domingo, 17 de abril de 2011

Pausa


Domingo.  Podia ser mais um daqueles chatos, sem muita perspectiva, mas tenho feito deles uma benção, e não praguejamento. Uns dizem que é  o último dia da semana, outros o primeiro. Dia de pipoca e missa nas pequenas cidades. Dia de se isolar em casa nas grandes. Dia de almoço na  mãe - ou na sogra - para quem pode, ou quer. Dia de comilança. Na minha infância, galinha, maionese e macarrão. De bolinho de chuva. De biscoito de vó. Dia de se fazer e receber visita, dizem. Dia de tudo ou de nada, pelo que vejo.

Domingo. Para mim cheira a pausa. Parada obrigatória, até. A sabedoria do passar dos anos me fez ver que , sim, posso me ser uma bela companhia. Que o silêncio e o "nada para fazer" podem ser uma benção e não castigo, desde que não se espere muito. Tiro o dia para passa a vida  a limpo. Como que fazendo uma revisão do que passou e  planejar o que vem, tanta coisa! Pode ser gavetas  - de roupas ou de pensamentos. Podem ser fatos, conquistas, batalhadas ou simplesmente ganhas. Podem ser sonhos, destes que se sonha sozinha ou bem acompanhada.Tanto faz. Aprendi a  esperar também. E essa pausa tem me feito um bem danado.

Esperar. Engraçado isso. Não sabemos do futuro, nem do amanhã. Não sabemos do que será de nós hoje, ou daqui a alguns segundos. E mesmo assim, planejamos tudo. Listamos. Fazemos escolhas, desde o acordar até o dormir. Fazemos contas de coisas que se quer. Sonhamos, sem nem saber - porque tudo que ainda não se tem mas se quer, é sonho. Seria isso a tal esperança que dizem que temos que ter? Imagino que sim. Eu ando que é uma agenda aberta, quase um diário. Ponho ali tudo o que sonho e ser e ter e vou pensando nas diversas formas de chegar lá. Vivo de listas, meus norteios pequenos. De menos tempo perdido a mais revertido em prol do que listo para mim. De mais sonhos e menos desesperanças.  De menos tristeza  e mais alegria. De menos promessas e mais ação. Ou até de coisas ditas, paupáveis, contabilizadas em números. Como menos peso e mais saúde. 

Para quem ainda não me conhece ou me lê faz pouco tempo, melhor explicar. Sou gavetas, muitas delas. E nelas guardo tanto as coisas boas como as ruins. Das coisas resolvidas a contento, guardo pequeno resumo, como que para me lembrar da força que tenho. As não resolvidas, boas ou nem tanto, guardo em uma gaveta de fácil acesso, assim não tenho como esquecê-las, deixá-las de lado. Ah, e as coisas boas em uma gaveta perfumada. Assim, basta abrí-la e me vem o perfume  e as boas lembranças. Tenho ainda a gaveta dos planos - e tenho , muitos, quase abarrotada já. E nela separo os sonhos em envelope à parte. Porque sonhos nunca devem ser esquecidos. Planos pode mudar com o tempo, porque nós também mudamos. Mas sonhos, esses meus, desses que se sonha acordada, desde menina,  e se pensa nele com carinho, esses não mudam. Podem mudar de forma, tamanho e até cor, podem mudar de perfume e até de destino, mas seu contéudo é o mesmo, sempre. E sempre será.

Para os planos, tenho aberto gavetas anuais também. Planos a  curto, médio e longo prazo. Os de curto prazo, curto-os e  tento correr atrás, se me são possiveis. Os de médio, vou levando, achando caminhos ou atalhos, passo a passo conquistados - e um alívio demorado de bom. Os de longo, cuido com carinho. Uns se confundem  com os sonhos, ou os consolidam. E todos têm um final comum: ser feliz. E disso não posso abrir mão. Nem quero. Não seria justo comigo e nem com o que me amam. Deve ser para isso a vida: sonhar e realizar.

Mas não me assusto,não. Tenho sonhos, sim, muitos, mas todos simples - feito aqueles açucarados e recheados, com gosto de infância, dedo lambido. Se vêm em bela caixa ou  simples guardanapo, tanto faz. Interessa é que tenham o gosto bom do conquistado. Do conseguido. Do que é meu. Gosto bom de me ser.
Bom hoje é domingo. Vou abri mais uma gaveta e ver se o que tem lá dentro me serve. Ou não.

"Se quiser derrubar uma árvore na metade do tempo, passe o dobro do tempo amolando o machado",
diz o provérbio chinês.
Ou arrumando as gavetas,
digo eu.


3 comentários:

  1. Gostei da sua pausa de domingo.
    bjs

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  2. Gosto muito do que leio aqui no seu blog, o bom uso das palavras me encanta. Parabéns
    Beijos, Betina

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  3. ......ah...como vc traduz a nossa inquietude...a nossa procura por nós mesmos..a lembrança de uma infância feliz na casa da mãe...hj nem tanto com a liberdade de uma família livre...sem compromissos...com vc diz, uns com tudo, outros com nada...mas, castigo ou realmente o tempo para respirar, acender o incenso...meditar e se achar em cada gaveta que abre....
    Gde beijo e parabéns sempre, por expressar tão grandiosamente a alma feminina.
    Roseli

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