terça-feira, 30 de agosto de 2011

Reinando


"Na infância, bastava sol lá fora e o resto se resolvia."

Grande verdade essa , mesmo tão simplória, e talvez mesmo por isso, de Fabricio Carpinejar. Bastava que não chovesse, ou um bom jogo na mesa, quem sabe um filme na sessão da tarde. O tédio não estava presente nas cantigas de roda, nem no jogo de pegar. Nada de tédio nas noites  passadas a contar estrelas e esperar que nascessem verrugas no dedo apontador. Nem na espera de assustar alguém a passar. Nada de chatice nas risadinhas proibidas por debaixo do edredon, a mãe a ralhar. Nada de monótono nas noites bem dormidas ao embalo tão somente do cansaço de tanto viver. Nem de sem graça na risada tresloucada sem motivo alguma  a não ser o de rir. Nada chato, nada entediante, nada de triste, nem o último dia de férias, já loucos para rever os colegas da sala, as novas professoras, o cheiro do caderno, quem sabe até o pipoqueiro, ou o menino da outra sala. Nada sem cor, nada sem cheiro, nada sem graça. Nada de útil,  tudo de fútil e nem precisava. Não se perdia tempo em frente ao guarda-roupa, nem se  precisava de espelho a não ser que fosse para ver como ficava a roupa da mãe em nós. Quem sabe um salto, outro dia um batom, e tudo isso uma alegre brincadeira. Como fazer o cachorro de bobo, quem sabe o amigo. Subir no pé de goiabeira só pra ver quem sobe mais alto. Disputar corrida só para zoar do outro. E que adrenalina que dava.
Carpinejar resumiu nossa burrice adulta em poucas palavras. Hoje, nem o sol nos agrada. Se faz frio reclamamos que vamos congelar. Se chove, que vamos mofar .Se calor, vamos derreter. Se venta, estraga os cabelos. Se esquenta, pode ressecar.
O tempo passa e a gente esquece que já foi feliz. Deixa a  receita se se ser lá para trás.  Chego a conclusão que ser adulto é um pé o saco, hoje murcho. Ou um encontrão nos peitos
já puxados pelo tempo...
Na infância, bastava uma coroa de papel ou de giz e éramos todos príncípes e princesas.
Hoje, nem de ouro para nos agradar.

domingo, 28 de agosto de 2011

Vermelhas



Hoje assisti - reassisti  -  em um breve momento que me dei de presente viver - o filme "Antes de Partir", com os impagáveis Jack Nicholson e Morgan Freeman. Como li num site sobre cinema, "perfis opostos que se completam, fica difícil errar". Aliás, tudo oposto, com eles e com seus personagens ( o diálogo entre os dois, frente a frente, faz rir bem por isso...). Quem não viu, não sabe o que está perdendo. E já vê tarde.  E quem viu,  deve ver de novo: é o tipo de  filme que
não se pode ver  - não se vê - uma vez só na vida.
E falando em vida, alguns diriam que o filme trata da morte. Eu, guria otimista e romântica incorrigível  que sou - aposto na vida ( apesar de que, ultimamente, o futuro tem me chamado muito para conversar,  pedindo respostas que não sei dar...e como me chama pelo nome completo, levo a sério, como fazem os filhos em relação aos seus pais).
"Lista da Bota". Esse parece ser o grande fio que amarra a trama, belo tricot. Uma lista de coisas que se quer fazer - ou ter,  ou ser - antes de "bater as botas".  Pensei seriamente em começar a minha, um sério leve, claro, pois não pretendo bater as minhas queridas botinhas antes da hora. E para distrair minha mente, 'desfixar' a ideia, pedi ao meu  cachorro que me levasse para passear. E de passo em passo, devagar e cheirando a vida, marcando espaços, fomos, eu e ele, ele levando a vida
e eu pensando nela.
Muito simples a minha - lista, não vida - não sei  a dele, do cão. Tudo muito simples e que por enquanto só tem um pedido. Muito complexo, eu sei, mas um. Por hoje, só um:  
Amar e ser amada, um amor tranquilo e morno, feito chá, pois não suportaria viver sozinha, nem amar sozinha. Uma pessoa com que aceite minhas lágrimas ( choro por tudo!) e que goste de ouvir minhas gargalhadas, pois pretendo dar muitas ainda. Alguém que entenda que preciso, às vezes, ser menina e às vezes ser muito mulher, e quem sabe, outras vezes, eu mesma. E que goste de comer minhas comidas, pois pretendo testar muitas ainda - e dizer que está bom. E que se  ofereça para lavar a louça, só de vez em quando. E que me conte histórias, reais e imaginárias - e escute as minhas. E que me faça cafuné na cabeça, quem sabe massagem nos pés. E que me ache sempre linda, mesmo na hora que eu estiver tentado esticar as pregas do tempo em frente ao espelho, me achando o 'ó', mesmo que eu levante mal passada. Que entenda meu humor vacilante, pura insegurança, minha mania de me achar mal amada. A massaroca que faço na cama e essa mania irritante de acordar cedo para aproveitar bem o dia ( prometo não fazer barulho!). Que me espere quando eu saio para caminhar comigo mesma, sabendo que vou voltar melhor. Que me namore sempre que dê vontade e se enamore de mim sempre e cada vez mais, assim, como sou: muitas.
Resposta grande para uma primeira, mas eu sou assim, complexa, sem metades, inteira. E aos poucos, para não me engasgar comigo mesma. Quem sabe amanhã eu posto mais uma?
Termino mais um dia que foi um presente porque eu mesma decidi embrulhá-lo melhor.
E ponho no cartão a frase do filme:

