sexta-feira, 29 de abril de 2011

Atenta



Não. Longe de mim reclamar de mesmice. E mais longe de mim querer sempre a mesma coisa, veneno ou remédio na mesma dose, todo dia no mesmo horário - já que uma amiga me lembrou que até remédio, quando demais, vira veneno - e  mata. Nem entre os meus dias - ontem um fogaréu, hoje abandono.  Nem ao menos dentro deles, que começam de um jeito e terminam de outro. Como o tempo - sol, chuva, frio ou quente, não horas - pode amanhecer chuvoso, como hoje, e rachar o sol bem na hora do almoço, assim, sem nem avisar . Ou, bem ao contrário: sol a pino e sem avisar, cai o céu, temporal.

Não, não estou sendo sincera. Muitas vezes pode vir, sim, um abalo sísmico sem avisar - por mais que sejamos espertos ou estejamos atentos. Quem sabe seguido de tsunami arrasador, como vimos. Mas, na maioria dos dias, tanto o sol quanto a chuva vem avisando, basta saber olhar, e bem para cima. Ou sentir o vento - ou o reumatismo, dizem. Por vezes até o cheiro a chuva. Lembrei de minha infância quando a gente dizia saber as horas  devido ao " vento do meio dia e trinta", ensinado por meu pai, acho. E  sim, lá vinha ele, sempre pontual. E sem porquês. Ou o sillêncio que se faz antes do temporal, quando até os pássaros mais falantes se calam. Como se a própria natureza temesse seus rompantes.E saber diferenciar uma chuva passageira,dessas que refrescam a alma e trazem o perfume da terra em flor, daquela que vem e vai rápido, tão rápido quanto os estragos que faz.


Assim deveríamos ser. Aprender  a se calar à menor ameaça de virada de tempo. Uma conversa que desvia seu percurso, uma outra que se sabe onde vai dar. Como se saíssemos de casa sem guarda-chuva mesmo prevendo o temporal. E esse, digamos, desvio de 'conduta' - aqui não no sentido usado normalmente, mas de certa forma também delicado, em que sabemos pegar o caminho das ondas altas,o famoso 'nadar contra a maré'  fazemos tão somente quando amamos. Com quem amamos. Como se fizéssemos de propósito. Ou como se a tal da 'intimidade' nos permitisse deslizes, descuidos de toda ordem, como se a desculpa fosse algo sempre fácil -  o que nem sempre ou nunca deveria ser ou é. A mágoa, penso, é a pior das inimigas, a mais traiçoeiramente escondida, pronta para vir a tona ao menos desgaste - como se morasse na ponta da língua. Na tal 'intimidade', onde eu e o outro somos ou queremos ser um 'nós', ele lá com as coisas dele e eu com as minhas, mas juntos, damos-nos ao 'luxo ao avesso' de ultrapassarmos os limites de educação, do carinho, do cuidado. Da brincadeira mal entendida. Da palavra mal usada. O que era para ser um sol, lindo dia acompanhado de aragem fresca,  traz nuvens, quem sabe nada passageiras, quem sabe tempestade de arrasar quarteirões - ou corações. Afogar.

E ai não tem como não lembrar da letra da música - ' porque o mal é o que sai da boca do homem'. Ou da boca, do coração, dos olhos, da ação, tanto faz. Mal ou bem, sai de nós. Uma brincadeira vira maldade. Uma palavra errada, descontentamento. Uma frase errada - ou mal entendida, ou mal falada, ou mal interpretada - pode ser o veneno, remédio que se deu demais. Ao invés das cura, ferida.
Mas há de se seguir, se há o amor, nem que seja um avançar cauteloso, quase freio - tanto melhor. Se a gente sabe o que quer. Se se importa com o outro que ali está - e com a gente. Retroceder, sim, antes que tudo se arrase. Antes que a grande onda venha e tudo leve. Que a bolinha de neve vire avalanche e abafe. Fazer silêncio antes que a palavra torta seja cuspida - porque não volta para a boca. Retroceder sem medo de parecer covarde. Se a gente sabe onde quer chegar, o caminho pode ser longo, mas é um caminho. Pode ser torto, mas é um caminho. Pode ser dificil, mas é um caminho. 
E ai vem a frase inspiradora de tudo isso:  "não importa como você vá, desde que você não pare!".

 Ou lembrar da fala simples e sempre sábia de Cora Coralina:

"Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces.
Recomeça".

Amanhã é outro dia, dizia minha mãe, quando achávamos que tudo era o fim do mundo.
Dia de recomeçar, e recomeçar, e recomeçar. E sem parar. Mas, atenta.










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