segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Dia D



"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata”.

Uma semana sem escrever. Mas hoje, enfim é o Dia D.  Não, não aquele conhecido da história, nem outro que inventei.  Um D diferente. Hoje é dia de Drummond. O querido poeta faria 109 anos de vida bem vivida e retratada em palavras. Um homem , sim, mas com o domínio completo - ou quase - sobre as letras que, juntas, fazem uma festa ou um velório, riso ou choro - e ele mestre de cerimônia,
sem cerimônia, nos dois lados.
Drummond, o Carlos , que é também de Andrade, navega bem nos dois pólos. Fere os mal amados com frases do tipo "entre as diversas formas de mendicância, a mais humilhante é a do amor implorado". E nos faz rir de nosso parcos - para os outros, não para nós, amantes - desejos de sermos bem amados. E ri do próprio amor:

"Amor é bicho instruído
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
... Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino".

Faz a gente, que se acha grande e importante, rir de nós mesmos, nem que seja por dentro, das desventuras de amar. Desventuras de um  tal "João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém". Quem já não se encaixou nessa história?
Faz -nos rir das pedras do caminho, fazendo delas verso e chacota. Faz-nos rir do tempo cortado em fatias só para nos enganar. Do pernilongo que nos engana em pleno verso. 
Mas também nos faz chorar - de emoção ou raiva. Ou pensar, repensar. Fala da eternidade de um momento bem vivido, do amar por amar - e nisso toda a grandeza deles, do amor e do poeta, dos motivos para se amar. Fala da vida como poesia inexplicável, das bocas impossíveis e fatais, das agruras de se ser e de não, dos pactos rompidos, das saudades doídas, da inquietação das palavras, da melancolia de se ser poeta ( ou de se "ser"?), da sua preferência pela dor ao invés do nada. É pura seriedade ou ironia, pensamento errante e terapia, amor e ódio num mesmo lugar.  Quem sabe na mesma frase? Desde que dê rima, e nada pobre.
Descubro que ser poeta é ser gente, assim, como eu e como você, mas que pôe para fora o que a gente guarda aqui dentro. Que as feridas, as mesmas para ele, para mim e para você, não saram nunca...ou podem sarar amanhã. E que, sarando ou não,  fazem a gente desejar o melhor. Nem que seja desejar a melhor poesia. Ou os melhores desejos.

Desejo a vocês...
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho.
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu.
Carlos Drummond de Andrade

E meu também...




segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Leve...



"O destino conduz os que querem ser conduzidos e arrasta os que não querem
Eu tenho andado mais ou menos de arrasto...
Nem sempre quero ir para onde o destino me leva."

Estava uns dias sem escrever, não por vontade própria, mais por freios que os outros põem  - ou tentam por - na gente e a gente deixa, feito cavalo encilhado. Ele, o cavalo, tem serventia. A gente, encilhada, nem tanto. Cuida do que fala, do que escreve, do que vive. Pisa em ovos, não anda. Mas Érico Veríssimo definiu-me. E me mostrou que não estou só. Que a vida é assim mesmo, muitas vezes um deixar levar de arrasto, feito folha no vento. E depois ver no que dá. Ou, como quem nada contra a corrente, esperar o melhor momento se de soltar e seguir livre. Ou como quer.
Imaginei essa frase no meio de uma cena de  filme, na boca de mulher, mas só em off. O vento do sul, uivante, as folhas seguindo seu destino. Ela olhando pela janela como quem sonha sair e pisar na grama, quem sabe dançar com as folhas. Ou simplesmente pelo prazer de sair, descalça, cara ao vento, cabelo revolto, enfim, solto, feito crina, saias dançantes, grandes revoadas. Cena boa, refaz a liberdade. Sentir o cheiro do mato não é para qualquer um, só para quem gosta de viver intensamente a vida.
Como ela sonha.
Mas, voltando ao século XXI  - e a mim , que moro na cidade e nem sequer tenho grandes vestidos nem o cabelo volumoso que imaginei - , vento  traz essa sensação, mesmo momentânea , de liberdade. Sensação de sair por ai, feito folha ou flor, de deixar o assoviar do vento preencher meus pensamentos e me deixar nua por dentro. Levar de mim a brisa quente da mesmice e deixar entrar a brisa  jovem da novidade, do que é realmente meu, puramente meu. Eu como sou. Do que sonho. Do que quero. Do que já tive e sei bom. Da vida leve, simples, sem encargos nem possessões, a não ser as que me dôo de coração, peito aberto.
Tem vezes que um simples pensamento soa como brisa e leva agente longe, longe...Está ai a verdadeira força de um poema, de um poeta. Tomara ele saiba.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Sombras


