segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Quebrada



"Cuide-se como se você fosse de ouro, ponha-se você mesmo de vez em quando numa redoma e poupe-se."
Clarice Lispector

Às vezes achamos que é indisposição, que uma simples cápsula de vitamina C efervescendo no copo cheio d'água vai entrar e resolver tudo, instantâneamente. Ou que tudo amanhã será melhor. Ou que basta uma noite bem dormida, ou um bom beijo na boca e uma frase qualquer. Que a vida é assim mesmo, e que devemos lutar, e lutar e lutar, com ou sem armas, com ou sem vontade, sem nem ao menos saber porque, para que. Que somos fortes  e nada, absolutamente nada, nos abate.
Ledo engano. Tenho visto que, por mais que eu tente disfarçar, existem problemas que nos sugam, tiram de nós o nosso melhor. ficam ali, martelando a redoma, se não até quebrar, até desistirmos de lá ficar.  Hoje me dei ao luxo de me escutar. Ando cansada do que diz o ditado, de dar murros em ponta de faca: enquanto a faca fica ali, inerte, eu sangro. E dói. Deve ser essa mania de ser forte que me ensinaram desde sempre.  Não da forma otimista de ser, coisa que é só minha, infantil até, mas da de que só se cresce sofrendo, só se aprende apanhando, só se é alguém se se deixar marcar pelo ferro quente dos dias. Só se é forte quando não se sente cansaço, nem dor, nem ao menos tédio. Que a vida é bela e veio para ficar.
Pois bem, entrego meus pontos. Clarice tinha razão. Às vezes seria muito bom ter uma redoma onde a gente pudesse se recolher dos males do mundo. Talvez seja essa redoma o amor, mas até nele se sofre - e como! Até amar a si mesmo é dureza, posto que nos cobram - nos cobramos  - muito.  Temos que ser tudo. Boa mãe - e nisso muito, um muito incondicional, e sempre pesando para um lado só. Boa companheira, geralmente uma doação sem volta, outra balança desregulada. Ótima profissional, e ai o peso fica por conta das moedas que se põe no bolso, independente do trabalho que se faz, se se gosta ou não. Tentamos manter o equilíbrio tendo um mundo  - vários deles - nas costas. Um mundo que para muitos pode parecer leve, pequeno, ridículo até, mas não para nós. Mas nos ensinaram a ser uma super mulher. Forte, poderosa,trabalhadora, inteligente. E acima de tudo delicada, amável, solícita. Disposta, pronta para tudo. Disponível. E lindas, bem vestidas, perfumadas,  bem amadas, divertidas. Qual balança aguentaria tal peso de um lado só? Dói nas costas e até n'alma...
Releio a frase de Clarice, sempre tão forte por fora, quem sabe destruída por dentro. Parecendo ouro, mas sabe-se lá, internamente, de que vil e desvalorizado metal. Redoma frágil a minha, mais parece uma bola de sabão. Necessito, urgente, de uma redoma, que, cega, pensei fosse o amor. Necessito, urgente, de um oásis para respirar. Necessito urgentemente de me poupar. Coisa difícil, já que não poupei nem ao menos as unhas das mãos...

2 comentários:

  1. Acho corajoso esse seu jeito de se entregar ao texto, nua. Poucas têm essa coragem, tão fácil, tão natural em você. E é isso que faz de você uma mulher única, flor belíssima nascida em plena terra seca.
    Queria se eu sua redoma...

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  2. Querida Joyce, após ler seu "maravilhoso" texto, lembrei de uma frase: "Nosso temor mais profundo não é que sejamos insuficientes, é que sejamos poderosos além da medida." E você, conseguiu, me "passar" todo esse poder...incrível, ou melhor, você é INCRÍVEL!! Muito obrigada por me dar o prazer de LER SEUS POSTS, eu sempre aprendo mais com toda sua cultura...Bjs no seu coração!!!

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