quarta-feira, 29 de junho de 2011

Duelo


No fim tu hás de ver que as coisas mais leves
são as únicas que o vento não conseguiu levar:
um estribilho antigo,
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas,
o cheiro que tinha um dia o próprio vento...
Mário Quintana

Essa vida de gente que teima em ser feliz, como eu, é difícil por demais. Ainda mais assim, sempre tão dividida, corpo de um lado, alma no outro, cabeça sabe lá aonde. Meu corpo não se divide tão somente em cabeça, tronco e membros: sou bem mais complexa. E feito gata pela metade, tenho duas vidas - longe de mim ter mais, nunca sete. De um lado, um nada, sou invisível. Ou pior: um escracho, descarte, por vezes lixo. Morta. Do outro, viva, sensível, super sensível,  nada pode abalar, como se fosse minh'alma a controlar minha vontade de viver. Qualquer descuido, mínimo que seja, e é como se pesasse mais que chumbo, pena molhada. Se seca, voa e me leva longe, longe, alegre, rumo aos sonhos. Se molhada, pesa e gruda na calçada do dia. Fico suja  e inútil. Perco o brilho.
Pluma, isso que quero ser, apesar do peso - do corpo e da vida. Uma pluma consciente, que saiba onde me quer levar,  dançarina serelepe do vento dos dias. Cheia de boas intenções, mas sem perder o foco, a vontade, o saber onde ir e onde pousar. Quero voar nesse vento cheiroso de Quintana, vento de proa, cheiro de estar. Quero essa leveza precisa da vida de que ele poeticamente fala - e canta, e encanta.  Quero me lembrar de que o dia deve ter todas as faces, boas ou más,  e eu conviver bem com elas, ou como me dá, porque mora em mim a minha certeza. Porque sei bem quem quero ser. E onde chegar.
As coisas mais leves são as mais simples, concordo com o poeta fantasma do prédio rosado. O carinho na hora precisa, a palavra amiga, o abraço mesmo que de longe. Quem sabe uma música, um poema. Uma estrofe, uma rima. Uma dedicatória. Uma frase. Pensamento. Quem sabe uma palavra qualquer.  Coisa pouca, mas muita. Um folhear que me lembre algo bom. Uma imagem que me faça recordar e rir, gargalhar se der. Lembrar de quem sou. Do que valho - e como valho!
Estou dividida em duas e as duas estão degladiando. Mas sou uma. E sei bem que eu quero que vença.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Estima



Dia rendeu...
Não sei se foi a caminhada no sol, que me aqueceu por dentro. Se aqueles cinco minutos que me dão e faço o que tenho - e o que quero - fazer, tudo e muito ao mesmo tempo, que me 'adrenalino'. Se foi a troca de carinho com o amor, que sempre me dá forças. 
E/ou se tudo isso junto, fazendo brotar de dentro de mim  o que sou...
Engraçado isso - ou triste, se não  - saber que vem de dentro da gente a força de que precisamos, toda ela. Se nos deixamos abater pelo que vem de fora, ponto para eles. Se revisamos nossa força, tiramos a poeira e tocamos a vida a nosso bel' prazer, tudo vem. "Vem", assim, com letras maiúsculas, boca cheia, dito sonoro. Vem. Frase antiga essa, de que somos nosso maior inimigo. E a minha, de sempre, de que sou minha melhor amiga, melhor conselheira - ela e uma boa noite de sono ou um caldo bem quente, quem sabe um café com leite, como diz minha mãe - que também se esquece de se querer, por vezes. Melhor apostadora não há. Vai, Joyce, ser gente na vida, meu eu me diz! Vai ser!
Verdade, destas incontestáveis, velhas conhecidas, mas que , ás vezes, não escutamos, dada a surdez dos dias: somos tudo, somos muito, ambíguos, amigo e inimigo , incentivo e  trava. Afago e tapa. A forma como me vejo no espelho, que amo ou odeio. A força que me vem de dentro, aceitação ou desprezo. Crédito ou débito. E nessa luta por vezes insana, mato ou dou vida, ressuscito ou morro. Rego ou soterro. Apoio ou enterro. E renasço nestas manhãs,  destas que me encontro na esquina de me ser. Renasço a cada dia que me deixo me amar como sou. Que me fortaleço. Que me respeito. Que me acredito. Que sou. E nunca, nunca tarde demais, porque meu tempo é outro...
Meu tempo é presente!

E...  tarde demais.
Percebeu que seu inimigo sombrio.
Não era o outro. Era ele mesmo.
J.B.Conrado

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Doidecendo



"Cada um é muita gente.
Para mim sou quem me penso,
Para outros - cada um sente
O que julga, e é um erro imenso."
Fernando Pessoa

É nesses dias de pensamento intenso - e meu - que mais me entendo. Ou me presumo. Dias de silêncio - ou por vontade ou por total falta dele - me calaram , e não me escrevi. Minha cura não veio: acumulou-se. Ponha-se a culpa nos dias, nos hormônios do corpo, na saudade querida, nas trapalhadas da vida, tanto faz: adoeci. Tentei, mas estava - estou - tão sincera de mim mesma que até me assusto. Tenho um real medo de achar que sou sozinha no mundo. Que de mim nada depende. Que minha atitude, boa ou má, não respinga em qualquer lugar. São as tão famosas e por vezes odiosas tarefas , os deveres enfadonhos, repetidos. Um peso em nós, em mim. O dia-a-dia me pedindo e eu com a cabeça em outro lugar...
Outro dia vi um filme em que o protagonista - nem vou falar o nome do bonitão para não correr o risco de perder o raciocínio - falava que carregamos uma mochila nas costas. E dentro dela colocamos pessoas e coisas. Eu colocaria ainda atos e culpas. E vamos enchendo, enchendo, lotando, sem nem nos darmos conta se somos - ou não, na maioria das vezes - capazes de carregá-la por muito tempo. As pessoas crescem, crescem os problemas, assim como cresce meu medo de não me realizar, seja como mãe ou como mulher. Seja como sou. Medo de não realizar sonhos básicos que trago na mochila do tempo desde sempre. Medo de ir tirando as coisas boas aos poucos para dar lugar às outras chatas e ditas necessárias. As obrigações, de quem o nome já me diz tudo. Como se o recheio fosse sendo tirado e nos sobrasse do grande piquenique de nos ser apenas pão velho e  água. Não se morre, mas meio que se mata.Ou desiste.
É nesses dias de intenso pensamento que me assusto de mim. Deve ser o frio intenso que assustou a menina dos olhos de mar. Falta um colo. Falta afago. Falta um precisar. Quem sabe depois de um banho quente e uma sopa dos ursos ela se deixe levar? Minha mãe fala que nada como uma boa noite de sono, mas às vezes era  melhor dar uma de louca...pegar minha mochila, esvaziar de coisas frias, lotar de coisas boas e me mandar!
Para mim sou quem me penso e me deixo sonhar...

terça-feira, 21 de junho de 2011

Muitas


"E no meio de um inverno eu finalmente
aprendi que havia dentro de mim
um verão invencível"...
Albert Camus

Hoje começa o Inverno. Aliás, já começou às exatas 9h26min dessa manhã - ou um pouco mais tarde aqui e ali. Olho para fora e vejo que chegou tímido: nem calor, nem frio, nem sol, nem chuva. Como se não quisesse assustar ou marcar sua chegada. Tanto melhor, que me venha devagar, e quando eu me acostumar, já esteja de malas prontas para partir, levando minhas inquietações. 
Mas longe de mim não gostar de Inverno.  Gosto do aconchego que ele traz, que ele pede. Da nossa incessante procura por algo que nos aqueça, por dentro e por fora. Aconchego das roupas macias e quentes, pescoço nada nu. As mantas, o abraço, o calor das horas juntas com quem se ama. A sopa fumegante, o perfumado chá quente, o espumoso café com leite. Inverno pede que estejamos juntos, dentro ou fora de casa. Que se aproxime das pessoas, coisas e ideias, desde que não sorvete (será? nem assim largo o vício). Pede procura de sol, o que nos dá preguiça. E preguiça de levantar, e pressa de voltar para lá. Pede programa a dois - ou a poucos - em frente à TV. Pede que se reze para a noite não acabar, pelo menos para nós, que temos como nos aquecer. É ...Inverno faz a gente rezar...
Eu? Estou bem. Levo em mim todas as estações. Tenho  todas elas de uma só vez: o expansivo Verão, o aconchego do Inverno, o deixar-se ir do Outono e o renascer da Primavera.
Sou um ano todo em uma. Porque sou muitas. Porque sou todas. Da menina que brinca na praia para saudar o sol à mulher que se anima para aquecer-se no frio. Sou aquela que se deixa trocar de folhas. E mais ainda a que sempre espera folhas e flores novas.
É...dentro de meu Inverno, tenho sempre um Verão inesquecível...E um Outono introspectivo, uma Primavera em flor...

domingo, 19 de junho de 2011

Azuis



Adoro - ou seria melhor dizer preciso? - estas pausas que me dou. Como se revisasse a vida, eu mesma, meu escritos, quem sabe minha forma de me ver - não, não essa do espelho, mas a que me toca por dentro. Tentar o diferente, fazer de jeito diferente, ver com diferente olhar a mesma e monótona coisa do dia. E é nesses silêncios, por vezes só interno que a vida me dá, que me acho, me recomponho, reparos danos, acerto rumos, fortaleço sonhos.
Viver, para mim  - e a cada dia mais - não é um simples passar de horas. Não um simples esperar o dia me chamar os olhos ainda quentes nas cobertas. Nem a rotina que nos faz viver  a vida no automático, não. Ela até tenta, mas um sorriso diferente, um olhar que me encanta , uma frase que vem na mente, uma música que soa diferente  - ou sonhos que me levam  bem à frente - tudo me dá nova luz.
Quando isso começou? Não sei. Deve ser culpa do Amor, esse companheiro, amigo e conciliador que vem me dando a mão desde tanto. Que fez renascer em mim a  menina e a mulher que deixei, por contingência dos dias mal amados e represados, trancada do quarto do dia-a-dia - ou seria no baú das memórias? Talvez porque  tenho me amado mais, apesar dos erros repetidos - e até deles faço graça e tento aprender - não necessariamente nessa ordem. Apesar de me saber forte e me fazer frágil. Apesar de me saber possível e me vetar caminhos. Apesar de mim, e também por mim, a vida segue e segue bem, numa luta diária com minhas próprias sabotagens. Sábias, nem brigam mais: até elas entenderam a força de  conversar...
Hoje é domingo. Não um comum, destes que a gente se pergunta para que levantar. Daqueles que gosto, de sol nascente preguiçoso, de acordar silencioso, café com leite quente na mesa sem nada pensar. Um domingo sem relógios, nem rituais desnecessários. De mudanças de plano que a vida leva e traz. De novo começo. De nova etapa marcada pelo pensamento. Sentada e me escrevendo, a vida mansa espreguiçando lá fora, espero meu presente - e vem! Não sei como, nem de onde, mas vem. Como me vem a  vida quando preciso dela. Como me veio o amor quando eu já desacreditava. Veio em forma de letra e música, juntas, puro encantamento. Chegou sorrateira, devagar entrou, encantou feito troca de olhar daqueles que a gente pensa que já viveu, quem sabe em outras vidas. Pediu um sorriso meu e levou muito mais.
"Passa o tempo, passa a estrada, ou será que nada passa?
Nada conta além da graça do amor..."

"Quando nasce o dia,
O tempo dispara.
Ou será que pára,
Pra ver o sol se levantar?
Quem será que manda na vida?
Quem dá a partida?
Quem que reinventa a luz?
Quem que faz esses azuis?
Como é mesmo que anda o tempo?
Será, sempre assim, tão lento?
Será que passa é por dentro de nós?
Será que é o sol que ordena,
E o tempo que obedece?
Ou será que o sol só desce,
Quando o tempo eleva a luz? Vós!
Passa o tempo, passa a estrada,
Ou será que nada passa?
Nada conta além da graça do amor.
O Amor que é raio e centro,
Eternidade e momento,
Nosso solidário redentor.
Único Senhor do Tempo,
Amor!
Como é mesmo que anda o tempo?
Será, sempre assim, tão lento?
Será que passa é por dentro de nós?
Será que é o sol que ordena,
E o tempo que obedece?
Ou será que o sol só desce,
Quando o tempo eleva a luz? Vós!
Passa o tempo, passa a estrada,
Ou será que nada passa?
Nada conta além da graça do amor.
O Amor que é raio e centro,
Eternidade e momento,
Nosso solidário redentor.
Único Senhor do Tempo,
Amor!"
O Senhor do Tempo, de Caetano Veloso

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Sendo



Sou um ser muito estranho. Ou não. Paro para pensar se tudo o que fiz - gostei, aplaudi, 'cartilhei' - nessa vida era mesmo, eu ou outra, mais atrevida - me agradava de verdade. Ou se era embuste, ter que. Ou se hoje estou é mais esperta.
Já fui metida. Já jantei com governador, servi senador de peixe feito por mim. Já passeei com destreza de quem entende pelo mundo maravilhoso - mas por vezes fresco demais - dos vinhos. Já provei champagnes e uísques 'carésimos', daqueles com lacre. Já me hospedei em hotéis famosos. Conheci restaurantes da alta. Provei comida de renomados gourmets. E fui convidada de honra de cerimônia do chá. Fiz cara de quem gosta de caviar, já destrinchei lagostas como ninguém. E ai eu me pergunto: para agradar a quem?
Gosto mesmo de uma comidinha feita em casa - minha ou de amigos, quer melhor acompanhamento? um belisquete qualquer - pão, azeite e vinho. Cozinhar é bom para quem aprecia, para quem ajuda, nem que seja elogiando. Cozinhar é bom para quer se quer bem. Para quem nos quer bem. Comida é boa quando bem apreciada, degustada a contento e com simplicidade de ser. Escolher com carinho o cardápio, um por um dos ingredientes  e trocar de ideia ou se inventar caminhos só porque 'deu na telha' ( de onde vem isso?Que telha? ). Acrescentar temperos de última hora, ou um acompanhamento que me veio à cabeça. Ou para agradar quem está do lado. E apostar na mesa bem posta, bem servida de comida e alegria. Colorida de enfeites e de pessoas queridas. Comida  calorosa, calorosamente esperada e recebida. Para isso, basta uma sopa, um caldo qualquer. Uma salada 'ultramegacolorida, mas longe de ser de dieta. Uma mistura inusitada de sabores, como quem experimenta tudo na vida. O cheiro bom tomando conta de tudo. E o coral de tantos 'hummmmm ' como fundo musical. E ver a tropa toda levantando para dar guarida quando o assunto é por tudo em ordem. Um chá perfumado para fechar o ritual, sim, mas nunca sem uns biscoitos para adoçar. E se a conversa correr solta, e ninguém se levantar para ir  embora, correr para fazer um bom café - destes com leite, pão de casa, doce e cuca. Quem sabe isso vira janta?
Já tive vida chique. Já fui cheia de não me toques. Mas é a vida simples que me encanta que me toca. É nela que me deixo ser, que me sinto livre. Que me amo e sou.  É nela que quero estar!

E as coisas lindas são mais lindas
Quando você está
Onde você está
Hoje você está
Nas coisas tão mais lindas
Porque você está
Onde você está
Hoje você está
Nas coisas tão mais lindas
Pedaço da letra da música As Coisas Tão Mais Lindas, de Nando Reis

 




terça-feira, 14 de junho de 2011

Ousar


"A vida é uma aventura ousada.
 Ou nada".
Hellen Keller

Essa frase tem me definido de uns tempos para cá - um bom tempo, aliás. Não falo do Amor,  que esse mereço e cultivo com muito carinho todo dia, do acordar ao voltar a dormir, grande alento. Mãe louca e por vezes indecifrável, mas nunca a mesma, nunca comum. E amada- amiga que faz de um tudo para amar melhor a cada dia que passa. Um porto meio torto, mas porto, e meu.
 Mas saindo desse terreno e entrando no terreno da vida  em si - trabalho, perspectivas, procuras , achados - sou doida de pedra. Desvairada. Ousada, no sentido de sem medidas. Aventureira de mim mesma. De me ser. Não, não é que não me achei, muito pelo contrário. O problema é justo o contrário:  gosto de tudo, muito, e isso, às vezes, atrapalha. Sou especialista de uns e pode ser, se o vento levar, de outros. Ou de todos, ou quase. Se me derem um terreno para vender, largo tudo e vou,  se achar que vale a pena. Curar alguém, ou cuidar, melhor se for. Administrar uma casa, se nela me sentir bem. Ou até uma casa de doidos, coisa que me daria muito bem, inserida entre iguais, tenho - temos - disso, loucura, pouco ou muito, diz o ditado. Em resumo: me dou  - ou daria - bem em tudo que me deixam me entregar. Sim, entrega, porque não sei ser metade, nem menos que um todo. Por vezes até entorno, extrapolo, feito leite fervendo no fogo ou copo de água de gente distraída. Uma própria suicida na arte de me jogar nas coisas. E até da arte em si, se eu um dia tentar - tenho certeza, belo DNA. Jump sem elástico. Queda livre. É me jogar,  conseguir ou morrer, não tem meio termo.
E é ai mora o perigo: não gosto de freios, nem de bolas de ferro, nem tenho limites. Invejo quem pode se entregar a algo - projeto de coisas ou de vida, sem nem olhar para o lado. Quem se desliga. Isso sou na lida da vida e em tudo o que faço - quando quero fazer. Quando quero ser. Quando me deixam ser.
E fujo de limites, bem sei. Até na forma de pensar que, volta  e meia foge de minh'alma e vira frase, pensamento ou texto qualquer. Sai pela boca, dedos no teclado, ou apenas no olhar.
Me reinvento todo dia.
Dizem que mulher gosta de apanhar. Eu tenho apanhado da vida e ando cada vez mais apaixonada por ela. Feito mulher de malandro, quanto mais apanho, mais gamo. E olha que ela, a vida , tem exagerado na dose...Mas só da vida, já aviso,  que me arrepia todo dia com coisas novas. Meu dia é sempre igual, acordo e deito na mesma hora, como as mesmas coisas, sinto as mesmas fomes, sigo meu relógio interno de me deixar levar. Mas a forma pelo qual passo por ele, pelo menos em meu jeito de pensar, de me ver, em meus tantos sonhos a tratar, ah, nada mais diferente, nunca nada igual. Minha digital.

Helen Keller ficou cega e surda, desde tenra idade, devido a uma doença diagnosticada na época como "febre cerebral" , hoje acredita-se que tenha sido escarlatina.Sentia as ondulações dos pássaros através dos cascos e galhos das árvores de algum parque por onde ela passeava. Tornou-se uma célebre escritora, filósofa e conferencista, uma personagem famosa pelo extenso trabalho que desenvolveu em favor das pessoas portadoras de deficiências.
 E mesmo assim ousava viver...

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Soprando


"E falta sempre uma coisa, um copo, uma brisa, uma frase,
e a vida dói quanto mais se goza e quanto mais se inventa".

No dia em que o meu querido poeta e escritor  - que mais parece um pensador, filósofo - Fernando Pessoa comemoraria mais um aniversário, deparei-me com essa frase - ou melhor chamar de pensamento?  - e parei. Como se a frase me levasse  a pensar, refletir, e mesmo sabendo que ela não fugiria, senti-me impelida a grudar nela - ou ela em mim? Esse homem de tantos homens e  tantos nomes, de tantas frases soltas e poesias completas, de tantos desassossegos que aprendi a  amar  e respeitar. Quem sabe foi o próprio amor que me fez amá-lo mais? Sei lá...Só sei que sigo amando, descoberto e descobridor. Sigo amando, poeta e apresentador. Sigo...
Sim, penso eu, querido perturbador de minhas ideias, a gente sempre sente falta de algo, um algo que nos impulsiona a seguir. Viver até. Às vezes um exagero de querer, por vezes perturbador. Às vezes simples gota, ou beijo na boca. Um palavra que ofende ou afaga. Uma frase que mata a curiosidade - ou nos traz mais. Uma música que nos lembra algo bom. Um olhar que mata a fome. Uma saliva que mata a sede. E assim se vai, do acordar ao dormir - e até enquanto sonhar. Uma busca incessante sem nem o que ou porquê. nem nem para quê. Mas se busca, se vai atrás, se quer mais, e isso move o mundo - o meu, o seu, o dele, o nosso.  Até ai concordo  -  e amo. Uma busca sempre nos faz melhor, nem que seja a busca de nós mesmos e de nosso melhor a dar. Mas eu, entusiasta da vida, meu querido de tantas frase que amo e tantas outras que hei de amar, discordo: a
 vida não dói...o que dói é não viver!
Mas de uma coisa ele tinha razão:

"Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
não há nada mais simples.
Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra todos os dias são meus."
Ah, meu poeta além - mar, a gente sobra a vida, mas não sabe onde ela vai dar...

sábado, 11 de junho de 2011

Moderninha


Meu dia começou com um 'belo' diálogo matinal, ali, sentadinha na mesa e tentando me sustentar na manhã ensolarada, mas fria. Aliás, já comecei mentindo: meu dia começou com bate boca. Eu irritada porque não em deixaram dormir a contento devido a um ( vários!) entra e sai provocativo e desinteressado pelo outro - no caso eu - e  o irritante,  irritado porque eu estava irritada por não terem me deixado dormir a contento...Deu para compreender? Nem tente: não vale a pena...
Mas, voltando ao lado A do dia - e sempre tem um para uma mente prodigiosamente espirituosa como eu -  meu dia começou com um "profundo" diálogo entre uma mãe e um filho com sono, mas bem humorados um com o outro, coisas da genética:
- A que horas você chegou ontem, filho?
- Sei lá...pouco depois da meia-noite...
- Não leu minha mensagem ( celular, santa invenção nessa hora) ?
- Aha...
- E onde estava?
-  ... "dobrando a esquina"...
- Você veio a pé????
  - Mãe...Eu estava na casa do  'fulano'  ( para não comprometer ninguém rssss)... Fomos lá depois do jantar...
- Ah, 'tá', desculpa ai ( eu, querendo fazer graça da coisa) ...É que a minha bola de cristal está estragada!!!

Bola de Cristal. Não temos, nunca tivemos - a não ser o celular que, por vezes, mais atrapalha que ajuda. Mas devíamos ter. Para ver onde nosso filhos estão, com quem estão, como estão se comportando ( tá legal! eu confio na educação que dei!)  e a gente poder dormir relaxada - ou não! Ver o futuro? Talvez. Mas só no caso de dar um jeito dele não conhecer "aquela" mulher ( risos). Mais que isso é impróprio. Seria como anteceder  preocupações que, como o próprio nome diz, já se trata de se ocupar-se antes de algo. Se vem de qualquer jeito, porque antecipar? Se a tal festa é amanhã, porque perder o sono hoje? E certamente entrarei no rol de tantas e tantas mulheres de tantas e tantas gerações que um dia acordaram e não acharam o filhote na cama. E estarei no lugar de mães que eu mesma fiz perder o sono, piratinha de meninos. Pagando alto.
Mas os tempos mudaram, os problemas são outros. Antes era com o cigarro, hoje drogas. Até torço para que a maconha deseja liberada: provou-se que faz bem menos mal que o maldito.Ou bebidas. Hoje não nos preocupamos "só" com o quanto bebem, mas sim com "o que" bebem, sabendo ou não. O meu diz que gruda numa garrafinha de água e fica assim a noite toda,  mas, vai saber...Ou mulheres, hoje meninas ( ou seriam meninas, hoje mulheres?). Essa história de 'ficar' me assusta. Fiz isso, e já com uma certa idade, e sempre me arrependia depois. Mas hoje, ao que parece, não tem nada de arrependimento. E as meninas viraram mulherões: elas definem quem, quando, onde e por quanto tempo - a até quantos. Mas eu fico entre a espada e a cruz, ou melhor dizer, entre a menina e a mulher. Não sei se me assusta mais o namoro com uma da mesma idade ou...muito mais. Não acho legal antecipar idades, pular etapas, dar o passo maior que a perna - ou seja lá qual for o membro. Bem...só digo uma coisa  a ele, sempre: viva. Com cuidado, pesando as consequências de cada ato, mas sem deixar de levar a vida, de viver cada etapa, cada idade que se tem pela frente como um passaporte a mais, um carimbo a mais. E poder ver, bem lá na frente (no caso dele, não no meu, passaporte já pela metade) tudo o que se fez, tudo o que se conheceu, se viver, conviveu, descobriu, lembrou, esqueceu - pessoas, lugares, emoções e coisas - não necessariamente nessa ordem de valores. E aproveitar ao máximo as oportunidades, hoje e sempre, sem parar. Até tomar um bolo com  chá com o padre que veio dar extrema unção ( gargalhada).
Pois é, o tempo passa. Passei de mãe a candidata a avó ' no susto' ( bate na madeira três vezes!!!). Quando ele nasceu, minha irmã me deu um livro e escreveu na dedicatória a frase de Gibran, de que "os filhos são do mundo "( loucos de quem os põe nele). Eu sei, acho até que estou bem preparada. Dei o que tinha de melhor. E não veio com manual e nem bola de cristal, bem sei. Um dia ele vai ( e tenho tantos planos para mim...), mas depois volta com a "outra" e tudo o mais. Quem sabe me dá o prazer de recomeçar tudo outra vez quando for,  enfim (mas que demore, por ele e por mim!), pai?
Eu, moderninha, antenada, mas ainda repetindo o que minha mãe fazia, prefiro a frase de Veríssimo, o Luis Fernando.
"A verdade é que a gente não faz filhos. Só faz o layout. Eles mesmos fazem a arte-final".
E olha que o meu quer ser designer...







sexta-feira, 10 de junho de 2011

Credo



E sairam as duas - ou mais? - para caminhar ao sol comigo. Eu, só corpo, mais interessada em gastar calorias e derreter tristezas. Elas, matracas. Reuniram-se todas de uma só vez, como detesto, já que não foram pelo visto, educadas para se entender - nunca o são!
Vamos rever. A Joyce mãe estava tranquila: sabe ter  feito o seu melhor e  só espera que a vida faça o mesmo para seu filho. Caminhava comigo sem nem pensar, entre satisfeita e preocupada - aquela preocupação pertinente e insistente de mãe. A Joyce mulher também, satisfeitíssima e cantarolante por ter descoberto, antes tarde que nunca, o que é amar e ser.  Mas a Joyce profissional e a que chamo de 'personagem', eram puro debate - daqueles que já se sabe não chegar a lugar nenhum. Gritaria desnecessária, como bem já sabia eu, feito bate boca de bordel. Uma dizia que estava cansada de nadar, nadar, nadar e morrer na praia. Ou não morrer, nem isso, mas ficar exausta - e sem nem bombeiro bonitão para um boca-a-boca. Que eu deveria escolher outros caminhos - qualquer um!, dizia ela , só para me fazer parar para pensar se estava certa. Lembrei de minha amiga Jô - e sua linda história - que é a quem entrega minhas madeixas quando me deixo ser mulher ou quando o astral passou do pé - que disse, certo dia, que nunca morreria de fome: seria uma exemplar faxineira, tamanha chatice por limpeza. Concordei, por ela, para não perder a amiga, e pensei o mesmo de mim, desde que em casas conhecidas. Faço isso com gosto, limpar ,arrumar, como se limpasse a mim mesma - mais alma que corpo. Mas mesmo nesse campo, tem gente que ama e tem gente que odeia que eu faça ( como minha mãe...). Gosto de 'brincar de casinha', como digo, mas não deve ter sido para isso que minha mãe pagou meus cinco anos de faculdade. A outra,  a tal Joyce "personagem" , saída de histórias baratas de quadrinhos - ou peças teatrais de escola? - dizia que isso tudo era absurdo, que eu já tinha andado tanto, que ' a vida é assim mesmo, pelo menos você é conhecida'. A 'profissional ' não se interessou: queria é ser REconhecida. E veio com um papo que queria isso na vida também. E assim fomos, todas nós, elas falando, e eu  - e meu eu , e mais a Joyce mãe e a Joyce mulher -  tentando me distrair, feito criança que sou, com os cães simpáticos e seus rabos balançantes, com meus passos pelo chão tão distraídos quanto eu, com meus olhos  distraídos com os limos nas calçadas, como quem se pergunta se 'vai chover'. Eu precisando de descanso, de descaso, de esquecimento, e elas me atucanando as ideias. Lenha molhada na fogueira: não deu em nada, só fumaça e cheiro ruim. Nada de fogo, de resoluções, de medidas drásticas. Nem uma faísca sequer. Mais parecia a criança que, aborrecida com o tal brinquedo, vira as costas e sai, cantarolando para disfarçar. Nem chorando vai para os braços da mãe como era de se esperar.
Sai para caminhar e voltei só. Elas cansadas de tanto falar e eu cansada das pernas. O calor, velho e bom companheiro, fez seu papel de me esquentar. Senti nas coxas a força do andar. Na cabeça a sensação boa de, pelo menos, ter dado a minha volta, gasto um pão. Se caraminholar desse resultado, minhas faladeiras companheiras de estrada, eu dava aulas. Tenho especialização, mestrado, doutorado, sou PHD. Mas de me amar não abro mão. É só uma questão de esperar a nuvem passar. O sol, cedo ou tarde, aparece. Feliz de mim que sei que ele está lá...
Alivia-me pensar feito Eisntein:

"Eu penso 99 vezes e não chego à conclusão alguma mas,
quando paro de pensar, surge a verdade."
A. Einstein




quarta-feira, 8 de junho de 2011

Indo...


"Que procuras?
 Tudo.
Que desejas?
 Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão. "
Cecília Meireles

Podia bem começar meu texto de hoje com um típico: "querido diário, hoje meu dia rendeu". Não, não sou workholic e nem tenho a mínima pretenção de sê-lo. Talvez writterholic. Ou lifeholic? Quem sabe loveholic? Não existem, acho, sabe lá, mas combinam bem mais comigo. Mas tenho dentro de mim um certo alivio, um certo conforto quando consigo passar da linha do marasmo que me segura por vezes e me lançar no que tenho - ou quero fazer - e nem sempre sai. Nem a contento, nem a descontento. Pois bem, saiu. Fiz. Aconteci. Não nada de extraordinário ai, mas é que ando assim, meio lenta. Travada. Corpo aqui, cabeça lá. Não  que esteja fazendo coisas que não gosto, que não quero, mas  a questão de entorno, talvez, faça diferença.  Preguiça de viver, às vezes, não por não amar a vida,  mas porque a vida não está sendo bem a que espero. Aliás, belo trocadinho, pois vivo esperando que os dias passem e eu possa, enfim, tomar meu rumo, o rumo que escolhi para mim.
Complicado? Também acho. Mas é assim que a vida anda para mim. Uma solução aqui, um placebo ali , uma injeção de ânimo acolá e sigo me levando. Como  brinquei ontem, a vida às vezes me leva pela mão e muitas outras vezes com um empurrão. Mas vou. Sigo. Moro acima ou ladeira abaixo. Não dá para pedir para descer. Nem parar. E nem quero. Sei muito bem onde quero chegar. E nada como o tempo para tirar dúvidas, aplacar tristezas, resolver problemas, fazer as coisas andarem. Desde que se queira, que se lute - ou pelo menos se faça pensamento positivo. Que se viva. E isso eu faço.

Que procuro?
Pouco.
Que desejo?
Ser eu mesma  (seja lá o que isso for, não é Bob Dylan?)
Viajo ao lado de meu coração
Não ando perdida, mas esperando mais da vida
Levo o meus sonhos na palma da mão
Joyce Diehl




terça-feira, 7 de junho de 2011

Mágica



Terça fria, e com cara de segunda. Talvez porque minha segunda teve cara de domingo, e meu domingo cara de sábado,  e assim se vai. Chove e faz frio, não necessariamente acontecido nessa ordem. Cheguei antes das seis da manhã, menos de 15oC, depois de umas dez horas na tal viagem que já se fez hábito.
Hábitos, muitos a gente nem gosta, mas ficam dormentes de tanta necessidade. Como escovar a língua - coisa que odeio! - mas faço logo cedo, ainda em jejum ( como diria minha avó, se ainda viva: se é ruim, faz logo, assim se livra !). Ou hábitos que gosto, como lavar o rosto com água bem gelada, acordar de pele. Ou literalmente cheirar meu filho - ainda deitado na cama, antes de beijá-lo na testa e dizer bom dia - como se esse cheirar me levasse a uma viagem no tempo, ao menino dormindo no meu colo.
Então, você diria: há hábitos e hábitos. Coisas que se gosta e coisas que se detesta, mas ambas que se faz. Como levantar cedo - gosto, mas só quando não é necessário, obrigatório, o que faz do hábito dever e entristece tudo. Descolore. Perde o gosto pela coisa. E com os hábitos, as rotinas, também divididas em boas e nem tão boas assim. Se não recebo  - e dou - beijo do filho antes dele sair de casa o dia não começou. Ou se não recebo - e dou - beijo de boa noite, o sono nem vem. Como se faltasse algo. Tempero. Atos simples, mas nem por isso menos válidos. Como o de falar todo dia a quem se ama que o ama. Lembro de um filme em que o rapaz falava 'idem' em resposta ao 'te amo' da amada e se arrependeu de não ter dito e repetido inúmeras vezes essas palavras mágicas - se ditas com o coração, claro. Senão, vira hábito. E se hábito, mecânico. Cego. Sem atenção, automático, como quem dirige um carro: sabe como se faz, mas não sabe explicar como e porque se faz. E pensar que tem gente que não sabe dizer essas três - ou duas? - palavras. Eu te amo. Ou te amo, simplesmente. Tem gente que tem dificuldade de dizer isso até para si mesmo frente ao espelho - por vezes a tarefa mais difícil, porque mentir para si mesmo é uma das coisas mais complicadas - não tem o ingênuo credo do amante.
'Eu te amo'. Ou 'eu te adoro', mas sabendo que adorar não é amar. Sinto pena de quem não disse, não diz, de quem não vê na vida essa oportunidade única de ser feliz. Quem não se dá a esse prazer - de sentir e de dizer. Não sabe o que perde. Não pelo simples dizer, fácil, se com segundas intenções que não as puras e verdadeiras. Ou quem acha que são palavras para serem ditas tão somente em tal momento, entre quatro paredes e uma cama, como quem aquece a relação. Melhor ser a amiga que brinca e diz, mas com o coração - ou em outra língua. Ou o irmão  - ou irmã - que diz porque aprendeu a dizer - ou porque passou dos limites etilicos de sempre, quando saem as grandes verdades, a favor ou contra, para o bem e para o mal. Ou o filho que diz porque dizer, assim, gostoso, sem nem  pensar ( e esquece de fazê-lo quando aprende a dureza da vida - ou de adolescer). Filho só diz se a gente diz primeiro, desde os embalos em berço a ninar. Repito: não há, no mundo, melhor sensação do que escutar isso de uma boca vizinha de olhos  sinceros - quiçá mareados. É como se viessem lá do fundo, direto do coração, e sem pedágio. E muito menos a sensação de falar, um falar de dentro, que vem d'alma. Se é outro, como quem é um rio, sempre outro a passar. Somos outros sempre que dizemos amar. Assim de sopetão, sem nem pensar , como quem olha o filho pela primeira vez. Ou 'assado', pensando até demais, como quem se entrega a um amor maduro, delicadamente plantado.
É, terça de chuva, cara de segunda. Frio de doer. E eu aqui, olhando a rua, vendo o colorido outonal do dia, e me pondo a pensar...como é bom amar!

"Não me lembro mais qual foi nosso começo. Sei que não começamos pelo começo.
Já era amor antes de ser".
Clarice Lispector

domingo, 5 de junho de 2011

Grande


 
"Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces.
Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema".

Domingo de manhã, sol e frio. Silêncio de que necessito, como se passasse a semana a limpo.Um silêncio por vezes tão necessário e tão difícil de se encontrar. Eu e Deus, já que a vida dorme. E sempre tão bem vindo silêncio, como hoje. Um silêncio curador, não ameaçador, nem portador de más notícias. Muito menos ameaçador, culposo. Um silêncio reparador. Meu. Deve ser por isso que a gente dorme: para silenciar a língua, cabeça e coração...Já levantei cedo e fiz ' o que tinha que fazer'. Agora quero fazer o que quero fazer: viver. E nada como um pedacinho carinhoso de poema de Cora Coralina para me incentivar a escrever. A me curar...A me deixar levar pelo que sinto, sou.
Não escrevo fazem uns dias. Talvez por falta de tempo, talvez por falta de vontade, do silêncio interior que preciso. Ou , quem sabe  sem necessidade de cura? Belo começo, alinhavo as ideias e vou me entendendo. Olho para fora e vejo o sol que logo, logo, vai me aquecer ( estou criando coragem...ou que, pelo menos, esperando que a  temperatura que marca aqui no meu lap chegue  a dois dígitos...). Frio faz disso. Interioriza. Deixa  o corpo mais arredio à grandes aventuras. Deixa os dias mais calmos, preguiçosos de corpo, quem sabe de alma? Deixa os dias mais pretenciosos de  vontades parcas, como um bom cozido, um cheiroso bolo, quem sabe um simples e quente chá? Gosto disso, de transformar as vontades em cheiros pela casa...Em cores pelos dias...Aguçar sentidos melhora o meu dia...
Releio o poema dessa mulher de fibra. Vejo nele toda a sua simplicidade. Uma simplicidade que me encanta, palavras e vida. E me vejo a procura de uma , vida, menos mesquinha. Menos necessitada. E de palavras mais sinceras - se é que isso é possível. Por vezes calamos para não magoar - aos outros, não a nós, já que necessitamos delas para nos, 'limpar'. Palavras podem ser as rosas que Cora fala. Ou pedras ,  as tais que ela aconselha remover de nós. E é nisso que tenho que pensar. Porque usar de pedras se as rosas, apesar de seus espinhos, perfumam mais?
Na verdade, Joyce, a gente dá o que recebe...Vai lá, não te deixa impressionar. Faz da tua vida mesquinha, poema. Faz de tuas dúvidas, certezas. Faz de teus textos uma forma de te reconhecer no mundo. De teus atos, presentes do dia. De teus sonhos teu caminho, rumo, direção. Se achares pedras, faz o que diz a poeta: troca por rosas. Se não der para remover todas, faz teu castelo de princesa. E verás das janelas dele as rosas  a florescer até fora da estação...
Vai , Joyce, larga de ser pequena! Vai ser inteira na vida!
Vou...sigo...sei bem onde esse caminho vai me levar...

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Diariamente




"O problema do casamento é que se acaba todas as noites depois de se fazer o amor,
 e é preciso tornar a reconstruí-lo todas as manhãs antes do café."

Essa frase de meu querido Gabriel Garcia Marquez anda me acompanhando essa semana que, graças ao bom Deus, já está pela metade. Não, não está de toda ruim, mas deve ser a pura ânsia de seguir em frente, como tenho feito faz tanto tempo já. Ando vivendo no futuro...
Não que o presente não esteja bem embrulhado, mas seu conteúdo é que anda muito confuso.Por vezes até traiçoeiro.  E bem sei também que olhar sempre em frente nos faz tropeçar por vezes - e geralmente nos menores degraus, aqueles, quase imperceptíveis. Por vezes é bom a gente 'baixar a bola' - ou melhor, a cabeça - e ver ali o óbvio, bem diante dos pés - e não do nariz, como fazemos e como manda o ditado.
Mas voltando à frase de meu escritor predileto - que traio muito, mas invariavelmente volto a seus braços ( ou ele aos meus?) - casamento deve ser isso. Digo 'deve' porque é  que se tenta, o que se sabe certo , mas nem sempre se faz. Porque dá trabalho, diz uma. Porque nem sempre vale a pena, diz outra. Sim, dá trabalho. Sim, por vezes a gente se pergunta se vale a pena. Sim, sim, sim, às vezes  a gente tem que parar  e revisar  - mas cuidando para na revisão não dar uma de mecânico e ver só que está ruim, o que tem para arrumar - quem sabe trocar, ou até jogar fora, perda total. Revisar  a gente e o outro, óbvio, já que um par sempre é feito de dois -  acho que ainda vale isso, independente de quem seja esses dois, de que gênero for. Revisar os dois juntos. Revisar um de cada vez. Revisar-se. Eternamente e , se possivelo, diariamente revisar-se. Mas como humanos, seres comuns, 'errantes' ( no sentido de errar e não de sem rumo) não máquinas - sendo que até elas dão defeito.
Ah, o ser humano. Se for como eu, levada da breca,  seria melhor pensar em  dias de Outono - ou Primavera, tipo muitas estações - ou todas? -  num dia só. Ou quem sabe de verão, quando o tempo muda tão rápido e o sol se vai tão rápido quanto veio? De sol  a pino a céu de breu em poucos minutos, 'fácil' assim, feito uma Ferrari. Como levar a sério uma frase destas? Logo eu, que sempre fui tão 'feminista' , tão ' na minha', tão dona de mim e de meu coração? Pois é, vai entender: Concordo com Gabbo - apelido do Marquez, para quem não sabe. Depois de 'madura', eu, cedendo. Ou tentando entender. Sim, é preciso cuidar do amor assim, todo dia. Sim, o amor não termina depois do amor. Sim, como já disse Clarice, a Lispector, é preciso tirar o pó do amor todos os dias ao se acordar. Se ela falou só poeticamente, só da boca para fora, eu não sei. Sei que é assim. Sei que tem que ser assim. Sei o que me vira a cabeça - e o estômago. E sei também o quanto é imprescindível resolver tudo a contento. Sei o quanto uma cara feia - ou simplesmente desligada - pode provocar temporais - nem que sejam de lágrimas. Porque a gente espera do amor muito. Nem metade , nem pouco, muito. Para amar é preciso estar atento. Muito atento. Não blefar, pois o jogo é sério, a aposta alta. E eu? Ah, no jogo do amor eu quero mais é empatar! Nem perder , nem ganhar.
Enfim, começa o mês de Junho. Meio do ano. Dizem que é o mês do amor. E ai já começo o mês discordando: e lá o amor tem mês?
Mas isso é papo para outra hora. Quem sabe amanhã? Ou quem sabe uma outra vez...