"Quero te pedir uma coisa:
"encontre a alegria na sua vida."

PS.: Papai do Céu, quando eu 'bater as botas', por favor,  que elas sejam vermelhas!

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Guarda-chuva



Acho que somos um pouco masoquistas. Ou extremamente desligadas, quase em caso crônico, sem cura, nem solução. Ou caso de internação. Eu pareço ser. Eu costumo ser, melhor dizer. Sabe porque falo isso? Cometemos sempre o mesmos erros, ridicularmente os mesmos, sem tirar nem por. Erros que caberiam em um menu de boteco de esquina, daqueles que as ofertas estão empoeiradas, tamanha inércia, desde que a casa abriu. No meu caso, uns quase 50 anos. Ou desde que me entendo por gente.
Tem o que hoje? PF. O famoso prato feito, sempre o mesmo, o famigerado feijão com arroz, bife gordurento e duro na queda e um ovo ' estalado' com sorte. De brinde a mesmice. Ou um copo d'água para engolir. Sejam bem vindos! Nosso PF. Não. Melhor eu trocar pela primeira pessoa para não 'magoar' outrem, aqueles que se dizem diferentes, os não humanos. Meu PF tem sempre a mesma cara. O mesmo cheiro de bolor, de data vencida. O mesmo gosto amargo do depois. A digestão difícil. No menu da vida, meus erros, sempre os mesmos, como quem não tem opção: é esse ou esse mesmo. Sejam eles sentimentais, amorosos, culposos, materiais, econômicos , engordativos e tudo o mais: são sempre os mesmos. Cabem nos dedos de uma de minhas mãos, só uma .
Olho meus dedos pequenos e eles estão lá, dedos e erros, sempre no mesmo lugar.
Cometo hoje os mesmos erros de estratégia dos meus 10 anos. Cometo os mesmos erros dos meus 20 anos em termos de amor. Os mesmos dos 30 em termos de contas. O mesmo de quando nasci quando o assunto é promessas. Juro que nunca mais faço isso, digo eu para uma insatisfeita Joyce ( e ainda bem que não juro por Deus). E  logo depois lá estou eu de novo no banco do réus, tendo eu mesma como advogada de acusação, juíza e júri. Falo para mim mesma que nunca mais vou fazer aquilo e logo me vem a vontade de novo. Feito vício. Droga. E  os tais ' amanhã eu faço, amanhã eu penso, amanhã eu resolvo', que coisa mais irritante. Amanhã eu começo a dieta. Eu caminho, eu começo a correr. Amanhã eu falo isso, eu resolvo aquilo e mudo aquele outro. Amanhã eu me doutrino. Me encorajo. Vou. Faço e aconteço. Amanhã, tudo amanhã. Meu presente é o que ? Por vezes uma caixa vazia, daquelas bobas que se dava quando pequenos para pregar peças. Ou coisas novas que talvez também fiquem para amanhã. Porque mesmice pesa, atravanca a vida, vira bola de ferro.
 O que me consola é que sei qual é o caminho -  só não sei se quero segui-lo. E, como sou, sempre tão otimista, dar as contas e dizer: fazer o que...Amanhã, com certeza, tem  mais! Faço mais. Sou mais.
E me cai no colo a frase da 'loira fatal'  - para uns , mas menina acanhada para outros, e crucificada por tantos pela sua maneira de ser -  que me consola:

"Sou egoísta, impaciente e um pouco insegura.
 Cometo erros, sou um pouco fora do controle e às vezes difícil de lidar.
Mas se você não sabe lidar com o meu pior,
então com certeza, você não merece o meu melhor!"

