sexta-feira, 13 de maio de 2011

Gritando



Para quem é sensível, como eu, basta uma revirada no tempo e a noite cai. Um oi mal dado, um suspiro mal interpretado, um telefonema atravessado ou o filho que prefere seu fone de ouvido a conversar com a mãe. Descobri que sou “das antigas”. Que acho que um fone no ouvido é como uma porta fechada com placa na porta do tipo ‘não perturbe’. Eu uso, não sou santa, bem longe disso, mas mais para me livrar do medo e incômodos de horas e horas pela estrada insegura da vida, ao lado de um desconhecido qualquer, e junto de muitos. Outra coisa que não tolero é filho que só conversa – ou mostra interesse – quando é para pedir algo – carona, dinheiro, nunca um bom conselho. Acho que filho que é filho deveria gostar mais de estar do lado, junto, melhor dizer – antes que ele ponha de novo o instrumento de se isolar. E nisso me culpo de estar morando tão longe dos meus. E me culpo – e logo me desculpo - mais ainda em preterir estar ao lado deles em prol de meus sonhos, do que acho que é bom para mim.
Não, não foi sempre assim. Dizem que é a tal da “aborrescência” que vem tardia, fazendo-me achar vacinada. Ou devo ser eu que estou precisando de atenção. Ou até de desculpa por estar sempre tão longe – por isso gosto de conversar. Saber das coisas. Acarinhar. Não é a toa que ganha massagem nos pés – e se bobear no corpo todo – quase todos os dias, isso desde bebê. A própria médica dele falava que ia morrer solteiro, que nunca ia achar uma mulher que seja espelho da mãe, como juram que os homens fazem os psicólogos e tantos ‘freuds’ da vida. Pobre do meu, vai ser difícil arranjar uma mulher tão menina e tão brincalhona como a mamãezinha dele.
Não, não ando aborrecida. Apenas triste. Ou cansada, parodiando Clarice. Talvez cansada de não ser eu mesma. Por me deixar levar tão facilmente pela vida. De me deixar afetar por tão “pouco” – um pouco que, se vindo de quem se ama, pesa tanto... E tenho tentado afastar isso de mim de mil maneiras. Conversas com amigos, namoros com a vida, riso solto - geralmente de mim mesma, que ando desligada.... Ou seria melhor dizer desmembrada? Meu corpo está aqui, mas minh’alma anda longe, bem longe daqui. Não só em espaço, mas em tempo: ando vagando pelo futuro já. Ando me sentindo a deriva, sem bússola, longe de meu próprio porto.
Então, me fecho. Respondo na mesma moeda, como se costuma dizer. Ponho eu também o meu fone, cato uma bela música, deixo o ‘pequeno príncipe’ se virar. Para ele, morte, bem sei. Minha mãe de costas, logo ela que sempre está pronta para um abraço, há de se pensar.
Silêncio. Um fala que vale ouro, outro que é resposta, um outro que seu fruto é a paz. Hoje não estou boa para concordar. Lembro dos casais não mais enamorados e seu silêncio desolador, mesmo frente a frente, lado a lado, cada um com a sua dor. Pai e filho brigados. Silêncio que grita mesmo calado. O silêncio do sumiço frente ao outro que espera, desolado. Silêncio eu uso quando fujo. Silêncio para mim, longe das salas de espetáculo e dos hospitais, onde se pede e se espera, é desprezo. Desinteresse. Calo o que não quero falar, não que não deva. É barulho interno, pensamento a mil, geralmente acompanhado de desvio de olhar – ou de um olhar ferrenho, como minha mãe usava – e me veio como o DNA. Silêncio é bom quando estamos sozinhos – um silenciar da mente, bela meditação que é. Ou na janela, como quem vê o tempo a passar. Falo até com os cães e os pássaros, mesmo que não me entendam, meu jeito de gostar. Se a dois, falo sempre, muito com os olhos. Essa é, sim, a minha melhor resposta. Minha melhor forma de dizer ‘te amo’, meu brilho no olhar. Quem merece, sabe. Quem merece, vê e verá.
“Pior do que a voz que cala, é um silêncio que fala.
O único silêncio que perturba, é aquele que fala.
E fala alto”.
Martha Medeiros











Um comentário:

  1. Esse post era de quinta, mas esperava, impacientemente, a volta dos que se foram: o Blogger estava fora do ar!
    Por isso, hoje tenho duas curas. As já cicatrizadas, nem sempre a contento, e as das feridas abertas do dia...
    Boa leitura!
    Joyce

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