Da caminhada de hoje, enquanto passeava de mãos dadas com o sol, lindo, meu fazedor de serotonina, um pensamento: cortamos as árvores porque soltam folhas, e "sujam" os dias, e depois procuramos inutilmente a confortável sombra delas.
Sim, cortar árvores. É uma verdade por aqui, já vi muito. Por conta da mania de limpeza, da tradição de uma cidade dita "limpa" - nesse limpo, muita água para rolar - , muita gente se livra das árvores. Ou porque suas fortes raízes estão quebrando as calçadas, ou porque a não perenes soltam suas folhas  - quem sabe flores! - e deixam a tal "limpeza" a desejar. Não se vê os belos tapetes, os quadros prefeitos da natureza, o colorido maravilhoso de  seus pedaços soltos, aquarela esvoaçante. Os amarelos, os rosas, os mais variados tons de marrom, nada isso parece fazer festa. São temidas, varridas, literalmente e insistentemente, enchendo os sacos de lixo. E para o lixo vão.
Minha cabeça foi longe, como sempre, bem além de minhas passadas firmes e ligeiras. Enquanto andava, tentando escolher as calçadas mais marcadas e as ruas mais minhas, veio o pensamento:  somos assim com nossa vida. Plantamos árvores, às vezes pequena semente, muda frágil,. Então cuidamos, vigiamos, sustentamos como dá, regamos, afofamos a terra, olhamos com cuidado todos os dias até ter certeza de que, sim, a raiz pegou, o broto já surge, a nova folha virá. E quando ela toma vulto, quando perdemos o controle, quando dá bela sombra com suas lindas folhas, quem sabe frutos e quem sabe flores, as tão desejadas, cortamos, porque atrapalha. Porque não há controle. Porque suja. Porque não é a perfeição tão desejada, sonhada, esperada. Idealizada, enfim. Sim, dá trabalho zelar, manter, qualquer coisa, de uma porta a um carro, ainda mais um ser vivo e vivaz. Queremos um mundo "limpo" e perfeito. Calçadas lisas, sem defeito.  Quem sabe passar uma vap para esterilizar. Mas é na imperfeição, na folha que cai, na flor que brota e faz tapete, que está toda a beleza? Não está na sombra nosso conforto, nossa tão procurada benção?
Cai a ficha - ou a folha: estão  nos "defeitos" das coisas  os melhores presentes, as maiores belezas, os melhores sonhos. Nossos melhores sossegos. Nosso melhor perfume, a mais suave aragem. As flores que enfeitam vasos. Nossas sombras confortáveis estão nas gargalhadas do nada, nas comidas enjambradas - mas com carinho, no dormir abraçado, mesmo que de mal jeito. Está no ficar acordado para falar bobagens ou conversa franca, nas brincadeiras em hora não esperada. Na fome no meio da madrugada,  no dançar no meio da sala mesmo sem música, no vestido velho que nos deixa um charme, mesmo puído. Na calça de abrigo que deixa o outro leve. No chinelo que deixa o outro simples. No perfume bom do banho recém - tomado, na piada só para fazer o outro rir, na força que se dá para fazê-lo sentir-se melhor. No acolher do pranto, no carinho na desejada., no incentivo na hora certa. No prato feito com carinho, no pão quentinho trazido para agradar, no sorvete na cama -  
e de colherada. Na guerra,sim, mas de travesseiros ou almofadas.
São tantas as folhas, tantas as flores...No fazer-se de surdo só para o outro repetir a frase, no escutar a poesia há muito decorada, mas sem chance de sair. No ajudar quando o outro precisa, nem que seja para lembrar como se escreve tal palavra.  No brincar com seus textos, fazendo-os nossos. Ou quem sabe uma ideia que vem do nada? No café recém - passado levado na cama, no acordar o outro com jeito de quem ama, no amar sem nem esperar ser amado, mas ser. No esperar o tempo dele, diferente do seu. No compreendê-lo, por que diferente de mim. Um  protegendo o outro da chuva e do frio.
 É, a natureza dá lá as suas lições. Enquanto nos preocuparmos com as folhas no chão, a primavera - e quem sabe o verão - passa e nem sombra da gente ser , outra vez, feliz.
Certa estava Quintana, o Mário:

"A felicidade é um sentimento simples; você pode encontrá-la e deixá-la ir embora,
 por não perceber a sua simplicidade".

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Ah, vai!

Engraçado...Muitas vezes só me dou conta de uma coisa - ou relembro, porque muita coisa a gente sabe, já se deu conta e esquece - depois que escrevo. Por isso, bato insistente na tecla de que escrever-me é curar-me. Num dos tantos recadinhos carinhosos hoje no Facebook, esse mundo virtual, mas extraordinariamente semeador,  postei:

"Sorriam, sempre que possível e mais ainda quando impossível. Porque sorrisos são tão ou mais contagiantes que bocejos...e tão mais simpáticos!

Pois é.  Dei-me conta disso, que é no que acredito: um sorriso é melhor em qualquer ocasião. Em caso de dúvida, como daquela pessoa que te chama pelo nome e você não consegue achar quem é nas gavetas abarrotadas de  gente do cérebro. Ou da paquera que não se sabe se é ou não é. Em caso de gafe, por pior que seja, melhor sorrir que tentar arrumar. Como diz o ditado, "quanto mais de mexe, mais fede". Em caso de dor, também, porque ninguém gosta de ver o outro triste, nem o coveiro. Ou em caso de ver a tristeza do outro, melhor sorrir, quem sabe ele melhora? Ou você já viu alguma voluntária chorando pelos cantos do hospital?
Um sorriso, mesmo amarelo, mesmo "de durex", é , sempre, a melhor saída. Um sorriso, mesmo na pior, meia cura. Um sorriso, ao cruzar com outro, dá cria, brota do nada. Mesmo na hora daquela vontade louca de chorar. Mesmo na hora da vontade louca de "matar". Porque , penso, ninguém é obrigado a suportar a minha dor, seja ela qual for, nem a minha tristeza, nem meu medo ou decepção. Nem minha raiva de mim mesma. Ninguém é obrigado a repartir minha saudade, nem minha solidão - esta, doída, mesmo em sala cheia de gente.
Quer melhorar? Força uma gargalhada. Conta uma piada. "Posta " uma coisa engraçada. Ri da vida, essa intrometida. Ri de si mesmo, melhor remédio. Lembra da parte boa - que todas as coisas do mundo tem. Lembra dos bons momentos, mesmo depois da briga. Lembra do afago, da boa comida. Pensa no lado A. Pensa no melhor que há para pensar. Faz uma coisa para se agradar. Come alguma coisa "proibida" e ri da contrapartida. Dá uma caminhada no sol. Olha o mar. Olha o que de bom tem para olhar. Força uma conversa gostosa na padaria. Põe uma música boa. Escuta uma música nova. Cantarola uma antiga, das boas. Vê fotos que te façam rir, tamanha cafonice.
Ai, satisfeita, podes até cantar baixinho, para que  ninguém ouça, essa velha canção:

"Quem me vê assim cantando,
Não sabe nada de mim
...
Dentro de mim mora um anjo
Que me sufoca de amor
...
Ele é meu lado de dentro
Eu sou seu lado de fora
...
Quem me vê assim cantando
Não sabe nada de mim"

Simples assim!


terça-feira, 18 de outubro de 2011

Bingo!



"O que os olhos não vêem, o coração não sente, mas a intuição detecta no ar".