Lembro que já li em algum lugar que erros são uma parte importante na história.
Melhor não reclamar. Se estou na chuva, é para me molhar!
Mas será bem melhor quando eu lembrar do guarda-chuva...

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Nina



"Preciso de paciência, porque sou vários caminhos,
inclusive o fatal beco sem saída".
Clarice Lispector

Acho que é a primeira vez que discordo da grande dama das palavras verdadeiras. Por vezes simplifico sua ideia, outras tantas acomodo com minhas palavras.  Muitas até acho graça de tamanha verdade. Outras, interpreto a meu favor.Talvez pelo meu otimismo por vezes infantil ou romântico. Ou que sabe minha teimosia de quer ser feliz. Cabeça dura, podem me chamar, mas não das que freia e fica. Mas da que caraminhola, que mastiga, que rumina uma ideia, que come pelas beiradas feito mingau quente até raspar o prato - um fato,  um sentimento, uma mágoa,  coisas boas ou más, até que sua digestão goela a baixo posso iniciar seu caminho - para o coração ou ...
Beco sem saída, cara Clarice, não acredito. Na pior das hipóteses pode-se voltar para trás, voltar atrás, nem sempre fácil, nem sempre cômodo, como quem se cura com remédio enorme, difícil de engolir. Mas o que é fácil, além de um bom sorvete ou um morno chá? Mas não quero voltar, nem desistir, quero seguir, ir em frente, apostar no que acredito, no que ouso querer para mim. O caminho nunca é fácil, nunca pura flor, mas nem pura pedra, e nunca será. E se fosse, enjoaria ou cansaria.  E vi tanta coisa boa pelo caminho que quero ficar. Seguir. Prosseguir, sem nem saber onde isso vai dar - mas sabendo onde quero ir. Se não me jogando como sempre fui, por vezes livre vôo, tateando, devagar, mas seguir. Persistir. Me deixar levar. Quem sabe dá?
Ruminar, sempre bom. Mastigar muito, pelo menos. Mas pede silêncio da alma, nem sempre disposta a se calar. E fica aquela discussão medonha, por horas ou até dias, entre o coração e a cabeça, a razão e a emoção. Quem tem razão? Sei lá. Tento pesar os famosos prós e contras, deixar de fazer tempestade em gota dágua ( mas uma gota pode ter tanto veneno...), assimilar, transpirar . Refletir, insistir. Aceitar, bela palavra. O sim no lugar do não. A calma ao invés das explosão. E muito, muito amor para dar, inclusive para mim.
Assim estou, não sou. Combinando com o dia chuvoso e frio que parece desacelerar sentimentos - ou apimentá-los? Ser ou não ser? Sentir ou deixar passar? Distraio minha mente para ver se , no descanso, ela esquece e deixa para lá, como quem vê um pássaro e se deixa voar...

domingo, 21 de agosto de 2011

Ah, l'amour....




