terça-feira, 26 de abril de 2011

Existindo


São sete horas da manhã e eu já vejo minha lista de tarefas pela frente. O sol nem bem deu as caras ainda, e eu já tenho um dia fatiado feito carpácio - e sem tempero algum.
Mulher já levanta pensando o que vai ter no almoço mesmo antes de tomar café. Eu bem tentei tomar o meu bem sossegada, mas que nada. As tarefas da casa já foram fazendo fila em minha mente, como se eu estivesse dando algo valioso a elas. E estou. Eu mesma.
Tarefas. Coisas da qual achei que me livraria tão logo deixasse a escola primária. Ou o tal ginasial. Veio a faculdade e lá estavam elas, grandes e gordas desta vez. Formei-me e elas não pararam de me perseguir. Sou a rainha delas. Ou súdita, seria melhor dizer? Mal abro os olhos e vejo-as se estapeando em minha frente. Viro para o lado para deixar que elas se entendam sozinhas, antes de criar coragem para me levantar. Espreguiço-me ao som tagarelante delas. Enfim, levanto e corro para fazer café, primeira tarefa. Depois chamo o filho , beijo na testa, eu já de dente escovado, outra. Café tomado com ele, que engole e ai a tarefa chata e repetitiva de dizer que "o café é a refeição mais importante do dia" em vão. Mas, mãe é mãe. De quebra - ou de troco - me pedem uma ou outra coisa. Escolho o que vai se comer. as coisas que tenho que fazer, comrpar, arrumar, planejar. Olho o dia para ver se a tarefa de caminhar já está lá fora se alongando à minha espera, minha velha e insistente companheira. Grito que já vou, meio mal humorada tamanha a pressa dela. " Vai dar sol", ela avisa, como que me obrigando a acelerar o andar das coisas. Subo, troco de roupa e calço o tênis. Mas não saio antes de alimentar o cão, já nervoso com meu 'atraso'. Trocar a água dele, tirar a carne do freezer, repensar o almoço, refazer os próprios passos na cabeça para ver se me livro da companhia chata do pensar que "acho que estou esquecendo alguma coisa". Já na porta, lembro de uma , que me chama logo cedo, pontual e diária, eu querendo ou não. E quero. 'A caminhada pode esperar', tento me convencer. Feito 'a coisa', fecho a casa, e ali mesmo,  tentando me encorajar, aviso ao caminhar que as tarefas seguem junto: não consegui convencê-las a ficar. Ela não gosta, era  minha hora de relaxar e eu titubeio: ' eu não relaxo contigo', digo eu, sendo um pouco direta demais, 'só depois quando te largo', completo, mesmo sabendo que vou magoar a grande amiga de meu corpo e de minha mente.Ela resmunga que o dia vai ser longo. Eu acato. E dou de ombros, 'fazer o que'. Fecho a boca , respiro fundo como quem procura a vontade e dou o primeiro passo. O mais dificil. O resto só vai.
Dou bom dia para a porteira, aceno para a vizinha, e sigo, firme em meu propósito. Tento não puxar conversa com as tarefas, mas elas falam alto demais. Tento entender cada uma, enfileirá-las por importância, dividí-las entre as  minhas horas, separá-las por afinidades ou assuntos, e nada. Elas se embolam à minha frente, quase me fazem tropeçar. Tento conversar com o sol, que veio com boa vontade , tentando me distrair, mas elas falam demais! Lembro das minhas aulas de meditação e as dicas de Yoga e  presto atenção na minha respiração, depois no meu pisar. Firmo o abdômen, e com ele a vontade. E assim passa uma hora, eu entre respirar e pisar, elas me cutucando para me chamar. E assim passo o tempo todo entre uma discussão enorme entre o que repiro, o que piso, o que penso, e mais meu relógio de pulso que manda em mim, esse controlador. A caminahda segue feliz, vencedora da hora,que passa e me traz de volta.
Alongamento de despedida de mais uma missão cumprida - e comprida. Repasso as tarefas à minha fiel escudeira - que já é meio dona da casa, dado o tempo que me atura. Banho. Só depois, relaxada e cheirosa, chamo o amor. Como se ele me preenchesse o dia, desse coragem e alegria, coisas que, volta e meia, deixo por ai.  Sento, trabalho - coisa que gosto - e as horas passam. Busco o filho, para almoço e conversa, quem sabe sobremesa. Curto o cão, vejo na televisão o que se passa longe, desligo do mundo e volto ao meu lugar. A tarde passa tranquila , com breve parada quando o filho quer conversar - ou comer. E se não for terça e quinta, um entra e sai, leva e busca. Logo chega a hora da janta, sentar com o filho para conversar , com palavras ditas com a boca, ou com os olhos e o coração, talvez a mão que faz carinho. Nesse momento paro e sou só dele. É pouco, mas é bom. Às vezes, chamo minha menina interior para  brincar. Dali é um pulo para a noite me chamar e o sono dizer que está com saudades. Como se estivéssemos, nós todos, de prosa , ali na sala. Eles me querendo e eu tendo tanta coisa para fazer...
E é nesses dias que não me acho, como hoje. Não deixo espaço para mim a não ser me escrever. Não falo de trabalho, nem de estudo, mas aquele tempo de me olhar no espelho e me ver. De falar e ver como estou, se bem ou mal. Se preciso de algo. Se tem algo que possa fazer para me sentir mais feliz. Essa conversa interessada que se tem com quem se ama. Não esse passar o dia sem nem se enxergar. Olho no espelho mas não me vejo. Mais o dia passa , me arrasta, e me deixo levar. Se tivesse acordado morena , nem tinha notado. E olha que me gosto como sou.
Será que amanhã tudo vai recomeçar? Parece que sim. Já estou pensando em  o que vai ter para o almoço.O dia passou e eu nem vivi...

"Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe".

Oscar Wilde

Um comentário:

  1. as vezes a rotina é um vicio, como beber ,fumar, ela faz falta ,qdo algo nos tira dela, a nossa amiga rotina de certo modo nos dá um falso ar de segurança, não gostamos de mexer aonde dói... é mais fácil, executar o mais difícil, fazer as tarefas desgastantes, não reconhecidas e que de algum jeito tornou-se somente ou grande parte de nós mulheres, não acho certo, não gosto...mas entendo.
    O meu grande medo é exatamente esse, deixar de viver sem notar e apenas existir.... (nem vou comentar que te entendo e me encontro e me reconheço em seus textos, vc já sabe disso), Joyce querida sou sua fã sempre.

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