Essa frase, dita de Ane Veiga, fala pouco, mas diz muito. Eu tiraria o "mas", porque mas , para mim, é uma espécie de dúvida, restrição, contrariação, parada, quem sabe contraposição, o que não tenho. Não sobre minha intuição. Pena que não a siga. Escuto, sinto, mas teimo, feito criança pequena, que a mãe avisa, reavisa e ela vai lá e teima, faz e , por vezes, muitas, se dá mal. Uma certa surdez infantil. Ou poética, melhor dizer, no meu caso.
Podem pensar que é uma visão negativista, eu digo esperançosa. Que é uma visão negra, eu digo colorida. Vejo onde a coisa vai dar, quase montando feito cena, mas aposto muito em mim, por vezes mais do que devia. Brinco com ela, quase em tom de aposta, que sempre perco. Aposto, sempre, nessa vontade enorme que tenho de acertar. Onde ponho muito de mim, de minha força interna - que deveria usar para mim, mas nem sempre. A coisa está lá, feito filme romântico, onde a gente já sabe a linha de pensamento e dificilmente erra. No filme, a mocinha fica com o mocinho, se beijam, e serão felizes para sempre - ou pelo menos até o the end, até o acender das luzes. Ou mesmo tragédia que a gente sabe que se o protagonista não for embora, ou não morrer, não valeu a pena chorar tanto. E é sempre da mesma forma: se o filme começa muito bom, cheio de amor para dar, fatalmente será cortado no meio ou no final. Mas se começa dificil e vai melhorando aos poucos, deixando a cena do beijo para o último momento, ah, tudo vai acabar bem. O bandido sempre é preso, o mocinho vira herói, a mocinha, desejada. Final de novela só tem beijo, por mais dramática que seja.
Mas, enfim, voltando à vida real - que por vezes não foge muito de novelinha mexicana de segunda categoria - escutar a intuição, ou melhor,  obedecê-la,  torna-se condição única de sobrevivência para quem não é nenhuma Janete Clair. Nem atriz. Nem para quem gosta de comédia tipo pastelão ou o oposto, dramalhão. E quem já não sentiu alguma coisa lhe cutucando, e com razão? Uma vozinha chata, latente, insistente, feito mosquito no ouvido que a gente fica louca para acertar no meio da noite,  repetindo sempre a mesma coisa, por vezes batendo na própria cara ? Ou pior, duas, uma de cada lado, que os ilustradores desenham uma em vermelho e garfo, outra de branco e auréola? E se sabemos ser ela , a intuição, bem escutada com os ouvidos do coração, boa companheira, porque não damos trela? Fugimos da vida, damos voltas no mesmo lugar. Fazemos dos dias, labirinto. Dos relacionamentos, romancescos rompimentos. Nadamos contra a maré, sabendo-a mais forte. Repetimos, sempre, os mesmos erros, as mesmas falas, as mesmas falhas, as mesmas erradas atitudes, puro impulso. Batemos na mesma tecla até ela afrouxar, ou cair. Cometemos os mesmos atos que acabamos de jurar que não faríamos, neste último segundo. Falamos e fazemos a mesma coisa que, sabemos, fere, à nós e ao outro. E porque? Não sei. Sempre sabemos, lá no fundo, do que fugir e para onde correr. O que é bom e o que não é. Quem nos faz bem e quem , cedo ou tarde, não faz. Mas teimamos, sempre teimamos. No jeito esperançoso de ser, só lembramos os defeitos dos bons e as virtudes dos maus. Tomara seja em nome da esperança, como digo, de sermos um dia felizes como imaginamos. Ou como sonhamos, melhor dizer. E não teimosia que quem não quer dar o braço a torcer. Assumir nosso amores e lutar por eles, mesmo que nem eles saibam disso, se é isso a  nossa certeza. Amar, mesmo em silêncio, se na balança de dentro isso nos faz bem. Mas temos que ter certeza do que queremos, usar  a tática certa, sem ferir, nem ao outro e nem a nós. Senão pode ser o famoso "tiro no pé". Ou na'lma, essa, muitas vezes, sem cura.
É isso. Intuição. Devia escutar mais. Mas não deixo de achar graça da verdade contida
na frase de Martha Medeiros no livro Divã:

"Odeio intuição feminina...a minha nunca falha."

 Bingo! Tomara ela torça , um dia, por mim!


All



"Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino,
para escrever um novo caso, precisa de apagar o caso escrito".
Machado de Assis

Procurei no Sr. Google e estava lá a sábia frase, perdida no tempo. A vida é uma lousa, dessas novas, com canetas coloridas, espero. Ou deveria ser. Bom se tivéssemos o poder de passar um apagador nas coisas que não deram certo, ou que não servem mais ( e a gente teima em "usar" , feitos as roupas apertadas e ainda guardadas no armário, tamanha esperança de diminuir tamanhos...). Bom se a gente acordasse podendo descartar fatos, sentimentos. Quem sabe pessoas, destas que se amou, .mas que fica só o ranço, o problema, peso. Bom se fosse, bom se desse, tempos verbais cheios de esses, de tom suave, mas melancólicos, sem esperança de ser.
Não, não me venham com as frases decoradas - de exatas e repetidas, não de enfeitadas, que bom seria - que tudo que vêm tem um motivo, de que tudo que acontece é para nos ensinar. Ensinar o que? A repetir? Como as tantas promessas de vida - começo a dieta amanhã, não vou mais usar o cartão, vou economizar palavras vãs, prometo não falar mais palavrão - , não mais beijando os dedinhos cruzados sobre a boca como nos tempos de criança, foi-se o tempo de crer em nossas promessas. Porque o crer na promessa infantil tem uma leveza que só...
Por isso me pego pensando em como levo a vida: dou o meu melhor. Os outros acreditando ou não, concordando ou não. E sou humana. O que quer dizer que erro, sim, e muito, mesmo sem nem pensar. Mesmo achando que estou no passo acertado. Erro sendo mais do que a vida me pede, porque não sei ser menos. Erro pelo excesso, não pela falta. Não sei ser pela metade, não sei amar pela metade. E nesse amar, muita coisa a mais, um all include, como um cuidar, preocupar, zelar, carinhar, fazer rir ou chorar, tudo com uma humildade que nem sei de onde tiro - porque não sou - talvez do próprio amor. Quem sabe até me preterindo no caminho, meu lado Maria de Calcutá - minha piadinha interna. Mas às vezes vale a pena - ou sempre. Fica aquele gostinho de ter dado sua melhor parte, como quem dá o pedaço maior do bolo para o outro, só para vê-lo satisfeito.
Ontem enquanto conversava abertamente sobre a vida e gargalhava por conta das brincadeiras com o meu filho - já quase um homem, diga-se de passagem -, que me vê mais como amiga do que como mãe, companheira das horas boas e nem tanto, e que me dá valor por isso - , dava-me conta de minha grandeza, mesmo quando teimo em me achar pequena. Mesmo quando teimam em fazer-me pequena, não digna do amor. Cuido, sim, sempre, porque amo. Cuido, muito, porque vale a pena. Divirto-me com esse meu jeito incondicional de amar, mesmo sabendo-me passível de tantos erros, de incompreensões. Sem promessas de volta, de retorno. Imperfeita, graças à Deus, não me erguerão grutas, nem serei santificada. Nem serei digna de promessas e procissões, nem velas acesas ou mesmo rosas. Muito menos de orações, porque já bastam as minhas. Mas real, mulher, pessoa, humana , de carne e osso e não de quadro que de diz perfeito a ser pendurado na sala. Louvado, quem sabe. De servir de exemplo. Se a vida me der algo em troca, quiçá um pouco, então valeu a pena. Se ela não der, não tem problema. Minha consciência fica tranquila do mesmo jeito. Porque posso dizer, de boca bem cheia, que amei. E fui o que sou!

