sexta-feira, 22 de abril de 2011

Dia santo



Sexta - feira dita Santa. Para quem não segue as tradições - ou segue, mas só as que interessa, como comer bacalhau -  hoje é 'apenas mais um feriado'. Prolongado, diria, já que juntou-se com o dia em homenagem ao sacrifício de Tiradentes em prol de nossa liberdade em relação a Portugal. Pois é, nos livramos de Portugal,  mas somos colônia de tantos...mas isso é conversa e discussão para outra hora...Mas bem que eu queria ter aquele sotaque tão charmoso...
E antes que eu pegue por esse caminho de colonização e sacrifícios, deixa eu voltar ao porquê de meu texto de hoje: não se fazem mais feriados santos como antigamente. Frase de velhos, eu sei, mas quem sabe sou - ou estou ( um dia todos seremos, lembrem disso!).

Lembro-me bem. Na Sexta-Feira Santa -  e vou escrever com letras pomposas para dar ênfase à data - , era quase que obrigatório a gente se sentir  triste. Ou pelo menos introspectivo - se é que alguma criança entendia isso. Do raiar do sol - ou até antes dele, talvez - e até terminar o dia - e por vezes no próprio "Sábado Santo" - o dia era triste. Longamente silencioso. Entediante, arrisco dizer. Dava até medo. Ou sono. Ou aquela vontade desesperada de rir alto quando a gente menos pode. As rádios só tocavam músicas fúnebres, no máximo clássicos  que, as meus ouvidos infantis, era tudo a mesma coisa.  E era para escutar baixinho. Ou meu pai que tirava não sei de onde  seus discos e nos 'fazia' escutar. Na rádio, vez por outra uma frase, um trecho da Bíblia na voz de um locutor que mais parecia falar de dentro de uma tumba. Ou uma missa, das tantas do dia, como aquela voz que os padres usavam antigamente, voz de autoridade, de quem é o único ser na face da Terra a saber da verdade ( pior que a dele, só a do pai da gente quando  bravo... Ou da mãe quando chamava pelo nome todo...Deve ser por isso que nos davam nomes tão compridos...).Parecia que tomo mundo estava velando alguém (  e estava, só a gente miúda não entendia). Minha mãe ficava mais quieta, meu pai lia seu jornal. Até a televisão só tinha filmes sobre o 'caso' ou atrações nada atraentes. Falava -se baixo, quase sussurrando, e bastava um barulho qualquer para se merecer um olhar daqueles de secar  a alma. Baile? Festa? Dançar? Nem pensar. E olha que não éramos, assim, uma família religiosa, não. Era uma questão de tradição. De costume. E eram tantos...
Sexta feira Santa. Sabia-se de famílias que faziam jejum ou alimentavam-se de canjica ou algo do gênero. Eu tinha mais sorte: era dia de bacalhau. No dia anterior - ou antes, começava a função. Comprar o que se vendia  como  - e se achava que era  - bacalhau. E batata, cebola, tomate e , quem sabe,  azeitonas até. Azeite, não me lembro de ter provado, talvez algum trazido até meu pai, 'importado' da Argentina com belas azeitonas gordas e escondidas para não se achar, e queijos inteiros - que eu devorava aos pouquinhos, discretamente, como quem assume ser um ratinho... Pois bem. Trabalho chato e intenso, como se o próprio preparar do prato já fosse penitência de véspera:  tirar o sal, trocando a água quantas vezes fossem necessárias. E ficar com as mãos fétidas e murchas de  tanto desfiar o bicho, digo, peixe.  Feito isso, sexta era dia de montar o prato. Camadas alternadas do tal, muita batata para render,  cebola cortada , tomate bem vermelho  - ' tudo cortado não muito fino para não desmanchar' , ensinava minha mãe. E azeitonas para dar mais sabor. E azeite para finalizar. Panela montada, fogo baixo e vigília para não deixar queimar. O cheiro  tomando conta do lugar.  E a gente na espera de devorar. Numa outra panela, canjica. E em outra , cocada mole, belo par.  Comer morno, eu gostava. E assim se seguia o dia, esperando o momento de saborear, prato principal e sobremesa. E logo se retornava ao drama de passar um dia quieto. Mas quem reclamaria com a barriga assim, cheia de delícias?Sexta santa era dia de comer bem. Valia  a a pena cada palavra engolida. E a espera do  coelho que, mais uns dias, já estava chegando. E eu tentando entender o que tinha o coelho a ver com Jesus...E como jesus tinha voltado. Mas era muita pergunta e pouca resposta. Dia Santo, história Santa, melhor nem questionar. Vai que o coelho se aborrece e não vem?

Os feriados santos não são mais os mesmos. Hoje se descansa porque o país pára, ou viaja, mas não mais para penitenciar ou rezar. É tempo de descanso - ou festa, até - e nada mais me parece triste ou sequer diferente de qualquer outro feriado. Tudo segue a seu jeito, a não ser por um filme ou outro que passe na televisão, e sempre os mesmos. Ligo para minha mãe e lá está ela a fazer seu tradicional prato - com variações ao longo do tempo mas, com certeza, mágico. E tem canjica , ela me avisa. Com côco e leite condensado. Deu  até água na boca, como dos tempos de criança...

'São saudades de um mundo contente feito céu estrelado.
Feito flor abraçada por borboleta.
Feito café da tarde com bolinho de chuva.
 Onde a gente se sente tranquilo como se descansasse num cafuné.
Onde, em vez de nos orgulharmos por carregar tanto peso,
a gente se orgulha por ser capaz de viver com mais leveza.'
Ana Jácomo



4 comentários:

  1. Que delicia essa sua viagem no tempo. Descreve bem. Viajei com você. Muito bom. E uma grande verdade, as coisas foram ficando banais, sem graça, taçvez porque não eram de coração, não é mesmo?
    Su

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  2. MARAVILHOSO! Ao ler, senti um completo resgate da minha méoria afetiva.

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  3. Viajei até a rua Gabriel Benedet,30...
    Bacalhauzinho bom demais!!!
    Ainda bem que na Páscoa o pai não ficava tão triste,né?
    Faço o mesmo a alguns anos.Compro o bichinho e seus acompanhantes (com um bom azeite extra virgem),dessalgo várias vezes, etc,etc,etc.
    Só que nessa sexta os filhos foram viajar e deixei prá cozinhá-lo na segunda onde todos estaremos juntos novamente . Tudo passa muito rápido..rsrsrs
    Mas amanhã é Domingo de Páscoa e a cesta de ovos estará aguardando por eles como sempre.
    Que venham os netos!!!!
    Boa e Santa Páscoa!!!
    MEG

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