segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Passado



"Não tenho nenhuma saudade de mim — o que já fui não mais me interessa!
E se eu falar, que eu me permita ser descontínua: não tenho compromisso comigo.
Eu vou me acumulando, me acumulando, me acumulando ,
até que não caibo em mim e estouro em palavras.”
Clarice Lispector
Quando li esse texto de Clarice, senti como se um grande peso saísse de mim. Como se ela esclarecesse algo nebuloso, esse, de me deixar abater pelo que me deixei ser. Mas sigo contra ela, essa maré de verdade que se chama Clarice. Não que o que tenho em mim não seja verdadeiro: é. Sou. Não que o que me deixo levar e ser seja descompromissado comigo mesma, nunca. Mas o me deixar levar pela vida, pelo me ser e cobrar de mim mesma uma continuidade das coisas. Sei bem, repito, sei bem onde quero chegar - ou pelo menos o que quero ser - e isso faz meu rumo, mas não caminho. caminhos eu construo todo dia ao levantar, passo a passo, pé ante pé. E alguém diria o contrário, se não sabemos nem de nós no próximo segundo? Se uma palavra atravessada muda nosso querer, se um pensamento errado muda nosso pensar, se um ato impensado encerra tudo?
Não, não falo de morte, essa desconhecida de quem fujo. Não do corpo, mas da alma. Do interesse por mim, pelo descrédito das coisas que acredito. Por vezes, um descrédito sobre mim mesma, a qual eu chamo medo - coisa que nego que tenha, sempre. Não canso de repensar a cada momento por onde devo seguir. Refaço meus passo mil vezes se for. Retomo caminhos ou fujo deles. E nisso vou acumulando em mim tudo o que sinto, que vivo, que penso, que vejo, que amo ou odeio.
Por isso escrevo. Por isso me escrevo e me curo através desse elixir da vida, que é escrever. Que é  por no papel - hoje tela - minhas dúvidas sobre mim mesma. Quem sabe assim me entendo. Quem sabe assim me filtro, passo pelo coador e deixo para trás o que não necessito, o que não me acrescenta cor , sabor ou perfume, feito café passado. O pó é necessário, vem dele o tudo de bom. Mas ele fica, deixa que as coisas boas que tem sigam seu rumo.  Eu, deixo passar. O que me serve, meu lado bom ou o lado bom de minha vida, belo café. O que fica, meu resto, minha borra, eu deixo para trás.  Quem sabe mata lavras de mosquitos ou aduba  a terra. Ou reciclagem de palavras. Quase um estouro de mim. 

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