segunda-feira, 30 de maio de 2011

Açúcar



Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e aguentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos,
nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.


Esse poema-texto - ou seria texto-poema? - de Oscar Wilde, escritor irlandês do século passado,  se intitula Loucos e Santos. Tão longinquo e tão atual, como todos os mestres à frente de seu tempo, muitos chamados de loucos. E não só gosto, como me encaixo nele com uma certa perfeição imperfeita, o que é melhor ainda. E lembra muito uma mania que tenho - e por vezes me atrapalha - de considerar todos os conhecidos como amigos - e de confiar até o primeiro golpe. 
Conhecido ou amigo? Na minha cabeça de menina-mulher  - ou mulher - menina? Que dilema!-  isso não tem lá muita diferença. Talvez  porque não goste de coisas rasas, nem pessoas, nem sentimentos. Talvez porque queira tudo  à minha volta por inteiro. Talvez porque me jogue para depois ver o tamanho do tombo. Não sei ser meia pessoa, meio gente. Não sei gostar - nem desgostar - pela metade, assim como não me contento com pouco. Sou gulosa de tudo que há na vida. E principalmente do menu de coisas boas. Gosto de comer muito, de rir muito, ler muito. Falar muito. De conhecer muita coisa - se possível ao mesmo tempo. Quando me apresentam alguém, por exemplo, não sei ficar no "tudo bem": dê-me um minuto e já estou em papo de longa data. Não por ser faladeira, nem futriqueira, nem fofoqueira. Mas por gostar de conhecer pessoas. De deixar o outro á vontade. Por gostar de pessoas. Por gostar. Não sou de aperto de mão fraco, ou meio beijo na face - dou logo três, como é a regra no Sul . Vou logo dizendo a que vim. Encaro de frente, olho no olho, porque ali neles está muita verdade. Não sei ser tímida, porque tímida eu sou, mas timidez não leva  a nada. Ao contrário: podem achar que meu tímido pode ser um lado chato. Ou pedante. Ou se achar demais. Como sei bem o pouco que sou, dou logo a cara à tapas. Isso me custa tanto que nem imaginam, mas faço disso um belo exercício diário de me expôr ao mundo. Uma frase, uma brincadeira, um sorriso e quebro o gelo recém formado. Puxo conversa, nem que seja 'será que vai chover". Como se quissese terminar logo com o receio de  não parecer quem sou. Ou de me fechar feito ostra.
Wilde estava certo. Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta, nem que não os "conheça", novo truque da vida moderna. Aliás, nisso, de conversar e se conhecer, antes mesmo se de ver, muita vantagem. Você primeiro se abre. Se mostra. E depois vê no que dá. Vê se o outro é o que diz ser, um dito nas entrelinhas e muita palavra batida no teclado. Se dá certo ou não só o tempo dirá. Se dirá, porque as novas amizades pode ser assim uma vantagem: não se sabe ao menos se vai se conhecer, enfim.
De louco e de santo todo mundo tem um pouco - aqui brincando com o famoso dito. Eu tenho muito de louca, uma loucura saudável que me faz achar graça de tudo - ou quase, pois sou louca, mas não insana. Sou uma louca atenta, digamos. Meu lado santo é o da  minha ingenuidade. Um viver com jeito de criança. Porque tudo tem dois lados. Se tem um lado bom das coisas, porque andar pelo lado ruim? Se tem um lado engraçado da vida, porque andar no lado chato? Se tem um lado feliz, porque só ver o lado triste? Infantil, me taxam. Aceito. E nem reclamo: é esse meu lado "alice" que me faz ver o mundo de forma mais aberta, sem tanta maldade. Faz ver meu lado A. Porque de lado B, cheio de maldade, desconfiança, dureza e preconceito, o mundo já está é cheio. E de 'adultos' também.  E nem sempre esse mundo é fácil. Parece que a gente quando 'cresce' esquece de viver.E o mundo dos adultos, bem já sabia eu desde sempre, é muito chato. Previsível. Destemperado.
Meu lado louco me apresentou o Amor, e disparou  em vantagem. Meu lado santo me fez ver que a vida vale  a pena, e isso me deu vida. E assim me vivo, e assim me vejo nos amigos, porque de uma coisa o autor tem razão: "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril. Melhor ser doido de pedra. 
E de pedra de açúcar, para se adoçar os dias...




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sábado, 28 de maio de 2011

Bateu


Minha postagem começava assim:
Já acordei, já levei o cachorro para o banho, já caminhei. Já trabalhei, já coloquei a conversa em dia, já fiz almoço e já almocei....Engraçado... Dia na metade e já com cara de tão inteiro...
Engraçado é a gente entender as coisas só  depois - ou durante mesmo! - que se escreve. Como se as mãos que empunham a caneta ou tocam no teclado pudessem antever as coisas. Ou , quem sabe têm ligação direta com meu ser, mesmo sem eu saber?
Sensação boa essa, quando me dou ao 'luxo' de me ser por inteira. Mesmo não sendo o que quero realmente ser, nem com quem quero ser. Mesmo vendo que se faz as coisas e ninguém vê, já me dou por satisfeita - não em agradá-los, sim em 'me' agradar de alguma forma. Gosto de dias extremos, destes como hoje, em que faço de tudo um pouco - e tão rapido que chego a surpreender até a mim mesma. quando cumpro minhas listas, reais ou imaginárias. E outros que gosto mesmo é de me refestelar ( até a palavra é boa, refestelar...), de nada fazer. Escutar uma musiquinha aqui, assistir um filmezinho ali, puxar a coberta, tirar uma soneca quando o sono chamar. Levantar só para pegar alguma coisa que der vontade de comer  - se der vontade de comer - e voltar para fazer o nada que se estava fazendo. Acho que depende de meu estado de espírito. E do 'entorno', digamos. Tem lugares que preciso me ocupar para me sentir bem, quem sabe útil. E  outros que prefiro me desocupar. Ou me ocupar tão somente do que, se e quando a vontade for muito maior que a preguiça. Dias de me viver.
Fazia isso quando pequena., essa alternância toda minha - isso quando dava, já que para meu pai, estar parado é o mesmo que estar morto. Brinco ao dizer que íamos para a praia - ou sitio- mesmo com chuva de canivetes, nada suíços.Ou isso, e com sorriso na cara, ou um final de semana todo com o cara azedo em casa - nem queriam saber como era isso. Eu? Tinha meus dias de "pulga na bunda", como minha mãe costumava dizer. E outros que queria mesmo era sentar de frente para o mar e ali ficar horas a fio, até tramar rede grande de se deitar. Horas (horas? quem disse que isso tem horas?) a contemplar, o mar e o nada, sem nem pensar, como quem conta as areias de lá. Sentindo o sol passar por mim como quem aquece a alma de leve. E massageia o ego devagar. Só 'voltava' quando o sol  a pino começava a preparar meus miolos cozidos. Ou quando o ventinho do final da tarde gelava as costas .Na verdade, nem sei se gosto de fazer tanta coisa, ou se faço para merecer - o que e porque, não sei, coisas do passado, talvez, de infância marcada a ferro quente na alma. De fazer para agradar. Cá entre nós, ficar de papo para o ar, sem remorso, nem culpas, ah, coisa melhor não há. Até porque sair da inércia pede vontade, coisa que nem sempre se quer ter. Tem coisa melhor do que vadiar?
Finalizando meu dia, lavei a louça ( é, não basta fazer o almoço...), dei uns amassos no filho, revi meu trabalho. E ai dei uma de Joyce que se gosta: um bom "banho de sábado" , uma roupa de domingo e um bate perna por ai. Se foi bom? Foi. Levar a Joyce para passear, assim, ao deus dará, sempre é bom, sempre um prazer: ela é fácil de agradar. Batemos um bom papo, tomamos um bom café, olhamos vitrines e desdenhamos as modas das calçadas, rindo dessa mania que se tem de ser "maria vai com as outras", de todo mundo se vestir igual, mesmo que não caiba - literalmente ou "bomsensamente" falando.
Volto para casa e me sinto só - mesmo com a casa cheia. Melhor pegar um livro e, quem sabe, chamar a preguiça para uma conversa  'tête-à-tête' demorada, um enrosco gostoso - eu, ela e o edredom.  E, quem duvida, voltar a contar estrelas em meu céu da boca...meu jeito simples de ser feliz!

"Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade".
Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Ui!



