domingo, 10 de abril de 2011

Céu


Dois dias sem escrever. Não que não quisesse, mas as horas passaram rápido demais pelas minhas mãos, levando as ideias.E não só isso. Freios da vida. Tapas, poderia dizer. Um cansaço enorme até para se viver. Tem vezes que até a mais atirada guerreira precisa de sossego. E talvez até um pouco de solidão.
Na verdade, o cansaço em questão era - é - o de ser adulta. O mundo dos adultos me parece muito traiçoeiro, por vezes, decepcionante até. Não se tem liberdade nele. Não se tem verdade. Ou, se se tem usa-se errado. A liberdade que um que se diz adulto acha que tem, muitas vezes fecha portas dos outros. Como se a ele só importasse  sua própria figura estampada no espelho. Ego inflado, sem espaço para mais ninguém. Como se a felicidade dele só se valesse da infelicidade do outro. Olhe para os lados e verás. E se vejo diferente, ah, deve ser esse resquício de criança que levo nos olhos e na'alma. Na alma dessa criança que anda bem cansada de brincar. Não porque não goste. Mas porque vê no suposto amigo, inimigo, que se sente feliz com a lágrima do outro. Como se toda a vida fosse, enfim, um jogo onde não se pode perder. Ganhar sempre, nem que não se tenha lutado. Ganhar sempre, nem que se fique sozinho.E infeliz. Uma espera que o outro, enfim. caia. Sucumba à tristeza de ser, enfim, adulto. Será que vale a pena?
Jogos. Somos levados a eles desde pequenos. Competimos até com nós mesmos, piores enfrentamentos. Comparações, grave erro, pois sempre haverá alguém em melhor e em pior situação. A diferença é que, quando com alma de criança - e muitas crianças, infelizmente, nem a tem - , a disputa é momentânea, não guarda rancores. Não desdenha o suposto 'perdedor'. Após o jogo, leve ou gritado, competido a rigor, vencedores e perdedores saem unidos, já marcando o próximo embate. Ou já começando outro, como ver quem pega a primeira goiaba no pé. Ou chega antes no portão.
Lembrei da Amarelinha, jogo que não precisava mais do que um giz - ou caco qualquer - e um pedaço de chão, cimento ou terra. Um desenho e um pedaço de pedra, toco qualquer. Destino o céu , partindo da terra. Disso era feito o jogo. E, democrático, recebia muitos, ou só um, menina ou menino solitário, como se brincasse com anjos imaginados. O barulho da pedra, a expectativa de ver onde caia, o pular no pé de Saci. Contar as casas, abrir e fechar de pernas, e - zás! -  lá estava  a gente no céu! Simples, rápido e divertido, como deve ser toda brincadeira. Leve e cantarolante, porque não?, como o dia a dia deveria ser.  E a vibração gostosa de cada um que 'chegue lá'. Não havia torcida contra. Não havia torcida errada. Todo mundo podia brincar. E ganhar. E  gargalhar.
Criança ensina muito. Quer o amigo feliz para ser também. Não torce para que se caia. Não faz figa para que o outro sucumba. Porque do feliz do outro vem o seu ser feliz. E se ele cai, dá-se, com compaixão, a mão. Quem sabe uma força na vida.
A palavra inimigo é adulta, não cabe na boca da criança que sou. Mas as palavras amigo e amor cabem sempre na palma de minha mão. Mão pequena, mas onde cabe um mundo.
Ando com muita saudade da infância , onde o desafio da hora era tão somente terminar um jogo...

"Nada posso fazer...parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais..."
Clarice, á claro...


Um comentário:

  1. Tudo vale a pena se a alma não é pequena, já dizia Pessoa...
    E a tua é enorme!
    Ma

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