sexta-feira, 6 de maio de 2011

Soprando



Um dia já tinha comentado que só escrevo quando não estou bem. Se estou, silêncio, caso de ontem, mescla de correria e paz. E cansaço, claro, afinal viver nove longas horas de mesmice e medo para chegar ao meu porto não é nunca nada fácil. O que me move é sempre ele, o que me amarra e me segura,
meu trapiche.
Se ontem o dia estava puro sol, talvez pelo sonhar alto, hoje nuvens. Nuvens do medo - aquele que tem todo e qualquer mortal -  e até os imortais dizem sentir - da coisa nova. Do imprevisto. Do não sabido. Do nunca vivido. E já faz um bom tempo que estou passando, sempre, por coisas novas. Novas aulas, novos professores, novos assuntos, novos encontors, novas decobertas, novas batalhas - como a  velha e não tão boa mania de achar que não vou dar conta. Que não é para mim. Que estou aquém. Nuvens de insegurança, coisas que se tem sempre que se vive uma coisa que se quer muito, e esse muito parece afogar a gente de medo. De novo, sempre ele, o medo. Nuvens do futuro, essas que sempre estão em nós que temos essa vontade de saber o que ainda não dá para saber -  não é à toa que os horóscopos,as runas, o I Ching  e tantas cartas - e suas amantes reais ou virtuais - vivem habitando nossas vidas - aberta ou nem tão abertamente assumindo.
Então, escrevendo me descubro, e às vezes até me entendo, e me curo - ou tento. Ou colocando meus pensamentos - minha vida, minha morada, postas em dia, boa terapia. E não demoro a descobrir o que encobre meu brilho. O que me limita, ontem, hoje e sempre, é o medo. Medo que o passado volte a me assombrar. Medo do hoje, que me largue a mão. Medo do amanhã, eterna incógnita. Medo dos fantasmas de ontem e dos fantasmas de hoje ( sim, eles existe, e estão sempre torcendo contra). Não que me assustem, muito pelo contrário - põem-me em alerta, põem viva - mas  é como se a gente tivesse sendo segurado de alguma forma. Ou fosse ser atacado na próxima esquina, ou na caixa de entrada. Temos medo até de ser feliz...
Medo. Sempre é bom ter, já que também nos faz sobreviver. Se o homem das cavernas não tivesse medo, não teria descoberto o fogo. Os gênios não teriam feitos suas descobertas. O pedestre atropelado. O filhote não sairia da toca. A criança não viraria adulto. O assaltado não sobreviveria. O malabarista já teria desistido. Ninguém entrava na escola  - e nem saia dela. E não se faria uma pós, nem curso qualquer. E nunca se tentaria novo emprego. Ou um novo alguém. Se não tivéssemos tanto medo da solidão, não estaríamos abertos ao outro ( e medo de solidão pode vir até de uma casa cheia...). E nem seríamos tão cuidadosos quando, enfim, descobrissemos o que é amar - sentimento sempre tão extremo, cheio de medos e esperanças.
 Medo, entendo, são nuvens. Por vezes, muitas delas, necessárias - sombra e proteção, quem sabe chuva que molha a terra, chapéu contra o ardente sol. Outras nem tanto, mascarando o que está por vir (mas não seria exatamente para nos encorajar, nos fazer insistir?). Nuvens. A gente só tem que lembrar que o sol, nosso e do mundo, nossa quente coragem, está logo acima ou aqui dentro de nós. Muitas vezes só basta acreditar mais. No que somos, no que temos de melhor. Soprar com mais vontade. Fazer valer.  Dissipar.

"As nuvens, mesmo as mais densas, são transitórias.
Nós, essencialmente, somos sol".
Ana Jacomo

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