo que não sou de muita mistura. Sou do pouco e bom. Como se meu paladar não codificasse tantos ingredientes juntos.Ou porque gosto, mesmo, de comidas de mães e de avós, e imagino que elas não tinha muito tempo para ficar inventando, misturando, esperando ficar pronto : muita gentinha em volta. Doces sábios, como chamo. Pela praticidade e simplicidade, talvez. E que belo resultado!
Ah, e como uma coisa traz a outra! Repeti com meu filho os mesmos gestos. As mesmas pegadas pela casa , os mesmos esconderijos, o mesmo cuidado com ovos pintados. Os mesmos recheios. Descobri , também, como dá trabalho, do manter segredo, a fazer e limpar. E também o quanto vale a pena. Isso me fez lembrar da última vez que o ' seu coelho' apareceu em minha casa. Na  noite anterior, meu filho voltou decepcionado da casa de um amigo onde os pais contaram  ' a verdade sobre os coelhos e quem entrega os doces". Não me fiz de rogada, muito menos de derrotada. Madruguei. 'Seu Coelho' me deu trabalho com suas patas  sujas da terra do jardim. Deixou rastros de lama no muro e  na varanda, restos de cenoura e de alface que eu mesma mastiguei e cuspi. Deixou  até pêlo, ctado na escolhinha no dia anterior, já pensando em dar "veracidade aos fatos". Sujou até o vidro, o safado! Entrou e deixou suas marcas pela casa e até no sofá. E lá estava ele, o ninho, repleto de ovos, de doces e de carinho. E ver meu filho,  também descalço e de pijama de flanela, berrando para todo mundo ouvir - e correr para ver - que ' o coelho esteve aqui em casa, vem ver! ", ah, como diz a propaganda, não teve preço. Ver a carinha dele de entusiasmado, vendo com os amigos  - perplexos! - as pegadas deixadas, a presença do coelho bem marcada, os restos pelo caminho, foi meu melhor presente. Limpar nem foi nada, enquanto pensava que ainda não tinha sido desta vez...
Hoje é Páscoa e , pela primeira vez nestes últimos 16 anos dele,  não teve ninho. Nem ovo. Não quis. Bastaram os maravilhosos chocolates que trouxe da última viagem. Bastou que eu passasse o feriado com ele. Bastou muita conversa e muito estar junto, regado a filmes, gargalhadas e cafuné. Ninhos, penso, só quando vierem os netos. E, pelo óbvio, tomara que isso demore. Aí,  sim, a boa e velha 'Coelha Joyce ' voltará a deixar seus rastros  - e ovos - por ai...E talvez até cante e ensine a velha letra  a uma menininha loira de olhos azuis:


" Coelhinho da Páscoa, que trazes para mim?
Um ovo, dois ovos, três ovos assim!
Coelhinho da Páscoa que cor eles são?
Azul, amarelo, vermelho também!"

sábado, 23 de abril de 2011

Crédito



Parece que a  semana termina temática. Ontem e hoje, em minhas postagens do Facebook,  só deu Amor. E , claro, porque é meu tema de pauta. Porque está em mim. Porque circula em mim feito meu sangue - e como sangue, abastece. E dá vida. 
Começou com uma postagem sobre ele, com dizeres de Ana Jacomo, o que rendeu muitos 'curtir' e muitos, muitos comentários, quase um recorde, eu diria. Sobre a importância de se demonstrar que ama - seja através de palavras ou de gestos - e do porque de não deixar para depois. E a cada comentário um pouco de cada um, homem ou mulher. Sim, digo eu, o Amor está em pauta, e pleno século XXI. Em tempos de guerra e de paz. E pelo visto, de lá nunca saiu. Nem vai. Porque em tudo se põe amor. Sem ele, nada se move. E é agora. Não para depois. Mesmo sendo para sempre.

" Depois é um tempo sempre duvidoso. Depois é distante daqui. Depois é sei lá...", dizia o texto de Ana.

E reforçou hoje - se é que o meu Amor precisa de reforço - com o filme "Cartas para Julieta", baseado, pelo que sei, em livro homônimo. Uma americana em viagem a Verona conhece as 'Secretárias de Julieta", mulheres que tem como hobby responder às muitas cartas deixadas por mulheres apaixonadas em pleno 'muro da casa de 'Julieta'. Sim,  aquela mesma que você está pensando, a 'Julieta' do 'Romeu'. Ao achar uma carta deixada lá por 50 anos, escondida por detrás de uma de suas pedras, responde e ajuda os amados a se reencontrarem. E, claro, como todo filme romântico que se preze, com belo final feliz. Meloso e reconhecido, mas da qual tanto gostamos - e necessitamos, diria. Um feliz sempre esperado, em filmes  e na vida que levamos, real ou nem tanto, já que na vida dita real também há espaço para sonhos - que nos movem. Afinal, ninguém em são consciência  se levanta  numa manhã qualquer disposto a ser infeliz - a não ser que esse 'sofrer ' faça parte do amor, seja seu alimento ou fator inspirador, como aos poetas. Que se tenha ai a distância, as impossibilidades, as impropriedades, as tantas pedras que podemos topar pelo caminho e reclamar. Ou contornar, fazer castelos - ou pelo menos muros de Julieta , muralhas para se proteger.
Texto e filme reforçaram a força do amor. Cada uma de seu jeito. E o filme, a meu ver,  foi adiante: desmistificou o tempo. Fortaleceu a aura imortal do amor. O tempo e a distância  - ou as mágoas, essas, sim, pedras por vezes intransponíveis - não conseguiram matá-lo. Um amor romântico na força real da palavra.Talvez romântico demais, mas quem saberá? Quem duvidará de sua existência, de sua permanência dentro de nós? E vou mais além: quem pode me desmentir que amor é, sim, destino? Ilusão? Que pode estar nos esperando na próxima esquina do dia? No próximo clicar em 'sim', para amores mais modernos? Ou que já nos veio anos atrás e ficou em nós, e já parte de um tipo de DNA? Os céticos que me atirem o primeiro não. Ou me deletem, então.

Talvez, penso eu, o Amor  - gosto mesmo de escrevê-lo assim, letra maiúscula, dada a sua importância para mim, renascida então -  seja mais difícil quando transportado de textos e filmes para a tela real. Seja mais duro se vivido do acordar ao deitar. Que sucumba na correria de preencher os minutos do dia. Que seja menos romântico ao se colocar no papel, não das poesias, mas os tantos do dia-a-dia, nossa realidade escrita em números. Mas, mesmo assim Amor. Não o que se cobra e tem que se pedir. Não o que controla as horas porque o outro demora, e sim porque tem saudade. O amor que deixa o outro livre para o ser. O amor que sente falta até quando o outro está perto, porque só mata a saudade com o olho no olho, onde , acredito, ele mora, alimentado pelas lágrimas da emoção. O Amor que se importa com o que o outro pensa e sente. Com que o outro é e espera, de nós e do próprio amar.

Amar, portanto, Ana, também pode ser esperar. Que o amor se consolide, então. Que pule as barreiras. Que se ponha à nossa frente, em uma breve troca de olhar transparente, sem dúvidas, sem titubear. Que seja o seu momento. Nem que leve , para isso, anos. Quem sabe 50.


"Se você ama, diga que ama.
Diga o seu conforto por saber que aquela vida e a sua vida se olham amorosamente
 e têm um lugar de encontro.
Diga a sua gratidão. O seu contentamento.
A festa que acontece em você toda vez que lembra que o outro existe.
E se for muito difícil dizer com palavras, diga de outras maneiras que também possam ser ouvidas.
Prepare surpresas.
 Borde delicadezas no tecido às vezes áspero das horas.
Reinaugure gestos de companheirismo.
Mas, não deixe para depois. Depois é um tempo sempre duvidoso.
Depois é distante daqui. Depois é sei lá...
Ana Jácomo

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Dia santo



Sexta - feira dita Santa. Para quem não segue as tradições - ou segue, mas só as que interessa, como comer bacalhau -  hoje é 'apenas mais um feriado'. Prolongado, diria, já que juntou-se com o dia em homenagem ao sacrifício de Tiradentes em prol de nossa liberdade em relação a Portugal. Pois é, nos livramos de Portugal,  mas somos colônia de tantos...mas isso é conversa e discussão para outra hora...Mas bem que eu queria ter aquele sotaque tão charmoso...
E antes que eu pegue por esse caminho de colonização e sacrifícios, deixa eu voltar ao porquê de meu texto de hoje: não se fazem mais feriados santos como antigamente. Frase de velhos, eu sei, mas quem sabe sou - ou estou ( um dia todos seremos, lembrem disso!).

Lembro-me bem. Na Sexta-Feira Santa -  e vou escrever com letras pomposas para dar ênfase à data - , era quase que obrigatório a gente se sentir  triste. Ou pelo menos introspectivo - se é que alguma criança entendia isso. Do raiar do sol - ou até antes dele, talvez - e até terminar o dia - e por vezes no próprio "Sábado Santo" - o dia era triste. Longamente silencioso. Entediante, arrisco dizer. Dava até medo. Ou sono. Ou aquela vontade desesperada de rir alto quando a gente menos pode. As rádios só tocavam músicas fúnebres, no máximo clássicos  que, as meus ouvidos infantis, era tudo a mesma coisa.  E era para escutar baixinho. Ou meu pai que tirava não sei de onde  seus discos e nos 'fazia' escutar. Na rádio, vez por outra uma frase, um trecho da Bíblia na voz de um locutor que mais parecia falar de dentro de uma tumba. Ou uma missa, das tantas do dia, como aquela voz que os padres usavam antigamente, voz de autoridade, de quem é o único ser na face da Terra a saber da verdade ( pior que a dele, só a do pai da gente quando  bravo... Ou da mãe quando chamava pelo nome todo...Deve ser por isso que nos davam nomes tão compridos...).Parecia que tomo mundo estava velando alguém (  e estava, só a gente miúda não entendia). Minha mãe ficava mais quieta, meu pai lia seu jornal. Até a televisão só tinha filmes sobre o 'caso' ou atrações nada atraentes. Falava -se baixo, quase sussurrando, e bastava um barulho qualquer para se merecer um olhar daqueles de secar  a alma. Baile? Festa? Dançar? Nem pensar. E olha que não éramos, assim, uma família religiosa, não. Era uma questão de tradição. De costume. E eram tantos...
Sexta feira Santa. Sabia-se de famílias que faziam jejum ou alimentavam-se de canjica ou algo do gênero. Eu tinha mais sorte: era dia de bacalhau. No dia anterior - ou antes, começava a função. Comprar o que se vendia  como  - e se achava que era  - bacalhau. E batata, cebola, tomate e , quem sabe,  azeitonas até. Azeite, não me lembro de ter provado, talvez algum trazido até meu pai, 'importado' da Argentina com belas azeitonas gordas e escondidas para não se achar, e queijos inteiros - que eu devorava aos pouquinhos, discretamente, como quem assume ser um ratinho... Pois bem. Trabalho chato e intenso, como se o próprio preparar do prato já fosse penitência de véspera:  tirar o sal, trocando a água quantas vezes fossem necessárias. E ficar com as mãos fétidas e murchas de  tanto desfiar o bicho, digo, peixe.  Feito isso, sexta era dia de montar o prato. Camadas alternadas do tal, muita batata para render,  cebola cortada , tomate bem vermelho  - ' tudo cortado não muito fino para não desmanchar' , ensinava minha mãe. E azeitonas para dar mais sabor. E azeite para finalizar. Panela montada, fogo baixo e vigília para não deixar queimar. O cheiro  tomando conta do lugar.  E a gente na espera de devorar. Numa outra panela, canjica. E em outra , cocada mole, belo par.  Comer morno, eu gostava. E assim se seguia o dia, esperando o momento de saborear, prato principal e sobremesa. E logo se retornava ao drama de passar um dia quieto. Mas quem reclamaria com a barriga assim, cheia de delícias?Sexta santa era dia de comer bem. Valia  a a pena cada palavra engolida. E a espera do  coelho que, mais uns dias, já estava chegando. E eu tentando entender o que tinha o coelho a ver com Jesus...E como jesus tinha voltado. Mas era muita pergunta e pouca resposta. Dia Santo, história Santa, melhor nem questionar. Vai que o coelho se aborrece e não vem?

Os feriados santos não são mais os mesmos. Hoje se descansa porque o país pára, ou viaja, mas não mais para penitenciar ou rezar. É tempo de descanso - ou festa, até - e nada mais me parece triste ou sequer diferente de qualquer outro feriado. Tudo segue a seu jeito, a não ser por um filme ou outro que passe na televisão, e sempre os mesmos. Ligo para minha mãe e lá está ela a fazer seu tradicional prato - com variações ao longo do tempo mas, com certeza, mágico. E tem canjica , ela me avisa. Com côco e leite condensado. Deu  até água na boca, como dos tempos de criança...

'São saudades de um mundo contente feito céu estrelado.
Feito flor abraçada por borboleta.
Feito café da tarde com bolinho de chuva.
 Onde a gente se sente tranquilo como se descansasse num cafuné.
Onde, em vez de nos orgulharmos por carregar tanto peso,
a gente se orgulha por ser capaz de viver com mais leveza.'
Ana Jácomo