domingo, 16 de outubro de 2011

Second round



É nas horas que a vida mais me provoca que me vêm os melhores pensamentos - ou seriam bem os que não quero ver? Pensava em todas as coisas da vida a qual me dediquei e não tive resposta. Ou se tive, não a esperada. Ou até tive, e achei ter encontrado o caminho perfeito, até ele azedar, assim, do nada. E me peguei pensando se eu que erro ou se a vida é  para ser assim, um borrão, nunca passado a limpo, nunca 'perfeito", dentro do que acredito em perfeição?
Hoje me dei conta que um papel amassado, por mais que se queira, não volta a se indireitar. Pode até não perder o seu sentido, mas as marcas estão lá. Não tem ferro que dê jeito. O que se vive não tem borracha que apague. Não é mais como os desenhos coloridos da infância que, bastava um pouco de criatividade, e uma coisa se transformava em outra, rapidamente, como são nossas vontades nessa época. Nem como as primeiras composições  - como se  chamavam as redações quando eu era pequena - escritas a lápis: bastava uma borracha passada com carinho e lá se podia escrever outras verdades, contar outras histórias, sem ter medo de errar.  Depois , cresci, em tamanho e forma, talvez não por dentro, e meu cuidado era com a caneta - quase um eterno. Uma borracha, molhada de saliva, dava conta do erro, mas deixava marcas indesejáveis, até que até isso a tecnologia resolveu: são mil formas as de arrumar a escrita, a palavra mal dita ou não encaixada.  Hoje uso o computador , e é tão fácil ver os erros, consertá-los - fora os tantos que a própria máquina me avisa, alinhavando em vermelho o que devo consertar. Fica a meu critério, mas mesmo que eu teime, lá vem ela me lembrar.
Bom se a vida fosse assim. Mas já foi dito, tantas e tantas vezes, que a palavra dita - ou escrita - como a flecha lançada e a oportunidade perdida - essa, muitas vezes, de se ficar quieto e repensar - não têm volta. Se tivesse, volta ou como refazer, poderíamos arriscar sem medo. Pegar caminhos já não mais sem volta. Deletar textos mal escritos. Engolir com a saliva do arrependimento as palavras malditas.  Correr atrás de nosso sonhos sem medo de errar. E dar nosso coração  - e com ele nossa vida, o que somos , nosso melhor - a quem bem quiséssemos. E se não desse certo, era voltar atrás, escrever de outra fora, outra cor, outra roupagem - ou a mesma, mas de nova forma, idealizada. Rever conceitos, rever o feito, refazer, repensar, reeditar. Reviver, sem deixar rastros do mal. "Passar uma borracha", como se fala por ai. Mas as marcas, tanto no papel como nos dias, ah, difícil não se notar. Até para os peritos em fazer da vida, alheia, brincadeira. Do coração alheio, laboratório. Da vida alheia, experimento. Se der deu, se não der, tanto faz, parto para outra. Bom se eu tivesse essa capacidade. Seria bem melhor acordar e não ter tanta angústia no ar.


"Saber-se amado é uma coisa, sentir-se amado é outra,
uma diferença de milhas, um espaço enorme para a angústia instalar-se".
Martha Medeiros