Ontem eu falava de sensibilidade, como ela me atinge e de que forma. E me referia a relacionamentos, bons e ruins, um assunto incansavelmente debatido em jornais, revistas, novelas, filmes e tudo o mais – até nos famigerados programas vespertinos ( cá entre nós, quem se dá ao ‘luxo’ de perder uma tarde ouvindo isso, merece...). Muitos fazem disso piada, outros tantos drama, perfeita novela mexicana, como costumamos brincar. E daquelas que o som se faz em outro momento que as gesticulações. Ou seja: o caos.
Mas voltando ao assunto – e antes que meu azedume do dia brote pelas ventas e eu feche o lap sem me curar – hoje quero falar de relacionamento. E nem vou me ater a tais como filhos e pais, irmãs e irmãos, amigos e afins. Vou - preciso - falar de relacionamento entre um par – seja ele homem e mulher, mulher e mulher, homem com homem, tanto me faz. Um relacionamento que tenha um envolvimento mais completo, mais complexo – e nada como um deste tipo para dar pano para a manga – aliás, para o vestido todo.
Existem relacionamentos falidos, mortos até, onde se sabe deles assim, neste estado, e nada se faz para mudar – no caso romper ou enlaçar. Foi dado o nó, é só puxar. E esse tipo, conheço, ah, se conheço. De carteirinha. Os que moram sob o mesmo teto - e termina ai o ‘contato’ entre eles, e os que moram em tetos diferentes, relacionamentos que acabam, mas não acabam. Tipo ghost, deu para entender? Não, não falo do bonitão que assombra a dama, enquanto ela faz o vaso, não. Falo dos fantasmas negros, que assombram apenas pela satisfação de fazer sombra, como próprio verbo insinua.
Existem relacionamentos teimosos, em que se tenta, se tenta e se tenta. E se briga, e se separa, e se volta, e começa tudo de novo. Eu chamaria de relacionamento Teletubes, lembram da chatice ? De novo! De novo! E nada novo... e se diz que isso é amor. Eu duvido. Tem muito mais de coisa boa que isso no amar.
Existem os relacionamentos que se dizem bons, mas vão de mornos, já esfriando. Meio termo. Tanto faz como tanto fez. E se pensa ser assim, mesmo. Que é normal. Sem sal. Sem gosto. E se pensa que amanhã melhora. E se...E, infelizmente, isso deve ser a maioria. Não, não me serve. Não sou mulher de ir levando. Gosto mesmo é de viver.
E tem os de adolescentes, cheios de joguinhos. Um emburra daqui, magoa dali. Louco para ligar e não liga. Louco para declarar e não declara. Louco para dar o braço a torcer - ou abraçar -  e não dá. Já passei dessa fase - em idade e mentalidade. Jogo, um sempre vence e o outro perde. E eu estou aqui para, no mínimo, empatar!
E tem esses, apaixonados e apaixonantes em que nos metemos, não sem antes rezar vários pai nosso e ave maria, acender vela para tudo quanto é santo, e até mudar de religião. Desses que se reza um terço antes de se achar um meio de se entregar por inteiro! E se vai, só se vai, sem freios, nem acostamento, nem parada para descansar. Desses que se passa no vermelho. Não há retorno, nem volta, só ida. Sem jogo, a não ser dos divertidos. De quem beija mais, de quem ama mais, de quem ri mais e pensa mais no outro. Do jogo de quem faz o outro sorrir primeiro. Ou chorar, se for de emoção. De quem perdoa o deslize antes. De quem vence o outro no cansaço das horas. De quem gosta mais de abraçar e pegar na mão. De quem fica mais tempo de olho fixo no outro. De quem acha o outro mais bonito. De quem aquece mais rápido o outro na cama (ops!). Ah, esse jogo não dá para dispensar...Nem fugir! Melhor enfrentar.
Relacionamento não rima com sofrimento: rima com paixão. Tempero bom, pimenta de cheiro. Tesão . Calor. Clima tropical. E começa quando se acorda e se vê que se está onde se queria estar...e sem prazo para sair do sonho...


"Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas,
das drogas mais poderosas, das idéias mais insanas,
dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes.

Tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos.
Você pode até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer:
- E daí? Eu adoro voar!
Clarice Lispector




quinta-feira, 26 de maio de 2011

Definindo


A discussão era sobre a sensibilidade masculina. Muitas delas dizendo ser isso fato raro, impossível, difícil,  na melhor das hipóteses. E ai me veio a pergunta: o que é sensibilidade? O que é ser /estar sensível?
Entre ser e estar, muito caminho a cruzar - e entender - pelo menos para mim. Detesto, muitas vezes , quando estou  sensível. Daquela sensibilidade que lembra carne viva, algo intocável, frágil. Odeio chorar por coisas que me magoam à toa, afogar a voz na hora que preciso dela,  perder  a razão e o raciocínio na hora que preciso deles. E deixar que a sensibilidade aflore demais, atrapalhando tudo, momentos por vezes importantes - imprescindíveis até -  para se poder dizer o que se quer , ou precisa - não de forma jogada, mas pensada. Não para também magoar e sim interpelar,  dialogar -  o que pede dois falantes, não um falante e outro chorante. Isso não é sensibilidade, sejamos sensatas. É fragilidade. E não sou - nem pretendo ser - um bibelô. Não me vejo enfeitando cristaleiras da vida, vendo a vida pela vitrine.
Mas , enfim, amo minha sensibilidade quando choro por coisas que me emocionam, cena de filme, talvez. Ou vendo coisas que gosto, coisas simples, nem podem imaginar o quanto são simples, como falar o quanto de bom estou sentindo a quem mereça ouvir! Ou até coisas que me machucam, mas pela impotência de não poder ajudar. Gosto dessa sensibilidade em mim de sentir o mundo com meu coração pulsante. Chorar na hora que a razão perde para a emoção, desde que emoção boa. Na certeza de ver no outro o que ele tem de bom, o que ele sente de bom. E por mim.
Aí entra o outro. O que é um homem sensível? Não o que se deixa abater por qualquer frustração. Nem por qualquer coisa que se diga na real intenção de ajudar, de fazê-lo crescer,  coisa de quem se importa, de quem ama. E nem esperar que ele caia de amores em pleno jogo da final. Ou quando morto de cansaço. Não seríamos sensíveis com ele na última cena do filme que se está amando, certo? Nem no ultimo capitulo da novela que não se perdeu um só dia. Nem quando se perdeu horas na fila do mercado. Quando se está às gargalhadas com amigas. Ou se escutando as queixas da mãe pelo enézima vez ao telefone. Sensibilidade, nessas horas, é  a de ver que não é hora para ser sensível. Separar o joio do trigo - ou o chamar atenção do real sentir. Sensibilidade que nos vem quando vemos no outro seu semblante triste. Nos olhos que pedem ajuda. No silêncio que se codifica. No notar que as coisas não andam bem. E ser sensível para ver isso a tempo de dar a mão. Ou consertar.
Mas, eu acho, só se está sensível assim se se está amando. Sensível demais se é unilateral. E sensível de bom quando dividido com  o outro. Se escuta melhor - ou se tenta, se compreende melhor - ou se tenta, se cuida melhor, da gente e do par. Preocupa-se com o outro, tanto ou mais que com a gente mesma. É um estar atento - de olhos ouvidos e coração.Fazer coisas com primeiras intenções. fazer outras sem esperar elogios.Antecipar-se aos desejos e anseios. Antecipar-se aos pensamentos e ações. Não é isso que esperamos de um homem sensível? E nós, somos? Esperamos flores e um convite para jantar. E porque não fazer? Esperar, sempre esperar, não me parece sensato.
Antecipar-se. Pareço ter definido dentro de mim o que é ser sensível. Chegar antes. Pensar antes. Antever. Não esperar o leite entornar. E nem queimar a boca. Estar além. Como se recebêssemos o outro de braços abertos - esteja ele em lágrimas ou pleno de sorrisos. E ver no rosto do outro o que ele tem de melhor para nos dar. Naquele momento. E uma coisa de cada vez.
Machado de Assis falava que " o tempo caleja a sensibilidade". Eu , otimista e de coração infantil que sou, prefiro pensar como Madame de Stael, a corajosa escritora que ousou enfrentar a fúria de Napoleão Bonaparte - e nem por isso perdeu sua sensibilidade:
 
"A sensibilidade e a imaginação conservam a mocidade imortal da alma".
 
Vou morrer com alma de menina...











quarta-feira, 25 de maio de 2011

Abra!


