segunda-feira, 11 de abril de 2011

Meio



"E me faz sorrir no meu mistério.
O meu mistério é que eu ser apenas um meio,
e não um fim,
tem-me dado a mais maliciosa das liberdades:
não sou boba e aproveito".

(Do conto O Ovo e a Galinha , de Clarice Lispector)
Achei graça do texto. Li, reli, tantas e tantas vezes como se isso fosse fazê-lo parte de mim. Esse meu jeito ingênuo de ser tem me dado alegrias e desafios, além de algumas tristezas, que passam rápido, por fim. Sei das coisas, apesar de acharem que não, tolos. Só não sou dessas de ficar o tempo todo cobrando, de mim e do outro. Pedinte não sou, nem imploro nada. Acho que tudo o que tem que ser cobrado , ou simplesmente lembrado, perde a graça. Nem testemunhando, nem ao menos guardando no coração coisas da hora, não porque não me leve a sério, muito pelo contrário. Por me amar e saber do que quero para mim, sigo no meu silêncio. Estratégico silêncio de me viver. Observando, feito linda águia. Disfarçada, como quem segue a presa, ou cuida do que é supostamente seu ( o que não acredito...). Esperando a espreita a melhor hora, a melhor conversa, o olhar que se entregue sozinho, sem nem eu pedir. E, sim, lá estará a resposta. A real, a não inventada, a não calculada realidade. A não ensaida realidade. A realidade que quero para mim.

Meu vôo é nobre. Alto. Bem calculado. Sem pressa. Quem fizer  por merecer que o siga, que tente me alcançar. Melhor ainda, que tente me acompanhar. Sou astuta, por mais que esconda isso em mim - e até de mim, com medo de eu mesma me assustar. Arranco as penas sem dó se for a hora, ou necessário.  Ou me acaricio, se for o momento, merecido. Não vou de bando, nem sigo ninguém. Sou só, eu e eu, poder que me dá. Mas sei amar. Sei amar até demais. Sei me dar integralmente ao amor. Sem cobrar, por que já muito pelejei. Sei amar como se deve, dando sem nem esperar. Incondicionalmente amado. Porque, ao esperar, a gente se ofende, acha que merece mais. Compara. Sofre. Fica no escuro, paciente (doente?), esperando o outro notar.

Então, aprendo, depois de muito ensinamento: primeiro me amo. Depois dou ao outro, como se deve fazer em horas de perigo, diz a aeromoça até. Primeiro me reforço e me entendo, e me sei, para depois reforçar o outro, entendê-lo e sabê-lo se seus olhos assim deixarem. Se seus atos assim demonstrarem. Sou como a grande ave. Solto o outro no abismo, esperando que ele mesmo se debata e pegue vento. Pegue rumo. Que ache o caminho. Que ele siga só o seu , que desbrave o mundo, e  volte se for o que realmente quer...me achará inteira. E dele.

Louca? Não, nem insana.Muito menos tola. Eu, tão somente. Misteriosamente eu.Verdadeira como sou. Tão simples e tão direta que nem dá para acreditar. Que até dá medo, suponho - e vejo. Não há quem acredite na verdade que já nem mais existe.  Nem pedinte, nem esperançosa demais, nem milagreira, nem a espera de milagres. Nem esperando nada da vida, a não ser cada passo que ela me dá. O que vem como meu, o que acredito, o que recebo, o que acato. O que amo. Cada momento que me deixa viver plenamente como quero. Como sei.  Meus presentes. Um por um.
O meu mistério é que eu ser apenas um meio, e não um fim.





2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Incrivelmente te compreendo, e me acho nas entre linhas.
    Já senti, sinto e vivo, esse não esperar, não cobrar, mas isso fica...sempre fica ali, num cantinho dolorido,que precisa ser externado e nem sempre,acerto o momento certo!!!
    Joyce teus textos sempre me parecem conhecidos,talvez por que tenha sempre algum pedaço de mim.

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