segunda-feira, 30 de maio de 2011

Açúcar



Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e aguentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos,
nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.


Esse poema-texto - ou seria texto-poema? - de Oscar Wilde, escritor irlandês do século passado,  se intitula Loucos e Santos. Tão longinquo e tão atual, como todos os mestres à frente de seu tempo, muitos chamados de loucos. E não só gosto, como me encaixo nele com uma certa perfeição imperfeita, o que é melhor ainda. E lembra muito uma mania que tenho - e por vezes me atrapalha - de considerar todos os conhecidos como amigos - e de confiar até o primeiro golpe. 
Conhecido ou amigo? Na minha cabeça de menina-mulher  - ou mulher - menina? Que dilema!-  isso não tem lá muita diferença. Talvez  porque não goste de coisas rasas, nem pessoas, nem sentimentos. Talvez porque queira tudo  à minha volta por inteiro. Talvez porque me jogue para depois ver o tamanho do tombo. Não sei ser meia pessoa, meio gente. Não sei gostar - nem desgostar - pela metade, assim como não me contento com pouco. Sou gulosa de tudo que há na vida. E principalmente do menu de coisas boas. Gosto de comer muito, de rir muito, ler muito. Falar muito. De conhecer muita coisa - se possível ao mesmo tempo. Quando me apresentam alguém, por exemplo, não sei ficar no "tudo bem": dê-me um minuto e já estou em papo de longa data. Não por ser faladeira, nem futriqueira, nem fofoqueira. Mas por gostar de conhecer pessoas. De deixar o outro á vontade. Por gostar de pessoas. Por gostar. Não sou de aperto de mão fraco, ou meio beijo na face - dou logo três, como é a regra no Sul . Vou logo dizendo a que vim. Encaro de frente, olho no olho, porque ali neles está muita verdade. Não sei ser tímida, porque tímida eu sou, mas timidez não leva  a nada. Ao contrário: podem achar que meu tímido pode ser um lado chato. Ou pedante. Ou se achar demais. Como sei bem o pouco que sou, dou logo a cara à tapas. Isso me custa tanto que nem imaginam, mas faço disso um belo exercício diário de me expôr ao mundo. Uma frase, uma brincadeira, um sorriso e quebro o gelo recém formado. Puxo conversa, nem que seja 'será que vai chover". Como se quissese terminar logo com o receio de  não parecer quem sou. Ou de me fechar feito ostra.
Wilde estava certo. Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta, nem que não os "conheça", novo truque da vida moderna. Aliás, nisso, de conversar e se conhecer, antes mesmo se de ver, muita vantagem. Você primeiro se abre. Se mostra. E depois vê no que dá. Vê se o outro é o que diz ser, um dito nas entrelinhas e muita palavra batida no teclado. Se dá certo ou não só o tempo dirá. Se dirá, porque as novas amizades pode ser assim uma vantagem: não se sabe ao menos se vai se conhecer, enfim.
De louco e de santo todo mundo tem um pouco - aqui brincando com o famoso dito. Eu tenho muito de louca, uma loucura saudável que me faz achar graça de tudo - ou quase, pois sou louca, mas não insana. Sou uma louca atenta, digamos. Meu lado santo é o da  minha ingenuidade. Um viver com jeito de criança. Porque tudo tem dois lados. Se tem um lado bom das coisas, porque andar pelo lado ruim? Se tem um lado engraçado da vida, porque andar no lado chato? Se tem um lado feliz, porque só ver o lado triste? Infantil, me taxam. Aceito. E nem reclamo: é esse meu lado "alice" que me faz ver o mundo de forma mais aberta, sem tanta maldade. Faz ver meu lado A. Porque de lado B, cheio de maldade, desconfiança, dureza e preconceito, o mundo já está é cheio. E de 'adultos' também.  E nem sempre esse mundo é fácil. Parece que a gente quando 'cresce' esquece de viver.E o mundo dos adultos, bem já sabia eu desde sempre, é muito chato. Previsível. Destemperado.
Meu lado louco me apresentou o Amor, e disparou  em vantagem. Meu lado santo me fez ver que a vida vale  a pena, e isso me deu vida. E assim me vivo, e assim me vejo nos amigos, porque de uma coisa o autor tem razão: "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril. Melhor ser doido de pedra. 
E de pedra de açúcar, para se adoçar os dias...




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