Muito se fala em relacionamento, talvez pelo selo dado ao presente, o da solidão, o da dificuldade de se achar o outro. Que não existe pessoal ideal, que está difícil achar a metade da laranja, que não existe mais homem - ou mulher - que valha à pena na face da Terra , e por ai se vai. De outro lado, temos casamentos que dão certo, e nos põem otimistas - e  esse deve ser o papel deles na vida -  e muitos outros que não dão. Uns que duram anos, e anos , e anos e de repente se vão - e nem se sabe porque. E mais ainda os que aparentam dar certo, mas a saúde interna anda hemorrágica e nem se sabe - ou se sabe e  não se quer tratar de resolver - porque dói, porque sangra, porque dá trabalho. A morte ali, eminente, e nem se vai ao médico consultar. E nem se aceita como tal.
Talvez eu não seja a melhor pessoa do mundo para dar conselhos sobre isso, visto o que vivo, mas que tenho uma boa percepção, ah, isso tenho. Pelo menos sei o que quero e o que não quero, o que já é um bom começo. E sei onde está o que quero, o que já é uma grande coisa, mesmo que tenha que, para isso, atravessar pântanos indesejáveis, usar de minha paciência e deixar a vida me levar, sim, mas sempre no rumo certo. Sei bem onde quero aportar.
Acho que a gente espera muito de um relacionamento mesmo antes dele começar. Muitas vezes mesmo antes dele estar a caminho. Idealiza-se muito, como se fossemos adolescentes sonhadoras - as de ontem porque as de hoje primeiro curtem,  se jogam, só depois pensam. Como se fôssemos, todas, princesas à espera do príncipe encantado. Gatas borralheiras à espera de alguém que nos transforme em Cinderelas. Ficamos à espera que ele venha em seu cavalo branco, ou suba a torre do castelo para nos salvar. Ai está a palavra chave: esperamos. Mas a vida real, fora das páginas coloridas dos livros de contos de fadas e dos filmes que nos fazem vibrar por dentro - e sonhar em ser  protagonista de um romance legal -  é muito diferente. Temos como companheiros na jornada não só os dois, o par, o que por si só já daria trabalho. Mas muitos. Temos a correria do dia-a-dia, temos o pão nosso de cada dia cada dia mais pão duro e menos nosso, temos a concorrência desleal de novas rainhas à espera que de que mordamos a maçã envenenada da intriga. Ou bruxos aquecendo um caldeirão para nos cozinhar. Temos os amigos a agradar, as famílias a nos aceitar - e por vezes nossos próprios filhos, nestes ditos tempos modernos ( mas tão iguais ao de nosso pais). Quem sabe ex-maridos? Gente do contra não falta. Gente arguindo, mais ainda. E ai ficamos, entre a cruz e a caldeirinha, entre arriscar ou repensar, tentar ou desistir. E como se não bastassem eles, temos nós mesmos, nosso pior inimigo. Ficamos no " e se" e  "mas" e não damos uma chance, nenhum passo a mais. Sem nem saber o que há dentro do pacote, se feio ou bonito.
Sim, porque relacionamento é um pacote. Cheio de coisas dentro, nossa e do outro. Uma caixa abarrotada de prós e contras, de sim e não, de coisas boas e coisas nem tão boas assim. De atributos e defeitos. De hábitos e manias. Minha dica? Pegue a caixa se ela parecer interessante. Aceite-a como um presente, desses, que não se sabe o que vem dentro. Deixe o passado e o futuro para ver depois. Sem medo, mas com cautela. E vá tirando as coisas de dentro, sem preconceitos - que o nome já diz tudo. Sem ideias preconcebidas. Sem comparações com o que já se viveu - porque é novo, isso você tem que saber.  Sem achar que já sabe de tudo - porque nunca se sabe. Nem os videntes mais sábios não vêem o que vai acontecer com precisão. Então, não dê uma de cartomante. Nem tente lê as cartas do tarot. Muito menos ver se os signos combinam. Dê uma de ser humano, pessoa comum, que acerta e erra - e dê essa chance do outro ser.  E se dê a chance de, pelo menos, tentar ser feliz . Por um momento, por um beijo, por um dia, pela vida toda  que tem pela frente! Viva!
E depois que vocês estiverem por ai, rindo à toa, sem nem saber porquê, lembre do que eu disse...
Não acredita em mim? Então seja Clarice!

"Renda-se, como eu me rendi.
Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei.
Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.
Clarice Lispector

terça-feira, 24 de maio de 2011

Quer?




Hoje é o Dia Nacional do Café - dizem! Engraçado isso, temos dia para quase todas as coisas. E se for para desejar, falta o Dia Nacional do Sorvete, com deliciosas promoções em todas as sorveterias por ai afora. Ou Dia Nacional do Chocolate, sei lá se tem, mas deveria. E que tal o Dia Nacional - ou Internacional? -  do Amor? E do Carinho? Talvez do Beijo?
É, ando bem "engraçadinha", já me disseram. E pelo ver dos dias que pensei em criar, carente. Não que não tenha isso tudo ao alcance, mas são coisas que quanto mais se tem, mais se quer. É ou não é? Poderia ter também o Dia do Chapéu, assim mataria a minha vontade de usar um sem o medo ridículo que tenho de pagar mico ou outro bicho qualquer.
Mas voltando às vacas magras, mas nem tanto, pois gosto de café com leite - e com ele um docinho qualquer, biscoito minúsculo, quem sabe um pedacinho de chocolate largado no fundo? -  gosto que me enrosco. Não do espresso (sim, é assim mesmo, com "s" e não com "x" de apressado), que gosto, mas me dá um certo mal estar. Quem sabe um carioca, como chamam aqui o café passado - ou coado, diria minha mãe. Quem sabe o cappuccino, preferido de meu filho. Ou um moca, gostinho de quero mais. Ah, são tantos e de tantos modos, tantos países e regiões de origem, tantos jeitos de preparar, quentes ou frios, quem sabe gelados, virando sorvete, hummmm? Já até sonhei em ser barista ( não, não é quem frequenta bar e sim quem entende e prepara cafés), assim como ainda sonho em ter um café charmoso - aqui lugar, não bebida -  junto  a uma pequena livraria. Alto demais?
O café me persegue, num bom sentido, desde sempre. Dos cafés açucarados de minha mãe e de minha avó, das quais eu roubava grandes goles - porque era mais gostoso, feito beijo. Dos cafés da tarde de praia, pão recém feito em casa comido morno ainda, leite de leiteiro entregue na porta, nata e manteiga caseiras. Quem sabe um doce de goiaba para acompanhar? Uma enorme xícara, coisa que gosto - e coleciono - até hoje - é claro, para caber muito. Dessas ser pires, grande asa e pronto. E colorida, sempre, para dar mais sabor. Quem sabe uma cuca de uva feita pela Zeny? Lembro também de atravessar a rua e trazer café tinindo de quente , servido em copo americano, da lanchonete em frente  à loja de minha mãe, Girassol, de onde gostava até do nome. Vinha enrolado com guardanapo na ânsia de não virar - mas não impedia de queimar meus dedos ainda pequenos. E tinha - e tem - lá seu sabor nessa simplicidade toda. E como. Ou de um que tomei pelas bandas de Tiradentes, a cidade, não o mártir,  com belo pão lotado de queijo fresco. Ou o gelado, apreciado assim, sem nenhuma pressa, do famoso Café Tortoni, o mais antigo de Buenos Aires. Café sempre me traz boas lembranças-  a não ser  por uma ou outra língua desavisada e queimada.
Café, adoro o cheiro, o gosto, o efeito em mim. Gosto do jeito simples com que invade a casa com seu aroma , gostoso despertador, avisando que chegou mais um dia, cuco silencioso e animador. Gosto do jeito que me acorda. Amo quem faz bem, ajeita lindamente na xícara, desenha com o simples vapor, coração, ou flor. Aplaudo de pé. Bom vinho, com todos os cuidados de escolha e serviço que esta bebida pede. Amo sentar junto ao amor e degustar, sem pressa, como se fosse momento único, tempero da hora, um breve relaxar. Café pede parada. Café pede dois. Nem que seja eu e eu, as tantas Joyces a conversar. Assim, em silêncio e sabor. O mundo lá fora a se espernear e eu ali, alongando a mente, belo espreguiçar.
E uma delas, curiosa, acha frases que me fazem rir. Ou pensar.

"O café deve estar quente como o inferno, ser negro como o diabo, puro como um anjo
e doce como o amor."
Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord

"Funcionários públicos nunca devem tomar café depois do almoço. Faz com que percam o sono à tarde." Jilly Cooper

"Quando nós bebemos café, as idéias marcham como um exército."
Honoré de Balzac
 
"Se não há café para todos, não haverá para ninguém."
Che Guevara
 
Servido?


segunda-feira, 23 de maio de 2011

Pirada...



Na falta de tempo ou de palavra desejada,
fica um verso, sincero e divertido, muito nele embutido,
feito gosto de quero mais, bala açucarada:

"A vida é doce, feito bala confeitada.
Devorar tudo de uma vez?
Não se sente o gosto, nem o gozo, nem nada!
Melhor se ela for assim, assim,
bem demoradamente degustada...
Joyce Diehl, a la Leminski

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Vou





"Você é aquilo que reinvidica,
o que consegue gerar
através da sua verdade e da sua luta,
você é os direitos que tem, os deveres que se obriga,
você é a estrada por onde corre atrás,
serpenteia, atalha, busca, você é o que você pleiteia.
...
Você não é só o que come e o que veste.
Você é o que você requer, recruta, rabisca, traga, goza e lê.
Você é o que ninguém vê".

Este texto de Martha Medeiros , sempre tão vigorosa em suas colocações -  nada de menina como eu -combina com meu dia e todos os pensamentos que couberam nele. Melhor seria dizer semana? Uma soma de dias confusos que demoraram a passar. dizem que era coisa da lua. sei lá.
Hoje viajo, de novo, como tantas e tantas vezes nesse meus últimos 13 meses. E sempre fico nesse misto de medo e euforia. Nada como uma rotina, um saber-se bem o que se tem a enfrentar. São longas horas de viagem, mas nada que um Dramin e uma cobertinha não resolvam. É sempre bom: durmo num lugar, acordo em outro. Entro num estado, saio em outro - aqui geograficamente falando. Saio de um estado e chego noutro - aqui falando de ânimo. Da euforia de esperar tantas horas ali, inerte e sem ter muito o que fazer a não ser esperar, belo teste de paciência. Uma rotina que já se fez como tal, e como tal, rezo para que não mude - só se for para melhor. O alívio de chegar, sã e salva, ao meu  destino, meu porto geralmente gelado logo pela manhã, mas nem por isso menos alegre. Nada que um café não tire a preguiça e me coloque de novo no prumo. E no rumo, das coisas que sonho e faço, das coisas que sonho e hei de fazer. Ja são meses nisso e não em canso. E jamais vou cansar. Procurar o que quero, viver coisas novas, ver nova gente, aprender novas coisas, rejuvenesce. E não serão tantas horas de vai e vem que vão me envelhecer. Têm coisas que tem de ser feitas, não há saida. Outras coisas que se quer fazer, a saída é nossa escolha, feito menu. E escolho por mim, bem longe das dúvidas e azedumes de outros. Eles terão dois trabalhos: entender e aceitar. Minha asas são outras quando chego lá. Amplas e  brancas, prontas para voar. Como se fosse eu ave do cais,  faminta, à espera do barco cheio de peixe. Aquela, ouro da casa, que já faz parte da paisagem, belo personagem de cartão postal. 
Vou. Mais um vôo é anunciado. Meu porto me espera. Quem disse que quero outro lugar?