Fato



A vida é mesmo estranha. Respostas  - ou mais indagações? - vêm de onde menos se espera, e trazem ao meu rosto que anda cansado de tanta tristeza alguns sorrisinhos disfarçados.
Lendo um livro para prosseguir na busca de conhecimento sobre um trabalho que nem sei se vou levar adiante, tamanha lista de porquês, deparei-me com debates e citações que "provam", no sentido de dar voz e não de experimentar ( ah, esse nosso português...) o que penso sobre homens e mulheres, suas reais diferenças, e de onde vieram.
Voltei ao mundo das cavernas. Elas - no caso nós, se formos citar gêneros - ficavam com a prole - nome fácil para tanta coisa junto, alimentando como dava, cuidando e protegendo com a  ajuda sabe-se lá de quem, enquanto os machos saiam para suas "buscas", muitas sem volta, para aventurar-se à procura de  alimento.  Pois bem , imagine assim: elas enredadas por um mundo pequeno, "protegido" e protegendo, com pouca novidade, um fazer o de sempre, enquanto desbravadores ganhavam o mundo - como ganharam, depois, pelos mares e caravanas por ai.  Se paramos para pensar, a diferença é que hoje eles têm, salvos alguns mais soltos - hora e data para voltar. mas o que acontece enquanto estão fora, melhor nem Deus saber. Ou, se sabe, nem tem coragem de contar.
E onde ficam nós, as mulheres? Até podemos dizer aos quatro ventos que, sim, somos profissionais, mulheres de sucesso,trabalhamos fora - um grande erro,histórico,  se pensarmos que só acumulamos mais e mais funções além - lar. Mas ao primeiro aviso de perigo de nossa prole - febre, espirro ou, livrai-nos, coisa pior - lá estamos nós, à postos. Não mudamos muito nesse quesito: nossas bisavós eram assim, nossas avós eram assim, nossas mães. E, com certeza, nossas filhas serão. E está lá no livro - sobre a história de uma cidade , baseadas em memórias dos anos de 1950: a visão, a memória das mulheres vêm de dentro para fora, ou seja, do lar, dos filhos, da relação com o marido,  para a cidade, se essa couber. Somos assim, de dentro para fora. naquele século, nos anteriores e nesse - quem sabe no próximo. Somos várias, mas todas encarceradas dentro da tarefa de ser mulher.
E o que tem na memória dos homens? Trabalho. A vida deles é contada a partir do trabalho. Da sua relação com o trabalho, tendo ele como ponto principal. E da família, se couber. Ou da família, que existe porque ele tem como manter. Porque ele dá o que ela precisa com o fruto de seu trabalho. Simples assim. Não, não sou eu que estou afirmando, são os livros, os pensadores, as teorias colocadas em prática. Peça a um homem para falar de sua vida e ele, já na segunda frase - se não de cara - falará de sua vida profissional. E trará a família encaixada nesse enredo, feito um fim e não começo. Se fizer o contrário, segure-o: vale ouro.
Duro de crer? Olhe para você. Veja qual é a primeira coisa que você pensa ao acordar. Ou, se pensou algo diferente, em você ou nas suas coisas, esquece tudo se um filho pede ajuda. Ou a mãe, ou o pai, ou seja lá quem for. Depois você vê o que faz com o "resto". Se não é assim, sinta-se uma privilegiada. Como poucas.
Amarga? Não, sincera. Vivemos para amar, mesmo que não sejamos. São as migalhas de que falo. Mas não custa alertar que , depois de anos fazendo isso, a mais pura dedicação, não espere consolo, nem troféus, quiçá agradecimentos. Porque os papéis que nos deram são bem "resolvidos".  Viram obrigação.  E não tropece, não tente sair da linha, não procure felicidade longe disso. Não procure amor além da trivialidade da vida. Porque o que lembram  de nós são nosso erros, sempre. E não o que fizemos de bom. Sendo mais direta: tudo não será o suficiente.

"Na vida do homem, o amor é uma coisa a parte, na da mulher, é toda a vida".
Lord Byron

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Estranhas


Mulher é um bicho esquisito, já cantava - ou canta? -  Rita Lee, uma mulher sempre à  frente de muitos tempos, tão à frente que quase nem existe, e que deve sofrer, lá, seus muitos preconceitos. Esquisita, sim, mas não porque sangra sem ao menos se ferir, essa nossa perda de sempre - que quando se tem se reclama, e quando não se tem mais sente-se falta, dizem. Enfim, esquisita. Sim, somos sempre preteridas - por outra, ou por questão de gênero historicamente e ricamente ilustrado. Somos sempre tidas como frágeis, menores, inferiores , sempre aquém do "esperado" real ou plantado - que o digam os patrões e muitos maridos - ou seria a mesma coisa?
Hoje, por exemplo. Ou quase todo dia. Fico num entra e sai, leva e busca, um tal de dar lanche e lembrar se levou agasalho. E olha que sou mãe moderninha, mas nunca nos livramos desse "bem" de ser mãe em tempo quase integral. E tem mãe que vê tarefa, toma lição, olha cadernos, como já fiz muitas vezes na vida. Muitos banhos, muita visita ao amiguinho, muita janta. Muita visita oa médico, muita tolerãncia com enfermeiras nos chamando de "mãezinha", posto que somos mãezonas, fortes, nada frageisinhas. Quem sabe conversa quando se vê que precisa, como faço tanto e sem nem ele notar, coisa que somos mestras. E todas ficam aos pés dos filhos ao menor espirro, noites em claro, tantas, ao menor aumento de temperatura. Largam tudo para o alto. O que eu chamo de amnésia materna: esquecemos de tudo, até de nós mesmas, para cuidar de alguém. Deixamos de lado o trabalho, por mais importante que nos seja, os desejos, as vontades porque temos, sempre, alguém  a quem cuidar, alguém no início da fila, um preferido a quem amamos muito além do que amamos a nós mesmas e ao mundo ao redor.  Fico emocionada e ainda chocada de ver mães que se esquecem de viver para viver pelos seus filhos, basta ver nos hospitais - e nessa hora agradeço ter tido filho sadio, no máximo uns pontos no corpo ou injeção da vez.  
E pensam que alguém vê, que alguém nota, que alguém valoriza?  Que te darão troféus, além dos vasinhos de flores e desenhos em nosso dia? Pode até ser, mas da boca para fora. Tomara estejam certas, pois o que eu vejo é quase um tom de obrigação. Não, não reclamo de ser mãe, escolha minha, mas não seria nada fácil - nem barato - se fossemos substituidas por robôs, motoristas ou babás. Psicólogas, professoras, nutricionistas. E quem o faz, por escolha ou imposição, cedo ou tarde irá ver o que deu  -   e o que não deu -  certo. E nos culpam, todos eles, pelo mal caminho, pelo que não fizemos a contento. Nossas orelhas queimam nos divãs, nas culpas de sempre, sempre nossas, nos livros de memórias, no problema da vez. Chateia ver que ainda culpam os pais por tanta coisa, pensadores e pessoas, bom saber que um dia serão. Ou já foram e nem notaram. Nem se dão conta do tudo que se faz. Brinco ao dizer que meu pai comia o peito do frango e a gente a carcaça. Hoje damos o peito para eles e por eles, e nem notam...
Ok, tem pai que é mãe, raros, louvados sejam, alguém tem que aguentar o tranco. Mas já notaram que eles também sofrem do mesmo mal de se sentir desvalorizados pelo par? Podem apostar, conheço bem. A outra parte toma ares de provedor, de todo poderoso, de mantenedor, mas não se toca de que dinheiro não é tudo, que carinho e atenção previnem muita coisa, inclusive doenças. E falta de amor.
Busca, leva, conversa, alimenta. E lá vou eu de volta no entra e sai....e nem terminei meu texto...

