quinta-feira, 28 de abril de 2011

Fake



Estava eu tentando sair de fininho para não escrever, dada a hora e o cansaço do dia corrido, mas por ironia do perfeccionismo, vício ou simples necessidade, cá estou. Um olho no texto, outro no relógio. Mas , já me conheço. Subir e deitar, assim, sem limpar  a alma, sem me entregar às palavras, por mais toscas que venham, sem chance de ter uma noite proveitosa com meu amante, o sono. Eu já disse mil vezes que o amo, que preciso dele para ser feliz, mas ele, desconfiado e já acostumado a ser deixado de lado, tem ficado arredio - e com razão. Então, deixa eu me apressar para agradar gregos e troianos, sono e alma.

Dia corrido. Bem fora do meu padrão de conforto. Dia bonito feito sapato de bico fino, daqueles que nos dão duas alegrias: uma quando se calça e acha lindo no pé, e outra quando se tira e deixa os pés livres de suas amarras nada gentis. Pois bem , assim foi. Um entra e sai, vai e volta, um sobe e desce de matar. E em um  cenário nada convidativo: chuvinha daquela fina e chata, gelando até os ossos, como se diz por ai. Mas, só para variar, fiz meu melhor. Deixei todo mundo contente. Cobri bem a agenda...dos outros! A minha, sei lá, quem sabe o dia de amanhã me presenteia com umas 12 horas extras...

Mas , não adianta, o dia traz suas lições, quem sabe a semana: não há como ser ermitão ( a curiosidade mata, mas ensina: ermitã ou ermitoa, tanto faz, no meu caso, mulher...). A famosa máxima " quem não é visto, não é lembrado" existe e funciona. Essa semana dei a cara  a tapa, ou seria melhor dizer, dei a cara ao público ou, melhor ainda, 'dei as caras'. E foi bom.  Tudo tem um lado bom, dizem e acredito. Criei coragem, vesti a roupa de minha personagem e sai da toca. Desentoquei. Saídas rápidas como quem amacia a coisa. Aquece  a máquina, antes de acelerar - se é que vou. Vi poucos e bons, conversei com menos ainda. Mas valeu. Pelo menos para eu saber que não gosto mais muito disso. E ver como vai  o mundo lá fora. Sei bem a toca onde gostaria de me meter e não sair mais...ah, se sei...
Sendo bem sincera comigo mesma, nunca gostei de muita badalação. Sempre cheguei tímida, forcei a barra para me enturmar, fiz, aconteci e sai sem que nem percebessem, coisa minha, bem francesa. A personagem ri e faz rir, mas a menina  fica assustada, e louca para voltar para casa, seja lá onde isso for. Bipolar? Não, não tenho a onda da vez. Meu negócio sempre foi me forçar para ver até onde vou. E quando chegava 'lá', já estava louca para voltar...
Na real? Gosto mesmo é de vidinha caseira, intima, carinhosa. Da conversa em voz baixa e centrada. Da risada espontânea, longe de ser forçada. Da boa companhia de um livro que me faça desligar. De um bom filme que me faça viajar. Da conversa de pé na cozinha, ou na luz intimista da sala de jantar. Da comidinha a dois, feitio e refeição. Do caminhar sem pressa e de mãos dadas. Do enamorar-se da vida no lugar onde se está. De se estar onde se quer estar...
Como disse certa vez o poeta Drummond , o Carlos

 "ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade"...

Melhor eu deitar. Vai que o sono se cansa e me larga de vez?

4 comentários:

  1. Lindo post...espontâneo.Gosto de gente que tem um texto que passa verdade.
    Um bj

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  2. Como sempre.. óptimo. Ainda bem que resolveu escrever antes de se deitar!!Obrigada!

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  3. Joy!
    Como eu me identifiquei com a parte:
    "Sendo bem sincera comigo mesma, nunca gostei de muita badalação. Sempre cheguei tímida, forcei a barra para me enturmar, fiz.... daí por diante todo o texto parece que foi escrito com pensamentos que tbm são meus...
    Eu sempre preferi os poucos amigos, apesar de ser a que faz rir, a que agrada... sempre quis me enfiar na minha toca e não sair de lá...
    Adorei o texto. Tenho até receio de falar pra não parecer superficial, mas poxa, eu gosto de todos os seus textos que leio caramba!
    POr isso me identifico com sua escrita, por que parece uma parte de mim sendo descrita, eu tenho certeza que muitas das suas leitoras sentem o mesmo.. coisas que sinto e que não conseguiria descrever com tanta propriedade, aliás, por isso existem escritores fabulosos como vc. Eu me sinto assim com Clarisse, Rubem Alvez,com a bela Martha Medeiros.. eles são parte integrante dos meus pensamentos.. inconsciente coletivo.. só pode ser...
    Bom demais. Na verdade na nossa vida, tudo é essa dualidade.. inclusive nós!

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