quinta-feira, 21 de abril de 2011

Garfada



"Não coma a vida com garfo e faca. Lambuze-se".
Mário Quintana

Ah, Quintana, bom se fosse sempre assim esse banquete. Doce de regalar, lamber de dedos. Mas os dias, meu poeta, ah, os dias, são tão diferentes - e eu tão diferentes neles. 
Ontem a cidade estava louca, cara de fim de mundo. Nem parecia que vinham por ai dias tão calmos. As pessoas se atropelando, os carros disputando espaços, o mercado super cheio como se fosse o último dia de nossas vidas - ou próximo de uma catástrofe, sei lá. Enfim, a vida da gente se mistura com a dos outros, entramos na mesma sintonia e o dia foi o que se esperava: afobado.
Hoje, a calmaria, contrastes dos dias. Levantar sem pressa, espreguiçando bem ainda na cama, sem minutos a me controlar. Sem o despertar das tarefas a me chamar. Uma refeição com calma e ainda no silêncio da casa - a não ser o cachorro, meu sempre faminto companheiro - lendo um jornal. Uma caminhada bem animada - e presenteada com uma chuva daquelas, nada calma, nada discreta, forte e gelada...pois é. E dai para frente, adeus dia calmo. Mulher é assim mesmo, coisa estranha : mesmo que não tenha, arranja coisas para fazer. Pelo menos eu que ainda estou na lição número um de dizer não ( e acho que vou rodar...).
Banho quente para espantar a gripe  e acalmar a tosse, café para filho, estudada básica para aquecer o cérebro da longa jornada que o espera. Filho com fome. Preguiça de cozinhar. Saida para almoço - um lanche, dada a fila -, umas compras rápidas, um filme no video -  um não,  três , com devolução na segunda. Volta para casa, filme  com filho que teima em pôr as pernas sobre as minhas 'para descansar". Um filme, não, dois. Amendoim e chá gelado, a tarde passa e quase chega a noite. Desço. Sentada à mesa, ligada no lap e no mundo, enfim, meu mundo, agrado aos amigos, recados e promessas. Retomo os estudos, mas o cérebro, antes descansado, me prega peças - e os olhos também. O velho cão pede carinho e alento, além de comida, claro. E o filho, atenção. E a eterna pergunta 'o que tem para o jantar'...e começa tudo de novo.
(pego-me pensando porque se come tanto...).
Enfim, uma pizza trazida de qualquer jeito e engolida como tal. Uns doces de sobremesa, louça para lavar. Um sobe para o banho, o de quatro patas se deita aos meus pé e me esquenta. Parece que o dia termina. Olho o relógio na ânsia de que esteja na hora do sono me cortejar, já que não me deixam ser. Ah, mas ainda falta um texto, esse. Quem sabe termino e me acho na cama?
Tem dias que a gente se deixa levar. Como quem se alimenta, mas não saboreia. Até se lambuza, mesmo que esteja longe de ser o dia o prato predileto. Mesmo que esteja longe o que se deseja - ou pelo menos se espera. Do sabor que se quer para viver. E ai me vem sempre a mesma pergunta: menos um ou mais um? Tem dias que a gente sente saudade e nem sabe, de tão dentro que a saudade está...
Hoje eu comi a vida com garfo e faca, às garfadas, sem nem mastigar. Cruzo os talheres sobre o prato do dia como quem diz 'chega', mas longe de satisfeita.
Menos um dia. Outro dia, quem sabe, eu me lambuzo...









quarta-feira, 20 de abril de 2011

Lúcida



"A vida pode ser mais leve.
Mais lúdica.
Se eu não brincasse, enlouqueceria.
Não posso nem sei ser essa imagem que tanta gente
congelou a respeito do que é ser adulto.

...Passo longe desse freezer.
Quero o calor da vida.
Quero o sonho e a realidade melhor que ele puder gerar.
Quero alguma inocência que não seja maculada.
Quero descobrir coisas que não suspeito existirem e,
que para minha surpresa,
têm significado para o meu coração.

Adulta, quero caminhar de mãos dadas,
vida afora, com a criança que me habita:
curiosa, arteira, espontânea."

Esse texto que me veio, descobri, é da jornalista Ana Jacomo. Sentimento dúbio, inverso, ininteligível. Amei, meu presente do dia. E odeiei. Senti inveja, daquela negra e feia, mesmo.
Confesso. Queria ter escrito. Queria esse texto para mim, assim, egoístamente falando. Queria as glórias de tê-lo pensado. Não dei a autora, nem a  ninguém, o direito de me descrever, de colocar em lugar algum o que sinto em mim, o que sou, o que penso. Sou assim. Já estou careca  - mais do que já sou - de dizer aqui, que preciso de minha menina interior aqui , ao meu lado. Dentro de mim. Sem ela, curiosa e arteira, enlouqueceria, bem sei, bem ela diz. Sem ela me fazendo  rir até de mim mesma, sucumbiria. Se levasse tudo a 'ferro e fogo', como dizem por ai, estava morta. Seca e enterrada, palmos do chão. Ou viva, mas só por fora, como já me vi tantas vezes. Sem esse brilho no olhar que me sustenta. Sem essa malícia na boca que me seduz. Sem a astúcia de me saber viva. De me dar bem com a vida. Sem estar aberta ao amor.
Adulta e triste é como alguns me querem, aqueles que me invejam a liberdade de me ser. Que não em aceitam como sou. Criança sapeca e arteira é como me vêem os que me amam. Os que me cuidam, que me fazer sorrir. Os que me gostam como sou, pacote completo. Os que gostam da minha gargalhada solta, do meu sorriso fácil, do meu olho que verte emoção por tudo e por nada. Porque, para me amar, basta pouco. Basta me olhar de modo sincero e ver em mim  o que sou. O que tenho a  dar - e é muito, vão descobrir. Um dar sincero, sem nem cobrar centavo em troca. Basta me querer. Basta olhar com os olhos de quem me quer ver. Inteira, completa, complexa, sapeca, arteira, sem 'eira nem beira', sei lá. E desvendar neste olhar meu melhor a dar. E merecer. Meu jeito de me doar.

A vida pode ser mais leve.
Mais lúdica.
...Se eu não brincasse, enlouqueceria.





terça-feira, 19 de abril de 2011

Vertendo



Engraçado. Do 'nada " me vem um texto. Brota da terra molhada e fértil de meu ser, sempre atento. Meu pensamento pega uma estrada, por vezes florida, outras seca, muitas outras engraçada, e se perde nos campos da vida. Ando sem rumo, me deixo levar, só para ver aonde me leva. Por vezes corro, feito criança, tamanha emoção.
Agora mesmo me veio a arte. Como ela me faz bem. E falo de qualquer arte, a das galerias famosas e seus quadros cercados de segurança, e  a da feira da esquina , feito por alguém, ou do escultor da praia. E até do que não acham arte, eu acho. Todo tipo de arte me fascina. E ponho ai a arte dos artistas plásticos, a arte dos arquitetos, a arte dos designers, dos decoradores, dos fotógrafos, dos poetas, dos músicos, dos escritores, dos artesãos...Dos artistas de palco, dos artistas de circo, dos grafiteiros, todos, enfim, que me encantam com sua arte! Tudo que me toca, tudo que me emociona, tudo o que em impulsiona. Tudo que me levanta os pêlos ou me molha os olhos. O que me faz suspirar ou até parar de respirar. Tudo é arte. O que me entristece com sua realidade e o que me encanta com seu deslumbramento poético. Arte de pé no barro ou de cabeça no vento. Tanto faz, tantas artes, amo todas elas!
Sou pura emoção - o que incomoda muita gente , feito a 'musiquinha do elefante' (quem não lembra, não teve infância...). Uma Joyce emocionada incomoda muita gente. Várias joyces emocionadas, ah, incomodam muito mais. E, sim, é mais um defeito de fábrica, sem possibilidade - a mais remota que seja - de se refazer a coisa. Sou daquelas que curte uma boa propaganda -  e chora se for essa a ideia do autor. Que se debulha em cena de filme ou ao escutar a música que lembra o amor. Emociona-me um cheiro, uma cor, um sabor - o que me faz fazer muitos sons enquanto provo da iguaria. Quem quiser que aguente.Ou admire.
Emociona-me os olhos de Quintana, o boneco, eu sentada a admirá-lo. A dança a dois na sala ao lado. O bater de pés da flamenca bem marcada. O detalhe da arquitetura bem pensada. Emociona-me o olhar que muito me diz, bem sabe o amado. Emociona-me o sentimento simplesmente revelado. O carinho não esperado. O beijo roubado. O abraço enlaçado. A letra que me leva longe. A melodia que me traz para perto. O caminhar despreocupado. Emociona-me viver, seja lá como isso se dá. E assim me leva.
Para terminar em sorriso e não em lágrima, brinco com a letra da música bem pensada:
'Qualquer maneira de emoção vale a pena, qualquer maneira de viver, valerá!'
Que me desculpem Milton e Caetano. Ou não.




