domingo, 1 de maio de 2011

Viva



"Menos um dia, mais um dia, tanto faz.
 Melhor seria ser um simples chapéu, quem sabe uma folha,
para pegar um bom vento e me deixar levar..."

Essa frase me veio ontem, sábado, um destes dias  - seria melhor falar fim de semana - confusos de minha vida. Um dia que me deixei levar pelas coisas boas e pelas coisas nem tão boas assim.
Invejei minha frase. melhor dizer, invejei as folhas e até os chapéus, coincidentemente assunto do dia, dados aos disparates de um certo casamento real. Bom se ele tivesse me dado essa sensação de leveza que folhas e chapéus devem ter quando o vento passa e lhes convida para um passeio. O meu mais  pareceu vendaval. O dia passou de rompante, terminou em tempestade e conseguiu me intrigar com meu amante - o sono -  que vem e vai, aparece só quando quer, sem nem avisar. Um amante que trouxe de presente uma noite agitada e de sobremesa uma bela dor de estômago noturna, como quem deixa no lugar todo o peso do dia. Ah, meu sono como andas traiçoeiro. Em pé de briga todo dia com  meus pensamentos que,  insistentes que são, sempre ganham o jogo, às vezes de goleada. Meu vôo, portanto, não foi sossegado, meu pouso nada tranquilo. Mas, enfim, estou inteira e viva.

Mais um dia ou menos um, tanto faz.  Se foi ontem ou se foi hoje, também. Quando se tem todas as estações - de tempo e de humor - juntas em um só, a sensação é dúbia: passou depressa ou devagar? O dia não pareceu ter 'só' 24 horas, dadas as tantas tarefas compridas e cumpridas. E me pareceu passar num zás, como se meu espírito teimosamente esperançoso me desse esse alivio de sabê-lo finito. DE qeu o tempo passa. Quem um dia termina e começa outro. A certeza de que nunca , nada, é para sempre, que nunca , nada,  é insolúvel, nunca, nada é imutável. O importante é que venci. Sobrevivi, como ousei pensar.
E me veio aquela mania torpe e sacana de sempre me comparar. Se você se compara, sempre haverá alguém em melhor situação, e muitas em pior situação. E adivinha onde eu sempre paro e volto atrás? Comparar-se é triste, atitude insana, acho, e tento mandá-la pastar. Os sábios não se comparam porque se sabem únicos, que a vida é passageira, e por isso são mais felizes - do jeito deles. Os 'santos' não se comparam pois se sabem no lugar certo, na hora certa, nem menos nem mais. Os infelizes nem sentem que o dia foi diferente, posto que são todos iguais - e ruins. Os  esperançosos sempre acham que o amanhã vai ser melhor. Os de mal com a vida acham que sempre foi  - e será - ruim, porque sempre poderia ter sido melhor, que essa vida é mesmo assim, difícil, muito difícil. Os pessimistas , que nem adianta um dia após o outro: nunca, nada, vai mudar.

Ah, mas os de alma de criança, como eu, sempre acham que o papai do céu vai ajudar, que as coisas vão se ajeitar, que não se fez por maldade e assim se vai aceitando o presente venha no pacote que vier. Seguindo a vida, diblando as coisa, tentando melhorar, entender - mas nem sempre gostar e nem sempre aplaudir - vai depender do espetáculo. Criança é sincera, às vezes só não fala por medo, mas seu olhos não mentem. Nem sua luz. Minha figura é daquela menina de joelhos rezando ao lado da cama, para agradecer, não para pedir , porque os de alma de criança, como eu, rezam pelos outros e não por eles. 
Os de alma de criança, como eu, sempre acham que eles é que estão errados - e mesmo não achando se deixam culpar. Tem dó de quem é infeliz, fica longe do pessimista, se cala diante dos raivosos, fica longe dos que perdem a razão. Sempre acham que amanhã vai dar sol. E se curam rápido. Sabem que uma simples música, um beijo delicado, um sorriso retribuído, uma frase bem posta - quem sabe uma poesia? - uma gargalhada bem dada, podem transformar um dia ruim em um dia bom. Que se fizer 'a coisa certa', uma tempestade pode virar simples chuva de molhar o chão - daquelas que se sente o cheiro e que lava a alma. Que se está na chuva é para se molhar - e brincar se der. Seu único receio é perder o amor no caminho. Porque disso, de amar e ser amado,  meu coração de criança não abre mão. Nem vai.

"O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar".
Carlos Drummond de Andrade

5 comentários:

  1. Bem.....como sempre....sutil verdade, suspiros sinceros... ambições possiveis. As ventanias nos carregam....muitas vezes em total silencio!!!! Adorosempre seus textos Joyce!

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  2. Joycinhaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa, que saudades eu estava, já com odio das provas todas na facul!
    Vim aqui me abastecer, e supresa! amei já esse primeiro texto! Sua alma é completa, tem mulher, homem, criança, menina, adolescente, tudoooooooooooooooooooooooooo!
    Caral..., Paco, incomenda um conteiner! vai ser sortudo assim na....!
    Adivinha quem é:????

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  3. Que belo texto, sincero como sempre!
    E descobri que também tenho alma de criança...
    Beijos da Su

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  4. "Seu único receio é perder o amor no caminho. Porque disso, de amar e ser amado, meu coração de criança não abre mão. Nem vai'.
    Lindo! Maravilhoso! É isso ai, guria!
    Ma

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  5. Amei, amei, amei! Tenho alma de criança!
    Leila

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