quarta-feira, 29 de junho de 2011

Duelo


No fim tu hás de ver que as coisas mais leves
são as únicas que o vento não conseguiu levar:
um estribilho antigo,
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas,
o cheiro que tinha um dia o próprio vento...
Mário Quintana

Essa vida de gente que teima em ser feliz, como eu, é difícil por demais. Ainda mais assim, sempre tão dividida, corpo de um lado, alma no outro, cabeça sabe lá aonde. Meu corpo não se divide tão somente em cabeça, tronco e membros: sou bem mais complexa. E feito gata pela metade, tenho duas vidas - longe de mim ter mais, nunca sete. De um lado, um nada, sou invisível. Ou pior: um escracho, descarte, por vezes lixo. Morta. Do outro, viva, sensível, super sensível,  nada pode abalar, como se fosse minh'alma a controlar minha vontade de viver. Qualquer descuido, mínimo que seja, e é como se pesasse mais que chumbo, pena molhada. Se seca, voa e me leva longe, longe, alegre, rumo aos sonhos. Se molhada, pesa e gruda na calçada do dia. Fico suja  e inútil. Perco o brilho.
Pluma, isso que quero ser, apesar do peso - do corpo e da vida. Uma pluma consciente, que saiba onde me quer levar,  dançarina serelepe do vento dos dias. Cheia de boas intenções, mas sem perder o foco, a vontade, o saber onde ir e onde pousar. Quero voar nesse vento cheiroso de Quintana, vento de proa, cheiro de estar. Quero essa leveza precisa da vida de que ele poeticamente fala - e canta, e encanta.  Quero me lembrar de que o dia deve ter todas as faces, boas ou más,  e eu conviver bem com elas, ou como me dá, porque mora em mim a minha certeza. Porque sei bem quem quero ser. E onde chegar.
As coisas mais leves são as mais simples, concordo com o poeta fantasma do prédio rosado. O carinho na hora precisa, a palavra amiga, o abraço mesmo que de longe. Quem sabe uma música, um poema. Uma estrofe, uma rima. Uma dedicatória. Uma frase. Pensamento. Quem sabe uma palavra qualquer.  Coisa pouca, mas muita. Um folhear que me lembre algo bom. Uma imagem que me faça recordar e rir, gargalhar se der. Lembrar de quem sou. Do que valho - e como valho!
Estou dividida em duas e as duas estão degladiando. Mas sou uma. E sei bem que eu quero que vença.

Um comentário:

  1. Joycinha, que saudade eu estava de suas palavras...a vida anda chata e corrida, como diz vc, mas só de ler seu texto de ontem e o de hoje, me sinto melhor.quem dera eu achar em mim essa sua força, sou tão jovem mas me sinto uma velha caquetica perto de vc!!
    Miazinha, auw anda bem caidinha, ams aodra passar por aqui e ver se ta tudo bem...e o paco?

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