terça-feira, 7 de junho de 2011

Mágica



Terça fria, e com cara de segunda. Talvez porque minha segunda teve cara de domingo, e meu domingo cara de sábado,  e assim se vai. Chove e faz frio, não necessariamente acontecido nessa ordem. Cheguei antes das seis da manhã, menos de 15oC, depois de umas dez horas na tal viagem que já se fez hábito.
Hábitos, muitos a gente nem gosta, mas ficam dormentes de tanta necessidade. Como escovar a língua - coisa que odeio! - mas faço logo cedo, ainda em jejum ( como diria minha avó, se ainda viva: se é ruim, faz logo, assim se livra !). Ou hábitos que gosto, como lavar o rosto com água bem gelada, acordar de pele. Ou literalmente cheirar meu filho - ainda deitado na cama, antes de beijá-lo na testa e dizer bom dia - como se esse cheirar me levasse a uma viagem no tempo, ao menino dormindo no meu colo.
Então, você diria: há hábitos e hábitos. Coisas que se gosta e coisas que se detesta, mas ambas que se faz. Como levantar cedo - gosto, mas só quando não é necessário, obrigatório, o que faz do hábito dever e entristece tudo. Descolore. Perde o gosto pela coisa. E com os hábitos, as rotinas, também divididas em boas e nem tão boas assim. Se não recebo  - e dou - beijo do filho antes dele sair de casa o dia não começou. Ou se não recebo - e dou - beijo de boa noite, o sono nem vem. Como se faltasse algo. Tempero. Atos simples, mas nem por isso menos válidos. Como o de falar todo dia a quem se ama que o ama. Lembro de um filme em que o rapaz falava 'idem' em resposta ao 'te amo' da amada e se arrependeu de não ter dito e repetido inúmeras vezes essas palavras mágicas - se ditas com o coração, claro. Senão, vira hábito. E se hábito, mecânico. Cego. Sem atenção, automático, como quem dirige um carro: sabe como se faz, mas não sabe explicar como e porque se faz. E pensar que tem gente que não sabe dizer essas três - ou duas? - palavras. Eu te amo. Ou te amo, simplesmente. Tem gente que tem dificuldade de dizer isso até para si mesmo frente ao espelho - por vezes a tarefa mais difícil, porque mentir para si mesmo é uma das coisas mais complicadas - não tem o ingênuo credo do amante.
'Eu te amo'. Ou 'eu te adoro', mas sabendo que adorar não é amar. Sinto pena de quem não disse, não diz, de quem não vê na vida essa oportunidade única de ser feliz. Quem não se dá a esse prazer - de sentir e de dizer. Não sabe o que perde. Não pelo simples dizer, fácil, se com segundas intenções que não as puras e verdadeiras. Ou quem acha que são palavras para serem ditas tão somente em tal momento, entre quatro paredes e uma cama, como quem aquece a relação. Melhor ser a amiga que brinca e diz, mas com o coração - ou em outra língua. Ou o irmão  - ou irmã - que diz porque aprendeu a dizer - ou porque passou dos limites etilicos de sempre, quando saem as grandes verdades, a favor ou contra, para o bem e para o mal. Ou o filho que diz porque dizer, assim, gostoso, sem nem  pensar ( e esquece de fazê-lo quando aprende a dureza da vida - ou de adolescer). Filho só diz se a gente diz primeiro, desde os embalos em berço a ninar. Repito: não há, no mundo, melhor sensação do que escutar isso de uma boca vizinha de olhos  sinceros - quiçá mareados. É como se viessem lá do fundo, direto do coração, e sem pedágio. E muito menos a sensação de falar, um falar de dentro, que vem d'alma. Se é outro, como quem é um rio, sempre outro a passar. Somos outros sempre que dizemos amar. Assim de sopetão, sem nem pensar , como quem olha o filho pela primeira vez. Ou 'assado', pensando até demais, como quem se entrega a um amor maduro, delicadamente plantado.
É, terça de chuva, cara de segunda. Frio de doer. E eu aqui, olhando a rua, vendo o colorido outonal do dia, e me pondo a pensar...como é bom amar!

"Não me lembro mais qual foi nosso começo. Sei que não começamos pelo começo.
Já era amor antes de ser".
Clarice Lispector

4 comentários:

  1. Dizer as coisas e sentir as coisas ditas...

    Paco, sem medo de dizer: eu te amo...

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  2. Joyce, é maravilhoso saber escrever, como a Clarice Lispector e tantos outros...mas, para mim, muito maravilhoso e valioso também, é ter pessoas como vc, ou seja, com sua vasta cultura e inteligêngia, busca, lê e divulga para nós, esses textos tão profundos e verdadeiros! Então, fica aqui, toda a minha admiração e respeito por sua pessoa!! Bjs, no seu coração!1

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  3. Paco abrindo a guarda uauauauauaua
    tambpem, como um mulherão desses, não perde a chance de ser feliz! Joycinha, escreve muito e toca a gente lá no fundo...Mia

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  4. Pois é, Mia, "não dá mais prá segurar, explode coração..."

    Paco, lembrando como começou....

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