quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Coracoragem



Tarde fria, chuva fina. E eu ainda amortecida da viagem - ou do simples voltar. Por vezes acho que a gente é que complica a vida. Que seria melhor ser uma Cora Coralina e ficar ali a fazer doces e poemas até o cansaço da vida passar. Até o outro dia chegar. Até a Primavera, quem sabe Verão. Ou pelo menos a noite, para quem espera se jogar na cama para esquecer algo ou alguém.
Releio Cora e seu poema quase infantil, Aninha e suas pedras , mas de uma profundeza infinda, que me conforta. E fortalece.

"Não te deixes destruir...
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces.
Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede".

Vai Joyce! Recria tua vida, sempre, sempre! Faz de tua vida mesquinha um poema. Ou um tema de redação. Quem sabe texto. Vaso. Plantação. Doce ou sopa, tanto faz. Gaveta arrumada. Mas faz. Não te deixa remoer pelas traças das coisas carcomidas. Das não acontecidas que nem sabes se vão. Não te deixa levar pelo que pode acontecer. Mira teus olhos azuis de menina no teu amanhã, tão sonhado. Faz como fazias quando pequena: sonha. Porque sonhos, tens, e de sobra, encheriam a caixa de Pandora. Caberiam nos castelos, tantos, de tantas pedras do Pessoa  topadas no meio do caminho. Toma a tua parte, mata a tua sede, tanta. Não desgarre dela nem por um segundo, não descuida. Porque o que a vida tem para te dar ainda é muito. Nem sabes quanto.
Então, espera. Mas não feito noiva no altar, nem namorada de marinheiro. Vive. Solta as tuas amarras.
E te deixa leve levar...

Nenhum comentário:

Postar um comentário