sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Louca?


Se tem uma coisa de que gosto, muito, e a cada dia me encanto mais são as palavras. Como fazem chacota , e brincam, como fazem de qualquer monossílabo, festa. Fico imaginando, pro vezes, um estrangeiro, tentando entender nossa língua, muito além de suas regionalizações e , sim, as mil possibilidades de cada uma.
A palavra sonho, por exemplo. Se vem como verbo, meu alimento na primeira pessoa: eu sonho muito. Tu também sonhas, todos nós sonhamos, ainda bem. Se substantivo, o sonho, nossos sonhos todos dentro dele, consciente ou insconscientemente. Tenho muitos sonhos, de olhos fechados e  de olhos abertos, esses, os melhores. E ai tem o doce - ou o pão, ou sei lá como definiriam os padeiros. Aquele, docinho - aqui no sentido de querido, amado, e não de sabor - envolvo com o mais delicado açúcar.  Que pode ser uma coisa aqui e outra acolá. Um sonho que pode ser com ou sem recheio, e esse de vários sabores, o meu de goiabada, o dele de doce de leite.  E isso me lembra minha eterna brincadeira de roda, meu deleite, doce deleite. E pode ser um doce de pessoa, meu deleite. Ou um doce de qualquer coisa que nos pareça delicado, bom bocado, bom demais da conta. Um doce de palavra, não? E nem falei do sonho de valsa, que nem dança, mas acalma a alma...
E será que a palavra casa tem a ver com o verbo casar? Quem casa quer casa, dizem. E tem a casa do botão, o de roupa, não o de rosa, ai, que confusão! Bom, até a palavra palavra tem lá sua indiscrição. Pode ser um palavrão, coisa boa de se dizer na hora certa. Ou dar uma palavrinha, na verdade muitas, ao pé do ouvido - um pé que ele nem usa para sair do lugar. E tem gente que ainda diz: sou todo ouvidos....Com a palavra quem acha que não tenho razão!
E a palavra mão? Coitada, muita função: mão de tinta, mão de dar uma mão - quando, na verdade, se quer as duas que,  às vezes, até se desfigura em dar uma mãzinha...Mas as confusões com nosso corpo não terminar ai. E o olho que pode ser tanta coisa? Olho de sogra, que não se arranca, mas se come, porque é doce ( olha o doce ai de novo...). Olho do furacão, onde volta e meia me encontro. Fica de olho ai, diz a desconfiada. Estou de olho em você ,diz a antenada. E ainda tem o olho gordo, que nem adianta fazer dieta: existe, muito, e é enorme. E o olho só de olhar...primeiro, mas não único. E tem, ainda o pé de meia, o pé de valsa, o pé ante pé, vai num pé e volta noutro - menos o Saci. E tem o perna de pau no futebol e o passar a perna de muitos. Ah, e o pé de moleque, de novo um doce...E o pé de boi, que é um pé no s....Esse, mesmo, coitado, mil e um significados: saco de dormir, saco de lixo, saco disso, saco daquilo...E  a cabeça? Cabeça de cebola ou de alho, bom tempero. Melhor que ser cabeça dura é bater papo-cabeça. Só não dá para perdê-la - anão ser que seja por um ótimo motivo! E tem o braço de rio, que leva longe...Mas eu prefiro mesmo é um a-braço, usando os dois, e bem apertado!
E tudo isso só para distrair minha mente que anda demente de tanto pensar. Pensar no meus sonhos, de olhos bem abertos. E nos caminhos a tomar!

"Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo
...'
Mário Quintana

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Duas


Sou de sagitário, nasci no dia do palhaço. E  achei graça de uma descrição que me fizeram, da ligação entre o símbolo do signo - metade homem, metade animal - e nossas duas - ou muitas - facetas. Identifiquei-me, não como  bicho-homem ou homem  bicho - mas com as mil facetas. Ou pelo menos duas, já me bastam por hora. E já não é fácil de aguentar...
Sou duas, no mínimo. Eu queria amar - e ser amada - por dois homens, ter duas famílias, dois filhos, morar em duas cidades,  viver em duas casas, escolher duas opções de comida. Comer duas bolas de sorvete todo dia. Ler dois livros ao mesmo sem me confundir. Ter dois cachorros - ou mais. Ter duas cores de cabelo, uma para andar por ai, outra para arrasar à noite, loira e morena, quem sabe ruiva. Escrever um livro de crônicas , outro de antropologia, ou outro campo qualquer. Ler dois jornais todos os dias, mas haja tempo. Falar várias línguas, coisa de gente inteligente. Conhecer vários países, coisa de gente sortuda. Saber fazer, com maestria, vários pratos, dos mais simples aos mais sofisticados. Conhecer muitos assuntos, como vinhos, literatura, gastronomia. Quem sabe religião ou filosofia. Queria ser muitas, e ainda dá tempo se ser mais, mas por hora me contento em me ser, e vou roubando daqui e dali alguns predicados que me deixam mais feliz. Ter cachorros que não são meus, filhos dos outros para amar, amar homens que não me amam. Fazer de conta que conheço muita coisa e suar muito de minha astúcia e atenção para poder , ao menos, blefar. Um blefe bom, regado  a intuição, que tenho de sobra, que não chega a enganar, mas dá um certo charme.
E meus sonhos não param ai, por sou gulosa. Queria - e tenho - duas profissões. Mas queria mais umas, como fotógrafa e escritora. Sou várias mulheres em mim mesmo, cada dia uma se sobressaindo sobre as outras - o que, por vezes, dá uma briga danada dentro de mim.
Porque diabos tenho que ser uma só ?  Uma só não me dá conta de tudo o que quero viver, do tudo que quero sentir, do tanto que espero para mim. Uma só não me basta. Pelo menos um ser metade mulher e a outra metade também...mas outra!

"Porque metade de mim é o que eu penso,
mas a outra metade é um vulcão"
Oswaldo Montenegro

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

99


Escolhas. Desde que acordamos - e até para isso, fazemos escolhas - estão lá, em tudo insistentes. Do café da manhã bem tomado ou um simples gole dele, assim, de pé, até o que vestir, o que ser. Se ser ou não ser, já é uma questão, e como tal, escolha. Par ou ímpar. Mal me quer, bem me quer. Sim ou não, raros os talvez, feito trevo de quatro folhas.
 E quanto mais de pede da vida, mas escolhas ela põe na mesa, feito banquete de viver, bem ou não. Sirva-se, devorando,  ou degustando um prato de cada vez. Belo buffet que pode nos fazer bem ou nos matar. Sim, matar, já que existem vários tipos de morte. A escolha de uma coisa mata a outra - ou a congela, quem sabe volta. E quanto mais importante o tema, mas ficamos amedrontados, inseguros. Impulsivos ou freados. Eu fico, muito. Escolhas fáceis, como o sabor do sorvete, ou se uma ou duas bolas, tem peso leve, da coisa que se pode remendar depois. Fica aquela sensação de "da próxima vez...", Mas quando a coisa pesa, aperta em mim, ficam duas joyces - quando não mais de mim - em conversa nem sempre proveitosa, e sempre aguda, rançosa. Então, calo-me e tento me escutar. Não a voz chata e repetitiva do aprendido, do revisado, das cobranças de tantos erros passados e mal vividos, e sim o som suave do novo, do recém chegado, do que eu mesma espero de mim. Não o que a vida espera, ou o pai ou a mãe , o irmão ou o vizinho - talvez o filho, esse que me habita e porque vivo, talvez o amor, porque me compreende -  mas o que eu espero de mim mesma. Uma mistura querida do que realmente sou com meus sonhos, muitos engavetados, sim, encaixotados até, mas longe, muito longe de serem descartados. Porque sonho não se mata. Sonho não se liquida. Sonho se corre atrás. Ou pelo menos se caminha em direção a ele , pé ante pé, silenciosamente, sem que nem ele perceba que foi alcançado. Talvez nem nós. Os caminhos que ele pega nem nós bem sabemos...


 "O diabo desta vida é que entre cem caminhos temos que escolher apenas um,
e viver com a nostalgia dos outros noventa e nove".
Fernando Sabino

Na nostalgia e no sonho, Fernando, e no sonho...

