domingo, 15 de maio de 2011

Uno



Li um texto da Lya Luft -  que admiro, mas acho que põe muito de suas mágoas em seus textos, como se o mundo tivesse que sofrer as suas mazelas ( e aí entra meu sempre estar 'de bem', mesmo não estando, enfim...cada um tem seus motivos. E seu jeito.), que criticava os que diferenciam a escrita masculina, dita vigorosa, da escrita feminina, doce. Acho que os dois gêneros, na escrita, não ficam tão definidos assim. E nem na vida. E tenho os meus porquês.
A ideia de um homem sensível e emotivo me traz a imagem de meu irmão, chorando em seu casamento ( as más línguas  já diriam que era arrependimento!). Meu próprio pai, dito nada sensível, hoje chora por qualquer coisa. Meu cunhado, então, nem se fala, emoção pura, daqueles de 'dar vexame'. São homens até certo ponto truculentos à primeira vista, mas se derretem por muito pouco. Gosto de homens assim, que se entregam às emoções. Não ficam reprimidos em suas carcaças. Deixam a gente ver que são homens, sim, mas nem por isso não sabem sentir as coisas. Homens que viram 'mulherzinhas' uns preferem dizer, por conta do 'homem não chora'. Homem chora, sim. E como são adoráveis nessa hora! Deixam de ser os bichos que foram ensinados a ser. E viram gente como  a gente.
Pois bem: adoro homem assim. Gosto de homem que se entrega. Que me passa o que está sentindo. Que chora no meu colo se tiver vontade. Que troca de lugar comigo nessa vida - nem ele é machão, nem eu delicadinha. Aliás, está ai a palavra chave de todo bom relacionamento: troca. Na troca, ninguém é totalmente feminino e tampouco é totalmente macho. Somos os dois, um pouco de cada um, como já cantou Pepeu - o que não fere o outro lado. A troca vira soma: somos um só. Acho até que que deveriam banir as roupinhas azuis e rosas da infância: bom mesmo seria usar roupa neutra, verde ou amarelo, para variar.
E vejamos o lado contrário. Eu, por exemplo, adoro futebol. Torço como homem, já bem disse meu filho. E a coisa não pára por ai: visto-me de forma prática e uso um lencinho ou adereço - e pinto os olhos - para me sentir mais feminina - não sei se por instinto ou agradar meu lado masculino. Não me dou bem com saltinhos - a não ser que queira. Nem com vestidos muito sexies - a não ser que queira. Não uso perfume - a não ser que queira. Acho que a minha feminilidade está na pele. No sorriso. No olhar atento. Não nos cabelos que, volta e meia, penso em tosar feito menino - pela praticidade e pelo charme que acho.
 Lya fala : " não sou uma mulher que necessita de ajuda de um homem. Não necessito de proteção de homem nenhum. Essas mulheres frageizinhas, que fazem esse gênero, querem mesmo é explorar seus maridos". Eu discordo. Precisamos deles -  e ele de nós -  desde que nos amem, que façam isso por amor. E se não for por amor - que seja posse ou algo pior - ai sim, sinto-me objeto, e ai sim, concordaria com ela. Mas, se estamos falando de companheiro -  coisa rara hoje em dia e por isso os relacionamentos não duram -  vale tudo. Pedir ajuda e ajudar. Ser consolada e consolar. Aplaudir e ser. Aconselhar e aceitar conselhos. Falar e escutar (parte mais dificil, bem sei...). Se nem dentro de um relacionamento  a gente puder ser a gente mesma, de que vale amar?
Ah, Lya, não sou fragelzinha. Sei escrever com vigor também. E conheço muito homem que me faz chorar com suas palavras - as bem ditas , e bem escritas - porque das mal ditas e ofensivas meu coração já está cheio. Aliás, foi com essa  'fragilidade' masculina que o amor me conquistou, e bem devagar. E com palavras bem delicadas de amar.
E nada tem de vigoroso nas palavras delicadas de Mário Quintana, homem e gaúcho,
esse tipo cheio de fama:

"O amor é quando a gente mora um no outro".

4 comentários:

  1. Perfeito, maravilho e faz pensar, logo eu Joyce? pensar? imagina....
    E continuando as muitas linhas que já pulei, a palavra escrita é sem sexo,sem preconceito, a não ser, que quem estiver no dominio da palavra queira, que assim seja, mas sensibilidade e emoção nos faz transpor qualquer barreira,homem ..mulher...conquistador ou conquistado..se assim não fosse não procurariamos a nossa cara metade..se completamos um homem, e um homem nos completa,temos em nós a essência da natureza,macho e femea!!!
    Beijoks mil e sou fã sempre dos seus rompantes!!!

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  2. Bela critica, gostei. Lya é assim amarga mesmo, sempre achei. Por vezes parece despeito, como fazemos ao criticar uma mulher que nos parece mais sexy, inveja talvez.
    Pronto, falei!
    Texto ótimo, como sempre!
    Su

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  3. Ge, que bom que gostastes! Acho que todo texto é para ser lido, mas não necessariamente aceito em nós.
    Su, acho também que a linguagem dela entristece a gente, mas cada um tem seu jeito de ser - e seus porquês. Eu prefiro a paz, mesmo que isso me custe muito.
    Beijos

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  4. Bem na hora que ia falar que gosto da Lya, li seu comentário.E tem razão! cada um tem sua linguagem seu jeito de ser, os azuis e os rosas, como falas. E seu texto soa como uma ideia, seu jeito de ver o mundo. Mais fragil que ela, com certeza, mas nem por isso menos feliz!
    Cris

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