quarta-feira, 4 de maio de 2011

Bordando



'Tenho aprendido com o tempo que a felicidade vibra na frequência das coisas mais simples.
Que o que amacia a vida, acende o riso, convida a alma pra brincar,
são essas imensas coisas pequeninas bordadas com fios de luz no tecido áspero do cotidiano.
Como o toque bom do sol quando pousa na pele.
A solidão que é encontro.
O café da manhã com pão quentinho e sonho compartilhado.
A lua quando o olhar é grande.
A doçura contente de um cafuné sem pressa.
O trabalho que nos erotiza.
Os instantes em que repousamos os olhos em olhos amados.
O poema que parece que fomos nós que escrevemos.
A força da areia molhada sob os pés descalços.
O sono relaxado que põe tudo pra dormir.
A presença da intimidade legítima.
 A música que nos faz subir de oitava.
A delicadeza desenhada de improviso.
O banho bom que reinventa o corpo.
O cheiro de terra. O cheiro de chuva. O cheiro do tempero do feijão da infância.
O cheiro de quem se gosta.
O acorde daquela risada que acorda tudo na gente.
 Essas coisas. Outras coisas. Todas, simples assim.'
Ana Jácomo

Minha ideia  era postar esse texto simples e complexo ao mesmo tempo e sair correndo, como quem não tem coragem - nem de interferir em tamanha beleza de palavras bem postas, nem de 'ferir a frase e esquecer' como disse certa vez um poeta. Mas não consigo,  tenho coisas entaladas em mim.
E antes que me afoguem ou asfixiem, me salvo aqui.
Seguinte:  a vida é simples, a gente que complica. E procura. Ok, a vida não é todo esse mar de rosas que a tal Ana pinta e borda, fazendo dela belo tapete de amar. Mas também não precisa ser só arame farpado, mar revolto, arma em punho. Nisso me estranho do mundo- e me admiro. E me cuido para não entrar no redemoinho, destes que a gente arruma com um simples copo d'água, basta remexer e remexer. Desse copo, prefiro adoçar e beber. E  só se adoça olhando nos olhos, dizendo a verdade, palavras de mel. Porque pressupõe-se ai, vontade de encaixar. De resolver, mas a amiúde.
Fazer valer o nós, junção de dois.
Eu sou simples, muito simples. Aceito fácil o que não tem remédio. Espero o que tem que ser esperado. E muito prática para fazer o que dá para ser feito - isso, se eu quiser, claro. Ou se eu puder e quando. Se valer a pena, faço. E pelo amor , sempre vale. Bordar, bordar e bordar. Olhar de longe para ver o conjunto, olhar de perto para ver se está bem feito, Refazer os pontos ainda soltos. E cuidar para não criar nós, e sim, laços. Nossos pequeninhos "fios de luz  no tecido áspero do cotidiano "- mas que fazem toda  a diferença.

2 comentários:

  1. Com este lindo fio.., muita calma e muito amor,
    creio que será possível tecer uma vida cheia de poesia, magia, verdade e cor!

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  2. Eu acho feminino e inteligente,que,o que não podemos mudar, tentamos amenizar...faz parte da harmonia do bem viver.
    E que maravilhoso seria se pudéssemos colocar fios dourados e flores, em vez de lágrimas e mágoas..no imutável jeito de ser, da grande maioria dos seres que nos cercam...
    Adorei como sempre Joy.

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