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Crendo



Segunda. Como o próprio nome diz, a semana já começou ontem, um dia bom. Aliás, todo dia é bom quando se está do lado de quem se ama. Ontem, no meu caso, filho. Uma paixão que já dura 16 anos e alguns meses - uns ainda dentro de mim. Por ele faço tudo, um tudo que não o faça vilão de mim
nem dele mesmo.
Ontem foi um dia bom. Quase o dia todos juntos, um cedendo ao gosto do outro e assim passando a vida. Do caminhar longe logo cedo, ao cozinhar juntos e servir a mesa, o cinema à tarde, a passeada por ai - só não pode dar a mão! Uma paixão que não vai terminar, sonho, mas que vai se diluir aos poucos ou de sopetão conforme a vida passe. Hoje sou tudo, amanhã já não sei. Mas tem nesse não sei muita cumplicidade, uma semente bem plantada e bem regada que peste nenhuma há de secar. Porque não somos, verdadeiramente, mãe e filho, somos amigos. Porque somos sinceros, mesmo não contando tudo, pois cada um tem lá os seus segredos, geralmente para poupar o outro de desilusões.
Mas hoje é segunda. E talvez por ter sido o ontem tão bom, o hoje é frágil, medroso, tristonho. Apático, porque vive de restos. Vive de saudades de um ontem ainda morno em mim. Chamo-o para um lanche, sirvo com amor, beijo na testa, rituais. Amor feito de conversas abertas, de colocações que  acrescentam. De apoio mútuo, de compreensão, de fermento.
E claro, gargalhadas, coisas comuns entre nós. Amolecem as horas.
Amor. Isso é amor. E que bom seria poder ter essa certeza desse amor em um homem qualquer - ou melhor dizer especial, porque meu - não no sentido de posse, mas se certeza? Uma companhia adorável, que aposte em mim sem dar todas as fichas de uma só vez, que me apoie sem me segurar, que aceite meu silêncio e ria de meu falaciar, que me dê tempo para me expressar e entender, que não me julgue em nada e nunca, que me admire mesmo ao acordar, nem que seja pela graça de me ver assim, descabelada, descomposta, normal. Que respeite minhas tristezas e não ache que pode resolver tudo - porque  o tudo depende de mim - mas que me faça ver que nada é o fim do mundo.
E que seja recíproco. Que veja em mim alguém que faz a diferença, que aposta nele também. Que não o segure, mas ajude a compor caminhos, que aceite seu silêncio, mas desde que tenha a certeza de que está tudo bem. Que o faça rir, tempero da vida, e que o console ao chorar - porque homem que é homem chora, sim, de se molhar - melhor ainda se no meu colo. Que o faça ver seu verdadeiro valor, mesmo que  a vida o faça tropeçar, que as pessoas digam que não. Que se sinta especial tão somente pelo fato de eu o amar. 
Amor. Amor de filho, amor de homem  e mulher, não sei viver sem, nem vou tentar. Creio nisso e isso vou sempre procurar. Minhas velas. De acender e de guiar...

"Eu me recuso a descrer absolutamente de tudo,
eu faço força para manter algumas esperanças acesas,
como velas".
  Caio Fernando Abreu

domingo, 25 de setembro de 2011

Apostando


Fiz um texto em minha revista , quase um desabafo, de que ando cansada de gurus. No caso do texto, gurus da moda. Mas ando cansada de todos, gurus famosos ou gurus do travesseiro ao lado - esse que fazem m...da própria vida, mas acham que podem ditar as regras da minha.
Ando cansada de palpiteiros de toda ordem. Acho que meu cansaço é acumulado, e vem de longe. Desde os tempos de terapeutas para meu filho - mas que não tinham filhos. Ou de terapeutas para mim, quando quis me entender como mulher, mas que eram eles homens.  Dos que me tentar dizer como devo agir com minha vida, e não agem com as suas. Dos que me chamam a atenção sobre meus erros de conduta, se não vêem os seus. Dos que me pregam na cruz da vida, ser ver que eles mesmos carregam as suas de tão longa data que já se acostumaram. Que vem me falar de relacionamento, se eles mesmos não os têm, nem consigo mesmo. Estou cansada que me ditem regras, que me dêem mapas, receitas quaisquer. Que me chamem a atenção de meus erros, estando eles tão inseridos nos seus que nem mais notam. Que me dêem um GPS, se nem saber onde quero chegar. Sem nem saber que prefiro os caminhos diferentes, pequenos, atalhos de vier. Caminhos estranhos e desconhecidos -   para alguns, mas não para mim -  e neles muita riqueza . Que detesto as grandes avenidas sinalizadas, as filas de carros atrasando minha chegada que será, cedo ou tarde - se é que tarde existe para mim - aonde quero chegar.
Somos bons com os outros. Belos conselheiros. Temos uma visão mais limpa quando não se trata de nós. Mas uma coisa é a conversa descompromissada, amiga, desinteressada  a não ser em abrir caminhos. Sincera, sem interesses escusos, de troca e não de mão única, nem de inveja ou despeito. Aberta, sem segundas terceiras ou quartas intenções. Disso de faz o caminhar: ajudando a tirar as pedras , não para atirar , mas deixando flores, aos moldes de Coralina. Sair de um lugar, sim, mas deixando ele bem melhor do que estava, nem que seja um coração. Deixando o perfume bom da sensatez por onde se passa. Como quem arruma o quarto de hóspedes depois de uma visita...
E sim, escuto minha amiga Mon - que devia se chamar moon, dada a sua luz própria e incansável. Achar minha força interior, redescobrir quem sou. Sem que para isso tenha que abrir livros ou escutar ladainhas de quem se diz adulto e centrado. Ser adulto é chato; ser centrado, intediante. Prefiro meus caminhos de menina desvairada: são bem mais interessantes de se viver! Apostando só em mim e em minhas crenças interiores - sejam elas sensatas ou não.

E roubo uma frase postada por uma amiga virtual que mora dentro de meu coração real - e até o nome é puro deleite, Elenara - que diz que

" Insensatezes são belezas que nos saem de dentro e por vezes são o que melhor nos acontece"...

Mulheres, sempre nós mulheres, a nos dizer as melhores verdades...

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Esperando...



"Não se acostume com o que não o faz feliz, revolte-se quando julgar necessário.
Alague seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-a.
Se perder um amor, não se perca!
Se o achar, segure-o!"
Esse pensamento-poema de Fernando Pessoa me pareceu tão atual! Aliás, assim é um clássico, seja ele na literatura, na arquitetura, artes da vida: o tempo só serve para firmá-lo, temperá-lo,
dar mais sabor e força!
Um pensamento-lição que deveríamos ler todos os dias ao acordar e reler antes de dormir - ou antes de fechar os olhos, coisas bem diferentes para mim ultimamente. Nem sempre dá, nem sempre funciona, mas dá a nós o ânimo preciso para, pelo menos, tentar. E pensar, pelo menos por um momento, que a vida é bela.
Dói esperar. Mata a gente por dentro. Aceitar o que não queremos, como que engolindo goela a baixo a seco e com dor de garganta: arranha, machuca. Mas quantas coisas destas já fizemos por amor, não os efêmeros, mas os amores de raiz, amor de filho, por exemplo, destes, que não morrem jamais? Quanto deixamos passar, quando aguentamos, quanto guardamos no peito com jeito de estourar...
E que lindo isso de alagar o coração de esperança, mas com o cuidado de não deixá-lo se afogar Quantas vezes insistimos em coisas por insegurança, medo, desespero, recuamos quando era hora de seguir, avançamos quando era melhor esperar? Acho que o que nos falta é ouvir o coração, a intuição, como quem escuta a alma e se deixa invadir de toda a calma que isso traz.
E digo mais: se estiver errado, assuma e volte atrás, mas só de tiver certeza absoluta - se é que isso existe, já que as verdades são tantas - de que realmente está errado. Não deixe a culpa te levar. Se estiver certo, siga, ninguém há de te segurar. Se sentir saudades, viva-a. Mesmo que só por dentro e do seu jeito, riso ou choro, viva: saudade também alimenta. Lembrar de coisas boas também é uma forma de se amar. Se perder um amor - se é que um amor a gente perde, acho que a gente só deixa ele ir - se era amor, volta, pode esperar ( nem que leve um caminhão de tempo...).
E se achar um amor, destes reais e correspondidos, ah, não deixe escapar. Uma loteria, mega sena sozinho, melhor jeito de se viver não há...
É...Pessoa sabia das coisas....