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Moda?




Está ai um tema irrelevante para mim: moda.  Tenho um estilo próprio, dificilmente abandonado aos ventos dela. Não sou folha fácil de me deixar levar ( seria o peso da idade ou da balança?). E deve ser uma coisa antiga, até. Coisas da personalidade forte, diria minha mãe ( e vai dizer, se isso ler ). Eu diria de personalidade tímida - e por isso o personagem- mais fácil de encarar. Tenho traços que me acompanham desde cedo, como paixão por lenços. Melhor dizer panos em geral -  echarpes, cachecóis, curtos, compridos, de lã, seda ou tricô, tecido qualquer , desde que macio e envolvente. Está ai a palavra chave: conforto . como quem se veste para brincar de roda. Ou no chão, com bonecas. Quem sabe de page-pega, moleca. Menos os esvoaçantes como quem é cortina leve e se deixa balançar pelo vento, labaredas na janela. E até sou bem criativa nisso: o que me falta é coragem.
Nas minhas brincadeiras de me vestir - essas que me acompanham vez por outra, quando me deixo tentar me reconhecer, na tentativa muitas vezes vã de me apaixonar por mim mesma, como sou - eu me acho. E me 'acho' , desfilando sozinha em frente ao espelho, manequim e público de uma só, cama cheia de roupas. E depois me perco. Como se não passasse tudo de uma brincadeira  ( e não é?). Como se voltasse a ser criança ( e não sou?) . E volto à minha mesmice de bastidores de sempre. Paro de ser Cinderela  e volto a ser borralheira - nem gata sou.
Ok, estou exagerando, diria ele. Como sempre, e tem razão. De olho no armário lotado e dizendo não ter roupa. Coisa de mulher, ele vai pensar - e dar as costas, dizer que fico linda de qualquer jeito. E fico, no vestidinho fácil de tirar. Mas a verdade é que tenho um misto de preguiça , de pensar e de inovar. Vou sempre pelo menos - devia ser homem - a não ser os olhos, sempre bem pintados, quiçá até para dormir, se combinar com a camisola. Sinto-me nua de olhos limpos, já que a cara está sempre bem lavada. Ou, melhor relembrar: sinto-me linda ao lado do amor, como se ele me hidratasse a pele, me desse viço ao cabelo, mesmo que desgrenhado ( ui, até  a palavra soa feia, como
e descrevesse o fato!) . Sinto-me linda quando ele me olha mesmo de lado - e espera eu inclinar a  cabeça, como quem não cabe de todo na imagem. Ele ri, ainda na porta, e dá de costas. Sinal de que estou linda. E ai, basta um salto. Desse, não abro mão. Como se me identificasse como mulher, identidade marcada. E não precisa ser do tipo fininho, não, mas nada de tamancão de  arrasar baile funk. Só quero o porte. Como se só ele me bastasse. E basta. Enfim, olho bem pintado, salto alto , cabelo solto e despreocupado. Por mim, saía  de jeans , camisa e  pescoço adornado. Mas é pouco, a moda pede mais. E a gente sempre vai atrás.
Voltando do delírio e do transporte de corpo e alma, não é do DNA. Minha avó pintava cabelo com o tal shampoo cinza, no tempo que isso não era normal. Tirava a sobrancelha e nunca - leia-se nunca! -  saia sem uma boa meia fina e tecido tampando o 'papo'. Tomava banhos de sábado, sempre, mesmo que fossem segundas de chuva. A casa ficava toda perfumada. E eu, fascinada, mas ficou só nisso.  Minha mãe sempre foi elegante, de corpo e de pose. Já descia cedo nos acordando com o barulho do salto. Calça só em viagens de carro e dias de faxina - e olhe lá. Sempre tecidos esvoaçantes, estampas trabalhadas, sai justa bem marcada. Meia fina e scarpim. E isso tudo para dar aula, e dirigir seu fusquinha por ai. Herdou da mãe os lenços, geralmente pendurados, e desde muito, presentes meus. Eu, terceira geração, gosto do que não me incomoda. Por mim ficava de vestidinho o dia todo, coisa que só o tempo nos ensina. Quem sabe uma rasteirinha - isso até a porta da casa - ou se for para fazer charme de quem nem está ai. Conforto, sim, mas sem tênis - esses só para caminhar, e porque ainda não inventaram mais nada. Devia mesmo morar em lugar frio. Ou no meio do mato. Adoro botas, meu lado cowboy. Só o que me falta é um bom cavalo para dar uma volta, lacear o dia por ai.
As modas? Tenho medo delas, velhas ditadoras. E enganadoras motoristas. Quando, enfim, a gente se deixa levar, vê que entrou no ônibus errado. Ou que ela já estacionou em algum lugar. Eu, por ter aprendido em casa a não deixar comida no prato, sirvo-me dela com cautela.Vai que a comida  esfria antes mesmo de se experimentar?

Leite, leitura
letras, literatura,
tudo o que passa,
tudo o que dura
tudo o que duramente passa
tudo o que passageiramente dura
tudo, tudo, tudo
não passa de caricatura
de você, minha amargura
de ver que viver não tem cura
(Paulo Leminski, o poeta da vez)

E nem a moda tem...

terça-feira, 17 de maio de 2011

Porque?



"Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
...E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?"
Paulo Leminski

Esses versos de Leminski deram o que falar.  Não só pelo jeito sempre despojado do poeta - para não dar outros qualitativos que me faltam agora  - e me resguardando de alguma 'crítica' - no sentido de análise e não de contra -  que seja mal interpretada, porque amo . Que faz das palavras objetos vivos, como já havia alertado certa vez , quem sabe pressentido, Victor Hugo. Que dá vida às mais simples, fazendo-as cantarolar e dançar em minha mente, feito cantiga de roda. - essas, de rima fácil e bem entendida, nada afetada, nada escondida. E como me dá uma energia diferente ler algo assim, tão grandemente inusitado e imensamente divertido. E ao mesmo tempo incógnita ( talvez pela facilidade da fala)  e clara, como são claras e sem retoques as coisas  que vêm da alma, feito as frases de crianças. As coisas saem livres de suas bocas com uma certeza que desconserta. E a dita "gente grande" fica ali , com cara de tacho e boca aberta pensando " de onde essa criatura tirou isso".
Pois bem, paulo escreve assim de forma desconsertante. Quem me dera. Mas deixo de lado essa mania que me persegue desde o dia de parida de me deixar por baixo e me envergonhar diante da grandeza das coisas não minhas. E brinco, atrevida , mesmo frente a um mestre das letras corridas:

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque me cura. Alívio.
Como quem tira o sapato apertado do dia.
Ninguém tem nada a ver com isso Ou tem , quem me lê e fantasia
Escrevo porque anoitece, e dos pensamentos me livro
e porque sonho com um sono de mel
não com pesadelos atrevidos.
Eu ai eu pergunto
Tudo tem que ter um porquê?
Eu creio apenas, 
e sonho muito.
Eu vivo apenas.
e me deixo levar.
Eu amo, não apenas, mas porque vale  a pena  amar. 
Eu sou assim,
mesmo que  ninguém creia em mim...
Joyce Diehl

Paulo Leminski ( 1944-1989), paranaense de Curitiba,
foi poeta, escritos, tradutor e professor.
E faixa preta de judô.  E tem que ter porquê?

segunda-feira, 16 de maio de 2011

No Choice


"Se tens um coração de ferro, bom proveito.
O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia."
José Saramago

Essa frase, vinda de Saramago, foi um presente. Mas está longe de ser um alento. Só um aviso, de que sou normal, de que não estou sozinha, e sofro,  sangro, não por acaso e sim pela vida. E, como sempre, fez parar para pensar. As palavras, admito, têm esse poder sobre mim. Podem me fazer saltitar, as bem ditas. Ou gelar a alma, as malditas. Como se  tivessem descoberto algo que eu não sabia. Ou sabia, admito, sempre sabemos, mas entre saber e aceitar tem um mundo enorme. Um grande vazio de não querer.

Bom se eu tivesse coração de ferro, ou de pedra - como muita gente que conheço. Ou tem, ou se faz, não sei - ai o problema já não é meu, posto eu já tenho muitos. O meu anda vermelho, forte, pulsante como nunca foi antes. E teimoso. Não aceita qualquer coisa. Fere-se por nada. Vaza sentimentos pelos poros. Pelos olhos. Bom se os olhos não vazassem saudade a qualquer momento - ou tristezas em momento que não se quer - porque se sabe não valer a pena, mas se chora. Choro tem destas coisas. Pode ser bom, muito bom, pois transborda sentimentos que nos fazem bem. Pode-se chorar de alegria. Ou até de tristeza, da saudade já sentida quando o outro ainda está ao nosso lado, uma saudade adiantada até. Choro bom de tanto rir. De emoção pelo filme que finda, final feliz. Do encontro tão esperado. Da palavra tão esperada. Chorar por nada, ou por tudo, melhor dizer, desde que seja por coisa boa. Choro bom é destes que limpa a alma, alimenta a paixão. Reforça o companheirismo. Faz brilhar os olhos. Transborda de emoção. Choro bom é aquele que se chora no colo do outro. Que se troca por um doce abraço.
Que se soluça num gesto até parar. Desse tipo de choro, leve e apaixonado, gosto.

