terça-feira, 10 de maio de 2011

Tentação


"Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança,
 fazendo-a funcionar no limite da exaustão".

Carlos Drummond de Andrade tinha razão. Ele se foi, mas sua razão ficou. Vivemos de esperas, como se o hoje - presente - não passasse de um pacote qualquer, papel pardo.  Guardamos o passado em gavetas amareladas,  e enfeitamos o futuro como se presente fosse. E o presente se vai. Se é Natal, logo vem o Ano Novo, e já esperamos pelo Carnaval - talvez não pelo samba e festa, mas pelo descansar - nem que seja  só na quarta de cinzas, dia de ressaca. Mal é Fevereiro, talvez Março e já estamos cansados. Passado o bloco, esperamos que Tiradentes morra, que chegue logo a Sexta feira Santa - jejum de comida para uns, fartura de sono para outros, um levantar mais tarde da cama. E a Páscoa - nem tanto pelo renascimento, mas pela doçura e feriado. E ai vem outro e mais outro dia folgado. E que dizer do dia do trabalho quando cai num domingo? E datas a serem comemoradas como dia das mães  ou dos pais - que até parece sacanagem, devia ser dia farto, um dia presente. E dia dos namorados - que para mim é qualquer dia e nada santo e sempre deveria ser bem comemorado? Em junho não tarda a  vir o Corpus Christi,  e marchamos na estrada o Sete de Setembro. Em Outubro rezamos pela Nossa Senhora Aparecida - eu não prometo, pois cai numa quarta.Os finados serão lembrados numa outra quarta e a Proclamação da República em uma terça, bela imendada. E o aniversário do menino Jesus cai num domingo. Isso lá é dia de nascer? E ai começa tudo de novo, entra feriado, ninguém descansa, volta o povo cansado. Não deveria ser o contrário?
Drummond tem razão. Quem fatiou o ano em pedaços sabia o que estava fazendo. Conhece bem os homens, sabe que somos gulosos e que vamos querer a torta toda, bem devorada. Sem nem mastigar! E em cada fatia, muito recheio de esperança. Mas, esperança no que? Paro para pensar que o homem não sabe o que quer, não sabe o que faz. Torce que os dias logo cheguem e não se dá conta que com eles vêm os meses, que puxam os anos, mais um bolo inteiro que se vai. Deixa para se feliz amanhã, um amanhã que nem sabe se vai estar. Por isso eu tenho pressa, muita pressa, feito o Coelho de Alice. Não que os dias passem, corrida de ponteiros ao som do tic-tac, pois quero vivê-los a contento. Mas na esperança de encontrar meu porto seguro logo mais. Logo ai, na próxima dobrada da vida. Meu bolo inteiro, com o doce recheio de ser amada - e que vou comer devagar, sentindo cada bocada.

Um comentário: