segunda-feira, 27 de junho de 2011

Doidecendo



"Cada um é muita gente.
Para mim sou quem me penso,
Para outros - cada um sente
O que julga, e é um erro imenso."
Fernando Pessoa

É nesses dias de pensamento intenso - e meu - que mais me entendo. Ou me presumo. Dias de silêncio - ou por vontade ou por total falta dele - me calaram , e não me escrevi. Minha cura não veio: acumulou-se. Ponha-se a culpa nos dias, nos hormônios do corpo, na saudade querida, nas trapalhadas da vida, tanto faz: adoeci. Tentei, mas estava - estou - tão sincera de mim mesma que até me assusto. Tenho um real medo de achar que sou sozinha no mundo. Que de mim nada depende. Que minha atitude, boa ou má, não respinga em qualquer lugar. São as tão famosas e por vezes odiosas tarefas , os deveres enfadonhos, repetidos. Um peso em nós, em mim. O dia-a-dia me pedindo e eu com a cabeça em outro lugar...
Outro dia vi um filme em que o protagonista - nem vou falar o nome do bonitão para não correr o risco de perder o raciocínio - falava que carregamos uma mochila nas costas. E dentro dela colocamos pessoas e coisas. Eu colocaria ainda atos e culpas. E vamos enchendo, enchendo, lotando, sem nem nos darmos conta se somos - ou não, na maioria das vezes - capazes de carregá-la por muito tempo. As pessoas crescem, crescem os problemas, assim como cresce meu medo de não me realizar, seja como mãe ou como mulher. Seja como sou. Medo de não realizar sonhos básicos que trago na mochila do tempo desde sempre. Medo de ir tirando as coisas boas aos poucos para dar lugar às outras chatas e ditas necessárias. As obrigações, de quem o nome já me diz tudo. Como se o recheio fosse sendo tirado e nos sobrasse do grande piquenique de nos ser apenas pão velho e  água. Não se morre, mas meio que se mata.Ou desiste.
É nesses dias de intenso pensamento que me assusto de mim. Deve ser o frio intenso que assustou a menina dos olhos de mar. Falta um colo. Falta afago. Falta um precisar. Quem sabe depois de um banho quente e uma sopa dos ursos ela se deixe levar? Minha mãe fala que nada como uma boa noite de sono, mas às vezes era  melhor dar uma de louca...pegar minha mochila, esvaziar de coisas frias, lotar de coisas boas e me mandar!
Para mim sou quem me penso e me deixo sonhar...

Um comentário:

  1. Lindo texto, intenso, verdadeiro, corajoso!
    Quantas de nós pensa o mesmo e se cala, engole, se deixa levar...
    Parabéns!
    Lu

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