quarta-feira, 18 de maio de 2011

Moda?




Está ai um tema irrelevante para mim: moda.  Tenho um estilo próprio, dificilmente abandonado aos ventos dela. Não sou folha fácil de me deixar levar ( seria o peso da idade ou da balança?). E deve ser uma coisa antiga, até. Coisas da personalidade forte, diria minha mãe ( e vai dizer, se isso ler ). Eu diria de personalidade tímida - e por isso o personagem- mais fácil de encarar. Tenho traços que me acompanham desde cedo, como paixão por lenços. Melhor dizer panos em geral -  echarpes, cachecóis, curtos, compridos, de lã, seda ou tricô, tecido qualquer , desde que macio e envolvente. Está ai a palavra chave: conforto . como quem se veste para brincar de roda. Ou no chão, com bonecas. Quem sabe de page-pega, moleca. Menos os esvoaçantes como quem é cortina leve e se deixa balançar pelo vento, labaredas na janela. E até sou bem criativa nisso: o que me falta é coragem.
Nas minhas brincadeiras de me vestir - essas que me acompanham vez por outra, quando me deixo tentar me reconhecer, na tentativa muitas vezes vã de me apaixonar por mim mesma, como sou - eu me acho. E me 'acho' , desfilando sozinha em frente ao espelho, manequim e público de uma só, cama cheia de roupas. E depois me perco. Como se não passasse tudo de uma brincadeira  ( e não é?). Como se voltasse a ser criança ( e não sou?) . E volto à minha mesmice de bastidores de sempre. Paro de ser Cinderela  e volto a ser borralheira - nem gata sou.
Ok, estou exagerando, diria ele. Como sempre, e tem razão. De olho no armário lotado e dizendo não ter roupa. Coisa de mulher, ele vai pensar - e dar as costas, dizer que fico linda de qualquer jeito. E fico, no vestidinho fácil de tirar. Mas a verdade é que tenho um misto de preguiça , de pensar e de inovar. Vou sempre pelo menos - devia ser homem - a não ser os olhos, sempre bem pintados, quiçá até para dormir, se combinar com a camisola. Sinto-me nua de olhos limpos, já que a cara está sempre bem lavada. Ou, melhor relembrar: sinto-me linda ao lado do amor, como se ele me hidratasse a pele, me desse viço ao cabelo, mesmo que desgrenhado ( ui, até  a palavra soa feia, como
e descrevesse o fato!) . Sinto-me linda quando ele me olha mesmo de lado - e espera eu inclinar a  cabeça, como quem não cabe de todo na imagem. Ele ri, ainda na porta, e dá de costas. Sinal de que estou linda. E ai, basta um salto. Desse, não abro mão. Como se me identificasse como mulher, identidade marcada. E não precisa ser do tipo fininho, não, mas nada de tamancão de  arrasar baile funk. Só quero o porte. Como se só ele me bastasse. E basta. Enfim, olho bem pintado, salto alto , cabelo solto e despreocupado. Por mim, saía  de jeans , camisa e  pescoço adornado. Mas é pouco, a moda pede mais. E a gente sempre vai atrás.
Voltando do delírio e do transporte de corpo e alma, não é do DNA. Minha avó pintava cabelo com o tal shampoo cinza, no tempo que isso não era normal. Tirava a sobrancelha e nunca - leia-se nunca! -  saia sem uma boa meia fina e tecido tampando o 'papo'. Tomava banhos de sábado, sempre, mesmo que fossem segundas de chuva. A casa ficava toda perfumada. E eu, fascinada, mas ficou só nisso.  Minha mãe sempre foi elegante, de corpo e de pose. Já descia cedo nos acordando com o barulho do salto. Calça só em viagens de carro e dias de faxina - e olhe lá. Sempre tecidos esvoaçantes, estampas trabalhadas, sai justa bem marcada. Meia fina e scarpim. E isso tudo para dar aula, e dirigir seu fusquinha por ai. Herdou da mãe os lenços, geralmente pendurados, e desde muito, presentes meus. Eu, terceira geração, gosto do que não me incomoda. Por mim ficava de vestidinho o dia todo, coisa que só o tempo nos ensina. Quem sabe uma rasteirinha - isso até a porta da casa - ou se for para fazer charme de quem nem está ai. Conforto, sim, mas sem tênis - esses só para caminhar, e porque ainda não inventaram mais nada. Devia mesmo morar em lugar frio. Ou no meio do mato. Adoro botas, meu lado cowboy. Só o que me falta é um bom cavalo para dar uma volta, lacear o dia por ai.
As modas? Tenho medo delas, velhas ditadoras. E enganadoras motoristas. Quando, enfim, a gente se deixa levar, vê que entrou no ônibus errado. Ou que ela já estacionou em algum lugar. Eu, por ter aprendido em casa a não deixar comida no prato, sirvo-me dela com cautela.Vai que a comida  esfria antes mesmo de se experimentar?

Leite, leitura
letras, literatura,
tudo o que passa,
tudo o que dura
tudo o que duramente passa
tudo o que passageiramente dura
tudo, tudo, tudo
não passa de caricatura
de você, minha amargura
de ver que viver não tem cura
(Paulo Leminski, o poeta da vez)

E nem a moda tem...

3 comentários:

  1. uauauauuaau Joycynha, ADOREI!!!
    Mulher que sabe das coisas é assim, manda a moda pros CDI rsssssssssssssssss não é escrava como eu!
    Assim imagino voce, cheia de charme , um charme só seu, irresistivel até sem voce nem notar!
    Cuida dela ai,Paco! gruda nessa mulher tudo de bom!
    miaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa.......uuuu

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  2. Pois é, Mia, entre outras, esse charme é que me arrebatou!!!!

    Paco, sempre aqui, grudado....

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  3. Muito bom o texto, como sempre. E precisava vir você para nos dizer que somos umas tolas. Sua sabedoria e simplicidade me encantam, quem me dera.
    beijos da Su

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