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Poda



"Acho que a Primavera em mim é permanente: podo-se, dia a dia,
na esperança que me venham coisas novas....
ou mais de mim".

Postei  essa frase do Facebook,  indo além de minha querida Cecilia Meireles que se diz deixar cortar na Primavera. Eu, descubro, tenho muitas, podas e primaveras. Todo dia me reinvento. Todo dia me tolho de algo para deixar outra coisa vir à tona, se possível melhor. Todo dia me renovo. Um dia me desespero, outro aguento. Um dia mais animada, outra nem tanto - e ai tem a vantagem de poder colocar  a culpa nos hormônios, sempre eles - mas meus hormônios tem nome: medos, anseios, sonhos, não necessariamente nessa ordem, nem de citação, nem de importância. E assim vou levando a vida e vendo no que dá.
Interessante isso, de podar-se  para vir melhor. Coisas, das tantas , que a natureza nos ensina. Se chove, ela se fecha. Se faz sol, se abre - mais linda quanto pior foi a tempestade. Se frio, se encolhe; se calor, desabrocha. Se afrontada, afronta. Se perseguida, enfrenta. E, como os pássaros, canta nem que o tempo esteja cinza, mas canta melhor se raia o sol. Ou as flores que esperam o tempo certo para florir, ou se abrir. Os bichos para nascer. Na natureza, tudo tem o seu tempo. E a gente, impaciente, sofre por querer se adiantar, pular etapas. A árvore sabe que se não deixar levarem suas folhas, não virão novas.  As rosas  sabem que se não se deixarem picar pelas abelhas, não florescerão. E deixar-se podar, coisa que certamente dói, mas mal necessário, parece ser a melhor lição de todas.
Eu? Eu me podo todo dia. Eu não, a vida me poda. Molda-me como acha que deve. Com dor se for coisa importante, tipo crescer ( espero que não para os lados). Com riso de for coisa sem juízo. E manda seus avisos , assim, delicadamente, pela intuição, que por vezes, muitas, negligencio, surda que sou. Ou surda que sou quando quero. Porque as coisas , todas, estão ai, batendo na porta d'alma para avisar. Basta silenciar o coração e a gente escuta...

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Levando...


Não escrevo faz quase uma semana. Não que não tenha assunto, sempre os tenho, sempre transbordam em mim, pelos poros, já que minha cabeça não pára. Tenho, muitos, mas são pratos insossos enfiados goela abaixo, por vezes a seco, que hoje devolvo ao mundo.
Difícil crescer em lugar insalubre, conviver com o inimigo - por vezes eu. Tomar decisões difíceis, porque não certas - ou que não são as que se quer tomar. Difícil viver uma vida paralela, como se o trem de nossa vida estivesse no outro trilho, e não nesse que me leva para longe. Não estou no lugar que queria estar, nem com quem. Nem fazendo o que quero. Sinto-me parada na estação como quem olha o quadro de itinerários e não se acha. Mas pega o primeiro trem, nem se sabe para onde. Ali, parada, não dá para ficar, pois a noite vem.
E a vida egoísta - ou seria eu a tal? -  segue seu rumo, eu querendo ou não. Pego o trem e me deixo levar, absorta com a paisagem que não me interessa, sertão. Não levo comigo a  esperança das horas passadas, alegria da chegada, o sonho do encontro.  Não conto os minutos para ver quanto falta para a sonhada estação. Já nem penso mais, pois pensar me entristece. Meus sonhos ficaram no porta bagagem esperando a viagem certa, o lado certo, o dia de chegar. O dia em que minhas decisões serão precisas porque certas e escolhidas e não subterfúgios de me esconder. O que dia que vou estar na estação com a passagem dourada na mão e só de ida para me viver.  Ai sim, meus sonhos estarão comigo, para nunca mais se perder...