É.. "Deus não pode estar em todos os lugares e por isso fez as mães", diz um velho ditado judaico...

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Bom conselho...



"Apaixone-se por alguém que te curte, que te espere, que te compreenda mesmo na loucura;
 por alguém que te ajude, que te guie, que seja teu apoio, tua esperança.
Apaixone-se por alguém que volte para conversar com você depois de uma briga, depois do desencontro, por alguém que caminhe junto a ti, que seja teu companheiro.
Apaixone-se por alguém que sente sua falta e que queira estar com você.
Não apaixone-se apenas por um corpo ou por um rosto; ou pela ideia de estar apaixonado.”

Essa verdade tão sonhada e dita por alguém que desconheço - mas gostaria - diz muito. Amo a ideia de que o amor pode ser simples, uma convivência pacífica, de quem só quer o bem do outro porque vê no bem do outro o seu próprio bem. Que nos faz crescer. E se é , assim, verdade tão sonhada, por mulheres e homens, porque não? Porque não se acha - ou quando se acha, não se aceita e se vive intensamente isso? Poderíamos colocar a culpa no mundo, cada vez mais dinâmico, com opções a mil na ponta dos dedos, zapping de viver. Poderíamos colocar a culpa em nós mesmos, cada vez mais apressados e menos pacientes  - e cada vez mais pacientes dessa doença chamada falta de amor - principalmente por nós mesmos. Parece tão fácil, tão simples  - e é - e porque não se consegue? Será que é porque idealizamos de tal forma que o ideal fica inatingível? Será porque gostamos de aventuras, embora machuquem? Será que é porque, ao contrário do início de todo relacionamento, achamos mais defeitos que qualidades? Porque notamos mais as caras feias que os suspiros de admiração? Ou será que temos medo de sofrer? Ou de se envolver de tal forma que o outro tenha mais espaço na nossa vida do que nós mesmos. Ou porque queremos todo o espaço só para nós, deixando para o outro um cantinho qualquer e só quando a gente desejar, tudo ao alcance de nosso controle, por vezes remoto, ao contrário do da televisão. É, pessoas não vêm com botão de liga-desliga...
Adoro estar apaixonada. Por uma pessoa, por uma ideia, por um ideal. Por um livro, por uma palavra, por uma frase em questão, quem sabe um escritor. Um poema, uma canção. Por um estudo em questão. Tira-me do chão, não no sentido de perder a noção, mas no sentido de dedicar-me piamente ao que acredito. Jogo-me. Solto as amarras. Mas só para o que vale  a pena se jogar - e isso sei bem distinguir. Uma precisão não daquelas da coisa vista na vitrine e que amanhã nem se lembra mais, mas de que agora é a vez, de que agora eu acerto, de que é aquela pessoa, ou coisa ou pensamento. E me pego acreditando que é ela, sim, meu ideal, sem nem saber se ideal existe. Seriam amores vãos? Seriam paixões com data de validade? Aquisições de impulso? Seria uma certa dependência química? Sei não. Minha ingenuidade me assusta , às vezes. Mas prefiro viver nela e viver intensamente do que ser vaga, ser mais uma, passar sem deixar o melhor do que sou.  Tiro as pedras, se tiverem e se deixarem eu tirar - e planto flores. Quem quiser que regue e colha se for capaz!
Mas a dica é válida, só não sei se meu coração escuta. Apaixone-se por quem te admira - não só de cara pintada e vestido de sair, mas de cara lavada e louca para dormir. Apaixone-se por quem te dá colo sem nenhuma pretensão maior. Quem te faz carinho sem segundas intenções. Apaixone-se por quem torça por ti antes mesmo de entrares no ringue , mesmo sabendo que, talvez, percas, pois és humana. Apaixone-se por quem te incentiva e põe para cima, mesmo sem nem saber onde queres chegar, sem nem entender onde queres chegar. Que te dê teu devido valor e resgate em ti os valores que achavas perdidos, quem sabe novos. Por quem te escute e se deixe escutar. Por alguém que seja parceiro, mais que companheiro, e para o que der e vier. E se não der, nem vier, que não te reprima nem com o mais leve olhar, mas que te dê a mão quando você precisar. Que transforme teu choro em risada, quem sabe gargalhada. Que não fuja na hora do medo, nem te abandone na hora da dúvida. Que te conte as coisas, que não viva  de segredos. E que seja teu amor e teu amigo, porque a gente sempre precisa dos dois. E ai, se não der certo, pelo menos ficou a marca, e ela no tempo a vagar. Ficou a boa lembrança. Ficou o bem. O parâmetro. E os dois, melhores do que eram antes de começar. Porque é para isso que se vive: para se aprimorar.
Só vou contra a última ideia, porque adoro estar apaixonada. Meu sal e minha pimenta, temperos que me fazem vibrar!

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Verdade!



A frase estava lá para quem quisesse ler:

"As mulheres permanecem sempre crianças que vivem à espera de algo".
Oscar Wilde

Conseguiu arrancar o sorrisinho mais maroto que tenho, aquele que nem dá para disfarçar. Aquele, extremamente verdadeiro de vitória, de entendimento, de conhecimento. Que escorrega na face sem freio. Deu até um certo prazer em ler...
Liguei esperar com esperança, essa vitamina que nos levanta todo dia, que nos faz acreditar até nas coisas mais impossíveis,  que nos faz esperar a melhor hora de agir, que nos dá crédito para continuar. Da menina que põe o salto alto da mãe e já se acha mulher. Que passa o batom e já acha que sabe beijar. Uns dias feito poupança, apostando devagar,  outros arriscando em praças maiores, quem sabe bolsa - de valores, não essas que amamos. Um dia de verdades, outro de blefes - ou de blefes em meio às verdades. Sim, sou criança, se ser criança significa sempre querer mais, de mim e  do mundo. Dos relacionamentos, que detesto mornos, brincadeira sem graça. Atiramo - nos, sim, porque não sabemos ser diferentes, nem metades, nem meias laranjas. Nem fruta sem sabor, nem comida sem sal. Do trabalho, onde sempre achamos que podemos  mais - e podemos. Mas um "podemos" até onde achamos que devemos, por querer e não por imposição. Tenho  - ou temos? - essa birra infantil, de querer tudo, agora, já. Mas também tenho - ou temos? -  a malícia do saber esperar. Aliás, sr. Oscar, malícia é tempero que não falta...
Grata, gratíssima, sr. Oscar, por assim nos definir. Mulher é feito criança, sim, sempre porque é sendo criança que se vive. Mas quando dá para ser mulher, ah, sai de baixo...
Ainda bem!

domingo, 9 de outubro de 2011

Domingando


Domingo. Vou começar o dia pelo avesso. Vou primeiro me curar, depois levar a  vida.
Sempre gostei dos domingos. Quando pequena, ou estava na praia, mesmo chovendo, desenhando, já, casas na areia ou namorando o mar. Ou era o dia que meu pai colocava seus discos na vitrola, embalando suas eternas faxinas. E minha mãe fazendo algo bom na cozinha - eu e louca para roubar as batatas. Nunca tive essa sensação que muita gente tem de que é um dia ruim, arrastado, pesado, como se já quase uma segunda -feira. A não ser a volta para casa depois de um fim de semana aprontando todas na praia, o tal desmonte, voltar, arrumar tudo de novo, inclusive uniforme e material da escola ( e descobrir que tinha tarefa e ter que fazer escondido da mãe...). Ah, e o famigerado futebol no rádio do carro. Cinco bocas caladas para que meu pai ouvisse a contento. E xingasse quando preciso...
Vem o cheio de pó e gasolina...
Deve ser ruim, mesmo, para os pessimistas. Deve ser ruim quem vive antecipando as coisas: ao invés de vivê-lo como um dia de sossego, o vê como pré-segunda, dia primeiro. Começo de semana. Eu gostava, dia , teoricamente, de se fazer o que se quer. Vejo que nem tudo é possivel, mas tento. Eu não peço muito. Uma caminhada, café da manhã sem pressa com filho, fazer uma comidinha, quem sabe um cineminha ou soneca com  a cabeça na almofada, cachorro nos pés.
Domingo é um dia que, para mim, tem que ser calmo. Tenho que deixá-lo passar sem atropelos. Levantar sem pressa, caminhar sem hora para voltar, almoçar quando der. Esquecer o relógio sempre que possível. Deviam fechar os shoppings e desligar as internets para que precisássemos pensar em algo - ou em nada. Para lermos um bom livro e pegar no sono se ele chamasse. Para ficar horas olhando pela janela só pra ver o a chuva caindo, o como as cores mudam e como ficam felizes os passarinhos. Para que arrumássemos as gavetas não por obrigação, mas para repensar as coisas, rever fotografias, lembrar os tempos bons. Dia bom para visitar alguém assim,  ao vivo, tomar café com mãe, beijar a testa da avó, telefonar para alguém. Dia bom para fazer alguém feliz -  e nos fazer também. Não para se esconder debaixo do edredom para esperar ele passar. Nem para nem olhar para fora e ver que tem sol. Ou deixar se hipnotizado pela TV. Quem sabe fazer um bolo. Servir bonitinho. Quem sabe enfeitar a sala. Quem sabe cantar?
Paro e repenso. Já fui assim  - de viver bem os dias - e quero voltar a ser. Fico imaginando o que fiz de minha vida - e ao mesmo tempo esperançosa de tomá-la, outra vez, pela mão. Abraçá-la e carinhá-la a contento. E temperá-la, de novo, com meu sorriso de menina e minha gargalhada sincera,
meus temperos do bem!
E ai me vem a doçura de Cora Coralina e seu viver humilde e sábio:

"Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça".

Domingo é dia de recomeço. Dia de ser Cora...

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Dever?



O blog estava lá para ser lido, feito revista deixada na sala de espera, aberta:

"O que nossa época nos exige? Euforia, confiança, velocidade. Temos de ser pró-ativos. O que ela nos promete? Se soubermos traçar nossas metas e construir nossa estratégia, atingiremos o sucesso. Se produzirmos e consumirmos, alcançaremos a felicidade. Ser feliz deixou de ser uma possibilidade esporádica para se tornar uma obrigação permanente. Para nós, seres desta época, nada menos que o gozo pleno. Fora disso, só o fracasso. E o fracasso, este é sempre pessoal. Se não alcançamos o que nos prometeram no final do arco-íris é porque cometemos algum erro no caminho. E fracassar, como sabemos, passou a ser não um fato inerente à vida, mas uma vergonha."

Tremi. Coube. Vejo-me às voltas com mil  coisas - não problemas , e sim decisões, coisas bem diferentes. Decisões não leves, como quem escolhe o restaurante ou o prato da vez. Ou o corte de cabelo, quem sabe a sessão de cinema. E sim, caminhos. Muitos, sem volta. E eu tenho escolhido muitos, a toda hora e a todo momento - alguns que me levaram a altos muros, intransponíveis. Outros consegui contornar e achar saídas - ou entradas - mesmo apertadas. Outros ainda me levaram a portas abertas, escancaradas, mas nem por isso mais fáceis: muito pelo contrário. Tenho olhado pela janela com aquela cara esperançosa de quem vê céu preto e reza para não chover...
E ai leio a frase de Steve Jobs, mestre na rapidez, e recém levado dessa vida , quem sabe, para uma mais calma:

"Precisamos focar e fazer as coisas em que somos bons. Foco significa dizer não a centenas de boas ideias.”

Dizer não. palavra tão pequena, tão simples, mas de uma complexidade monstra. Não, três letras apenas, mas tão forte.  Não, porque é sempre tão difícil dizer? Porque fica sempre mais fácil aceitar as coisas e deixar como estão. Porque temos sempre que acertar? Porque  temos, porque  nos é imposto desde sempre. Assim como nos é imposto ser feliz, se dar bem ( e todas as implicações disso), estar bem sempre ( como eu disse outro dia, um caco por dentro , mas bonequinha de porcelana por fora) . Ser bem sucedido como pessoa, como profissional. Como pais, como filhos, quem sabe como espíritos santos, amém. Não há lugar para infelicidades, tristezas, dúvidas, receios, medos. Não há lugar para unhas ruídas. Não há lugar para complexos. Não há lugar para questionamentos a não ser o do porque não nos encaixamos na "sociedade". Não  há lugar para quem quer ficar sozinho, nem por um momento - e quem é mãe sabe o quanto isso é difícil. Não há tempo para paradas, para se repensar, revisar, rever coisas e sentimentos. A vida parece um trem bala sem conexões, sem voltas. Uma rápida sucessão de ter que no lugar de querer. Não há tempo para nos sermos por completo - se é que ainda sabemos como é isso, se é que ainda sabemos o que realmente queremos, quem realmente somos ou queremos ser. Nossas escolhas vem na rapidez de um controle remoto, um zapping frenético, nem dá tempo de se entender. Pena não terem me dado um controle para me desligar...Ou uma pílula que me faça outra.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Tricotando


Engraçada essa vida. Às vezes o que mais parece um novelo de lã todo enleado, cheio de supostos nós, daqueles que faz  a gente pensar em jogar na primeira lata de lixo, a coisa vai se desenrolando, ajeitando, tomando forma e deixando a gente tricotar a vida da melhor forma...Basta ter calma, respirar, esticar, pensar no próximo ponto...pensar na manta pronta...pensar...tricotar, tricotar, tricotar.
Desde a semana estou assim, sentindo-me enleada em mim mesma e na vida que tenho levado. na vida que deixei seguir, mesmo sabendo onde ia dar. Uma vida que, até poucos anos atrás, nem era mais minha, tamanho desprezo por mim. Fui me fechando, deixando a vida me sufocar e tentar fazer de minha criança interior uma velha rabugenta. Não conseguiu. Ela tenta, mais porque eu deixo do que por vontade própria, mas tenta. Insiste. A cada momento tenta me mudar, travestir, mas não consegue. Deve ser por causa de momentos em que eu aproveito as chances dadas  - por vezes raras - e vivo. E me vivo. A vida se distrai, tentando ser séria, e eu brinco. E como brinco. Por vezes até faço pouco caso - dela, não de mim. Isso os últimos anos me deram: a esperteza de saber como dar um jeito de me ser por inteira, mesmo que eu mesma não queira. Sim, porque minha maior sabotadora sou eu mesma.
Ontem o que era um nó, hoje ainda não é manta, mas já uma linha enroladinha, novelinho bonito, prontinha para ser usada. Hoje já não penso em desprezá-la no lixo ou num canto. Hoje sou outra. Já penso na primeira fiada, quem sabe novos pontos, quem sabe um flor, ou muitas. Quem sabe uma manta, destas que faz minha mãe , deixando em cada ponto carinho.Quem sabe.

"O saber se aprende com os mestres. A sabedoria, só com o corriqueiro da vida".
Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas . Ou simplesmente Cora Coralina

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Quebrada



"Cuide-se como se você fosse de ouro, ponha-se você mesmo de vez em quando numa redoma e poupe-se."
Clarice Lispector

Às vezes achamos que é indisposição, que uma simples cápsula de vitamina C efervescendo no copo cheio d'água vai entrar e resolver tudo, instantâneamente. Ou que tudo amanhã será melhor. Ou que basta uma noite bem dormida, ou um bom beijo na boca e uma frase qualquer. Que a vida é assim mesmo, e que devemos lutar, e lutar e lutar, com ou sem armas, com ou sem vontade, sem nem ao menos saber porque, para que. Que somos fortes  e nada, absolutamente nada, nos abate.
Ledo engano. Tenho visto que, por mais que eu tente disfarçar, existem problemas que nos sugam, tiram de nós o nosso melhor. ficam ali, martelando a redoma, se não até quebrar, até desistirmos de lá ficar.  Hoje me dei ao luxo de me escutar. Ando cansada do que diz o ditado, de dar murros em ponta de faca: enquanto a faca fica ali, inerte, eu sangro. E dói. Deve ser essa mania de ser forte que me ensinaram desde sempre.  Não da forma otimista de ser, coisa que é só minha, infantil até, mas da de que só se cresce sofrendo, só se aprende apanhando, só se é alguém se se deixar marcar pelo ferro quente dos dias. Só se é forte quando não se sente cansaço, nem dor, nem ao menos tédio. Que a vida é bela e veio para ficar.
Pois bem, entrego meus pontos. Clarice tinha razão. Às vezes seria muito bom ter uma redoma onde a gente pudesse se recolher dos males do mundo. Talvez seja essa redoma o amor, mas até nele se sofre - e como! Até amar a si mesmo é dureza, posto que nos cobram - nos cobramos  - muito.  Temos que ser tudo. Boa mãe - e nisso muito, um muito incondicional, e sempre pesando para um lado só. Boa companheira, geralmente uma doação sem volta, outra balança desregulada. Ótima profissional, e ai o peso fica por conta das moedas que se põe no bolso, independente do trabalho que se faz, se se gosta ou não. Tentamos manter o equilíbrio tendo um mundo  - vários deles - nas costas. Um mundo que para muitos pode parecer leve, pequeno, ridículo até, mas não para nós. Mas nos ensinaram a ser uma super mulher. Forte, poderosa,trabalhadora, inteligente. E acima de tudo delicada, amável, solícita. Disposta, pronta para tudo. Disponível. E lindas, bem vestidas, perfumadas,  bem amadas, divertidas. Qual balança aguentaria tal peso de um lado só? Dói nas costas e até n'alma...
Releio a frase de Clarice, sempre tão forte por fora, quem sabe destruída por dentro. Parecendo ouro, mas sabe-se lá, internamente, de que vil e desvalorizado metal. Redoma frágil a minha, mais parece uma bola de sabão. Necessito, urgente, de uma redoma, que, cega, pensei fosse o amor. Necessito, urgente, de um oásis para respirar. Necessito urgentemente de me poupar. Coisa difícil, já que não poupei nem ao menos as unhas das mãos...