Choro ruim não. Geralmente aqueles que se chora sozinha, baixinho, escondida por ai. Choro discreto de quem não pode se ver chorar. De sofrer sozinha. De quem tem vergonha ou não quer fazer o outro sofrer também, porque não tem como explicar. Choro sem cumplicidade, choro de um só. Ou de não ter onde ( a falta que faz um lugar para chorar...). Esse dói, como se saisse só metade, e metade ficasse dentro. Não falo aqui do choro descontrolado sem porque. Muito menos das beatas,choradouras de costume - essas me irritam. Nem da fúria que , por vezes, salva, põe para fora o demônio enrrustido, desabafo puro. Falo de um choro solitário, que faz o coração parecer de pedra de tão pesado. nada resolve, nada melhora, mas assim mesmo vem. Desse não dá para gostar.

É, meu querido poeta português, hoje viajante do tempo, bom se o coração da gente fosse de ferro - ou se tivesse pelo menos escolha. A gente não sangraria tanto. Mas não sei se a vida teria tanta graça...

domingo, 15 de maio de 2011

Uno



Li um texto da Lya Luft -  que admiro, mas acho que põe muito de suas mágoas em seus textos, como se o mundo tivesse que sofrer as suas mazelas ( e aí entra meu sempre estar 'de bem', mesmo não estando, enfim...cada um tem seus motivos. E seu jeito.), que criticava os que diferenciam a escrita masculina, dita vigorosa, da escrita feminina, doce. Acho que os dois gêneros, na escrita, não ficam tão definidos assim. E nem na vida. E tenho os meus porquês.
A ideia de um homem sensível e emotivo me traz a imagem de meu irmão, chorando em seu casamento ( as más línguas  já diriam que era arrependimento!). Meu próprio pai, dito nada sensível, hoje chora por qualquer coisa. Meu cunhado, então, nem se fala, emoção pura, daqueles de 'dar vexame'. São homens até certo ponto truculentos à primeira vista, mas se derretem por muito pouco. Gosto de homens assim, que se entregam às emoções. Não ficam reprimidos em suas carcaças. Deixam a gente ver que são homens, sim, mas nem por isso não sabem sentir as coisas. Homens que viram 'mulherzinhas' uns preferem dizer, por conta do 'homem não chora'. Homem chora, sim. E como são adoráveis nessa hora! Deixam de ser os bichos que foram ensinados a ser. E viram gente como  a gente.
Pois bem: adoro homem assim. Gosto de homem que se entrega. Que me passa o que está sentindo. Que chora no meu colo se tiver vontade. Que troca de lugar comigo nessa vida - nem ele é machão, nem eu delicadinha. Aliás, está ai a palavra chave de todo bom relacionamento: troca. Na troca, ninguém é totalmente feminino e tampouco é totalmente macho. Somos os dois, um pouco de cada um, como já cantou Pepeu - o que não fere o outro lado. A troca vira soma: somos um só. Acho até que que deveriam banir as roupinhas azuis e rosas da infância: bom mesmo seria usar roupa neutra, verde ou amarelo, para variar.
E vejamos o lado contrário. Eu, por exemplo, adoro futebol. Torço como homem, já bem disse meu filho. E a coisa não pára por ai: visto-me de forma prática e uso um lencinho ou adereço - e pinto os olhos - para me sentir mais feminina - não sei se por instinto ou agradar meu lado masculino. Não me dou bem com saltinhos - a não ser que queira. Nem com vestidos muito sexies - a não ser que queira. Não uso perfume - a não ser que queira. Acho que a minha feminilidade está na pele. No sorriso. No olhar atento. Não nos cabelos que, volta e meia, penso em tosar feito menino - pela praticidade e pelo charme que acho.
 Lya fala : " não sou uma mulher que necessita de ajuda de um homem. Não necessito de proteção de homem nenhum. Essas mulheres frageizinhas, que fazem esse gênero, querem mesmo é explorar seus maridos". Eu discordo. Precisamos deles -  e ele de nós -  desde que nos amem, que façam isso por amor. E se não for por amor - que seja posse ou algo pior - ai sim, sinto-me objeto, e ai sim, concordaria com ela. Mas, se estamos falando de companheiro -  coisa rara hoje em dia e por isso os relacionamentos não duram -  vale tudo. Pedir ajuda e ajudar. Ser consolada e consolar. Aplaudir e ser. Aconselhar e aceitar conselhos. Falar e escutar (parte mais dificil, bem sei...). Se nem dentro de um relacionamento  a gente puder ser a gente mesma, de que vale amar?
Ah, Lya, não sou fragelzinha. Sei escrever com vigor também. E conheço muito homem que me faz chorar com suas palavras - as bem ditas , e bem escritas - porque das mal ditas e ofensivas meu coração já está cheio. Aliás, foi com essa  'fragilidade' masculina que o amor me conquistou, e bem devagar. E com palavras bem delicadas de amar.
E nada tem de vigoroso nas palavras delicadas de Mário Quintana, homem e gaúcho,
esse tipo cheio de fama:

"O amor é quando a gente mora um no outro".

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Se



Meu dia começou cinzento, mas o sou foi abrindo ao poucos, até o sol me cegar. Talvez pelas tarefas, muitas,  enfim findas. Ou pela mania de sempre que tenho de tentar tapar o sol com a peneira - ou melhor dizer, a tristeza com alegria. Acho, incorrigivelmente, que um sorriso é uma boa arma - ou, pelo menos, um bom escudo: freia até gripe, dizem. E aprendo no meu dia-a-dia, mesmo que não entenda e nem queira, que o que não falta é gente para nos colocar para baixo. Mas que tem o dobro de gente nos colocando para cima! Ou tentando, e conseguindo, desde que a gente mesma não se faça de peso morto e, no meu caso, que peso! e que morto! Viu? Rindo de mim mesma, já. Ou de novo. Ou ainda. (não, longe de mim não me levar a sério. O que eu não ando levando muito a sério é a vida...).
Alegrou-me saber de uma amiga que ela aprendeu comigo a rir dela mesma, de tentar - pelo menos tentar - não levar tudo a ferro e fogo, e sim a folha e  vento, se deixar levar pela vida, se me permitem um fraco trocadilho. Que forçar a barra não leva a nada, a não ser se machucar. Que dar murro em ponta de faca só corta a gente. Que hoje se sofre calada para amanhã se rir a toa. E por ai se vai...desfiladeiro de boas companhias.
Está certo, concordo, nem sempre é facil. Ninguém gosta de ser saco de pancada - nem de riso ( lembram disso?). Eu mesma acho uma tarefa espinhosa essa  a de não surtar . Às vezes - mas só às vezes -  se faz necessário surtar, como se soltássemos o berro cravado na garganta antes que nos sufoque. O outro se assusta e se cala por vez - ou pelo menos por um segundo, dando tempo de se respirar. Quem sabe até respeita. Mas por pouco tempo, muito pouco tempo, isso eu garanto. Melhor mesmo é conversar - ou pelo menos tentar. Ou calar-se, como escrevi ontem, quando a muralha parece intransponível. Quando o outro vira parede, surda e cega, beco sem saída. Eu me sinto mais forte quando consigo falar. Quando me deixam falar. Quando me ouvem. Quando faço parte de um diálogo que, como o nome já diz, precisa de dois. E de dois em um mesmo tom de voz. E mesma hierarquia , diria. De igual para igual, vale dizer - o que já é difícil, dado que a gente sempre se acha melhor que o outro ( preciso rever meus conceitos...). E enquanto ainda não me afogo na voz amargurada - eu e muita gente que prefere discutir por palavras escritas, não mal faladas. Quando não me atrapalho tentando puxar o fio da meada - e me vem o rolo todo, sufocantemente emaranhado. Uma armadilha.Um emaranhado que me amarra o raciocínio, deixa pesado o meu pensar - isso quando não tropeço em mim mesma.
Mas sei bem o que quero da vida - e isso não é. Disso tenho plena certeza. Gosto de pensar que alguém me escuta. Que alguém, mesmo sem me dar razão na hora, se deixa levar pelo meu falar. Como se meu falar entrasse nele, assim, bem devagar, semeando flores. Que esse alguém talvez não me escute na hora que eu quero, mas entenda na hora que precisa. E isso me basta. Sorrio, confiante, cheia de mim. Cheia do que eu tenho de melhor para dar. Porque  meu melhor é como meu sorriso: quanto mais dou , mais tenho para dar.


"Se for pra esquentar, que seja ao sol.
Se for pra enganar, que seja o estômago.
Se for pra chorar, que se chore de alegria.
Se for para mentir, que seja a idade.
Se for pra roubar, que se roube um beijo.
Se for pra perder, que se perca o medo.
Se for pra cair, que seja na gandaia.
Se existe guerra, que seja de travesseiros.
Se existe fome, que seja de amor.
Se for pra morrer, que seja de rir.
                        Se for pra ser feliz, que seja o tempo todo! "                 
Texto que já foi de Quintana, e de outros tantos, mas segue sem dono.
Uma coisa é certa: um dono para lá de otimista. Como eu.

