domingo, 9 de outubro de 2011

Domingando


Domingo. Vou começar o dia pelo avesso. Vou primeiro me curar, depois levar a  vida.
Sempre gostei dos domingos. Quando pequena, ou estava na praia, mesmo chovendo, desenhando, já, casas na areia ou namorando o mar. Ou era o dia que meu pai colocava seus discos na vitrola, embalando suas eternas faxinas. E minha mãe fazendo algo bom na cozinha - eu e louca para roubar as batatas. Nunca tive essa sensação que muita gente tem de que é um dia ruim, arrastado, pesado, como se já quase uma segunda -feira. A não ser a volta para casa depois de um fim de semana aprontando todas na praia, o tal desmonte, voltar, arrumar tudo de novo, inclusive uniforme e material da escola ( e descobrir que tinha tarefa e ter que fazer escondido da mãe...). Ah, e o famigerado futebol no rádio do carro. Cinco bocas caladas para que meu pai ouvisse a contento. E xingasse quando preciso...
Vem o cheio de pó e gasolina...
Deve ser ruim, mesmo, para os pessimistas. Deve ser ruim quem vive antecipando as coisas: ao invés de vivê-lo como um dia de sossego, o vê como pré-segunda, dia primeiro. Começo de semana. Eu gostava, dia , teoricamente, de se fazer o que se quer. Vejo que nem tudo é possivel, mas tento. Eu não peço muito. Uma caminhada, café da manhã sem pressa com filho, fazer uma comidinha, quem sabe um cineminha ou soneca com  a cabeça na almofada, cachorro nos pés.
Domingo é um dia que, para mim, tem que ser calmo. Tenho que deixá-lo passar sem atropelos. Levantar sem pressa, caminhar sem hora para voltar, almoçar quando der. Esquecer o relógio sempre que possível. Deviam fechar os shoppings e desligar as internets para que precisássemos pensar em algo - ou em nada. Para lermos um bom livro e pegar no sono se ele chamasse. Para ficar horas olhando pela janela só pra ver o a chuva caindo, o como as cores mudam e como ficam felizes os passarinhos. Para que arrumássemos as gavetas não por obrigação, mas para repensar as coisas, rever fotografias, lembrar os tempos bons. Dia bom para visitar alguém assim,  ao vivo, tomar café com mãe, beijar a testa da avó, telefonar para alguém. Dia bom para fazer alguém feliz -  e nos fazer também. Não para se esconder debaixo do edredom para esperar ele passar. Nem para nem olhar para fora e ver que tem sol. Ou deixar se hipnotizado pela TV. Quem sabe fazer um bolo. Servir bonitinho. Quem sabe enfeitar a sala. Quem sabe cantar?
Paro e repenso. Já fui assim  - de viver bem os dias - e quero voltar a ser. Fico imaginando o que fiz de minha vida - e ao mesmo tempo esperançosa de tomá-la, outra vez, pela mão. Abraçá-la e carinhá-la a contento. E temperá-la, de novo, com meu sorriso de menina e minha gargalhada sincera,
meus temperos do bem!
E ai me vem a doçura de Cora Coralina e seu viver humilde e sábio:

"Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça".

Domingo é dia de recomeço. Dia de ser Cora...

Um comentário:

  1. Meu domingo foi melhor porque li seu texto.Não me é um dia fácil, por vezes o edredom ganha a parada, mas hoje fiz diferente. E gostei.
    Você é linda, sabia? Anda me encantando.

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