Ontem assisti Chéri, com a sempre estonteante Michelle Pfeiffer, mulher tipo um bom vinho: quanto mais tempo, mais encorpada! Ela, maravilhosa. E  eu, em 'grande' estilo: eu , meu cachorro  - um dachshund cor de mel pedinte que só - e nosso inseparável edredon. Noite boa. Peguei por pegar - aliás comprei, dado que estava na prateleira dos ' adote-me', chamado irrecusável. Michelle é Michelle, pensei. E acertei, belo presente. Ah, e um 'tipo' meio 'assim -assim', que não se define nem se é feio ou bonito, se é macho ou duvidoso, se homem ou menino - ou seriam todos em um?
Va benne...continuemos.
Mas, enfim, parando de rasgar sedas  -  criar dúvidas - e voltando ao tema - o Amor  ( sim, letra maiúscula, pro ser 'o' ) - esse desconhecido ( sim, desconhecido, por mais que eu teime que não). E sempre cheio de senão. Ou porque  é cedo demais, ou porque é tarde demais. Ou cedo para uns, tarde para outros. Ou pior ainda: cedo para uma das partes - já que amor se dá sempre em dupla, porque amar sozinho é para masoquistas, o que estou longe de ser, 'grazie Dio')  - e tarde para a outra. Ou amor para um e "sei lá o que" para o outro. Ou amor sem ter certeza de ser, confundido muitas vezes com atração, paixão, compaixão, tesão, amizade, cisma até. Acomodação, pode ser. Ou até um ridiculo sentimento de possessão. Um "sei lá mais o que" que tem tudo isso. Porque amor É tudo isso - e mais um pouco, ou muito. Mas tudo combinado e encaixado, pitadas,  como quem tempera a vida.
E não me venha com dicas e regras, receitas e coisa  e tal, do tipo 'se você pensa na pessoa desde que acorda até deitar para dormir', ledo engano. Não é tão fácil assim.  Nem tão preciso. Eu penso em meus problemas -  e em pessoa que me trazem problemas - dia  e noite, e estou longe de amá-los, muito pelo contrário. Mas tem, sim muito disso. Muito de amor, muito de paixão. Muito de compaixão, de medo, de incertezas, também ( não existe mar de rosas...). Mas também muito de certezas, de companheirismo, de amizade até ( mas eu não sairia por ai beijando amigos...nem coisas ' piores'). De tentar ver sempre o lado A, o lado bom, do outro e de nós. Viver o nosso melhor lado, o melhor que podemos ser. É ter vontade de acertar, quando uma discussão vira conversa até se acertar - e pode até terminar na cama (entra aqui a paixão). É querer. Querer que o outro esteja bem. Que se dê bem. Que se sinta bem. É querer fazer diferente e a diferença. Não se aceita menos, nem metade. Nem omissões ou mentiras. Um tudo ou nada que não invade. Que mantém a individualidade - senão escraviza. Que mescla essas individualidades e cria momentos nossos. Que dá uma intimidade que não intimida. Que nos dá a chance de ser o que somos de melhor, viver o que temos de bom para viver. Mas também afagar, incentivar, abraçar, dar colo, reconhecer. É ser pai e mãe se for preciso. Irmã ou irmão. Filho, filha tanto faz. Ou até cachorro, naquelas horas que se sabe que se deve ficar em silêncio,  e esperar o melhor momento.
Ontem assisti Chéri e me reforçou o sentido da vida. Viver, sem limites. Até ver no que dá...

" O amor deveria perdoar todos os pecados,
menos um pecado contra o amor.
O amor verdadeiro deveria ter perdão para todas as vidas,
menos para as vidas sem amor"
Oscar Wilde

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Exorcizando




Sempre fui uma pessoa que dizia não ter medo de nada...até ser mãe. Mãe sempre tem medo, um ou outro, menor ou maior, porque descobre que não é sozinha no mundo. Mas com o passar dos anos, quando o 'tudo posso' dá lugar ao ' vamos com calma', as certezas pelas incertezas,  os saberes pela sabedoria - uma das discutíveis vantagens desse tão breve passar - refaço meus pensamentos e ponho neles muitos medos. Estranho isso, já que a sabedoria deveria me dar a liberdade de escolha, muita calma nessas horas de 'ai, meu Deus, e agora?'. E tenho me visto, volta  e meia - ou volta e inteira - com medos nunca sentidos. Medo de não ser capaz, inclusive,  para mim o pior deles. Medo de não ser capaz de cumprir com meus prometidos a mim mesma e ao meu mundo. Medo de não ser capaz de certas tarefas que, ao primeiro olhar me parecem confusas, nebulosas, como quem tira os imprescindíveis óculos. De não alcançar sonhos que coloquei na pauta de ser feliz.
Medo de não ser feliz. Medo de não ser. Medo de não. Medo.
Sempre fui metida, dando a cara a tapa ( ou vários), merecido ou não - desde que me largaram em uma  cidade grande  com malinha na mão e a frase ' te cuida'  -  e tive que me virar nos 18, nos 20, nos 30. De me jogar e depois ver se colocaram a tela de proteção.  Depois me assustei na minha 'Crise dos 30', quando a vida deu um giro tão forte que tonteei.  Mas, como boa mãe, aprendi a ter medos - e conviver com eles ( ou chorar escondido). E hoje, uma 'senhora' - ou ainda menina precisando crescer, me pego de novo cheia deles. E tento me acalmar, e domar sentimentos - muitos nunca antes sentidos. Como se o relógio do tempo estivesse acelerado - como acelerados os meus anseios. Como se eu contasse, agora, o tempo como um dia a menos. Não são mais os sonhos de menina de cidade do interior. Nem da mocinha batalhadora que fui. Nem da mulher  por vezes covarde em que me transformei. Ou a outra, eu mesma, cheia de gás do otimismo para enfrentar o que quer que seja. Meu medo é o de errar - de escolhas, de caminhos - e parar na porta fechada. Ou de um lugar que não me interessa.
Medo de parar, quem sabe.
Respiro. Fundo, como quem pede oxigênio. Como quem pede uma luz. Como quem arranja espaço dentro de si. Trago clareza ao meu olhar. E vejo claramente à minha frente minha maior inimiga. Ela ri, como quem pergunta ' e agora?'. E é como se estivesse em frente ao espelho. Quem eu vejo sou eu mesma, minha maior inimiga. Eu e meus fantasmas criados, os fantasmas dos 'in', coisa pequena, mas que altera tudo - infeliz, insegura, incompetente, insensata, inútil. Lembro que só há duas coisas a fazer: desistir ou insistir  ( ta ai um 'in' sensato). Persistir. Agora quem ri sou eu, achando graça da minha ' desgraça' plantada -  mas não regada -   lembrando de uma frase de Clarice:

"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso.
 Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro"...

Viro as costas a mim mesma e dou uma gargalhada....E me digo: "ah, vai te amar que passa!"
 

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Coracoragem



Tarde fria, chuva fina. E eu ainda amortecida da viagem - ou do simples voltar. Por vezes acho que a gente é que complica a vida. Que seria melhor ser uma Cora Coralina e ficar ali a fazer doces e poemas até o cansaço da vida passar. Até o outro dia chegar. Até a Primavera, quem sabe Verão. Ou pelo menos a noite, para quem espera se jogar na cama para esquecer algo ou alguém.
Releio Cora e seu poema quase infantil, Aninha e suas pedras , mas de uma profundeza infinda, que me conforta. E fortalece.

"Não te deixes destruir...
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces.
Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede".

Vai Joyce! Recria tua vida, sempre, sempre! Faz de tua vida mesquinha um poema. Ou um tema de redação. Quem sabe texto. Vaso. Plantação. Doce ou sopa, tanto faz. Gaveta arrumada. Mas faz. Não te deixa remoer pelas traças das coisas carcomidas. Das não acontecidas que nem sabes se vão. Não te deixa levar pelo que pode acontecer. Mira teus olhos azuis de menina no teu amanhã, tão sonhado. Faz como fazias quando pequena: sonha. Porque sonhos, tens, e de sobra, encheriam a caixa de Pandora. Caberiam nos castelos, tantos, de tantas pedras do Pessoa  topadas no meio do caminho. Toma a tua parte, mata a tua sede, tanta. Não desgarre dela nem por um segundo, não descuida. Porque o que a vida tem para te dar ainda é muito. Nem sabes quanto.
Então, espera. Mas não feito noiva no altar, nem namorada de marinheiro. Vive. Solta as tuas amarras.
E te deixa leve levar...

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Uni duni te



Minha amiga Gina escreveu:
 "o primeiro passo é a escolha, o resto é consequência".
Uma frase simples, mas de profundo pensar.  Simples, se for o que comer, por exemplo. Ou vestir. Até cabe um arrependimento, mas pouco, logo passa com o passar das horas. Mas e os outros tantos passos que damos na vida? Bom se tivéssemos uma bola de cristal, não sempre como quem vive com o baralho de tarot nas mãos. Mas uma ajuda, que às vezes vem, quando deixamos a intuição aflorar.E tantas e tantas outras que, por cegueira inoportuna, tateamos na vida sem muitas vezes nem saber onde estamos, onde vamos parar.
Ah, e as malditas consequências. Desde pequenos nos ensinam a ter medo delas. "Faça, mas aguente as consequências", diz a mãe já certa de nossa escolha nem sempre correta, pelo menos aos olhos dela. Isso nos assusta, como quem puxa para trás.  E pior ainda quando fazemos as escolhas e até que tudo termine bem, não temos certeza se foi boa ou não. Outras, nunca se tem fardo pesado. E fica aquele gosto amargo do 'e se' pairando na boca. Que bom quando a escolha é certa, até de um vestido quando queremos variar. Ou de um novo corte de cabelo, esmalte novo nas unhas. Quem sabe sabor  de sorvete. Mas as grandes escolhas da vida, aquelas que nos levam por um caminho ou outro, a das encruzilhadas do tudo ou nada, ah, temo. Viram desenho de canetinha que sai com o banho. Ou tatoo, selada.Vontade louca de pegar a mala e me mandar. Ou de me deixar levar, ver no que dá. Não se sabe de vai dar na praia ou no abismo.
Deve ser por isso que algumas pessoas nada arriscam. Não põe suas cartas na mesa, não soltam suas fichas. Nem sentam para ver o jogo. Pegam aquele rumo de sempre, pedem sempre os mesmos pratos e seus mesmos sabores. Levantam e deitam sempre na mesma hora. Vestem sempre as mesmas roupas. Vêem os mesmos programas. Um ritmo lento, compassado, acertado feito relógio suíço. Talvez mais calmo, talvez mais cômodo, talvez durem mais, chorem menos. Quem sabe seus batimentos nem se alterem mais. Sua pressão seja sempre a mesma. Talvez estejam morrendo aos poucos e nem saibam...Como todos nós, cada dia um a menos, mas , para nós, bem lembrados conforme o tempero que se dá!
Lembrei da propaganda que perguntava: " o que você vai contar aos seus netos?"
Meus 'causo' davam era um bom livro...