Gritando



Para quem é sensível, como eu, basta uma revirada no tempo e a noite cai. Um oi mal dado, um suspiro mal interpretado, um telefonema atravessado ou o filho que prefere seu fone de ouvido a conversar com a mãe. Descobri que sou “das antigas”. Que acho que um fone no ouvido é como uma porta fechada com placa na porta do tipo ‘não perturbe’. Eu uso, não sou santa, bem longe disso, mas mais para me livrar do medo e incômodos de horas e horas pela estrada insegura da vida, ao lado de um desconhecido qualquer, e junto de muitos. Outra coisa que não tolero é filho que só conversa – ou mostra interesse – quando é para pedir algo – carona, dinheiro, nunca um bom conselho. Acho que filho que é filho deveria gostar mais de estar do lado, junto, melhor dizer – antes que ele ponha de novo o instrumento de se isolar. E nisso me culpo de estar morando tão longe dos meus. E me culpo – e logo me desculpo - mais ainda em preterir estar ao lado deles em prol de meus sonhos, do que acho que é bom para mim.
Não, não foi sempre assim. Dizem que é a tal da “aborrescência” que vem tardia, fazendo-me achar vacinada. Ou devo ser eu que estou precisando de atenção. Ou até de desculpa por estar sempre tão longe – por isso gosto de conversar. Saber das coisas. Acarinhar. Não é a toa que ganha massagem nos pés – e se bobear no corpo todo – quase todos os dias, isso desde bebê. A própria médica dele falava que ia morrer solteiro, que nunca ia achar uma mulher que seja espelho da mãe, como juram que os homens fazem os psicólogos e tantos ‘freuds’ da vida. Pobre do meu, vai ser difícil arranjar uma mulher tão menina e tão brincalhona como a mamãezinha dele.
Não, não ando aborrecida. Apenas triste. Ou cansada, parodiando Clarice. Talvez cansada de não ser eu mesma. Por me deixar levar tão facilmente pela vida. De me deixar afetar por tão “pouco” – um pouco que, se vindo de quem se ama, pesa tanto... E tenho tentado afastar isso de mim de mil maneiras. Conversas com amigos, namoros com a vida, riso solto - geralmente de mim mesma, que ando desligada.... Ou seria melhor dizer desmembrada? Meu corpo está aqui, mas minh’alma anda longe, bem longe daqui. Não só em espaço, mas em tempo: ando vagando pelo futuro já. Ando me sentindo a deriva, sem bússola, longe de meu próprio porto.
Então, me fecho. Respondo na mesma moeda, como se costuma dizer. Ponho eu também o meu fone, cato uma bela música, deixo o ‘pequeno príncipe’ se virar. Para ele, morte, bem sei. Minha mãe de costas, logo ela que sempre está pronta para um abraço, há de se pensar.
Silêncio. Um fala que vale ouro, outro que é resposta, um outro que seu fruto é a paz. Hoje não estou boa para concordar. Lembro dos casais não mais enamorados e seu silêncio desolador, mesmo frente a frente, lado a lado, cada um com a sua dor. Pai e filho brigados. Silêncio que grita mesmo calado. O silêncio do sumiço frente ao outro que espera, desolado. Silêncio eu uso quando fujo. Silêncio para mim, longe das salas de espetáculo e dos hospitais, onde se pede e se espera, é desprezo. Desinteresse. Calo o que não quero falar, não que não deva. É barulho interno, pensamento a mil, geralmente acompanhado de desvio de olhar – ou de um olhar ferrenho, como minha mãe usava – e me veio como o DNA. Silêncio é bom quando estamos sozinhos – um silenciar da mente, bela meditação que é. Ou na janela, como quem vê o tempo a passar. Falo até com os cães e os pássaros, mesmo que não me entendam, meu jeito de gostar. Se a dois, falo sempre, muito com os olhos. Essa é, sim, a minha melhor resposta. Minha melhor forma de dizer ‘te amo’, meu brilho no olhar. Quem merece, sabe. Quem merece, vê e verá.
“Pior do que a voz que cala, é um silêncio que fala.
O único silêncio que perturba, é aquele que fala.
E fala alto”.
Martha Medeiros











quarta-feira, 11 de maio de 2011

Sendo

 

"É melhor você ter uma mulher engraçada do que linda, que sempre te acompanha nas festas,
adora uma cerveja, gosta de futebol, prefere andar de chinelo e vestidinho, ou então calça jeans desbotada e camiseta básica, faz academia quando dá, come carne, é simpática, não liga pra grana,
só quer uma vida tranquila e saudável, é desencanada e adora dar risada.  
Do que ter uma mulher perfeitinha, que não curte nada, se veste feito um manequim de vitrine,
nunca toma porre e só sabe contar até quinze, que é até onde chega a sequência de bíceps e tríceps.  
Legal mesmo é mulher de verdade. E daí se ela tem celulite?   O senso de humor compensa. Pode ter uns quilinhos a mais, mas é uma ótima companheira.   Pode até ser meio mal educada quando você larga a cueca no meio da sala, mas e daí?   Porque celulite, gordurinhas e desorganização têm solução.   Mas ainda não criaram um remédio pra futilidade!"
 
Esse texto se diz ser do Arnaldo Jabor , e eu normalmente não colocaria todo ele, mas achei que merecia. Não que eu concorde na íntegra com o que ele diz, tenho lá minha ressalvas. Linda é toda a mulher que se gosta. Descobre em sí o que tem de melhor e sabe como valorizar isso - seja, sorriso, peito ou olhar. Que sabe encantar com as armas que tem. Engraçada é toda mulher que transforma um drama numa coisa simples - senão em piada. Que ri de si mesma, mesmo na pior das enrascadas. Companheira, que assiste ao futebol  - e torce! - ou pelo menos não fica de cara amarrada. Ou, como dizia outro texto, espera em casa bem cheirosa para comemorar. Machista, eu? Não! Simplista. Se a gente gosta de alguém, por que não agradar - e ser agradada ? Porque torcer contra, deixar a coisa desandada? E se o time perde, bem, cabe a nos adular. Incentivar nas horas ruins, aplaudir nas horas boas - nem que seja a louça do almoço bem lavada  - ou a cueca no cesto de lavar. Perceber como o outro chega em casa. Estar atenta ao que o outro diz - a parte mais difícil para mim. Não, não é obrigação, ninguém é obrigado a nada, o que demonstra da parte do outro interesse pela relação. Ah, e chinelinho, camiseta dele, cabelo molhado, vestidinho é tudo de bom: basta saber usar. Quando mais simples e confortável tanto melhor, sem deixar de lado toda a vaidade, amiga íntima do bom senso. Melhor que isso só cheiro de banho recém tomado, cabelo recém lavado, cheiro da colônia da vez. Compõem bem um cenário de leveza, de destreza, sem máscaras a nos enganar - até porque na hora 'H' isso tudo cai por terra  - ou chão, quem há de duvidar. Melhor ainda é se descabelar. Que adianta, então, tentar enganar? Tudo muito certinho, afetadinho, averiguadinho, escondidinho, como quase todo "inho" , enjoa - a não ser carinho e beijinho que, quanto mais se tem , mais se quer. O previsível enjoa, cansa, desfalace; o não esperado acorda, faz brilhar. Torna tudo mais saboroso, gostoso, apetitoso. Deixa  gente ansiosa por viver. Como quem toca a campainha sem avisar. Ou traz flores. Ou liga para ver como o outro está. Ou para dizer que sente falta.
Ah, tudo compensa quando se sabe viver o amar. Tudo fica mais fácil quando se ri junto, quando se chora junto, quando o simples abraço parece ser a melhor coisa do mundo. Quando até a compra de supermercado se transforma em passeio, que dirá o cinema de mãos dadas - ou a caminhada solta pela calçada. A mão no bolso do outro, a cintura enlaçada. O sorrisinho solto enquanto se toma um café. Quando as gordurinhas  - ou magreza - 'somem' - ou viram piada. As rugas viram paixão, sutilmente reveladas na madrugada. Quando o olho ganha um brilho todo especial  e não enxerga mais nada - a não ser o outro, assim, como é, bicho que for.
É, ele tem razão. É melhor ter coisas a mais que coisas a menos. Ser exagero que falta. Conquistar cada passo da estrada - sempre que der, um do lado do outro. Fazer do outro alguém melhor e mais feliz. Sentir-se cuidada e  cuidar. Se importar. Isso vale mais que uma beleza comprada. Ou a roupa que não pode amassar. Isso tudo, na hora boa, não vale nada!

terça-feira, 10 de maio de 2011

Tentação


"Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança,
 fazendo-a funcionar no limite da exaustão".

