terça-feira, 3 de maio de 2011

Lisura



Hoje, caminhei logo cedo com toda essa energia que nem eu sei de tiro, feito coelho da cartola. Tinha dormido mal - tenho dormido mal - por conta das ansiedades da vida e quem sabe dos hormônios da idade. Uma sucessão de sonhos estranhos, intercalada por barulhos sei lá de onde, combinação explosiva com meu corpo inquieto. Na real, deve ser saudade da minha cama. Sim, não ando me sentindo exatamente "em casa". Então, essa, apesar de minha, não é minha casa, nem essa a minha cama. A única coisa realmente chata de não se ter uma casa ou uma cama é não ter onde chorar. Não tem coisa pior do que se ter vontade de chorar e não ter onde fazê-lo. E é tudo culpa da minha mãe que falava, ao menor desatino nosso, "vai chorar na cama que é lugar quente!". Nem podia imaginar ela como isso marca. Sem cama, sem choro.
E assim la nave vá...la vita camina...
Enfim, voltando à caminhada - sem nem saber como fui mudar de rumo e parar para chorar na cama - não são só meus músculos que se exercitam, já falei. As ideias sempre me acompanham, por vezes cochichando, por vezes berrando feitos loucas desvairadas -eureca! E entre tantos pensamentos que me vieram e foram, ficaram e se perderam, lembro de poucos ( qualquer dia vou caminhar com um gravador...). 
Um deles era um retrato da mulher depois de cair no abismo dos 'enta'. Como mudamos - como mudei! Luta insana: a cabeça a mil e o corpo despencando. E é triste se saber que isso só vai, queda livre no tal de abismo da piada. E, por outro lado, auge! Mentalmente mais ativas - desde que não se tenha petrificado vendo novelas. Eu, modestamente, prefiro petrificar vendo um bom filme, que adoro. Ou babar sobre as folhas de um bom livro. Melhor ainda se me instigar  a história - filmada ou escrita. Entro em êxtase, como poucas ( êxtases, não mulheres!). Quase uma viagem das que se faz quando o amor é bom...
e se deixa levar, sem nem saber para onde.
Aliás, outra boa lição, do como a gente curte melhor as coisas, desde um pedaço de bolo - talvez porque o único, dado ao juizo - ao longo beijo, talvez porque raro, dado aos raros momentos. E como se sabe que ele começa é no olhar...Como a gente sente mais as coisas, pêlos levantados ao menor toque. Como se dá valor a um bom beijo. Como se namora com mais afinco, longe das acrobacias, mas muito mais perto do podium. Como se chora mais facilmente em frente a um bom filme - ou comercial de sabão - desde que seja pura emoção. E como se aprecia coisa simples, muitos simples, como um bom enlaçar.
Talvez porque se sabe mais. Se sabe que a partir de agora a regra se inverte: ganhar é fácil, dificil é perder - desde que sejam quilos. O jogo muda: não há vencedores nem vencidos, a não ser pelo cansaço. Que a gente perde em fôlego, mas ganha em entusiasmo. Perde amigos, mas ganha em amizade. Perde músculos, mas ganha a liberdade de se achar bonita assim como está: basta uma bela sandália, ou um vestido preto - e um belo sorriso nos lábios. Que um olho bem pintado faz sumir as rugas - que, para mim, são segredos em braile.... Que o cabelo desarrumado tem lá o seu charme.  E o mais importante: ama de verdade. A nós mesmas e a quem ficou do nosso lado. Sem o rompantes da cega paixão, sem as frescuras dos tempos em que se queria manter as aparências, ser perfeita, mesmo sem ter razão. Somos o que somos, enfim , verdadeiras. Mulheres, inteiras. Não tem abismo, não. A não ser estes, de querer viver.

"O destino de uma mulher é ser mulher"
Clarice Lispector

2 comentários:

  1. Todas nós, todas, se tivermos a graça de passarmos pelos enta, vamos nos sentir felizes eu sei, mesmo que tudo tenha mudado tanto.. eu nos meus 36 já me sinto tão mudada.. por dentro.. por fóra...
    É um dilema mental isso... quero estar com a mente em dia, bem sempre, atemporal.. precisamos disso pois a vida, a vida é durona. Implacável, com todos e todas nós.
    Um bjo mon cherry!
    Babemos nos livros então!!! Boa! o/
    Aryadne.
    Aryadne.

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  2. Complexo e abrangente assunto.
    Eu sempre penso que o mundo está ao contrário e ninguém reparou?
    isso se deve a ironia do tempo, não da idade...do tempo mesmo, do tempo que eu era perfeitinha por fora e não tão complexa e atraente por dentro,agora se pudesse escolher queria ser tão perfeitinha por fora e continuar tão iluminada e guerreira por dentro, como essa escolha é impossível fico com minhas conquistas e evoluções interiores mesmo.
    Nada que um bom jeans, uma linda camisa e um poderoso par de sandálias não façam...por que? Simplesmente porque o meu interior eu carrego comigo e sempre falo que os bons me sigam!!!!!
    Joyce, como sempre vc exercita minhas partes preferidas o coração e o cérebro...o resto a gente faz com calma e muita propriedade.

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