"Você faz suas escolhas, e suas escolhas fazem você".
Steve Beckman

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Pouco



E vá me entender...um dia corro feito quem foge de um guepardo...outra estou lenta feito bicho-preguiça com preguiça!Ando me arrastando de uma tarefa a outra, de um 'causo' a outro, desviando meu olhar das coisas a serem feitas, focando no 'inútil e bom da vida'. Deixando o dia me levar. escutando o irritante tic- tac me chamar, 'volta'! Bom isso, não fosse a lesa consciência que pesa. Porque teimo em carregar até as culpas que nem devo a ninguém , a não ser a mim mesma???? Porque eu mesma me condeno se não desbravo um mundo todo todo dia, se minha mente tira um dia de descanso merecido????? Deve  ser a educação alemã, de sempre 'ter que', sempre 'dever estar', sempre correndo de um lado para o outro como quem mostra serviço, feito coelho de Alice, carregado o tempo nas mãos. Como se assim o vencesse. Como se assim tomasse conta dele, guardando para só sua mágica. Cá estou eu, tentando me dar férias e minha sempre interminável e inesgotável 'listinha de tarefas' pedindo mais. Meus velhos e nada reconhecidos cartões de honra ao mérito, escritos em letras douradas, hoje já perdidos por ai, mas ainda dentro de mim. Porque acho que não mereço um pouco de minha própria atenção? Porque sempre deixo para amanhã  o apertar da tecla ' foda-se e seja feliz'? Não seriam meu corpo e minha cabeça cansados de guerra pedindo paz? Não seria merecimento por tudo o que já fiz?
Não. O mundo real - longe deste que vivo, por vezes conto de fadas -  cobra, e muito. Grana no banco.  Contas pagas. Reconhecimento da sociedade civil. Títulos e novas honrarias que de nada servem se você não for vista como capaz. O realizável e realizado contado por notas de mil, joias caras, moda das revistas, bolsas de luxo, caro do ano. Não valho pelo que sou e sim pelo que tenho...
Pára tudo! Cansei! Mereço respeito e respiro, coisas nem eu mesma sei me dar...
"A vida tem caminhos estranhos, tortuosos às vezes difíceis: um simples gesto involuntário pode desencadear todo um processo. Sim, existir é incompreensível e excitante", disse certa vez Caio Abreu. Desde que se seja alguém para alguém - nem que seja a nós mesmos...

