quinta-feira, 21 de abril de 2011

Garfada



"Não coma a vida com garfo e faca. Lambuze-se".
Mário Quintana

Ah, Quintana, bom se fosse sempre assim esse banquete. Doce de regalar, lamber de dedos. Mas os dias, meu poeta, ah, os dias, são tão diferentes - e eu tão diferentes neles. 
Ontem a cidade estava louca, cara de fim de mundo. Nem parecia que vinham por ai dias tão calmos. As pessoas se atropelando, os carros disputando espaços, o mercado super cheio como se fosse o último dia de nossas vidas - ou próximo de uma catástrofe, sei lá. Enfim, a vida da gente se mistura com a dos outros, entramos na mesma sintonia e o dia foi o que se esperava: afobado.
Hoje, a calmaria, contrastes dos dias. Levantar sem pressa, espreguiçando bem ainda na cama, sem minutos a me controlar. Sem o despertar das tarefas a me chamar. Uma refeição com calma e ainda no silêncio da casa - a não ser o cachorro, meu sempre faminto companheiro - lendo um jornal. Uma caminhada bem animada - e presenteada com uma chuva daquelas, nada calma, nada discreta, forte e gelada...pois é. E dai para frente, adeus dia calmo. Mulher é assim mesmo, coisa estranha : mesmo que não tenha, arranja coisas para fazer. Pelo menos eu que ainda estou na lição número um de dizer não ( e acho que vou rodar...).
Banho quente para espantar a gripe  e acalmar a tosse, café para filho, estudada básica para aquecer o cérebro da longa jornada que o espera. Filho com fome. Preguiça de cozinhar. Saida para almoço - um lanche, dada a fila -, umas compras rápidas, um filme no video -  um não,  três , com devolução na segunda. Volta para casa, filme  com filho que teima em pôr as pernas sobre as minhas 'para descansar". Um filme, não, dois. Amendoim e chá gelado, a tarde passa e quase chega a noite. Desço. Sentada à mesa, ligada no lap e no mundo, enfim, meu mundo, agrado aos amigos, recados e promessas. Retomo os estudos, mas o cérebro, antes descansado, me prega peças - e os olhos também. O velho cão pede carinho e alento, além de comida, claro. E o filho, atenção. E a eterna pergunta 'o que tem para o jantar'...e começa tudo de novo.
(pego-me pensando porque se come tanto...).
Enfim, uma pizza trazida de qualquer jeito e engolida como tal. Uns doces de sobremesa, louça para lavar. Um sobe para o banho, o de quatro patas se deita aos meus pé e me esquenta. Parece que o dia termina. Olho o relógio na ânsia de que esteja na hora do sono me cortejar, já que não me deixam ser. Ah, mas ainda falta um texto, esse. Quem sabe termino e me acho na cama?
Tem dias que a gente se deixa levar. Como quem se alimenta, mas não saboreia. Até se lambuza, mesmo que esteja longe de ser o dia o prato predileto. Mesmo que esteja longe o que se deseja - ou pelo menos se espera. Do sabor que se quer para viver. E ai me vem sempre a mesma pergunta: menos um ou mais um? Tem dias que a gente sente saudade e nem sabe, de tão dentro que a saudade está...
Hoje eu comi a vida com garfo e faca, às garfadas, sem nem mastigar. Cruzo os talheres sobre o prato do dia como quem diz 'chega', mas longe de satisfeita.
Menos um dia. Outro dia, quem sabe, eu me lambuzo...









Um comentário:

  1. Lambuzar.. com chocolate.., apesar do garfo e faca! :) Boa Páscoa!

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