quinta-feira, 14 de abril de 2011

Predestinada


Se tem uma coisa que me move é a sensibilidade. Alimenta-se, melhor dizer. Basta parar e deixar ela vir à tona. Basta estar ali, de frente ao amor, e ela vem, delicada e sorrateira. Soa como um desabafo. Como se deixasse sair um pouco de mim, lágrima ou sorriso.
Num surto de leveza, lembrei da infância, e das tantas palavras que falava errado. As perseguia ao saírem da boca do outro, paii, mãe , vó, tia, ou um dos irmãos. E as adaptava ao meu bem entender. Aprendi cedo a me interessar por elas, mas do meu jeito. A me apropriar, devida ou indevidamente. Eram eles quatro irmãos e eu na mesa da sala de jantar. Eles com seus estudos, caderno e colagens. Eu, ciumenta , da tarefa que não tinha, da professora que não conhecia, dos colegas que não encontrava. Do ir e vir da escola, ainda proibida para mim. Não esperei. Aprendi ‘de ouvido’. E foi ‘um parto’ me manter na sala de aula quando enfim me aceitaram, pequena ainda. Já sabia ‘mais que a professora’, pensava, enquanto chorava. Ela vinha com “be mais a dá bá” e eu já vinha com a palavra toda na ponta da língua – bala, banana, e o que mais me lembrasse. Um suplício ir à aula da professora ‘burra’. Cabia à minha mãe, artista dos pincéis e da vida, mandar agrados, para mim e para ela, além de maçãs. Como uma desculpa, um porque, bem mais que aprender. Virou ter que ir...perdeu a graça...Até redescobrir o gosto. E por conta própria.
Com seis já fazia poesia, e bem rimada, trabalhada já, escrita em lindo caderninho presenteado para tal – para me incentivar ou sossegar. Ilustradas com meu melhor desenho. Ainda o tenho, foto na primeira página. A primeira investida falava do mar. A palavra mal escrita, corrigida a tempo. A letra mal desenhada, mas já a caminho de se descrever. E dai para frente, cadernos de me entender. Recortes de poetas, letras de música e no meio muito eu. Toda eu , adolescente. Textos bem ou mal escritos, mas meus. Poemas sofridos, apresentações, prêmios, livro. Uma só, um só e me bastou: sou poeta! Ah, e a queridinha das freiras. A intocável. Aos olhos delas, até o pular de muro do colégio para comprar sonho na padaria era fácil de se desculpar. O que para os outros era quase um crime, para mim soava como leve.Era a artista.
Vi cedo que o que importa é bem falar, bem escrever. E me esmerei onde deu. Já na faculdade descobri que o importante é ter lábia – mesmo diante de um projeto mal desenhado, jeito atrevido de ser. Ah, sim, acompanhado de belos textos, sempre os meus os escolhidos. Assim me protegia da total falta de jeito com o traço, firme, mas não definido como a ocasião mandava. Boa de ideias, preguiçosa de pôr em prática, coisa que ainda sou. Meu reino são as palavras, sempre, bem escritas ou bem faladas, fazem parte de mim. Desde que nasci. E vou até o fim.

Quando nasci veio um anjo safado
O chato do querubim
E decretou que eu estava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim
(Até o Fim, de Chico Buarque)


2 comentários:

  1. Que coisa!!! eu me fechei!!
    Aos 13 anos escrevia e vendia cadernos de romance!!! hj se escrevo me rasgo ao meio e vaidosa que sou não me exponho...dói sentir, dores que passo ao escrever e gosto de passar bons fluidos!!! adorei Joyce (especial sempre vc, ainda é a menina poeta que encantava ao pular o muro)

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  2. Escrever ajuda, e muito. Expõe o que somos até para nós mesmos! Por isso falo em cura...

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