sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Exorcizando




Sempre fui uma pessoa que dizia não ter medo de nada...até ser mãe. Mãe sempre tem medo, um ou outro, menor ou maior, porque descobre que não é sozinha no mundo. Mas com o passar dos anos, quando o 'tudo posso' dá lugar ao ' vamos com calma', as certezas pelas incertezas,  os saberes pela sabedoria - uma das discutíveis vantagens desse tão breve passar - refaço meus pensamentos e ponho neles muitos medos. Estranho isso, já que a sabedoria deveria me dar a liberdade de escolha, muita calma nessas horas de 'ai, meu Deus, e agora?'. E tenho me visto, volta  e meia - ou volta e inteira - com medos nunca sentidos. Medo de não ser capaz, inclusive,  para mim o pior deles. Medo de não ser capaz de cumprir com meus prometidos a mim mesma e ao meu mundo. Medo de não ser capaz de certas tarefas que, ao primeiro olhar me parecem confusas, nebulosas, como quem tira os imprescindíveis óculos. De não alcançar sonhos que coloquei na pauta de ser feliz.
Medo de não ser feliz. Medo de não ser. Medo de não. Medo.
Sempre fui metida, dando a cara a tapa ( ou vários), merecido ou não - desde que me largaram em uma  cidade grande  com malinha na mão e a frase ' te cuida'  -  e tive que me virar nos 18, nos 20, nos 30. De me jogar e depois ver se colocaram a tela de proteção.  Depois me assustei na minha 'Crise dos 30', quando a vida deu um giro tão forte que tonteei.  Mas, como boa mãe, aprendi a ter medos - e conviver com eles ( ou chorar escondido). E hoje, uma 'senhora' - ou ainda menina precisando crescer, me pego de novo cheia deles. E tento me acalmar, e domar sentimentos - muitos nunca antes sentidos. Como se o relógio do tempo estivesse acelerado - como acelerados os meus anseios. Como se eu contasse, agora, o tempo como um dia a menos. Não são mais os sonhos de menina de cidade do interior. Nem da mocinha batalhadora que fui. Nem da mulher  por vezes covarde em que me transformei. Ou a outra, eu mesma, cheia de gás do otimismo para enfrentar o que quer que seja. Meu medo é o de errar - de escolhas, de caminhos - e parar na porta fechada. Ou de um lugar que não me interessa.
Medo de parar, quem sabe.
Respiro. Fundo, como quem pede oxigênio. Como quem pede uma luz. Como quem arranja espaço dentro de si. Trago clareza ao meu olhar. E vejo claramente à minha frente minha maior inimiga. Ela ri, como quem pergunta ' e agora?'. E é como se estivesse em frente ao espelho. Quem eu vejo sou eu mesma, minha maior inimiga. Eu e meus fantasmas criados, os fantasmas dos 'in', coisa pequena, mas que altera tudo - infeliz, insegura, incompetente, insensata, inútil. Lembro que só há duas coisas a fazer: desistir ou insistir  ( ta ai um 'in' sensato). Persistir. Agora quem ri sou eu, achando graça da minha ' desgraça' plantada -  mas não regada -   lembrando de uma frase de Clarice:

"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso.
 Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro"...

Viro as costas a mim mesma e dou uma gargalhada....E me digo: "ah, vai te amar que passa!"
 

Um comentário:

  1. Conheci seu blog fazem uns dias e me apaixonei! Tão bom saber que existe gente como eu por ai a solta(risos). E como é confortante ler como se sai dessas ciladas que nós mesmas nos metemos!Vou treinar o "ah, vai te amar que passa!"
    Valeu!
    Fabi

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