domingo, 24 de abril de 2011

Doce


Domingo de Páscoa. Poderia estar triste - mais do que já ando - mas não. Já vi que tristeza não resolve nada, só atrapalha. É que deu saudade da infância. Da minha infância e a do meu filho,
hoje um quase homem.
Da minha infância , boas lembranças deste dia. Acordar cedo e procurar as cestas de ovos que minha mãe fazia questão de esconder, sabe-se lá até que idade. Imagino-me, pequena ainda, cabelos loiros e cacheados, pele branca e bochecha rosada, olhos vivos em azul, e ainda de pijamas, talvez de flanela em flor. Como se a lembrança virasse, assim, um filme, película antiga, meio descompassada. Levanto, descalça - até minha mãe ver e reclamar - e corro até a sala, procurando vestígios. Rio, alegre, ao ver as patinhas de coelho esbranquiçadas pela sala (farinha?). Sigo-as como quem segue um arco-iris e , sim, lá está meu pote de ouro - ou de doces , melhor dizer? E ao meu redor, mais quatro criaturinhas, uma bela escadinha, a procurar os seus. Era uma alegria só, e minha mãe - como toda mãe - já logo avisando para não comermos tudo de uma vez só. "Olha o almoço!".
Engraçado que eu nem gostava muito de doces - como ainda não sou muito fã - a não ser sorvete, claro. O bom, que me lembre, era mesmo a caça ao tesouro, a aventura de procurar e achar - se possivel antes de todo mundo! E notar as delicadezas da zelosa e criativa mãe: onde escondia, como escondia, como era o ninho. As cores, os formatos. As cestas feitas de orelhas de papel trançadas - como se no colo do coelho ficassem os ovos; ovos de  galinha tão antecipadamente selecionados, guardados, limpos e pintados - dava até pena estragar. E que delícia o recheio, amendoim açucarado e balinhas coloridas, algumas de anis, coisas que amo até hoje, podem me dar ( não sei se mais pelo gosto ou pela viagem no tempo...) . O que era antes um não gostar virou luxo: gosto, sim, mas só de algumas coisas e, por incrivel que pareça, as mais simples - e nem por isso menos ótimas. Acho mesmo que não sou de muita mistura. Sou do pouco e bom. Como se meu paladar não codificasse tantos ingredientes juntos.Ou porque gosto, mesmo, de comidas de mães e de avós, e imagino que elas não tinha muito tempo para ficar inventando, misturando, esperando ficar pronto : muita gentinha em volta. Doces sábios, como chamo. Pela praticidade e simplicidade, talvez. E que belo resultado!
Ah, e como uma coisa traz a outra! Repeti com meu filho os mesmos gestos. As mesmas pegadas pela casa , os mesmos esconderijos, o mesmo cuidado com ovos pintados. Os mesmos recheios. Descobri , também, como dá trabalho, do manter segredo, a fazer e limpar. E também o quanto vale a pena. Isso me fez lembrar da última vez que o ' seu coelho' apareceu em minha casa. Na  noite anterior, meu filho voltou decepcionado da casa de um amigo onde os pais contaram  ' a verdade sobre os coelhos e quem entrega os doces". Não me fiz de rogada, muito menos de derrotada. Madruguei. 'Seu Coelho' me deu trabalho com suas patas  sujas da terra do jardim. Deixou rastros de lama no muro e  na varanda, restos de cenoura e de alface que eu mesma mastiguei e cuspi. Deixou  até pêlo, ctado na escolhinha no dia anterior, já pensando em dar "veracidade aos fatos". Sujou até o vidro, o safado! Entrou e deixou suas marcas pela casa e até no sofá. E lá estava ele, o ninho, repleto de ovos, de doces e de carinho. E ver meu filho,  também descalço e de pijama de flanela, berrando para todo mundo ouvir - e correr para ver - que ' o coelho esteve aqui em casa, vem ver! ", ah, como diz a propaganda, não teve preço. Ver a carinha dele de entusiasmado, vendo com os amigos  - perplexos! - as pegadas deixadas, a presença do coelho bem marcada, os restos pelo caminho, foi meu melhor presente. Limpar nem foi nada, enquanto pensava que ainda não tinha sido desta vez...
Hoje é Páscoa e , pela primeira vez nestes últimos 16 anos dele,  não teve ninho. Nem ovo. Não quis. Bastaram os maravilhosos chocolates que trouxe da última viagem. Bastou que eu passasse o feriado com ele. Bastou muita conversa e muito estar junto, regado a filmes, gargalhadas e cafuné. Ninhos, penso, só quando vierem os netos. E, pelo óbvio, tomara que isso demore. Aí,  sim, a boa e velha 'Coelha Joyce ' voltará a deixar seus rastros  - e ovos - por ai...E talvez até cante e ensine a velha letra  a uma menininha loira de olhos azuis:


" Coelhinho da Páscoa, que trazes para mim?
Um ovo, dois ovos, três ovos assim!
Coelhinho da Páscoa que cor eles são?
Azul, amarelo, vermelho também!"

Um comentário:

  1. Muito bom o texto, voltei no tempo...Tens razão, a vida é feita de ciclos, logo as Páscoas voltam, os filhos se vão e vem os netos e assim vamso vivendo. De lembranças. Beijos e muito obrigada pelo teu texto! me fez bem!

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