"Todas as manhãs ela deixa os sonhos na cama, acorda e põe sua roupa de viver.”
Clarice Lispector

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Prefácio




Hoje termino mais uma etapa de minha vida. Ou quase, faltando tão somente aprovação. Um sonho alimentado a grandes goles, muitos que me afogaram. Mas teimei, com muitos, sempre teimo. Fui, fiz, apesar dos contras, já que tinha outros tantos a meu favor. Pensei várias vezes em desistir. Tive medo, muitos. Solavanco de batimentos a cada novidade. Respiros profundos para me repor. Elasticidade de mente e de pensar, já que me cabe tudo. A sempre e eterna luta de muitas de mim, as que me apoiam e as que me derrubam - ou tentam. Mas fui, fiz, terminei apesar dos pesares e a favor das levezas. Para alguns uma mentira, para outros, desconfiança. Para outros ainda, os que me amaram e amam, uma grande verdade, o melhor de mim. Dei, fui, fiz, sou. Venço.
E fica essa dúbia sensação. Da mãe que  admira seu filho, enfim, pronto a ser solto na vida. E da mãe que sofre com sua partida.  Mas penso nele como prefácio, não conclusão, pois deixei muitas portas em aberto, e muitas janelas com possibilidade de sol. Ainda quero ver o se pôr dele bem em frente ao rio...
Hoje termino mais uma etapa em minha vida. Enfrentar uma pós no segundo tempo, longe de casa e onde achei outra, e em meio a uma turma de possíveis filhos, hoje amigos, não é para qualquer um:só gente que tem alma de criança, como eu. Quem se acredita. Quem sabe dos percalços, mas os resolve um de cada vez.  Que não tem preguiça. E que não esquece, nunca, de sonhar.
Porque sonhar é meu alimento. Vida.

"O sonho encheu a noite
Extravasou pro meu dia
Encheu minha vida
E é dele que eu vou viver
Porque sonho não morre".
Adélia Prado

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Doce pão



"Mulher que é mulher come o pão que o diabo amassou...mas como muita geleia!!!"
Assim estava postada a frase no meu Facebook hoje e que deu o que falar - ou melhor dizer teclar? ( tempos modernos, afff, tenho medo de não saber mais usar uma caneta...). Estou faz dias sem escrever, não por falta de vontade, mas de cabeça: muita coisa dentro dela, e meus pensamentos leves ficam perdidos , misturados, como quem perde algo precioso dentro de sua própria bolsa. Visualizaram a coisa toda?
Mas voltando aos pães amassados pelo diabo, mas cheios de geleia - de preferência de amoras silvestres, feita pela minha mãe, com frutas do seu quintal - bem que a gente deveria ser assim, leve. Levar a vida mais light - no sentido de boa, não de sem gosto e sem graça, claro. Um light que nos engordasse a alma a olhos vistos de coisas boas, de frase de incentivo, de atitudes que nos colocassem para cima. Que tirassem de nós nosso melhor - pegassem emprestado, melhor dizer, porque já nos tiram muito. Ontem assisti pela enésima vez o filme Julie & Julia, com Meryl Streep - impagável em seu sotaque acentuadamente americano e trejeito mais ainda - e Amy Adams, uma doçura em pessoa.
Baseado em duas histórias reais, Julie & Julia intercala a vida de duas mulheres que, apesar de separadas pelo tempo e pelo espaço estão ambas perdidas...até descobrirem que com a combinação certa de paixão, coragem e manteiga, tudo é possível.
Vendo assim, parece chato. Mas o jogo de vidas, de imagens, os mesmos dramas vividos em épocas tão diferentes, faz do filme, para mim, um ensinamento. E ver a doçura do marido de Julie, sua atenção, seu incentivo sem limites, sua aposta na mulher mesmo quando parecia absurdo, seu amor declarado de tantas formas, fez-me pensar no amor, em como ele pode nos acrescentar, ajudar, renascer, lapidar. Tornar-nos melhores, para o outro e para nós.
E o que tem isso a ver com o pão amassado pelo diabo? Tudo! Passamos por tantas coisas nessa vida, das mais simples, que muitas vezes complicamos às mais complicadas, mas ter alguém do lado nos dando a mão, um conselho, um beijo, um olhar, ah, faz toda diferença. Faz a gente comer o pão que o diabo amassou com gosto, com muito mais vontade, como  se ele estivesse coberto da mais pura geleia de se viver!!!