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Sempre



"É graça divina começar bem.
 Graça maior persistir na caminhada certa.
Mas graça das graças é não desistir nunca".
Dom Hélder Câmara sabia das coisas, e me acertou em cheio com esse pensamento/ensinamento. Sou uma teimosa por natureza - se nascida ou adquirida, ainda não parei para pensar, apesar de quem sinto o sabor da sabedoria da idade me invadindo assim, sorrateiramente. Já falei que dar murro em ponta de faca não dá certo, pelo menos para mim: só me machuca, mesmo sem sangrar. Que gosto mesmo é de comer o mingau pelas beiradas, de forma disfarçada até - como quem conta uma historinha para fazer boi ou criança ranheta dormir - e quando se vê já foi o prato todo. Como se pegar leve me abastecesse de coragem, um passo de cada vez, cada vez uma bocada. ir devagar, seja de colherada roubada ou ponta delicada, da qual só sente o gosto quem está atento e sabe estar provando da coisa, tanto faz.
E ai vem Dom Hélder e tira minha máscara. Graça da graça é não desistir nunca, mesmo que os outros achem que apaguei a luz e fui embora. Mesmo que pensem que eu não vou voltar. Descuidados, eles: a fresta está lá, trazendo luz e a esperança da porta ser aberta a qualquer hora! estarei lá, de prontidão, Sem pressa, como se a  espreita da grande  caça, do grande troféu, que pode ser tão pequeno que passa despercebido, mas meu. Estratégia muitas vezes muda, do silêncio e da paz, mas pensando na próxima jornada, na próxima batalha - nem sempre na guerra. Estratégia do próximo passo, mesmo que deixe bem claro que estou parada, mas não. Historinha do tipo ' o gato subiu no telhado'. E dai? Subiu e lá vai ficar, até segunda ordem, até eu achar que é a sua  - ou minha - vez. O importante é que tive coragem e subi. Que fui persistente e fiquei - ou pulei, se for essa a minha escolha. E mais uma aprendi: você não é nada sem ninguém ao seu lado. Mesmo que essa pessoa não se dê conta, nem que não te dê a atenção merecida. Nem que torça contra, o que nos dá ainda mais garra para continuar. Nem que não saiba aonde você quer chegar: não somos nada sozinhos. Ou nos pegam pela mão, nos abraçam, ou nos empurram - para frente ou para baixo. Mas tudo vale a pena, já dizia Pessoa, o Fernando, homem de muitos nomes.
Porque eu sei onde quero chegar. E vou.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Seja!


"O que nos impede na maioria das vezes de ter o que queremos,
de ser o que sonhamos,
de fazer o que pensamos e aceitar com o coração,
é a ousadia que não cultivamos".

Essa frase - de Clarice Lispector, é claro - virou enquete  - e até confissionário! -  quando postei hoje no Facebook, esse mundo à parte, alguém poderia dizer. Mas eu vejo como um mundo aberto, democrático, onde a gente se expõe, sim, e espera do outro resposta. Eu gosto de como as pessoas interagem. Gosto de puxar assuntos. De fazer acordar.  Chacoalhar pessoas, como algumas também fazem comigo, sem nem notar. E me respondem, ou me perguntam, ou só palpitam. Acho bárbaro. Detesto diálogos em que o outro se fecha, fazendo de mim ser invisível, coisas que, quando tentei me acostumar, quase pirei - e foi duro pagar cinco anos de terapia.... Hoje faço terapia me expondo, seja lá, seja aqui. De graça. Às vezes dói, outras corrói, outras tantas alegra,  mas todas me fortalecem. E assim segue  a vida, essa troca maravilhosa de experiência e de simpatia. Dava um livro...
Mas voltando ao tema de hoje,  ousadia, sou no que me posso. Sem exageros, nem batidas de frente que, já aprendi a duras penas, de nada vale, nada resolve, só me machuca e arde. E tenho lá meus medos, sim, muito ainda, dos ridículos aos perfeitamente inteligíveis. Como o de ficar sozinha - não no sentido de estar só, e sim no de não amar, nem ser amada. Ou de amar e não ser. Disso já fugi, isso não me pega mais. Aprendi a lição....acho...
Corajosa eu sempre fui. Muitas vezes me esqueço disso, da menina que ganhou o mundo e enfrentou todo tipo de inimigos - principalmente ela mesma, inimigo que a persegue até hoje. Talvez tenha usado  - ou esteja - as armas erradas. Ou comprado  lutas que não levaram  a nada, asa insanas. Mas se não lutarmos, como saber? E , lá no fundo, bem no fundo onde parece que não há mais luz, nem gente para nos escutar, sim, sabemos quando e quais lutas são insanas. E se as compramos, ah, muita coisa deve haver por trás disso, nem que seja a esperança, essa criatura que sempre nos impulsiona. Mas como saber se não tentar? Se arrependimento matasse, eu teria dado usn fios de cabelo ou umas pontas de dedo, mas não o corpo todo, e nem muito menos a minha'lma.
Ousadia, belo cultivo. Deveríamos regar todo dia, feito planta sensível, rara, das que morremos de medo de deixar para lá. Feito certas orquídeas que florescem uma vez ao ano - e olhe lá. Mas a graça está no regar, cuidar, olhar, esperar. Quem sabe um dia você acorda e ela está lá, bela, colorida, perfumada, de peito aberto para a  vida.  Pode durar um dias, algumas horas talvez, mas está lá. Veio. Ousou se abrir para o mundo e se mostrar...