Carlos Drummond de Andrade tinha razão. Ele se foi, mas sua razão ficou. Vivemos de esperas, como se o hoje - presente - não passasse de um pacote qualquer, papel pardo.  Guardamos o passado em gavetas amareladas,  e enfeitamos o futuro como se presente fosse. E o presente se vai. Se é Natal, logo vem o Ano Novo, e já esperamos pelo Carnaval - talvez não pelo samba e festa, mas pelo descansar - nem que seja  só na quarta de cinzas, dia de ressaca. Mal é Fevereiro, talvez Março e já estamos cansados. Passado o bloco, esperamos que Tiradentes morra, que chegue logo a Sexta feira Santa - jejum de comida para uns, fartura de sono para outros, um levantar mais tarde da cama. E a Páscoa - nem tanto pelo renascimento, mas pela doçura e feriado. E ai vem outro e mais outro dia folgado. E que dizer do dia do trabalho quando cai num domingo? E datas a serem comemoradas como dia das mães  ou dos pais - que até parece sacanagem, devia ser dia farto, um dia presente. E dia dos namorados - que para mim é qualquer dia e nada santo e sempre deveria ser bem comemorado? Em junho não tarda a  vir o Corpus Christi,  e marchamos na estrada o Sete de Setembro. Em Outubro rezamos pela Nossa Senhora Aparecida - eu não prometo, pois cai numa quarta.Os finados serão lembrados numa outra quarta e a Proclamação da República em uma terça, bela imendada. E o aniversário do menino Jesus cai num domingo. Isso lá é dia de nascer? E ai começa tudo de novo, entra feriado, ninguém descansa, volta o povo cansado. Não deveria ser o contrário?
Drummond tem razão. Quem fatiou o ano em pedaços sabia o que estava fazendo. Conhece bem os homens, sabe que somos gulosos e que vamos querer a torta toda, bem devorada. Sem nem mastigar! E em cada fatia, muito recheio de esperança. Mas, esperança no que? Paro para pensar que o homem não sabe o que quer, não sabe o que faz. Torce que os dias logo cheguem e não se dá conta que com eles vêm os meses, que puxam os anos, mais um bolo inteiro que se vai. Deixa para se feliz amanhã, um amanhã que nem sabe se vai estar. Por isso eu tenho pressa, muita pressa, feito o Coelho de Alice. Não que os dias passem, corrida de ponteiros ao som do tic-tac, pois quero vivê-los a contento. Mas na esperança de encontrar meu porto seguro logo mais. Logo ai, na próxima dobrada da vida. Meu bolo inteiro, com o doce recheio de ser amada - e que vou comer devagar, sentindo cada bocada.

domingo, 8 de maio de 2011

Somos




Dia das Mães. Pelo menos, um dia para sermos lembradas, não é? Ontem gostei de ver: filhos e filhas levando flores de um supermercado. Uns chinelinhos de andar em casa, outros perfumes, quem sabe mantas para esquentar. As lojas de roupas cheias de filhos e pais desesperados. Um movimento de entra e sai danado. Eu sempre dou para minha mãe cachecóis, já bela coleção. Acho gostoso feito abraço. Enlace. Carinho quente e macio. Como tantos, cachecóis e carinhos, ela já me deu na vida.
E, nas minhas andanças pela vida e pelos dias, descubro que toda mulher é por si só mãe. Descobrimos cedo esse legado. Somos mães de bonecas, para quem entregamos nossa primeira semente de amor incondicional. lembro de ter ficado com febre certa vez que esqueci minha boneca na casa de parentes. E só melhorei quando minha mãe me comprou outra. Depois somos mães de irmãos e irmãs, mais novos ou nem tanto. Lembro-me bem de fazer lanche para meu irmão, três anos mais velho. Ou de salvá-lo de uma ou outra enrascada, Ou até de brincar com ele na falta de amigo.E de apartar discussões entre os outros, eu, assim, sempre meio conciliadora. Mais tarde, podemos ser  conselheiras amorosas de irmãs  ou de amigas que choram. Somos mães de nossos companheiros, somos mães de nosso filhos, quem sabe noras, quem sabe genros. E, um dia, somos ou seremos mães de nossas mães. E mães postiças de nossos netos. Nascemos para sermos mães. E ponto.

Mas a vida mostra que somos apenas auxilidoras da vida, a grande mãe. Por isso gostei de uma frase que li por ai:
"Somos todas mães adotivas, sejam elas geradoras ou postiças. A verdade é que a mãe biológica dos nossos filhos é a vida.", de Paloma Muniz.

Lembrei de um livro que ganhei de minha irmã - daquelas 'bíbilias' de como cuidar de uma criança  - como se isso fosse ensinável e não um auto apredizado eterno -  cuja dedicatória me foi mais mestra que o próprio conteúdo. Uma grande verdade que levei - levo -  ao pé da letra, sabedoria de Khalil Gibran:

 "Vossos filhos não são vossos filhos. São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma...Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas".

Arcos. Somos arcos, essa arma ao mesmo tempo forte e flexível. E lançamos, entre medo e  coragem, nossos filhos para a vida - mas não antes de prepará-los, cuidá-los, formá-los a contento. E somos abraço, colo, abrigo. Somos choro e riso. Mas somos também mestras e , bem por isso mesmo, alunas.
É, ser mãe é ser complexa, mas de ser complexa todas nós mulheres bem sabemos. E meus parabéns aos homens que souberam nos acompanhar nessa jornada - por vezes tomando de nós a rédea, por querência ou imposição. E meus parabéns às tantas 'mães postiças' que amam meu filho, quem me provam que fiz -  e faço -  a coisa certa, segurando com firmeza meu arco. E melhor ainda saber saber, como diz meu filho, que sou  sua 'mãe predileta"...

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Soprando



Um dia já tinha comentado que só escrevo quando não estou bem. Se estou, silêncio, caso de ontem, mescla de correria e paz. E cansaço, claro, afinal viver nove longas horas de mesmice e medo para chegar ao meu porto não é nunca nada fácil. O que me move é sempre ele, o que me amarra e me segura,
meu trapiche.
Se ontem o dia estava puro sol, talvez pelo sonhar alto, hoje nuvens. Nuvens do medo - aquele que tem todo e qualquer mortal -  e até os imortais dizem sentir - da coisa nova. Do imprevisto. Do não sabido. Do nunca vivido. E já faz um bom tempo que estou passando, sempre, por coisas novas. Novas aulas, novos professores, novos assuntos, novos encontors, novas decobertas, novas batalhas - como a  velha e não tão boa mania de achar que não vou dar conta. Que não é para mim. Que estou aquém. Nuvens de insegurança, coisas que se tem sempre que se vive uma coisa que se quer muito, e esse muito parece afogar a gente de medo. De novo, sempre ele, o medo. Nuvens do futuro, essas que sempre estão em nós que temos essa vontade de saber o que ainda não dá para saber -  não é à toa que os horóscopos,as runas, o I Ching  e tantas cartas - e suas amantes reais ou virtuais - vivem habitando nossas vidas - aberta ou nem tão abertamente assumindo.
Então, escrevendo me descubro, e às vezes até me entendo, e me curo - ou tento. Ou colocando meus pensamentos - minha vida, minha morada, postas em dia, boa terapia. E não demoro a descobrir o que encobre meu brilho. O que me limita, ontem, hoje e sempre, é o medo. Medo que o passado volte a me assombrar. Medo do hoje, que me largue a mão. Medo do amanhã, eterna incógnita. Medo dos fantasmas de ontem e dos fantasmas de hoje ( sim, eles existe, e estão sempre torcendo contra). Não que me assustem, muito pelo contrário - põem-me em alerta, põem viva - mas  é como se a gente tivesse sendo segurado de alguma forma. Ou fosse ser atacado na próxima esquina, ou na caixa de entrada. Temos medo até de ser feliz...
Medo. Sempre é bom ter, já que também nos faz sobreviver. Se o homem das cavernas não tivesse medo, não teria descoberto o fogo. Os gênios não teriam feitos suas descobertas. O pedestre atropelado. O filhote não sairia da toca. A criança não viraria adulto. O assaltado não sobreviveria. O malabarista já teria desistido. Ninguém entrava na escola  - e nem saia dela. E não se faria uma pós, nem curso qualquer. E nunca se tentaria novo emprego. Ou um novo alguém. Se não tivéssemos tanto medo da solidão, não estaríamos abertos ao outro ( e medo de solidão pode vir até de uma casa cheia...). E nem seríamos tão cuidadosos quando, enfim, descobrissemos o que é amar - sentimento sempre tão extremo, cheio de medos e esperanças.
 Medo, entendo, são nuvens. Por vezes, muitas delas, necessárias - sombra e proteção, quem sabe chuva que molha a terra, chapéu contra o ardente sol. Outras nem tanto, mascarando o que está por vir (mas não seria exatamente para nos encorajar, nos fazer insistir?). Nuvens. A gente só tem que lembrar que o sol, nosso e do mundo, nossa quente coragem, está logo acima ou aqui dentro de nós. Muitas vezes só basta acreditar mais. No que somos, no que temos de melhor. Soprar com mais vontade. Fazer valer.  Dissipar.