É vida vida amor brincadeira a vera
Eles se amaram de qualquer maneira a vera
Qualquer maneira de amor vale a pena
Qualquer maneira de amor vale a pena

Pena que pena que coisa bonita diga
Qual a palavra que nunca foi dita antes
Qualquer maneira de amor vale a aquela
Qualquer maneira de amor vale amar
Qualquer maneira de amor vale a pena
Qualquer maneira de amor valerá

Eles partiram por outros assuntos muitos
Mas no meu canto estarão sempre juntos muito
Qualquer maneira de amor vale o canto
Qualquer maneira de amor vale amar

Eles se amam de qualquer maneira a vera
Eles se amam é pra vida inteira a vera
Qualquer maneira de amor vale a pena
Qualquer maneira de amor vale amar

Pena que pena que coisa bonita diga
Qual a palavra que nunca foi dita diga
Qualquer maneira que eu cante esse canto
Qualquer maneira de amor me vale cantar
Qualquer maneira de amor vale aquela
Qualquer maneira de amor valerá
(Letra da música Paula e Bebeto, de Milton Nascimento e Caetano Veloso)

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Benvenuta



Dia contrariado, segunda estranha - mais do que tantas! Chego em casa de viagem antes do dia clarear - minha rotina desde que teimei em estudar fora - e o que vejo é o caos. Dois homens  - será que são? -  em casa , sozinhos, em um fim de semana , e o até então lar bem cuidado mais parece daqueles que achávamos graça nos tempos de estudantes, sem pai , nem mãe. Nem juizo e nem bom senso, vale  dizer. Entro e não a reconheço. Não me reconheço nela. Não me acho dentro dela. Nem na pia cheia de louça e lixo. Nem na mesa cheia de compras erradas. Nem na sala feita de depósito. Muito menos no armário cheio de falsas comidas - um batalhão delas, capaz de infartar o mais cuidadoso dos mortais. Como se nada ali fosse meu. Nem casa mais minha também.
Então me vem a frase do grande poeta Pessoa, o Fernando, presente do dia:
"O homem é do tamanho do seu sonho".
Dou uma gargalhada e penso em tantas brincadeiras que faço e participo e me imagino enorme! Uma baleia gigantesca encalhada na praia errada! Se vai sobreviver, só Deus sabe. Ele não a fez para aquele lugar. Se ela teima em voltar, e voltar e voltar, de quem é o erro?
Sim, sou enorme. Se sou do tamanho de meus sonhos, nem caibo em mim. Nem no mundo, esse, que se diz meu. "Tenho em mim todos os sonhos do mundo", disse o mesmo poeta certa fez.  O meu, depende do dia, e da ocasião, feito a que faz o ladrão.  Hoje me sinto enorme. Meus sonhos são muitos, um apanhado de boas coisas, nem todas mensuráveis e fáceis de se achar, como paz e sossego. Parece ser bem o contrário. Enquanto alguns sonham com a  casa cheia de eletrose outras mordomias, eu sonho com uma casa cheia de  mim. Enquanto outros sonham com a Megasena acumulada, eu só quero o suficiente para não morar debaixo da ponte. Um lugar só meu, com a minha cara, com o meu jeito. Meu cheiro, minha gargalhada no ar. Com "meus livros,meus discos e nada mais", como cantava Elis. E lá, não depender de ninguém nem para ser feliz.
A não ser do amor.

domingo, 17 de abril de 2011

Pausa


Domingo.  Podia ser mais um daqueles chatos, sem muita perspectiva, mas tenho feito deles uma benção, e não praguejamento. Uns dizem que é  o último dia da semana, outros o primeiro. Dia de pipoca e missa nas pequenas cidades. Dia de se isolar em casa nas grandes. Dia de almoço na  mãe - ou na sogra - para quem pode, ou quer. Dia de comilança. Na minha infância, galinha, maionese e macarrão. De bolinho de chuva. De biscoito de vó. Dia de se fazer e receber visita, dizem. Dia de tudo ou de nada, pelo que vejo.

Domingo. Para mim cheira a pausa. Parada obrigatória, até. A sabedoria do passar dos anos me fez ver que , sim, posso me ser uma bela companhia. Que o silêncio e o "nada para fazer" podem ser uma benção e não castigo, desde que não se espere muito. Tiro o dia para passa a vida  a limpo. Como que fazendo uma revisão do que passou e  planejar o que vem, tanta coisa! Pode ser gavetas  - de roupas ou de pensamentos. Podem ser fatos, conquistas, batalhadas ou simplesmente ganhas. Podem ser sonhos, destes que se sonha sozinha ou bem acompanhada.Tanto faz. Aprendi a  esperar também. E essa pausa tem me feito um bem danado.

Esperar. Engraçado isso. Não sabemos do futuro, nem do amanhã. Não sabemos do que será de nós hoje, ou daqui a alguns segundos. E mesmo assim, planejamos tudo. Listamos. Fazemos escolhas, desde o acordar até o dormir. Fazemos contas de coisas que se quer. Sonhamos, sem nem saber - porque tudo que ainda não se tem mas se quer, é sonho. Seria isso a tal esperança que dizem que temos que ter? Imagino que sim. Eu ando que é uma agenda aberta, quase um diário. Ponho ali tudo o que sonho e ser e ter e vou pensando nas diversas formas de chegar lá. Vivo de listas, meus norteios pequenos. De menos tempo perdido a mais revertido em prol do que listo para mim. De mais sonhos e menos desesperanças.  De menos tristeza  e mais alegria. De menos promessas e mais ação. Ou até de coisas ditas, paupáveis, contabilizadas em números. Como menos peso e mais saúde. 

Para quem ainda não me conhece ou me lê faz pouco tempo, melhor explicar. Sou gavetas, muitas delas. E nelas guardo tanto as coisas boas como as ruins. Das coisas resolvidas a contento, guardo pequeno resumo, como que para me lembrar da força que tenho. As não resolvidas, boas ou nem tanto, guardo em uma gaveta de fácil acesso, assim não tenho como esquecê-las, deixá-las de lado. Ah, e as coisas boas em uma gaveta perfumada. Assim, basta abrí-la e me vem o perfume  e as boas lembranças. Tenho ainda a gaveta dos planos - e tenho , muitos, quase abarrotada já. E nela separo os sonhos em envelope à parte. Porque sonhos nunca devem ser esquecidos. Planos pode mudar com o tempo, porque nós também mudamos. Mas sonhos, esses meus, desses que se sonha acordada, desde menina,  e se pensa nele com carinho, esses não mudam. Podem mudar de forma, tamanho e até cor, podem mudar de perfume e até de destino, mas seu contéudo é o mesmo, sempre. E sempre será.

