quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Estranhas


Mulher é um bicho esquisito, já cantava - ou canta? -  Rita Lee, uma mulher sempre à  frente de muitos tempos, tão à frente que quase nem existe, e que deve sofrer, lá, seus muitos preconceitos. Esquisita, sim, mas não porque sangra sem ao menos se ferir, essa nossa perda de sempre - que quando se tem se reclama, e quando não se tem mais sente-se falta, dizem. Enfim, esquisita. Sim, somos sempre preteridas - por outra, ou por questão de gênero historicamente e ricamente ilustrado. Somos sempre tidas como frágeis, menores, inferiores , sempre aquém do "esperado" real ou plantado - que o digam os patrões e muitos maridos - ou seria a mesma coisa?
Hoje, por exemplo. Ou quase todo dia. Fico num entra e sai, leva e busca, um tal de dar lanche e lembrar se levou agasalho. E olha que sou mãe moderninha, mas nunca nos livramos desse "bem" de ser mãe em tempo quase integral. E tem mãe que vê tarefa, toma lição, olha cadernos, como já fiz muitas vezes na vida. Muitos banhos, muita visita ao amiguinho, muita janta. Muita visita oa médico, muita tolerãncia com enfermeiras nos chamando de "mãezinha", posto que somos mãezonas, fortes, nada frageisinhas. Quem sabe conversa quando se vê que precisa, como faço tanto e sem nem ele notar, coisa que somos mestras. E todas ficam aos pés dos filhos ao menor espirro, noites em claro, tantas, ao menor aumento de temperatura. Largam tudo para o alto. O que eu chamo de amnésia materna: esquecemos de tudo, até de nós mesmas, para cuidar de alguém. Deixamos de lado o trabalho, por mais importante que nos seja, os desejos, as vontades porque temos, sempre, alguém  a quem cuidar, alguém no início da fila, um preferido a quem amamos muito além do que amamos a nós mesmas e ao mundo ao redor.  Fico emocionada e ainda chocada de ver mães que se esquecem de viver para viver pelos seus filhos, basta ver nos hospitais - e nessa hora agradeço ter tido filho sadio, no máximo uns pontos no corpo ou injeção da vez.  
E pensam que alguém vê, que alguém nota, que alguém valoriza?  Que te darão troféus, além dos vasinhos de flores e desenhos em nosso dia? Pode até ser, mas da boca para fora. Tomara estejam certas, pois o que eu vejo é quase um tom de obrigação. Não, não reclamo de ser mãe, escolha minha, mas não seria nada fácil - nem barato - se fossemos substituidas por robôs, motoristas ou babás. Psicólogas, professoras, nutricionistas. E quem o faz, por escolha ou imposição, cedo ou tarde irá ver o que deu  -   e o que não deu -  certo. E nos culpam, todos eles, pelo mal caminho, pelo que não fizemos a contento. Nossas orelhas queimam nos divãs, nas culpas de sempre, sempre nossas, nos livros de memórias, no problema da vez. Chateia ver que ainda culpam os pais por tanta coisa, pensadores e pessoas, bom saber que um dia serão. Ou já foram e nem notaram. Nem se dão conta do tudo que se faz. Brinco ao dizer que meu pai comia o peito do frango e a gente a carcaça. Hoje damos o peito para eles e por eles, e nem notam...
Ok, tem pai que é mãe, raros, louvados sejam, alguém tem que aguentar o tranco. Mas já notaram que eles também sofrem do mesmo mal de se sentir desvalorizados pelo par? Podem apostar, conheço bem. A outra parte toma ares de provedor, de todo poderoso, de mantenedor, mas não se toca de que dinheiro não é tudo, que carinho e atenção previnem muita coisa, inclusive doenças. E falta de amor.
Busca, leva, conversa, alimenta. E lá vou eu de volta no entra e sai....e nem terminei meu texto...

É.. "Deus não pode estar em todos os lugares e por isso fez as mães", diz um velho ditado judaico...

Um comentário:

  1. Pois é, tocou na ferida, também passei por isso, passo, e sendo pai. Noto, sim, que há um certo desleixo por parte da outra parte, que se acha a tal, que semrpe me desvalorizou a ponto de eu não aguentar mais. Bom você falar isso, pensei que fosse só comigo, sempre pensamos. E, pior, sempre nos cobram sermos mais.
    Incrivel sua percepção, como sempre. Sigo encantado e, com esse texto, homenageado.

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