terça-feira, 2 de agosto de 2011

Ganhos




Dia começou complicado, querendo me derrubar. Noite não dormida, dia atropelado. Noticias ruins.  Indecisões. Sentimentos contrários.
Comecei o dia chorando - meio emoção, meio culpa, muito cansaço, físico e emocional. A eterna luta entre o que sou e o que querem que eu seja. Poderia ter entregue os pontos e tudo o mais. Arriado. Emaranhado tudo, sem ter solução ou lugar. Não, não eu. Choro sim, mas deve ser para limpar as lentes da vida, enxergar de dentro. Respiro. Paro de pensar,  deixo a cabeça fincar o lugar, o coração acalmar, a alma fluir e resolver o que é melhor para mim. Distraio o problema, faço dele rotina, brincadeira, dando espaço para que as coisas se resolvam da melhor forma - e sempre há, mesmo que não seja o que queremos, ou desejamos.  Mas há.
O dia passa. E meu silêncio ajuda, não interfere com meus tantos 'mas' e 'poréns'. Como quem segue o rio - e dizem que é outro rio que passa - eu me sinto outra. Deixo que a correnteza me leve a seu favor, quem sabe para o mar. Como se tudo fosse se encaixando, peças antes soltas, desconexas, amontoadas, agora desenhando belo quadro. Ou pelo menos melhor que a bagunça anunciada, generalizada, o caos, peças para todo lado. E assim sigo, deixando a coisa se encaixar, acomodar, uma solução aqui, uma resolução lá. Uma boa ideia acolá.  Um sorriso no lugar da cara fechada. Um brilho no dito breu.
Como quem, feito menina,  segue um balão...
A vida segue, toma seu curso, voa, mesmo que a gente não esteja preparada. Basta estar alerta, aberta, interessada. Ver nela seu lado bom, lado de voar. Basta se deixar ser. Ser o que se basta.

"Mas nem sempre é necessário tornar-se forte.
Temos que respirar nossas fraquezas."
Clarice Lispector

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Passado



"Não tenho nenhuma saudade de mim — o que já fui não mais me interessa!
E se eu falar, que eu me permita ser descontínua: não tenho compromisso comigo.
Eu vou me acumulando, me acumulando, me acumulando ,
até que não caibo em mim e estouro em palavras.”
Clarice Lispector
Quando li esse texto de Clarice, senti como se um grande peso saísse de mim. Como se ela esclarecesse algo nebuloso, esse, de me deixar abater pelo que me deixei ser. Mas sigo contra ela, essa maré de verdade que se chama Clarice. Não que o que tenho em mim não seja verdadeiro: é. Sou. Não que o que me deixo levar e ser seja descompromissado comigo mesma, nunca. Mas o me deixar levar pela vida, pelo me ser e cobrar de mim mesma uma continuidade das coisas. Sei bem, repito, sei bem onde quero chegar - ou pelo menos o que quero ser - e isso faz meu rumo, mas não caminho. caminhos eu construo todo dia ao levantar, passo a passo, pé ante pé. E alguém diria o contrário, se não sabemos nem de nós no próximo segundo? Se uma palavra atravessada muda nosso querer, se um pensamento errado muda nosso pensar, se um ato impensado encerra tudo?
Não, não falo de morte, essa desconhecida de quem fujo. Não do corpo, mas da alma. Do interesse por mim, pelo descrédito das coisas que acredito. Por vezes, um descrédito sobre mim mesma, a qual eu chamo medo - coisa que nego que tenha, sempre. Não canso de repensar a cada momento por onde devo seguir. Refaço meus passo mil vezes se for. Retomo caminhos ou fujo deles. E nisso vou acumulando em mim tudo o que sinto, que vivo, que penso, que vejo, que amo ou odeio.
Por isso escrevo. Por isso me escrevo e me curo através desse elixir da vida, que é escrever. Que é  por no papel - hoje tela - minhas dúvidas sobre mim mesma. Quem sabe assim me entendo. Quem sabe assim me filtro, passo pelo coador e deixo para trás o que não necessito, o que não me acrescenta cor , sabor ou perfume, feito café passado. O pó é necessário, vem dele o tudo de bom. Mas ele fica, deixa que as coisas boas que tem sigam seu rumo.  Eu, deixo passar. O que me serve, meu lado bom ou o lado bom de minha vida, belo café. O que fica, meu resto, minha borra, eu deixo para trás.  Quem sabe mata lavras de mosquitos ou aduba  a terra. Ou reciclagem de palavras. Quase um estouro de mim.