"As nuvens, mesmo as mais densas, são transitórias.
Nós, essencialmente, somos sol".
Ana Jacomo

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Bordando



'Tenho aprendido com o tempo que a felicidade vibra na frequência das coisas mais simples.
Que o que amacia a vida, acende o riso, convida a alma pra brincar,
são essas imensas coisas pequeninas bordadas com fios de luz no tecido áspero do cotidiano.
Como o toque bom do sol quando pousa na pele.
A solidão que é encontro.
O café da manhã com pão quentinho e sonho compartilhado.
A lua quando o olhar é grande.
A doçura contente de um cafuné sem pressa.
O trabalho que nos erotiza.
Os instantes em que repousamos os olhos em olhos amados.
O poema que parece que fomos nós que escrevemos.
A força da areia molhada sob os pés descalços.
O sono relaxado que põe tudo pra dormir.
A presença da intimidade legítima.
 A música que nos faz subir de oitava.
A delicadeza desenhada de improviso.
O banho bom que reinventa o corpo.
O cheiro de terra. O cheiro de chuva. O cheiro do tempero do feijão da infância.
O cheiro de quem se gosta.
O acorde daquela risada que acorda tudo na gente.
 Essas coisas. Outras coisas. Todas, simples assim.'
Ana Jácomo

Minha ideia  era postar esse texto simples e complexo ao mesmo tempo e sair correndo, como quem não tem coragem - nem de interferir em tamanha beleza de palavras bem postas, nem de 'ferir a frase e esquecer' como disse certa vez um poeta. Mas não consigo,  tenho coisas entaladas em mim.
E antes que me afoguem ou asfixiem, me salvo aqui.
Seguinte:  a vida é simples, a gente que complica. E procura. Ok, a vida não é todo esse mar de rosas que a tal Ana pinta e borda, fazendo dela belo tapete de amar. Mas também não precisa ser só arame farpado, mar revolto, arma em punho. Nisso me estranho do mundo- e me admiro. E me cuido para não entrar no redemoinho, destes que a gente arruma com um simples copo d'água, basta remexer e remexer. Desse copo, prefiro adoçar e beber. E  só se adoça olhando nos olhos, dizendo a verdade, palavras de mel. Porque pressupõe-se ai, vontade de encaixar. De resolver, mas a amiúde.
Fazer valer o nós, junção de dois.
Eu sou simples, muito simples. Aceito fácil o que não tem remédio. Espero o que tem que ser esperado. E muito prática para fazer o que dá para ser feito - isso, se eu quiser, claro. Ou se eu puder e quando. Se valer a pena, faço. E pelo amor , sempre vale. Bordar, bordar e bordar. Olhar de longe para ver o conjunto, olhar de perto para ver se está bem feito, Refazer os pontos ainda soltos. E cuidar para não criar nós, e sim, laços. Nossos pequeninhos "fios de luz  no tecido áspero do cotidiano "- mas que fazem toda  a diferença.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Lisura



Hoje, caminhei logo cedo com toda essa energia que nem eu sei de tiro, feito coelho da cartola. Tinha dormido mal - tenho dormido mal - por conta das ansiedades da vida e quem sabe dos hormônios da idade. Uma sucessão de sonhos estranhos, intercalada por barulhos sei lá de onde, combinação explosiva com meu corpo inquieto. Na real, deve ser saudade da minha cama. Sim, não ando me sentindo exatamente "em casa". Então, essa, apesar de minha, não é minha casa, nem essa a minha cama. A única coisa realmente chata de não se ter uma casa ou uma cama é não ter onde chorar. Não tem coisa pior do que se ter vontade de chorar e não ter onde fazê-lo. E é tudo culpa da minha mãe que falava, ao menor desatino nosso, "vai chorar na cama que é lugar quente!". Nem podia imaginar ela como isso marca. Sem cama, sem choro.
E assim la nave vá...la vita camina...
Enfim, voltando à caminhada - sem nem saber como fui mudar de rumo e parar para chorar na cama - não são só meus músculos que se exercitam, já falei. As ideias sempre me acompanham, por vezes cochichando, por vezes berrando feitos loucas desvairadas -eureca! E entre tantos pensamentos que me vieram e foram, ficaram e se perderam, lembro de poucos ( qualquer dia vou caminhar com um gravador...). 
Um deles era um retrato da mulher depois de cair no abismo dos 'enta'. Como mudamos - como mudei! Luta insana: a cabeça a mil e o corpo despencando. E é triste se saber que isso só vai, queda livre no tal de abismo da piada. E, por outro lado, auge! Mentalmente mais ativas - desde que não se tenha petrificado vendo novelas. Eu, modestamente, prefiro petrificar vendo um bom filme, que adoro. Ou babar sobre as folhas de um bom livro. Melhor ainda se me instigar  a história - filmada ou escrita. Entro em êxtase, como poucas ( êxtases, não mulheres!). Quase uma viagem das que se faz quando o amor é bom...
e se deixa levar, sem nem saber para onde.
Aliás, outra boa lição, do como a gente curte melhor as coisas, desde um pedaço de bolo - talvez porque o único, dado ao juizo - ao longo beijo, talvez porque raro, dado aos raros momentos. E como se sabe que ele começa é no olhar...Como a gente sente mais as coisas, pêlos levantados ao menor toque. Como se dá valor a um bom beijo. Como se namora com mais afinco, longe das acrobacias, mas muito mais perto do podium. Como se chora mais facilmente em frente a um bom filme - ou comercial de sabão - desde que seja pura emoção. E como se aprecia coisa simples, muitos simples, como um bom enlaçar.
Talvez porque se sabe mais. Se sabe que a partir de agora a regra se inverte: ganhar é fácil, dificil é perder - desde que sejam quilos. O jogo muda: não há vencedores nem vencidos, a não ser pelo cansaço. Que a gente perde em fôlego, mas ganha em entusiasmo. Perde amigos, mas ganha em amizade. Perde músculos, mas ganha a liberdade de se achar bonita assim como está: basta uma bela sandália, ou um vestido preto - e um belo sorriso nos lábios. Que um olho bem pintado faz sumir as rugas - que, para mim, são segredos em braile.... Que o cabelo desarrumado tem lá o seu charme.  E o mais importante: ama de verdade. A nós mesmas e a quem ficou do nosso lado. Sem o rompantes da cega paixão, sem as frescuras dos tempos em que se queria manter as aparências, ser perfeita, mesmo sem ter razão. Somos o que somos, enfim , verdadeiras. Mulheres, inteiras. Não tem abismo, não. A não ser estes, de querer viver.

"O destino de uma mulher é ser mulher"
Clarice Lispector

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Doce



Estava indo dormir, sem passar por aqui. Assim, sorrateiramente, como quem foge de si mesma, nossa maior loucura. Fugir de si mesmo é o mesmo que tentar se livrar de nossa sombra que, mesmo com sol a píno, sabemos que está lá.
Já fechava o lap, satisfeita pelo feito de ter adiantado assuntos que me pareciam de difícil acesso para hoje. E já tinha dado boa noite ao dia, já tinha chamado até o sono para subir comigo e me enlaçar - e ele feliz. Eis que  um atalho de blog em minha tela colorida me chama a entrar. Como quem atrai uma criança com um doce - sabendo que meu doce são as palavras - ditas , escritas e lidas ( o amor já sabe, foi assim que me fisgou, bela armadilha bem tramada...).
E lá estava a guloseima do dia:

"São os olhos, exatamente os olhos, que eu mais ouço. A vida tem me ensinado, ao longo da jornada, que as palavras muitas vezes mentem. Os olhos, geralmente, não desmentem o que diz o coração".

De uma 'tal' de Ana Jácomo com quem ando flertando, quem sabe entrando em um amor platônico - até o gozo de me entregar por inteira quando, enfim, tiver um de seus livros na mão, a acariciar e por fogo na relação...
Ah, os olhos, espelho da alma, já disseram. Os meus vão do mais profundo mar até as águas mais claras - estas que se vê e dá inveja de não estar lá. Os meus, mutantes, mudam de cor conforme minha'lma está. Cinza, se triste, azul  intenso se choro. E só o amor sabe a luz que me dá quando estou em êxtase de amar. Como se pegassem a estrada do sol só de ida, para nunca mais voltar.
Mas a Ana, destemida, quer de mim mais, muito mais. Tudo do que sou capaz.  E lá está:

"O amor, devagarinho, esgarça o tecido que veste as nossas defesas e deixa a nossa alma toda de fora. Depois, sorri, encantado, diante da beleza singular da nossa nudez".

Essa pegou fundo, me fez parar. Fico aqui pensando se quem não ama, ou nunca amou, quem nunca se viu assim, carne viva, se entende, se cabe falar.  Umas poucas palavras e se monta  a cena, tão claramente verdadeira, do que é amar. Quem ama, sente-se nu. A alma vira pele. A pele vira tato. Deixa-nos nus de verdade, mesmo estando vestidos até os dentes, mesmo estando armados com tudo o que pensamos saber sobre o amor, sobre o amar. Guerra insana. Luta descabida. Cena dolorosa. Doença sem cura. E mesmo assim, amamos amar. Que o digam os poetas. Por vezes o amor vai e bate a porta, e a sensação de nudez acompanha a gente por muito tempo ainda, um frio descabido, destemido, nada singelo, nada maternal. Gelamos ao primero sinal de desistência. Sangramos ao primeiro sinal da guerra nada fria das palavras, fortes lanças a nos cortar.  Mas, bastam os olhos demonstrarem a verdade - nua, crua e latejante - e tudo se desmonta. Ou melhor dizendo, tudo se refaz. A pele volta a ser pele, arrepiada só de pensar. O tato volta  a ser tato, na ânsia de reencontrar. E a gente se entrega outra vez, sem nem pensar. Nem se olha o chão manchado da batalha. Nem se olha para trás. Sem se dá bola para o que dizem os astros. Porque o mundo some. E  a gente volta  a viajar...a dois.