segunda-feira, 16 de maio de 2011

No Choice


"Se tens um coração de ferro, bom proveito.
O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia."
José Saramago

Essa frase, vinda de Saramago, foi um presente. Mas está longe de ser um alento. Só um aviso, de que sou normal, de que não estou sozinha, e sofro,  sangro, não por acaso e sim pela vida. E, como sempre, fez parar para pensar. As palavras, admito, têm esse poder sobre mim. Podem me fazer saltitar, as bem ditas. Ou gelar a alma, as malditas. Como se  tivessem descoberto algo que eu não sabia. Ou sabia, admito, sempre sabemos, mas entre saber e aceitar tem um mundo enorme. Um grande vazio de não querer.

Bom se eu tivesse coração de ferro, ou de pedra - como muita gente que conheço. Ou tem, ou se faz, não sei - ai o problema já não é meu, posto eu já tenho muitos. O meu anda vermelho, forte, pulsante como nunca foi antes. E teimoso. Não aceita qualquer coisa. Fere-se por nada. Vaza sentimentos pelos poros. Pelos olhos. Bom se os olhos não vazassem saudade a qualquer momento - ou tristezas em momento que não se quer - porque se sabe não valer a pena, mas se chora. Choro tem destas coisas. Pode ser bom, muito bom, pois transborda sentimentos que nos fazem bem. Pode-se chorar de alegria. Ou até de tristeza, da saudade já sentida quando o outro ainda está ao nosso lado, uma saudade adiantada até. Choro bom de tanto rir. De emoção pelo filme que finda, final feliz. Do encontro tão esperado. Da palavra tão esperada. Chorar por nada, ou por tudo, melhor dizer, desde que seja por coisa boa. Choro bom é destes que limpa a alma, alimenta a paixão. Reforça o companheirismo. Faz brilhar os olhos. Transborda de emoção. Choro bom é aquele que se chora no colo do outro. Que se troca por um doce abraço.
Que se soluça num gesto até parar. Desse tipo de choro, leve e apaixonado, gosto.

Choro ruim não. Geralmente aqueles que se chora sozinha, baixinho, escondida por ai. Choro discreto de quem não pode se ver chorar. De sofrer sozinha. De quem tem vergonha ou não quer fazer o outro sofrer também, porque não tem como explicar. Choro sem cumplicidade, choro de um só. Ou de não ter onde ( a falta que faz um lugar para chorar...). Esse dói, como se saisse só metade, e metade ficasse dentro. Não falo aqui do choro descontrolado sem porque. Muito menos das beatas,choradouras de costume - essas me irritam. Nem da fúria que , por vezes, salva, põe para fora o demônio enrrustido, desabafo puro. Falo de um choro solitário, que faz o coração parecer de pedra de tão pesado. nada resolve, nada melhora, mas assim mesmo vem. Desse não dá para gostar.

É, meu querido poeta português, hoje viajante do tempo, bom se o coração da gente fosse de ferro - ou se tivesse pelo menos escolha. A gente não sangraria tanto. Mas não sei se a vida teria tanta graça...

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