Para os planos, tenho aberto gavetas anuais também. Planos a  curto, médio e longo prazo. Os de curto prazo, curto-os e  tento correr atrás, se me são possiveis. Os de médio, vou levando, achando caminhos ou atalhos, passo a passo conquistados - e um alívio demorado de bom. Os de longo, cuido com carinho. Uns se confundem  com os sonhos, ou os consolidam. E todos têm um final comum: ser feliz. E disso não posso abrir mão. Nem quero. Não seria justo comigo e nem com o que me amam. Deve ser para isso a vida: sonhar e realizar.

Mas não me assusto,não. Tenho sonhos, sim, muitos, mas todos simples - feito aqueles açucarados e recheados, com gosto de infância, dedo lambido. Se vêm em bela caixa ou  simples guardanapo, tanto faz. Interessa é que tenham o gosto bom do conquistado. Do conseguido. Do que é meu. Gosto bom de me ser.
Bom hoje é domingo. Vou abri mais uma gaveta e ver se o que tem lá dentro me serve. Ou não.

"Se quiser derrubar uma árvore na metade do tempo, passe o dobro do tempo amolando o machado",
diz o provérbio chinês.
Ou arrumando as gavetas,
digo eu.


sábado, 16 de abril de 2011

(A)corda


Por tanto amor
Por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz
Manso ou feroz
Eu caçador de mim

Preso a canções
Entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar
Longe do meu lugar
Eu, caçador de mim

Nada a temer senão o correr da luta
Nada a fazer senão esquecer o medo
Abrir o peito a força, numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura

Longe se vai
Sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir
O que me faz sentir
Eu, caçador de mim

Ontem não escrevi. Dia confuso, intenso, que me cansou até de mim. Deve ter sido por isso que acordei hoje bem antes do galo cantar. Aliás, cá entre nós, sempre achei o dormir - quando não se quer ou se tem coisa melhor para fazer - uma obrigação. Sempre me vejo contando as horas que passei na cama para ver se agrado aos tantos médicos e suas dicas. E vejo que sempre faltam horas para as contagens deles e sobra para mim. Como se  a vida fosse matemática da mais pura. E ai fica aquela  incômoda discussão interna entre meu lado físico e meu lado cerebral, dois 'chatos de galocha'. Um reclama -  sempre!-  que dormi pouco, que assim não vai aguentar mais um dia. O outro, que é invariavelmente quem me acorda na madrugada para conversar, não está nem ai: acorda à mil, ganhou mais uma batalha, o intrépido lutador. Ah, e meu emocional? Já descobri. Detesta mais é que eu fique caraminholando na cama, girando de um lado para outro.Não, não tenho Síndrome das Pernas Inquietas, não. Minha síndrome parece ser outra: Sindrome do Cérebro Inquieto. Defeito de fábrica, sinto dizer, não arruma mais. Meu ditado é um pouco diferente: cabeça que nasce à mil , morre à mil.
Deve ter sido por isso que acordei com essa música na cabeça. Devia eu estar me caçando na noite barulhenta, destas que parece que ninguém está nem ai, trocou o dia pela noite e o resto do mundo que se resolva. Hoje estamos sonolentos , convivendo com o capeta, e eles, penso, dormindo feito anjos, imagino.
Mas enfim, não sei se foi o barulho da noite, o calor das horas, o documentário realista que não devia ter visto. Ou essa tosse que resolveu fazer morada em mim - e nela muito de emocional, desconfio - mas meu cérebro veio à toda desde cedo, muito cedo. E trouxe com ele essa música que diz que nada devo temer a não ser a luta. Nada a fazer senão esquecer o medo. Abrir o peito numa procura. Fugir às armadilhas da mata escura - ou da noite escura?
Paro, penso, pego o que me serve e deixo o restante seguir viagem - dou até lanche.
Noite mal - ou pouco - dormida é assim. Fico alerta. Como se esperasse alguma coisa. Os cães que latiram na nada calada da noite , dormem. Os festeiros também. Eu? Sigo como dá. Tenho aula, e daqui a pouco. Só espero que meu cérebro não faça amizade com o sono - que anda 'bem' de mal comigo, quem sabe se vinga dessa forma. O dia vai pedir e vou ter que dar. De onde vou tirar ainda não sei.  O que e  até quando, não sei. Melhor fazer um café para me acordar. E fazer desse dia não 'só mais um dia' e sim, um bom dia.

Por tanto amor
Por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz
Manso ou feroz
Eu caçador de mim

( Caçador de mim, música de Luís Carlos Sá e Sérgio Magrão,
 eternizada pela voz doce de Milton Nascimento)




quinta-feira, 14 de abril de 2011

Predestinada


Se tem uma coisa que me move é a sensibilidade. Alimenta-se, melhor dizer. Basta parar e deixar ela vir à tona. Basta estar ali, de frente ao amor, e ela vem, delicada e sorrateira. Soa como um desabafo. Como se deixasse sair um pouco de mim, lágrima ou sorriso.
Num surto de leveza, lembrei da infância, e das tantas palavras que falava errado. As perseguia ao saírem da boca do outro, paii, mãe , vó, tia, ou um dos irmãos. E as adaptava ao meu bem entender. Aprendi cedo a me interessar por elas, mas do meu jeito. A me apropriar, devida ou indevidamente. Eram eles quatro irmãos e eu na mesa da sala de jantar. Eles com seus estudos, caderno e colagens. Eu, ciumenta , da tarefa que não tinha, da professora que não conhecia, dos colegas que não encontrava. Do ir e vir da escola, ainda proibida para mim. Não esperei. Aprendi ‘de ouvido’. E foi ‘um parto’ me manter na sala de aula quando enfim me aceitaram, pequena ainda. Já sabia ‘mais que a professora’, pensava, enquanto chorava. Ela vinha com “be mais a dá bá” e eu já vinha com a palavra toda na ponta da língua – bala, banana, e o que mais me lembrasse. Um suplício ir à aula da professora ‘burra’. Cabia à minha mãe, artista dos pincéis e da vida, mandar agrados, para mim e para ela, além de maçãs. Como uma desculpa, um porque, bem mais que aprender. Virou ter que ir...perdeu a graça...Até redescobrir o gosto. E por conta própria.
Com seis já fazia poesia, e bem rimada, trabalhada já, escrita em lindo caderninho presenteado para tal – para me incentivar ou sossegar. Ilustradas com meu melhor desenho. Ainda o tenho, foto na primeira página. A primeira investida falava do mar. A palavra mal escrita, corrigida a tempo. A letra mal desenhada, mas já a caminho de se descrever. E dai para frente, cadernos de me entender. Recortes de poetas, letras de música e no meio muito eu. Toda eu , adolescente. Textos bem ou mal escritos, mas meus. Poemas sofridos, apresentações, prêmios, livro. Uma só, um só e me bastou: sou poeta! Ah, e a queridinha das freiras. A intocável. Aos olhos delas, até o pular de muro do colégio para comprar sonho na padaria era fácil de se desculpar. O que para os outros era quase um crime, para mim soava como leve.Era a artista.
Vi cedo que o que importa é bem falar, bem escrever. E me esmerei onde deu. Já na faculdade descobri que o importante é ter lábia – mesmo diante de um projeto mal desenhado, jeito atrevido de ser. Ah, sim, acompanhado de belos textos, sempre os meus os escolhidos. Assim me protegia da total falta de jeito com o traço, firme, mas não definido como a ocasião mandava. Boa de ideias, preguiçosa de pôr em prática, coisa que ainda sou. Meu reino são as palavras, sempre, bem escritas ou bem faladas, fazem parte de mim. Desde que nasci. E vou até o fim.

Quando nasci veio um anjo safado
O chato do querubim
E decretou que eu estava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim
(Até o Fim, de Chico Buarque)


quarta-feira, 13 de abril de 2011

Beija!



Descobri por acaso: hoje é o dia do beijo, Nem vou pesquisar sobre, se é brasileiro ou mundial, tanto faz. Meu interesse é no dia. Bem, não exatamente no dia e sim no homenageado dele, o beijo. 
Ah, hoje é dia de beijo. E têm tantos deles. O de filha no pai, de filha na mãe, o dos filhos nos dois, da mãe no filho e quem mais vier - pois no coração de mãe cabem muitos - , na tia que se visita, na avó que se tem saudade, na amiga que se encontra, na pessoa que se apresenta quando se é, assim, 'dada, coisa de sulista, talvez. Pode se dar um, ou dois, ou três. Ou muitos quando o carinho é muito. Pode se dar de homem com homem, de mulher, com mulher -  respeito, amizade ou amor, tanto faz.
Ah , beijo. Falo do beijo de amor - ou sabe-se do que lá é. Paixão, desatino, amor, então. Tem o primeiro, geralmente mal dado, dada a meninice da hora, mas para sempre recordado. O meu foi horrivel e achei que nunca mais iria gostar.  Ledo engano. Mas com uma certa verdade, 'causo' que beijo pede muito mais que amizade. Pode se dar beijo por dar, coisa que se faz muito enquanto se cresce - ou se espera crescer - enquanto não se sabe ainda, por certo, o que esperar dele. Ou daquele que se dá por dar, para não ficar para trás. Ou não perder o casinho, coisa pequena. Ou iniciar um romance que nem se sabe onde vai dar. Quase um experimentar, uma degustação, um trailer  de um filme que começa -  nem sempre fiel ao que se vem. O final feliz nem sempre é certo, nem mesmo o gostar do enredo, história contada. Só se sabe no durar  - e no enrredar de corpos - se vai dar audiência - ou não. Se o final é feliz ou termina no ato, simples assim. Bem sabem disso as 'mulheres da vida', que não beijam...sabem diferenciar.
Ah, beijo, diz muito mais que anos de convivência. Segundos - ou minutos! - que dizem mais que uma vida. Como uma apresentação de longo livro: ou encanta, e se devora o todo, sem titubear - destes que só se pára quando se acha a outra capa. Ou se deixa de lado, mesa de cabeceira, para ver no que dá. Desprezo, desleixo, sei lá.  Muito mais que dividir a cama ou o tocar de escovas de dente. Um livro aberto com a lìngua, página por página, degusta. Uma leitura nem sempre dinâmica do que se é, do que se quer.  Do que o outro quer. Do que os dois querem, melhor assumir. Porque beijo - o seu gostar - não vem sozinho. Começa na troca do olhar. Do olho na boca do outro. Do fechar deles, como que para esquecer do mundo. No gosto com gosto. Como se beijo fosse um transe. Como se o beijo fosse viagem. Dessas que não se quer voltar...
Ah, beijo. Doce deleite. Doce de leite. Doçura sem se pensar. Poesia. Presente. Segredo. Secreto. Ou fogo. Tentação. Explosão. Sensação sem igual. Invasão que se deixa levar.
Será que estava certo Drummond ("O amor é grande mas cabe no breve espaço de beijar) com seu romantismo, ou Clarice, ( "Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento") com seu render-se? Eu , duvidosa ou esperta, fico com os dois...
Ah, e tem os famosos, os de cinema, da novela que termina ou da que vai começar... Ah, tem papo para muito, melhor parar de escrever e ...beijar!








segunda-feira, 11 de abril de 2011

Meio



"E me faz sorrir no meu mistério.
O meu mistério é que eu ser apenas um meio,
e não um fim,
tem-me dado a mais maliciosa das liberdades:
não sou boba e aproveito".

(Do conto O Ovo e a Galinha , de Clarice Lispector)
Achei graça do texto. Li, reli, tantas e tantas vezes como se isso fosse fazê-lo parte de mim. Esse meu jeito ingênuo de ser tem me dado alegrias e desafios, além de algumas tristezas, que passam rápido, por fim. Sei das coisas, apesar de acharem que não, tolos. Só não sou dessas de ficar o tempo todo cobrando, de mim e do outro. Pedinte não sou, nem imploro nada. Acho que tudo o que tem que ser cobrado , ou simplesmente lembrado, perde a graça. Nem testemunhando, nem ao menos guardando no coração coisas da hora, não porque não me leve a sério, muito pelo contrário. Por me amar e saber do que quero para mim, sigo no meu silêncio. Estratégico silêncio de me viver. Observando, feito linda águia. Disfarçada, como quem segue a presa, ou cuida do que é supostamente seu ( o que não acredito...). Esperando a espreita a melhor hora, a melhor conversa, o olhar que se entregue sozinho, sem nem eu pedir. E, sim, lá estará a resposta. A real, a não inventada, a não calculada realidade. A não ensaida realidade. A realidade que quero para mim.

Meu vôo é nobre. Alto. Bem calculado. Sem pressa. Quem fizer  por merecer que o siga, que tente me alcançar. Melhor ainda, que tente me acompanhar. Sou astuta, por mais que esconda isso em mim - e até de mim, com medo de eu mesma me assustar. Arranco as penas sem dó se for a hora, ou necessário.  Ou me acaricio, se for o momento, merecido. Não vou de bando, nem sigo ninguém. Sou só, eu e eu, poder que me dá. Mas sei amar. Sei amar até demais. Sei me dar integralmente ao amor. Sem cobrar, por que já muito pelejei. Sei amar como se deve, dando sem nem esperar. Incondicionalmente amado. Porque, ao esperar, a gente se ofende, acha que merece mais. Compara. Sofre. Fica no escuro, paciente (doente?), esperando o outro notar.

Então, aprendo, depois de muito ensinamento: primeiro me amo. Depois dou ao outro, como se deve fazer em horas de perigo, diz a aeromoça até. Primeiro me reforço e me entendo, e me sei, para depois reforçar o outro, entendê-lo e sabê-lo se seus olhos assim deixarem. Se seus atos assim demonstrarem. Sou como a grande ave. Solto o outro no abismo, esperando que ele mesmo se debata e pegue vento. Pegue rumo. Que ache o caminho. Que ele siga só o seu , que desbrave o mundo, e  volte se for o que realmente quer...me achará inteira. E dele.

Louca? Não, nem insana.Muito menos tola. Eu, tão somente. Misteriosamente eu.Verdadeira como sou. Tão simples e tão direta que nem dá para acreditar. Que até dá medo, suponho - e vejo. Não há quem acredite na verdade que já nem mais existe.  Nem pedinte, nem esperançosa demais, nem milagreira, nem a espera de milagres. Nem esperando nada da vida, a não ser cada passo que ela me dá. O que vem como meu, o que acredito, o que recebo, o que acato. O que amo. Cada momento que me deixa viver plenamente como quero. Como sei.  Meus presentes. Um por um.
O meu mistério é que eu ser apenas um meio, e não um fim.





domingo, 10 de abril de 2011

Céu


Dois dias sem escrever. Não que não quisesse, mas as horas passaram rápido demais pelas minhas mãos, levando as ideias.E não só isso. Freios da vida. Tapas, poderia dizer. Um cansaço enorme até para se viver. Tem vezes que até a mais atirada guerreira precisa de sossego. E talvez até um pouco de solidão.
Na verdade, o cansaço em questão era - é - o de ser adulta. O mundo dos adultos me parece muito traiçoeiro, por vezes, decepcionante até. Não se tem liberdade nele. Não se tem verdade. Ou, se se tem usa-se errado. A liberdade que um que se diz adulto acha que tem, muitas vezes fecha portas dos outros. Como se a ele só importasse  sua própria figura estampada no espelho. Ego inflado, sem espaço para mais ninguém. Como se a felicidade dele só se valesse da infelicidade do outro. Olhe para os lados e verás. E se vejo diferente, ah, deve ser esse resquício de criança que levo nos olhos e na'alma. Na alma dessa criança que anda bem cansada de brincar. Não porque não goste. Mas porque vê no suposto amigo, inimigo, que se sente feliz com a lágrima do outro. Como se toda a vida fosse, enfim, um jogo onde não se pode perder. Ganhar sempre, nem que não se tenha lutado. Ganhar sempre, nem que se fique sozinho.E infeliz. Uma espera que o outro, enfim. caia. Sucumba à tristeza de ser, enfim, adulto. Será que vale a pena?
Jogos. Somos levados a eles desde pequenos. Competimos até com nós mesmos, piores enfrentamentos. Comparações, grave erro, pois sempre haverá alguém em melhor e em pior situação. A diferença é que, quando com alma de criança - e muitas crianças, infelizmente, nem a tem - , a disputa é momentânea, não guarda rancores. Não desdenha o suposto 'perdedor'. Após o jogo, leve ou gritado, competido a rigor, vencedores e perdedores saem unidos, já marcando o próximo embate. Ou já começando outro, como ver quem pega a primeira goiaba no pé. Ou chega antes no portão.
Lembrei da Amarelinha, jogo que não precisava mais do que um giz - ou caco qualquer - e um pedaço de chão, cimento ou terra. Um desenho e um pedaço de pedra, toco qualquer. Destino o céu , partindo da terra. Disso era feito o jogo. E, democrático, recebia muitos, ou só um, menina ou menino solitário, como se brincasse com anjos imaginados. O barulho da pedra, a expectativa de ver onde caia, o pular no pé de Saci. Contar as casas, abrir e fechar de pernas, e - zás! -  lá estava  a gente no céu! Simples, rápido e divertido, como deve ser toda brincadeira. Leve e cantarolante, porque não?, como o dia a dia deveria ser.  E a vibração gostosa de cada um que 'chegue lá'. Não havia torcida contra. Não havia torcida errada. Todo mundo podia brincar. E ganhar. E  gargalhar.
Criança ensina muito. Quer o amigo feliz para ser também. Não torce para que se caia. Não faz figa para que o outro sucumba. Porque do feliz do outro vem o seu ser feliz. E se ele cai, dá-se, com compaixão, a mão. Quem sabe uma força na vida.
A palavra inimigo é adulta, não cabe na boca da criança que sou. Mas as palavras amigo e amor cabem sempre na palma de minha mão. Mão pequena, mas onde cabe um mundo.
Ando com muita saudade da infância , onde o desafio da hora era tão somente terminar um jogo...

"Nada posso fazer...parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais..."
Clarice, á claro...


quinta-feira, 7 de abril de 2011

Amarrada



Hoje, pego minha nau e sigo rumo ao meu porto feliz. Fico aportada lá por dez belos e proveitosos dias. Faça sol ou faça chuva, aqueça ou esfrie.
Porto, como chamo, me faz bem. E são tantos os motivos... Se fosse resumir, dava título já meio conhecido: Estudar , viver, amar. O comer fica de troco. O rezar está embutido nisso tudo. Estudar, coisa que gosto e sinto necessidade, coisa de DNA corajoso. Minha mãe fez pós depois dos 70. Não, não nos anos 70, e sim ,70 anos. Eu, beirando os 50, assumo aqui, sinto-me nova em folha, mesmo numa turma em que sou mais velha até que os professores. Sinto medo, sim, a cada bloco de aulas novos, novo mestre, novos ensinamentos. Mas esse medo, já tão explicado ainda ontem, faz bem. Dá adrenalina e força. E até rio à toa , depois de me achar sempre incompetente e eu mesma me provar o contrário. Coisa minha. Coisa de quem espera demais, da vida e de si mesma.
Viver porque lá sou dona de meu nariz - e com ele vem o conjunto todo. Faço meus horários, faço meus contatos, faço o que me dá vontade. Como se dá fome, bebo se dá sede. Falo com quem quero falar ou fico muda se me dá na telha (estranho esse dito...seria cachola?). Sou bem recebida onde vou, sempre,  e passeio nas ruas como se fossem minhas ( e nem pretendo mandar ladrilhar rsssss). Curto uma solidão necessária e falo pelos cotovelos quando a vida chama.
A, e amar? Bom. Vir a Porto de 15/15 dias, levar horas para chegar e ainda chegar feliz? Só amando. Eu, o que faço, pelo que luto, tudo que sonho, tudo que espero disso tudo. O que me espera. Até porque o Porto me recebe sempre muito bem. Sorriso sincero, abraço apertado, marinheiro no cais. Amarro meu barco da melhor forma e começo minha aventura de viver com os pés bem pisados no chão. Mas a cabeça, ah, a cabeça dividida entre a terra e as nuvens...E sem pressa nenhuma de levantar âncoras. Essa terra tem ainda muito chão para se desvendar...Amarra bem ai, companheiro!
E  Porto ainda tem Quintana. No hotel cor de rosa e no banco da praça, de papo com Andrade. E Porto tem o café do cofre. Tem Ipanema. E salada de fruta do mercado. Tem vitamina, tem proteína  esais minerais. E sebos maravilhosos. O mais lindo pôr do sol que já se viu. Tem um lago que se diz rio - e tem cara de mar.  E tem sempre moranga caramelada, onde quer que se vá. E tem o mate. E tem o "bah, trilegal". E as queridas letras de Ney Lisboa para me emocionar. E tem Diehl de monte, para me acompanhar. Deu pra ti, baixo astral! Amor de arrimo! Amor geral!
E eu, que de boba não tenho nada, nem o dedo pequenino do pé, lembro da bela lição que vem do doce olhar de Quintana:

"A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo.
Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali...
Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando!"
Mário Quintana

























quarta-feira, 6 de abril de 2011

Meus


Quaresma. Estranha esse período, longo, começando logo depois do carnaval. Falam em renascimento, renovação de votos. Tem gente que faz jejum de carne, outras de outras coisas que acham conveniente - geralmente de comer ou de beber, coisa que nos pegam. Umas começam dietas, outras tentam deixar de lado seus vícios. Acho válido. Toda tentativa de barrar algo que se acha ruim dentro de nós faz bem. Fortalece corpo e vontades. Deixar de ter algo que se deseja, por livre escolha, é uma programação emocional das maiores. Além de fazer um bem danado à saúde - mental e corporal. Vícios são sempre um teste, um alerta. Não saem facilmente da gente, no máximo ficam adormecidos, esperando que, enfim, nos esqueçamos deles, para que voltem a atacar. E não falo dos grandes, não, nos difícies de largar, como beber, fumar ou roer unhas, sei lá. Mas dos pequeninhos, vizinhos das ternuras, como 'um docinho depois do almoço". Ou do beijo em filho. Esses, tenho, alguns,  e não domino. E nem sei se quero.
Eu não fiz promessa nenhuma. Até porque vivo me fazendo e tentando cumprir, todo dia. Promessas de um minuto, de uma hora, de um dia, quem sabe de uma vida, meio a la Fermino Ariza, do livro do Gabriel 'Gabo' Marquez. Mas não para provar nada, já que a  maior beneficiada sou eu mesma. Tenho feito de minha vida um desafio constante. Todo dia um entrave, ou mais. Ponho na listinha infâme o que tenho que fazer e vejo, ali , minha verdade. Do que fujo todo dia? De coisas aparentemente simples, mas que me custam algo - impagáveis, claro, senão seria fácil demais. Fujo de coisas novas. Do desconhecido a enfrentar. Tenho um certo horror a novidades, creiam. Não as das vitrines, protegidas por vidros blindados, mas das que tenho que tocar, ver, falar. Ou das chatas, mas que têm que ser feitas. E que alívio me dão quando as risco do mapa do dia. Perder medo é ter coragem. De bicho - papão a  tarefas infindáveis.
E dá uma satisfação inenarrável.
Engraçado - 'ou não', caetaneando - me dei conta de que tenho falado muito em medo. Logo eu que sempre disse que só tinha um, tão grande, doído e nada fácil, que nem vou pronunciar. Será que é porque ando sentindo muitos ou exatamente o contrário? Bom rever. É nesses devaneios aparentemente leves da mente que as coisas se esclarecem. Ou escurecem de vez. Medo é um mal necessário, sem ele estaríamos mortos. Ou sozinhos. E tristes. Melhor enfrentar e ver no que dá. Tudo será permitido. Ou , lembrando Thiago de Mello, só uma coisa fica proibida: amar sem amor. Eu completaria com muitas, meu "Estatuto da Mulher", que ainda vou montar: um dia sequer sem sorriso. E sem um amor para me acalentar.  

terça-feira, 5 de abril de 2011

Levando




"O acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído".

Assim já diz a música dos Titãs, Epitáfio. Um arrependimento ante o adeus. Mas não para mim. Sou assim louquinha da p...como muita gente acha. Ou uso disso, desse meu lado que, volta e meia, chamo de personagem. Distraio-me enquanto dá. Um problemão, que puxa outro - e outro, e outro-  e tento me desvencilhar deles como quem põe fogo na rede de fio de nylon, feito as de pesca - e fica ali vendo ela se contorcer toda, todinha, lentamente, até virar uma bola emaranhada e fétida, se não quando bela escultura.
A noite de ontem desenterrou fantasmas que nem eram meus. Fios desenterrados pela maré alta. E ficou claro na troca espontânea de experiências do dia que uso - usamos  - disso - do falso carregar dos problemas do mundo, longínquo ou ao alcance das mãos - para não encararmos os nossos. Como se nos fosse dado um certo crédito - da comparação, da dúvida, do nosso "poder" em resolver o que não nos é devido, por ser isso sempre mais fácil. Por isso tão fácil - e falsamente nobre - dar conselhos. Soa como alívio interno. Compensatório. E sigo na prova de minha tese, não única: o que odiamos, ou tão somente  criticamos nos outros, são nossos verdadeiros pontos fracos, casquinha de arroz, porcelana chinesa, transparente até. Já se achou até aqui?
Mas nisso, sinto decepcionar-me, há sim, muito do meu amor. Do querer o outro bem ao meu lado. Do fazer notar que problemas existem, e que só vão deixar de ser problemas - ou pesos - se os tirarmos de  cima de nós. Não há, no mundo, melhor sensação do que a do dever cumprido, da coisa resolvida a contento - nem que seja para apenas um dos lados. Não há, pense bem. Da cozinha pronta depois do almoço à gaveta da vida arrumada. Da última caixa de livros vazia à conversa sempre adiada. Como se as coisas a resolver ficassem nos cutucando os dias. Pedrinhas no sapato - por vezes , caco. Fantasminhas nada camaradas nos rondando para ver qual o melhor momento de agir. E como mostros que são, pegam-nos na calada da noite - calada de silêncio externo, porque a nossa cabeça fervilha feito bicarbonato na água. Belo antiácido de feito contrário, que não termina mais, a não ser que o cansaço e o sono vençam, enfim, amigos que são e sabem quando devemos parar.
Sim, sinto, distraio-me, sempre. Minha arma interna. Fuga? Pode ser. Prefiro ser taxada de fraca, infantil, ingênua, criança até, gracias! Na minha distração, na minha falsa fragilidade - e quem me ama, sabe - muito de felicidade, dessa felicidade que  me tira da reta de coisas que nem sei se conseguiria resolver. Não ali, não na hora, porque para tudo há um momento absurdamente correto. Como se eu mesma estipulasse um tempo de resolução em mim, sempre esperando o melhor momento  de agir. Cautela e canja. Ou espada e rosa, pensando bem. Já dizem os sábios de almanaque que se um problema não tem solução, solucionado está. E se tem , ah, meu amigo, corre atrás! Mas devagar, bem devagar.
É, mas se conselho fosse bom, diziam já as vovós, a gente não dava: vendia. Eu estaria rica, milionária,  tamanha pretensão. Eu vendo, sim até a mim mesma. E me sigo feito guru. Guru que chora, esperneia, perde o sono por humano que é. Mas com muito charme. E bom humor, se possível.
Se tenho medo da vida? Sim, todos os dias. Mas isso, bom, isso até a grande dama  das palavras tinha...

"...tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo - quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação".
Clarice Lispector

Mas meu maior medo é o de não me viver...